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Ter, 30 de Agosto de 2011 00:47

AS ORIGENS DO RITUAL NA IGREJA E NA MAÇONARIA

Publicado em Livros Escrito pelo Robespierre Cardoso da Cunha
Helena Petrovna Blavatsky

Parte I
Os teosofistas são muitas vezes injustamente acusados de infiéis e mesmo de ateus. É um grave erro, especialmente em se tratando de última acusação.
Numa Sociedade importante 1, formada de membros pertencentes a tantas raças e nacionalidades diferentes; numa associação onde cada homem e cada mulher é livre de crer o que prefere, e de seguir ou não, segundo seu desejo, a religião sob a qual nasceu e foi educado, há pouco lugar para o ateísmo. Quanto à acusação de "infiel", é contra-senso e fantasia. Para demonstrar o ABSURDO, basta-nos pedir a nossos difamadores que nos mostrem, no mundo civilizado, a pessoa que não seja considerada "infiel" por alguém pertencente a uma fé diferente. Quer se trate dos círculos altamente respeitáveis e ortodoxos, ou da "sociedade" que se diz heterodoxa, será sempre o mesmo. É uma acusação mútua, tácita e não abertamente expressa; uma espécie de raquetes mentais, onde cada um devolve a bola num silêncio educado.
Em realidade, nenhum teosofista ou não-teosofista pode ser "infiel", e por outro lado, não há ser humano que não o seja na opinião de um sectário qualquer. Quanto à acusação de ateísmo, é outro caso.
Que é ateísmo?, perguntamos em primeiro lugar. Será o fato de não se crer na existência de um Deus ou deuses, e de negá-la, ou será simplesmente a recusa em aceitar uma deidade pessoal, segundo a definição um tanto violenta de R. Hall, que define o ateísmo como um "sistema feroz que nada deixa ACIMA de nós, para inspirar o terror, e nada ao nosso redor para despertar a ternura"! Isso é duvidoso para a maior parte dos nossos membros, caso se aceite a primeira condição, pois que os da Índia e Birmânia, etc., acreditam em deuses, em seres divinos e temem alguns deles.
Assim, também, um grande número de teosofistas ocidentais não deixaria de confessar sua crença completa em espíritos planetários ou do espaço, fantasmas ou anjos. Muitos dentre nós aceitam a existência de inteligências
1 A Sociedade Teosófica (do tempo de Blavatsky).
As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria 3
superiores ou inferiores, de Seres tão grandes quanto qualquer Deus "pessoal". Isto não é segredo. A maior parte dentre nós crê na sobrevivência do Ego espiritual, nos Espíritos Planetários e nos NIRMANAKAYAS, esses grandes Adeptos de eras passadas, que, renunciando seus direitos ao Nirvana, permanecem nas esferas em que vivemos, não como "espíritos", mas como Seres espirituais humanos completos.
Eles permanecem tais como foram, excetuando o que se refere a seus invólucros corporais visíveis, que abandonaram a fim de ajudar a pobre humanidade, na medida em que essa ajuda possa ser dada, sem ir de encontro à Lei Kármica. Essa é realmente a "Grande Renúncia", um incessante sacrifício consciente através dos EONS e eras, até o dia em que os olhos da humanidade se abrirem e, em lugar de um pequeno número, TODOS reconhecerem a Verdade Universal. Se permitissem que o fogo que anima os nossos corações, como idéia do mais puro de todos os sacrifícios, fosse inflamado pela adoração e oferecido sobre um altar elevado em sua honra, esses seres poderiam ser considerados como Deus ou Deuses. Mas, não o querem. Em verdade, é somente no imo do coração que se deve elevar, neste caso, o mais belo Templo de Devoção; qualquer outra coisa não seria mais que ostentação profana.
Consideremos agora outros Seres invisíveis, dos quais alguns estão muito acima e outros muito abaixo na escala da evolução divina. Dos últimos, nada podemos dizer; quanto aos primeiros, nada nos podem dizer, porquanto nós não existimos perante eles. O homogêneo não pode ter conhecimento do heterogêneo, e (a não ser que aprendamos a fugir do nosso invólucro material para "comungar" de espírito a espírito) não podemos esperar conhecer sua natureza real.
Mas, todo verdadeiro teosofista afirma que o Eu Superior divino de cada homem mortal é da mesma essência que a desses Deuses. O Ego encarnado, dotado de livre arbítrio, possuindo, por isso, maior responsabilidade, é, a nosso ver, superior, e até, talvez, mais divino que qualquer INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL que ainda espera a encarnação. Do ponto de vista filosófico, a razão é clara, e todo metafísico da escola oriental a compreenderá. O Ego encarnado está na dependência das dificuldades que não existem para a pura Essência divina não associada à matéria; neste caso, não há nenhum mérito pessoal, ao passo que o Ego em encarnação está no caminho de seu aperfeiçoamento final através das provações da existência, da tristeza e do sofrimento.
As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria 4
A sombra do Karma não pode se estender sobre o que é divino, isento de qualquer ligação e tão diferente do que somos que não pode haver entre nós relação alguma. Quanto a essas deidades, que no Panteão esotérico hindu são consideradas finitas e, por conseguinte, submetidas ao Karma, jamais um verdadeiro filósofo consentirá em adorá-las; são figuras e símbolos.
Seremos nós, então, considerados ateus porque, crendo nas Falanges Espirituais - nesses seres que vieram a ser adorados na sua coletividade como um Deus PESSOAL - recusamo-nos terminantemente a considerá-las como representantes do Uno Incognoscível? Porque afirmamos que o Princípio Eterno - o TODO NO TODO DO PODER ABSOLUTO, DA TOTALIDADE - não pode ser expresso por palavras limitadas, nem por ter por símbolo qualquer atributo condicionado e qualificativo? Ainda mais, deixaremos passar sem protesto a acusação de idolatria que atiram sobre nós os católicos romanos, os quais seguem uma religião tão pagã quanto a dos adoradores dos elementos do sistema solar? Católicos, que tiraram o seu credo, aliás, diminuído e dissecado, do paganismo existente há muitas eras antes do ano I da Era Cristã; católicos cujos dogmas e ritos são os mesmos que os de qualquer nação idólatra - se é que alguma ainda existe.
Sobre toda a superfície da Terra - do Pólo Norte ao Pólo Sul, dos golfos gelados dos países nórdicos, às planícies tórridas do sul da Índia, na América Central, na Grécia e na Caldéia - era adorado o Fogo Solar, como símbolo do Poder Divino, criador da vida e do amor. A união do Sol (o espírito - elemento masculino) com a Terra (a matéria - elemento feminino) era celebrada nos Templos do Universo inteiro. Se os pagãos tinham uma festa comemorativa dessa união - a festa que celebravam nove meses antes do Solstício de Inverno, quando se dizia que Ísis tinha concebido - também a têm os católicos romanos.
O grande e SANTO DIA da ANUNCIAÇÃO, o dia no qual a "Virgem Maria" recebeu o favor de (seu) Deus e concebeu o "Filho do Altíssimo", é celebrado pelos cristãos NOVE MESES ANTES DO NATAL. Donde vêm a adoração do fogo, das luzes e lâmpadas nas igrejas? Por que isso? Porque Vulcano, o Deus do Fogo, desposou Vênus, a deusa do mar; e é por essa mesma razão que os Magos velavam o Fogo Sagrado como as Virgens vestais do Ocidente. O Sol era o "Pai" da eterna Natureza Virgem-Mãe; Osíris e Ísis; Espírito-Matéria, este último adorado sob seus três aspectos pelos pagãos e cristãos. Daí vêm as Virgens - dá-se o mesmo no Japão - vestidas de azul estrelado, apoiadas sobre o crescente lunar, símbolo da Natureza feminina (em seus três
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elementos: ar, água e fogo); o Fogo ou o Sol, macho, fecundando-a anualmente pelos seus raios luminosos (as "línguas de fogo" do Espírito Santo).
No KALEVALA, o mais antigo poema épico dos finlandeses de Antigüidade pré-cristã, o que nenhum erudito poderá duvidar, fala-se dos deuses da Finlândia, dos deuses do ar e da água, do fogo e das florestas, do céu e da terra. Na magnífica tradução de J. M. Grawford, Rume L. (vol. 11), o leitor achará a lenda inteira da Virgem Maria em:
MARIATTA, filha da beleza
Virgem-Mãe das Terras Nórdicas... (p. 720)
Ukko, o Grande Espírito, cuja moradia é em Yûmala (o Céu ou Paraíso), escolhe como veículo a Virgem Mariatta para se encarnar por meio dela em Homem-Deus. Ela concebe colhendo e comendo uma baga vermelha (marja). Repudiada pelos pais, dá nascimento a um "FILHO IMORTAL" numa MANJEDOURA DE ESTÁBULO. Mais tarde, o "Santo Menino" desaparece e Mariatta se põe a procurá-lo. Ela pergunta a uma estrela, a "Estrela diretriz dos Países Nórdicos", onde se esconde o "Santo Menino", mas a estrela irritada responde-lhe:
Se eu soubesse, não t'o diria
Foi teu filho quem me criou
No frio, para brilhar sempre...
e nada mais diz à Virgem. A lua dourada tampouco consente em ajudá-la, pois o filho de Mariatta a criou e deixou no grande céu:
Aqui para vagar nas trevas,
Para vagar sozinha à noite,
Brilhando para o bem dos outros...
Somente o "Sol Prateado", tendo pena da Virgem-Mãe, lhe diz:
Acolá está a criança dourada
Lá repousa dormindo teu Santo-Menino
Encoberto pela água até a cintura
Escondido pelos caniços e juncos...
Ela traz de volta o Santo-Menino e, enquanto o chama de "Flor", outros o nomeiam o FILHO DA DOR.
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Estaremos em presença de uma lenda pós-cristã? Absolutamente não, pois, como já foi dito, trata-se de uma lenda DE ORIGEM ESSENCIALMENTE PAGÃ e reconhecidamente pré-cristã.
Resulta que, com tais dados literários em mão, devem cessar as acusações sempre repetidas de idolatria e ateísmo. Aliás, o termo idolatria é de origem cristã. Foi empregado pelos primeiros nazarenos durante os dois primeiros séculos e metade do terceiro da nossa era, contra as nações que usavam templos e igrejas, estátuas e imagens, porquanto os primitivos cristãos não possuíam, NEM TEMPLOS, NEM ESTÁTUAS, NEM IMAGENS, e sentiam horror por essas coisas.
Por conseguinte, o termo "idólatras" convém mais aos nossos acusadores que a nós mesmos, como o provará este artigo. Com suas Madonas em todas as esquinas, seus milhares de estátuas de Cristo e Anjos de todas as formas, até a de Santos e Papas, é bastante perigoso para um católico acusar um hindu ou budista de idolatria.
Essa asserção deve agora ser provada.
Parte II
Podemos começar pela origem da palavra Deus (GOD).
Qual a significação real e primitiva desse termo? Suas significações e etimologias são tão numerosas quanto variadas. Uma delas nos mostra a palavra derivada do termo persa muito antigo e místico: GODA, que quer dizer "ele mesmo", ou alguma coisa emanada por si mesma do Princípio Absoluto. A raiz da palavra é GODAN, donde Wotan e Odin, cujo radical oriental quase não foi alterado pelas raças germânicas. Foi assim que desse radical fizeram GOTZ, donde derivaram o adjetivo GUT, "Good" (bom), assim como o termo GOTA ou ídolo. Da Grécia antiga, as palavras ZEUS e THEOS conduziram à palavra latina Deus. Esse GODA, a emanação, não é e nem pode ser idêntico à coisa da qual emana, e, por conseguinte, é apenas uma manifestação periódica, finita. O antigo Aratus, que escreveu "cheios de Zeus estão todas as ruas e mercados freqüentados pelos homens; cheios d'Ele estão os mares e também os portos", não limita a divindade a um só reflexo, temporário em nosso plano terrestre como ZEUS, ou mesmo seu antecedente DYAUS, mas estende-a ao Princípio Universal, onipresente. Antes de DYAUS - o Dus radioso (o céu) - ter atraído a atenção do homem, existia o Tat védico ("isso", que, para o Iniciado e o filósofo não tem nome definido, e é a noite absoluta, oculta sob cada radiante luz manifestada. Mas, tanto quanto o místico Júpiter, último reflexo de Zeus-Surya, o Sol - a primeira manifestação do mundo de MAYA, o filho de Dyaus - não podia deixar de ser chamado o "Pai" pelo ignorante.
Assim, o Sol tornou-se rapidamente sinônimo de Dyaus, e com ele se confundiu: para alguns, foi o Filho, para outros, o "Pai" no céu radioso. Dyaus-Pitar, o Pai no Filho e o Filho no Pai, mostra, entretanto, sua origem finita, pois que a Terra lhe foi designada por esposa. Foi durante a plena decadência da filosofia metafísica que DYAVAPRITHIVI, "o Céu e a Terra", começaram a ser representados como os pais cósmicos, universais, não somente dos homens, mas também dos deuses. A concepção original da causa ideal, que era abstrata e poética, caiu na vulgaridade. Dyaus, o céu, tornou-se rapidamente Dyaus, o Paraíso, a mansão do "Pai", e finalmente, o Pai mesmo. Em seguida, o Sol se tornou o símbolo deste último, recebendo o título de DINA KARA, "aquele que cria o dia", de Bhâskara, "aquele que cria a luz", e desde então, o Pai de seu Filho e vice-versa.
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O reino do ritualismo e do culto antropomórfico foi daí por diante estabelecido, e finalmente domina o mundo inteiro, estendendo sua supremacia até nossa era civilizada.
Sendo tal a origem comum, nada mais nos resta que estabelecer o contraste entre as duas divindades - o Deus dos gentios e o Deus dos judeus - e, julgando-as segundo sua própria definição, concluiremos intuitivamente qual deles se aproxima mais do ideal máximo.
Citaremos o coronel Ingersoll, que colocou Jehovah e Brahma em paralelo. Das nuvens e das trevas do Sinai, Jehovah diz aos judeus:
"Não reconhecerás outros deuses fora de mim... Não te prosternarás diante deles, nem os servirás, pois, Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus ciumento, transferindo as iniqüidades dos pais aos filhos até a terceira e quarta geração, para que Me temam".
Comparemos isso com as palavras que o hindu colocou na boca de Brahma:
"Eu sou o mesmo para todos os seres. Aqueles que honestamente servem outros deuses, involuntariamente me adoram. Eu sou Aquele que participa de toda adoração e sou a recompensa de todos os adoradores".
Analisemos esses textos. O primeiro, passagem obscura, onde se insinuam coisas que nascem do charco; o segundo, grande como o Firmamento, cuja abóbada está crivada de sóis.
O primeiro mostra o deus que obcecava a imaginação de Calvino, quando à sua doutrina da predestinação acrescentava a do inferno forrado pelos crânios das crianças NÃO BATIZADAS. As crenças e dogmas de nossas igrejas são, pelas idéias que implicam, mais blasfematórias que as dos pagãos MERGULHADOS NAS TREVAS...
Realmente, eles poderão adornar e mascarar quanto quiserem o Deus de Abrahão e Isaac, porém jamais serão capazes de refutar a asserção de Marcião, que nega ser o Deus do ódio o mesmo que o "Pai de Jesus". Seja como for, heresia ou não, o "Pai que está no céu" das igrejas, se tornou desde essa época uma criatura híbrida, uma mescla do JAVE (Júpiter) do povo, entre os pagãos, e do "Deus ciumento" de Moisés; exotericamente, o Sol, cuja mansão está nos céus, ou, esotericamente, o céu.
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O brilhante Dyaus, o Filho, não dá nascimento à luz "que brilha nas trevas"; ao dia, e não é ele o Altíssimo DEUS COELUM? E não é ainda a "TERRA", a Virgem sempre imaculada que, concebendo sem cessar, fecundada pelo ardente abraço de seu "Senhor" - os vivificantes raios do Sol - se torna na esfera terrestre, a mãe de tudo que vive e respira em seu vasto seio? Daí, no ritual, o caráter sagrado daquilo que ela produz: - o pão e o vinho. Daí vem também o antigo MESSIS, o grande sacrifício à deusa das colheitas (Ceres Eleusina, ainda a Terra): MESSIS para os Iniciados, MISSA PARA OS PROFANOS 2, que hoje veio a ser a missa cristã ou litúrgica. A antiga oferta dos frutos da terra ao Sol, o DEUS ALTISSIMUS, símbolo do G.A.D.U. dos franco-maçons de hoje, tornou-se a base do ritual, a mais importante dentre as cerimônias da nova religião. A adoração oferecida a Osíris-Ísis (o Sol e a Terra) 3, a Bel e à cruciforme Astartéa dos babilônios, a Odin ou Thor e Freya dos escandinavos, a Belen e à VIRGO PARTITURA dos celtas, a Apolo e à MAGNA MATER dos gregos, todos esses casais, com a mesma significação, passaram como representação corporal para os cristãos e foram transformados por eles em Senhor Deus, ou no Espírito Santo descendo sobre a Virgem Maria.
DEUS SOL ou SOLUS, o Pai, foi confundido com o Filho: na sua glória radiosa do meio-dia, o "Pai" tornou-se o "Filho" do Sol Levante, quando se dizia que ele "havia nascido". Essa idéia recebia sua plena apoteose anualmente, em 25 de dezembro, durante o solstício de inverno, quando o Sol, dizia-se - nascia e era o mesmo para os deuses solares de todas as nações. NATALIS SOLI INVICTE 4. E o "precursor" do Sol ressuscitado cresce e fortifica-se até o equinócio da primavera (*), quando o Deus-Sol principia o seu curso anual sob o signo de RAM ou Áries, na primeira semana lunar do mês.
O primeiro de março era festejado em toda a Grécia pagã, e suas NEOMENIA era consagradas a Diana. Pela mesma razão, as nações cristãs celebram sua festa de Páscoa no primeiro domingo que segue à Lua Cheia do equinócio da primavera. Da mesma forma que as festas pagãs, as vestimentas CANÔNICAS foram copiadas pelo Cristianismo. Pode ser isto negado? Na sua VIDA DE CONSTANTINO, Eusébio confessa, dizendo talvez a única verdade que jamais proferiu em sua vida, que "para tornar o Cristianismo mais atraente aos gentios, os sacerdotes (do Cristo) adotaram as vestimentas exteriores e os
2 De PRO, "antes", e FANUM, "templo", quer dizer, os não-Iniciados que se postam ao templo e não ousam entrar.
3 A Terra e a Lua, sua parente, são similares. Assim, todas as deusas lunares eram também símbolos que representavam a Terra (ver "Doutrina Secreta", Simbolismo)
4 Nascimento do sol invicto.
* No dia 21 de março, no Hemisfério Norte.
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ornamentos utilizados no culto pagão". Poderia igualmente ter acrescentado: seus rituais e dogmas.
Parte III
Ainda que não se possa reportar ao testemunho da história, é, no entanto, um fato histórico - pois um grande número de fatos relatados pelos antigos escritores o corrobora - ter o ritual da Igreja e da Franco-Maçonaria brotado da mesma fonte e se desenvolvido de mãos dadas...
A Maçonaria era simplesmente, em sua origem, um Gnosticismo arcaico ou um Cristianismo esotérico primitivo; o ritual da Igreja era e É um PAGANISMO EXOTÉRICO pura e simplesmente REMODELADO, pois não podemos dizer reformado.
Vejamos as obras de Ragon, um maçom legado ao esquecimento mesmo pelos maçons de hoje. Estudemos, colecionemos os fatos acidentais, mas numerosos, que se encontram nos escritores gregos e latinos; diversos deles eram iniciados, e a maioria, neófitos instruídos e participantes dos Mistérios. Vejamos, enfim, as calúnias, cuidadosamente elaboradas pelos padres da Igreja, contra os gnósticos, os Mistérios e seus iniciados, e acabaremos por descobrir a verdade. O Cristianismo foi fundado por um pequeno número de filósofos pagãos, que foram perseguidos pelos acontecimentos políticos da época, cercados e tiranizados pelos bispos fanáticos do Cristianismo primitivo, o qual ainda não possuía nem ritual, nem dogmas, nem igrejas.
Misturando da maneira a mais irreligiosa as verdades da religião-sabedoria, com as ficções exotéricas tão gratas às massas ignorantes, foram eles (os filósofos pagãos) que fundaram o primeiro ritual das igrejas e das lojas da Franco-Maçonaria moderna. Este último fato foi demonstrado por Ragon no seu ANTEOMNLAE da Liturgia moderna, comparada com os antigos mistérios, e mostrando o Ritual empregado pelos primeiros franco-maçons.
A primeira asserção pode ser verificada com ajuda de uma comparação entre os costumes em uso nas igrejas, os vasos sagrados, as festas das igrejas latinas e outras, e essas mesmas coisas nas nações pagãs. Mas, as Igrejas e a Franco-Maçonaria divergiram por completo, após haverem se constituído numa só unidade. Se alguém se espantar por um profano ter conhecimento disso, nós responderemos: o estudo da antiga Franco-Maçonaria e da Maçonaria moderna é obrigatório a para todo ocultista oriental.
A Maçonaria, apesar de seus acessórios e inovações modernas (particularmente a introdução nela do espírito bíblico) faz o bem, tanto no
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plano físico, como no moral; pelo menos era assim que agia faz apenas dez anos. É uma verdadeira ECCLESIA no sentido de união fraternal e de ajuda mútua, a única "religião" no mundo, se considerarmos o termo como derivado da palavra "religare" (ligar), pois que une todos os homens que a ela se filiam como "irmãos", sem preocupações da raça ou fé. Quanto a saber se ela não pôde fazer muito mais do que fez até hoje, com as enormes riquezas que tinha à sua disposição, isso não é da nossa alçada. Até hoje, nunca vimos mal algum saído dessa instituição, e ninguém, fora da Igreja Romana, jamais afirmou tal coisa. Pode-se dizer o mesmo da Igreja?
Que respondam à pergunta a história profana e a história eclesiástica.
Primeiramente, a Igreja dividiu a humanidade em Cains e Abels; massacrou milhões de homens em nome de seu Deus; o Deus dos Exércitos - em verdade, o feroz Jehovah Sabbaoth - e, em vez de dar uma força impulsiva à civilização, da qual seus fiéis se vangloriam orgulhosamente, retardou-a durante a longa e insípida Idade Média.
Somente sob os assaltos repetidos da Ciência e o prosseguimento da revolta dos homens, procurando libertar-se, é que a Igreja começou a perder terreno e não pôde impedir a luz por mais tempo. Suavizou, como ela própria o afirma, o "espírito bárbaro do paganismo"? Com todas as nossas forças, diremos: Não... Os Césares pagãos foram mais sôfregos de sangue ou mais friamente cruéis do que os potentados modernos e seus exércitos? Em que época se acharam milhões de proletários tão esfomeados como os dos nossos dias? Quando a Humanidade derramou mais lágrimas e sofreu mais que no período presente?
Sim, houve um dia em que a Igreja e a Maçonaria foram unidas. Foram então séculos de intensa reação moral, um período de transição onde o pensamento era tão incômodo como um pesadelo, uma idade de luta. Assim, quando a criação de novos ideais conduziu à aparente destruição de velhos templos e de velhos ídolos, em realidade o que se deu foi a reconstrução desses templos com a ajuda dos velhos materiais e a reabilitação dos mesmos ídolos sob novos nomes. Foi uma reorganização paliativa universal, mas somente "à flor da pele".
A história jamais nos dirá - mas a tradição e as pesquisas judiciosas nos ensinam - quantos semi-Hierofantes e altos Iniciados foram obrigados a se tornar apóstatas para assegurar a sobrevivência dos segredos da Iniciação. Praetextatux, procônsul da Arcádia, é digno de fé quando, no quarto século de
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nossa era, observou que "privar os gregos dos mistérios sagrados QUE LIGAVAM A HUMANIDADE INTEIRA, equivalia a privá-los da vida". Talvez os Iniciados o tivessem compreendido; ele se reuniram NOLENS VOLENS aos partidários da nova fé que começava a dominar, e agiram conseqüentemente.
Alguns judeus gnósticos helezinantes fizeram o mesmo, e assim, mais de um Clemente de Alexandria - um converso na aparência, mas de coração um ardente neoplatônico e filósofo pagão - tornaram-se os instrutores dos ignorantes bispos cristãos. Numa palavra, o converso A CONTRAGOSTO reuniu as duas mitologias exteriores, a antiga e a nova, e dando o amálgama à multidão, guardou para si as verdades sagradas.
O exemplo de Synesius, neoplatônico, nos mostra o que foram essas espécies de cristãos. Qual o sábio que ignora ou nega o fato de que o discípulo devotado e favorito de Hypatia - a virgem filósofa e mártir, vítima da infâmia de Cirilo de Alexandria - nem mesmo tinha sido batizado quando os Bispos do Egito lhe ofereceram o arcebispado de Ptolomáida? Todo estudante sabe que, depois de ter aceito a proposta sem refletir, mas somente dando o seu consentimento real por escrito, depois de suas condições aceitas, e seus futuros privilégios garantidos, é que finalmente foi batizado. Dentre essas condições, havia uma, a principal, que era realmente curiosa: que lhe fosse permitido SINE QUA NON a abstenção de professar as doutrinas cristãs nas quais ele, o novo Bispo, não acreditava. Assim, mesmo batizado e ordenado nos dogmas do diaconato, do sacerdócio e do episcopado, ele jamais se separou de sua mulher, jamais abandonou a filosofia platônica, e tampouco seus divertimentos (esportes), tão estritamente interditos a outros Bispos. Isso aconteceu no fim do século V.
Semelhantes concessões entre filósofos iniciados e sacerdotes reformados do judaísmo foram numerosas nessa época. Os primeiros procuravam manter seus juramentos prestados aos Mistérios, e sua dignidade pessoal. Para isso, eram obrigados a recorrer a compromissos lamentáveis com a ambição, a ignorância e a nascente vaga de fanatismo popular. Acreditavam na Unidade Divina, o Um ou SOLUS incondicional e incognoscível, e entretanto, consentiam em homenagear o Sol em público, o Sol que se movia entre seus doze apóstolos, os signos do zodíaco, ou os doze filhos de Jacó. O HOI POLLOI (o povo), mantido na ignorância do Único, adorava o Sol e cada um interiormente homenageava o Deus que antes honrara. Não era difícil transferir essa adoração das Divindades solares e lunares e de outras Divindades cósmicas, para os Tronos, Arcanjos, Dominações e Santos, ainda mais que essas Divindades siderais foram admitidas no novo cânone cristão com seus antigos
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nomes, quase sem mudança alguma. Assim é que, durante a missa, o "Grande Eleito" renovava em voz baixa sua adesão absoluta à Unidade Suprema Universal do "Incompreensível Artífice", e solenemente, em voz alta, pronunciava a palavra sagrada, enquanto seu assistente continuava o KYRIE dos nomes dos seres siderais inferiores que as massas deviam adorar.
Aos profanos catecúmenos que, poucos meses ou semanas antes, ofereciam suas orações ao Boi Apis e aos Santos Cynocéfalos, a Íbis Sagrada e a Osíris de cabeça de falcão, em verdade a águia de São João 5, e à Pomba Divina (a que paira sobre o cordeiro de Deus no batismo), lhes pareciam ser o desenvolvimento natural e o prosseguimento de sua própria zoologia nacional e sagrada, que haviam aprendido a adorar desde a sua infância.
5 É erro dizer-se que só depois do século XVI João Evangelista se tornou o Santo Patrono da Franco-Maçonaria. Há sobre o fato um erro duplo. Entre João, o "Divino", o "Vidente", o autor do Apocalipse, e João, o Evangelista, representado hoje em companhia da Águia, há uma grande diferença. João Evangelista é uma criação de Irineu, tanto quanto o 4o. Evangelho. Um e outro foram o resultado da disputa entre o Bispo de Lyon e os Gnósticos, e jamais poderemos saber quem foi o autor real do maior dos evangelhos. Mas, o que sabemos é que a águia é propriedade legal de João, o autor do Apocalipse, cuja origem remonta a séculos antes de Jesus Cristo, e foi reeditado somente antes de receber a hospitalidade canônica. Esse João, ou Johanes, era o patrono aceito por todos os gnósticos gregos e egípcios (que foram os primeiros construtores ou pedreiros do Templo de Salomão, como anteriormente o foram das pirâmides). A Águia, seu atributo - o mais arcaico dos símbolos - era o AH, o pássaro de Zeus, consagrado ao Sol por todos os antigos povos. Os Cabalistas Iniciados, mesmo entre os judeus, adotaram-na como o símbolo do Sephira Tiphi-e-reth, o AETHER Espiritual ou ar, como diz M. Myers na Kabbalah. Entre os Druidas, a Águia foi o símbolo da Divindade Suprema e uma parte desse símbolo se ligava aos Querubins. Adotado pelos gnósticos pré-cristãos, pode-se vê-lo aos pés do Tau do Egito, antes de ter sido posto no grau Rosa Cruz aos pés da cruz cristã. Além do mais, o pássaro do Sol, a Águia, é essencialmente ligado a cada deus solar; é o símbolo de todo vidente que olha na luz astral e ali vê a sombra do passado, do presente e do futuro, tão facilmente quanto a águia contempla o Sol.
Parte IV
Pode-se, pois, demonstrar que a Franco-Maçonaria moderna e o ritual da Igreja descendem em linha reta dos gnósticos iniciados, neo-platônicos, e dos Hierofantes que renegaram os mistérios pagãos, cujos segredos perderam, sendo conservados somente por aqueles que jamais aceitaram compromissos. Se a Igreja e a Maçonaria querem se esquecer da história de sua verdadeira origem, tal não o fazem os teosofistas. Eles repetem: a Maçonaria e as três grandes religiões cristãs herdaram os mesmos bens. As "cerimônias e palavras de passe" da Maçonaria, e as orações, os dogmas e ritos das religiões são cópias disfarçadas do puro paganismo (copiados e emprestados prontamente pelos judeus), e da teosofia neo-platônica. Igualmente, as "palavras de passe" empregadas hoje pelos MAÇONS BÍBLICOS, relacionadas com "a tribo de Judá", os nomes de "Tubal-Caim" e outros dignitários zodiacais do Antigo Testamento, não são mais que aqueles aplicados pelos judeus aos antigos Deuses da plebe pagã; não os Deuses dos Hierogramatas intérpretes dos verdadeiros mistérios. Acharemos a prova disso no que se segue. Os bons Irmãos Maçons dificilmente poderiam negar que, de nome, eles são SOLÍCOLAS, os adoradores do Sol nos céus, onde o erudito Ragon via o magnífico símbolo do G.A.D.U., como o é seguramente.
A única dificuldade para ele estava em provar - o que ninguém pode fazer - que o G.A.D.U. não era o Sol das quireras exotéricas dos PROFANOS, mas o SOLUS DO GRANDE EPOPTAE. Pois o segredo dos fogos de SOLUS, o espírito que cintila na Estrela Flamejante, é um segredo hermético, e a não ser que um maçom estude a verdadeira teosofia, esse segredo está perdido para ele. Nem mesmo as pequenas indiscrições de TTSHUDDI ele compreende. Hoje em dia, os maçons, com os cristãos, santificam o dia do SÁBBAT e o chamam dia do Senhor; entretanto, como qualquer um, ele sabem que o "SUNDAY" dos ingleses, ou o "SONNTAG" dos alemães, significa o DIA DO SOL, como há dois mil anos atrás.
E vós, reverendos bons padres, sacerdotes e bispos que chamais tão carinhosamente a Teosofia de "idolatria" e condenais, abertamente e em particular, seus adeptos à perdição eterna, podereis vangloriar-vos de possuir um simples rito, uma só vestimenta ou um vaso sagrado, seja na Igreja, seja no Templo, que não tenha vindo do paganismo? Não; seria demasiado perigoso afirmá-lo, não somente perante a história, como ante as confissões das autoridades sacerdotais.
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Recapitulemos, somente para justificar as nossas asserções. Du Choul escreve:
"Os sacrificadores romanos deviam confessar-se antes do sacrifício. Os sacerdotes de Júpiter usavam um chapéu preto, alto e quadrado, o chapéu dos Flamínios (ver os chapéus dos sacerdotes armênios e gregos modernos). A sotaina negra dos padres católicos romanos é a hierocarace preta, a roupagem dos sacerdotes de Mithra, assim chamada por ser a cor dos corvos (corax). O Rei Sacerdote de Babilônia possuía um sinete que trazia no dedo, um anel de ouro. Suas sandálias eram beijadas pelos potentados submissos a seu domínio; um manto branco, uma tiara de ouro com duas pequenas faixas. Os papas possuem o anel de ouro, as sandálias para o mesmo uso, um manto de cetim branco bordado de estrelas de ouro, a tiara com as pequenas faixas cobertas de pedras preciosas, etc... A vestimenta de linho branco (ALBA VESTIS) é a mesma dos sacerdotes de Ísis; os sacerdotes de Anúbis têm o alto da cabeça raspada (Juvenal), donde deriva a tonsura; a casula dos padres cristãos é a cópia da vestimenta que usavam os sacerdotes sacrificadores dos Fenícios, vestimenta chamada CALÁRSIS, que, presa ao pescoço, descia aos pés. A estrela dos nossos sacerdotes veio da vestimenta feminina usada pelos GALLI, os dançarinos do Templo, cuja função era a mesma do Kadashin judeu (para o verdadeiro termo, veja-se II Reis XXIII, 7); seus CINTOS DE PUREZA vêm do EPHODE dos judeus e da corda dos sacerdotes de Ísis; estes eram votados à castidade (sobre pormenores, ver Ragon)".
Os antigos pagãos usavam a água santa, ou lustral, para purificar suas cidades, seus campos, seus templos e os homens; tudo isso se pratica hoje nos países católicos romanos. As fontes batismais acham-se à porta de cada templo, cheias de água lustral e chamavam-se FAVISSES e AQUIMINARIA. Antes de oferecer o sacrifício, o Pontífice ou CURION (cura) mergulha um ramo de louro na água lustral para aspergir toda a piedosa congregação; o que era então chamado LUSTRICA e ASPERGILIUM, é hoje chamado hissope ou aspersório. Esse aspersório, nas mãos das sacerdotisas de Mithra, era o símbolo do LINGHAM universal; durante os mistérios, era mergulhado no leite lustral para aspergir os fiéis. Era o emblema de fecundidade universal; o uso da água benta no Cristianismo é, portanto, um rito de origem fálica. Ainda mais, a idéia subjacente nesse fato é puramente oculta, e pertence ao cerimonial mágico.
As purificações eram ultimadas pelo fogo, o enxofre, o ar e os elementos. Para obter a atenção dos deuses celestes, havia o recurso das abluções, e para conjurar e afastar os deuses inferiores, usava-se o aspersório.
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As abóbada das catedrais e igrejas gregas ou romanas são muitas vezes pintadas de azul e juncadas de estrelas douradas, para representar a abóbada celeste. Isso é copiado dos templos egípcios, onde o Sol e as estrelas eram adorados. A mesma homenagem é feita ainda no Oriente, como na época do paganismo, pela arquitetura cristã e maçônica. Ragon estabelece plenamente este fato em seus volumes, hoje destruídos. O "PRINCEPS PORTA", a porta do mundo, e do "Rei de Glória" - nome pelo qual era designado o Sol e que é agora aplicado ao seu símbolo humano, o Cristo - é a porta do Oriente, de frente para o Este, em todo templo ou igreja. É por essa "porta de vida", a via solene por onde entra diariamente a luz para o quadrado oblongo 6 da terra, ou o tabernáculo do Sol, que o recém-nascido é levado às fontes batismais. É à esquerda do edifício (o Norte sombrio donde partem os "aprendizes" e onde os candidatos passam pela PROVA DA ÁGUA) que as pias batismais são colocadas hoje em dia, e onde se achavam, na Antigüidade, as piscinas de água lustral, tendo sido as igrejas antigas templos pagãos. Os altares da Lutécia pagã foram enterrados e reencontrados sob o coro da igreja de Nôtre-Dame de Paris, onde ainda hoje existe o poço onde era conservada a água lustral. Quase todas as grandes e antigas igrejas do continente eram templos pagãos ou foram construídas no mesmo lugar, em conseqüência das ordens dadas pelos Bispos e Papas romanos. Gregório, o Grande, assim dá suas ordens ao frade Agostinho, seu missionário em Inglaterra: "Destrua os ídolos, jamais os templos. Borrife-os de água benta, coloque-lhes relíquias, e que os povos as adorem nos lugares onde têm o hábito de o fazer".
Consultemos as obras do Cardeal Baronius em seus Anais do ano XXXVI, para achar sua confissão. "Foi permitido - diz ele - à Santa Igreja APROPRIAR-SE DOS RITOS E CERIMÔNIAS UTILIZADAS PELOS PAGÃOS NO SEU CULTO IDÓLATRA, pois que ela (a Igreja) OS REGENERARIA PELA SUA CONSAGRAÇÃO. Nas "antiguidades gaulesas" de Fauchet, lemos que os Bispos de França adotaram e usaram as cerimônias pagãs a fim de converter os pagãos ao cristianismo.
Isto se passou quando a Gália era ainda um país pagão. Os mesmos ritos e as mesmas cerimônias em uso hoje em dia na França cristã e em outras nações
6 Termo maçônico, um símbolo da arca de Noé e da Aliança, do templo de Salomão, do tabernáculo e do campo dos israelitas, todos construídos em "quadrados oblongos". Mercúrio e Apolo eram representados por cubos e quadrados oblongos, e dá-se o mesmo na Kaaba, o grande templo de Meca.
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católicas, serão realizados num espírito de gratidão e reconhecimento aos pagãos e seus deuses?
Parte V
Até o século IV, as igrejas não possuíam altares. Até então, o altar era uma mesa colocada no meio do templo para uso da comunhão ou repasto fraternal. (A Ceia, como missa, era, em sua origem, dita à noite). Igualmente, hoje em dia, a mesa é posta na "Loja" para os banquetes maçônicos no final das atividades da Loja, nos quais os Hiram Abiff ressuscitados, os "filhos da viúva" enobrecem os seus brindes pelo "fining", uma forma maçônica de transubstanciação.
Chamaremos também de altares às mesas de seus banquetes? Por que não? Os altares foram copiados da ARA MAXIMA de Roma pagã. Os latinos colocavam pedras quadradas oblongas perto de seus túmulos e as chamavam ARA, altar; eram consagradas aos deuses dos lares e aos Manes. Nossos altares derivam dessas pedras quadradas, outras formas dos marcos-limites conhecidos como Deuses - Têrmos, os Hermes e os Mercúrio, donde vêm os Mercúrio "QUADRATUS, QUADRÍFIDOS, etc...", os deuses de QUATRO FACES de que as pedras quadradas são símbolos desde a mais alta antiguidade. A pedra sobre a qual se coroavam os antigos Reis de Irlanda, era um altar idêntico; existe uma dessas pedras na Abadia de Westminster 7, à qual, além disso, se atribui uma
7 Como um dos mais preciosos tesouros da tradicional Inglaterra, vê-se na figura a famosíssima "LIA-FAIL" ou PEDRA DA COROAÇÃO. Esta Pedra Sagrada, que serviu de assento ao Trono onde são coroados os Monarcas ingleses, permaneceu por séculos na Abadia de Westminster, em Londres, tendo sido há poucos anos levada para a Escócia, que a reivindicava ardorosamente. A pedra atual, ao que tudo indica, é uma réplica da verdadeira, depois que esta foi "roubada" há alguns anos atrás, deixando o "ladrão" uma enigmática sigla gravada a canivete na madeira do trono... A Pedra da Coroação é uma Pedra retangular, de cor avermelhada, e acerca da qual existem inúmeras e estranhas lendas. Os escoceses sempre a reivindicaram a posse dessa misteriosa pedra, durante o tempo que permaneceu na Inglaterra. Quando do seu desaparecimento acima referido, foram os mesmos acusados como sendo o causadores do rumoroso "rapto"... A origem da "LIA-FAIL", no entanto, se perde na noite dos tempos, sendo objeto de veneração e orgulho nacional, tanto para os ingleses, como para os escoceses. Sabe-se, entretanto, que o rei Eduardo I, da Inglaterra, em suas conquistas, a retirou do mosteiro de SCONE, levando-a para a Abadia de Westminster. O Trono da Coroação, na Abadia de Westminster, em Londres, foi feito de carvalho, por Eduardo I, para incrustar a pedra da coroação. A partir dessa época, os escoceses nunca cessaram de lutar por sua reconquista, pois, para eles, a Pedra representa o que de mais sagrado existe para sua pátria ultrajada. Recentemente, conseguiram o seu intento. Por outro lado, para a tradição cristã, a famosa Pedra serviu de cabeceira ao Patriarca Jacó. Segundo outros, no entanto, a Pedra foi trazida por Moisés, quando de sua fuga do Egito, libertando o povo hebreu do cativeiro. Daí a origem do nome "LAPIS FARAONI" com que a mesma Pedra é também designada. Consta que Haitebeques, casado com Scot, filha do faraó, saiu em busca da mesma e, apoderando-se dela, atravessou todo o Norte da África, chegando à Europa. Na Galícia, fundou o reino, a cuja capital deu o nome de
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O trono da coroação com a pedra ‘Lia-Fail’ sob o assento.
voz. Assim, todos os nossos altares e tronos descendem diretamente dos marcos-limites priápicos dos pagãos, os Deuses-Têrmos.
Sentir-se-á indignado o leitor fiel aos ensinamentos da Igreja, se lhe ensinarmos que somente sob o reinado de Deocleciano os cristãos adotaram o COSTUME PAGÃO de adoração em templos? Até essa época sentiam insuperável horror aos altares e templos, e durante os primeiros 250 anos de nossa era os consideravam uma abominação. Esses cristãos primitivos são mais pagãos que qualquer dos antigos idólatras. Os primeiros eram o que são os teosofistas de nossos dias; do IV século em diante se tornaram Heleno-judaicos, gentios, tendo a menos a filosofia neoplatônica. Leiamos o que Minitius Felix dizia aos Romanos no 3º século:
"Brigatium". Em louvor à Pedra, transformou-a em trono. A partir daí, todos os monarcas, seus descendentes, passaram a ser entronizados sob a égide da miraculosa "Pedra da Coroação". Um dos descendentes remotos de Haitebeques, ao colonizar a Irlanda, mandou, juntamente com o seu filho Simão Brec, a famosa Pedra, possibilitando, assim, a expansão do Reino. Segundo ainda outros autores, foi esta Pedra que deu origem à Ilha "Fail", e era considerada como PEDRA FALANTE, pois sempre falava quando era preciso designar o rei. Foi também designada de "ANCORA VITAE". Há ainda a lenda relacionada com a Pedra em questão, que transcrevemos aqui: "o pétreo pilar, no qual dormiu Jacob em Bethel, foi trazido ao Egito; dali foi levado por Simon Breck para a Irlanda. Lá, na montanha sagrada de Tara, tornou-se "LIA FAIL", a "Pedra do Destino". Fergus, fundador da monarquia escocesa, levou-a através do mar para Dunstaffnage; Kenneth II removeu-a para Scone". - Nota do compilador, baseado em artigo adaptado de Roberto Lucíola (O Graal e as Pedras Sagradas)
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"Imaginais que nós, cristãos, escondemos o que adoramos PORQUE NÃO POSSUÍMOS TEMPLOS E ALTARES? Mas que imagem de Deus levantaríamos desde que o homem é em si mesmo a imagem de Deus? Que templo poderíamos levantar à Divindade, quando o Universo, que é sua obra, pode dificilmente conte-la? Como colocar o Onipotente num só edifício? Não é melhor consagrarmos um templo à Divindade em nosso coração e em nosso espírito?"
Mas, nessa época, os cristãos do tipo de Minitius Felix tinham presente na memória os ensinamentos do Mestre Iniciado, de não rezar nas sinagogas e nos templos, como fazem os hipócritas, "para serem vistos pelos homens". Lembravam-se da declaração de Paulo, o Apóstolo Iniciado, o "Mestre Construtor", que o homem era o único templo de Deus no qual o Espírito-Santo - o espírito de Deus - permanecia. Obedeciam aos verdadeiros preceitos cristãos, enquanto os cristãos modernos obedecem somente aos cânones arbitrários de suas respectivas Igrejas e às regras que lhe deixaram os seus antepassados. "Os teosofistas são notoriamente ateus", diz um escritor do CHURCH CHRONICLE; "não se conhece um só que assista ao serviço divino... a Igreja é para eles odiosa"; e, repentinamente, dando livre curso à sua cólera, começa a profligar os infiéis, os pagãos M.S.T.
O homem da Igreja moderna também joga suas pedras no teosofista, como o fizeram os seus antepassados, os fariseus da "Sinagoga dos Libertinos", quando lapidaram Etienne por ter dito o que dizem alguns teosofistas cristãos, isto é, que o "Altíssimo não reside num templo construído por mãos de homens" - e não hesita, como o fizeram esses juízes iníquos, em subornar testemunhas para nos acusar.
PARTE VI
A teoria do "mito solar" aparece atualmente tão repisada "ad nauseum", que a ouvimos repetida dos quatro pontos cardeais do orientalismo e do simbolismo, e aplicada sem discernimento a todas as coisas e a toda religião, excetuando-se a igreja cristã e as religiões do Estado. Sem dúvida, o Sol foi na Antigüidade, e desde tempos imemoriais, o símbolo da divindade criadora, não somente entre os parsis, mas também em outras nações; o mesmo se dá nos cultos ritualistas; como o era antigamente, continua a sê-lo em nossos dias. Nossa estrela central é o Pai para os PRO-FANOS; para o EPOPTAE é o Filho da Divindade Incognoscível.
Ragon, o maçom já citado, nos diz: "o Sol era a mais sublime e natural das imagens do Grande Arquiteto; igualmente, a mais engenhosa de todas as alegorias pelas quais o homem moral e bom (o verdadeiro sábio) simbolizara a INTELIGÊNCIA infinita, sem limite". Com exceção desta última afirmação, Ragon tem razão. Ele nos mostra o símbolo gradualmente se afastando do ideal, assim concebido e representado, terminando por se tornar no espírito de seus adoradores ignorantes, não mais um símbolo, mas o próprio Sol. O grande escritor maçônico prova em seguida que o Sol FÍSICO é que era considerado como o Pai e o Filho pelos primeiros cristãos. Diz ele:
"Ó Irmãos Iniciados, podereis vos esquecer que nos templos da religião existente, uma grande LÂMPADA brilha noite e dia? Ela está suspensa diante do altar principal, lá onde está depositada a arca do Sol. Uma outra LÂMPADA brilhando diante da Virgem-Mãe, é o emblema da claridade da LUA. Clemente de Alexandria nos faz saber que os egípcios foram os primeiros a estabelecer o uso religioso das lâmpadas... Sabe-se que o mais sagrado e o mais terrível dos deveres era confiado às Vestais. Se os templos maçônicos são iluminados por três luzes astrais - o Sol, a Lua e a estrela geométrica - e por três luzes vitais - o hierofante e seus dois epíscopes (vigilantes) - é porque um dos pais da maçonaria, o sábio Pitágoras, habilmente sugeriu que não deveríamos falar das coisas divinas sem estarmos esclarecidos pela luz. Os pagãos celebravam a festa das lâmpadas, chamadas 'lampadofórias' em honra de Minerva, Prometeu e Vulcão. Mas, Lactâncio e alguns dos primeiros padres da nova fé se lamentavam amargamente da introdução pagã das lâmpadas nas igrejas. Lactâncio escreve: "SE ELES SE DIGNASSEM CONTEMPLAR ESSA LUZ QUE NÓS CHAMAMOS SOL, RECONHECERIAM DESDE LOGO QUE DEUS NÃO PRECISA DE SUAS 'LÂMPADAS'; e Vigilantus acrescenta: 'Sob o pretexto de religião, a Igreja estabeleceu o costume dos gentios de acender mesquinhas velas, enquanto o
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Sol está nos iluminando com mil luzes. Pode lá ser uma grande honra ao 'Cordeiro de Deus representar-se o Sol dessa maneira, quando, ocupando o MEIO DO TRONO (o Universo), ele o enche com o resplendor de sua Majestade?' Tais passagens nos provam que nesses dias a igreja primitiva adorava o Grande Arquiteto do Universo em sua imagem, o Sol Único, o único de sua espécie ("A Missa e seus Mistérios")".
Realmente, enquanto os candidatos cristãos devem pronunciar o juramento maçônico virados para Este, e seu "Venerável" permanece no lado oriental (porque os neófitos assim faziam nos Mistérios pagãos), conserva a Igreja, por sua vez, o mesmo rito. Durante a Grande Missa, o altar-mor (ARA MAXIMA) é ornado com o tabernáculo ou PYX (a caixa na qual o Santo-Sacramento é fechado) e com seis lâmpadas; o significado exotérico do tabernáculo e seu conteúdo, símbolo do "Cristo-Sol", é a representação do luminar resplandecente, e as seis velas representam os seis planetas (os primeiros cristãos não conheciam mais que esses), três à sua direita e três à sua esquerda Isso é uma cópia do candelabro de sete braços da Sinagoga, cujo significado é idêntico. SOL EST DOMINUS MEUS (o Sol é meu Senhor), diz David no Salmo XCV, e isso é traduzido muito engenhosamente na versão autorizada: "O Senhor é um grande Deus, um grande Rei, acima de todos os deuses!" (V. 3) ou na realidade, os dos planetas. Agostinho Chalis é mais sincero quando diz na sua PHILOSOPHIE DES RELIGIONS COMPARÉES: "Todos são DEV (demônios) nesta terra, menos o Deus dos Videntes (Iniciados), e se em Cristo nada mais vedes que o Sol, vós adorais um DEV, um fantasma, tal como o são todos os Filhos da Noite".
Sendo o Este o ponto cardeal donde surge o astro do dia, o Grande Dispensador e sustentáculo da vida, criador de tudo que existe e respira neste globo, não é de se estranhar que todas as nações da terra tenham adorado nele o agente visível do Princípio e da Causa invisível, e que a missa seja dita em honra daquele que é o dispensador das MESSIS ou colheitas. Mas, entre a adoração do Ideal em si e adoração do símbolo, há um abismo. Para o egípcio douto, o Sol era o olho de Osíris, não o próprio Osíris; o mesmo se dava com os sábios adoradores de Zoroastro.
Para os primeiros cristãos, o Sol tornou-se a divindade IN TOTO e, pela força da casuística, do sofisma e dos dogmas que não devem ser discutidos, as Igrejas cristãs modernas acabaram por obrigar as pessoas cultas a aceitar essa opinião. As Igrejas hipnotizaram-nas numa crença de que seu Deus é a ÚNICA Divindade vivente, o criador do Sol, não o próprio Sol, demônio adorado pelos "pagãos". Mas que diferença há entre um demônio e um Deus antropomórfico,
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tal como é representado nos PROVÉRBIOS de Salomão? Esse "Deus, que ameaça com palavras como estas: 'Eu rirei de vossas calamidades, escarnecerei dos vossos temores' (Prov. I, 27), salvo se os pobres, os desesperados, os ignorantes clamarem por Ele, quando seus 'temores os assolam com uma calamidade' e quando a 'ruína lhes cai como um turbilhão". Comparemos esse Deus com o Grande Avatar, sobre o qual foi fundada a lenda cristã e vamos identificá-la com o Grande Iniciado que disse: "Benditos sejam os que choram, pois serão consolados". Qual o resultado dessa comparação?
Eis aí como justificar a alegria diabólica de Tertuliano, que sorria e se regozijava com a idéia de seu parente próximo, "infiel", assando no fogo eterno, assim como o conselho dado por Hieronymus ao cristão convertido, de calcar aos pés o corpo de sua mãe pagã, se ela procurar impedir que ele a abandone para sempre, a fim de seguir a Cristo...
PARTE VII
O ritual do Cristianismo primitivo - como já está suficientemente demonstrado - deriva da antiga Maçonaria. Esta é, por sua vez, a herdeira dos Mistérios, quase desaparecidos nessa época. Diremos algumas palavras sobre estes: é bem conhecido de toda a Antigüidade que, a par da adoração popular feita de letra morta e formas vazias das cerimônias exotéricas, cada nação tinha seu culto secreto, designado na sociedade como sendo os Mistérios.
Strabon, entre outros, dá seu testemunho dessa asserção (Georg. Lib X). "Ninguém era admitido aos Mistérios se não estava preparado por um treinamento particular. Os neófitos, instruídos na parte superior dos Templos, eram iniciados, nas criptas, ao Mistério final. Essas instruções constituíam a última herança, e última sobrevivência da antiga sabedoria, e é sob a direção de Altos Iniciados que os Mistérios eram REPRESENTADOS. Empregamos de propósito o termo REPRESENTADO, pois que as instruções ORAIS, EM VOZ BAIXA, eram dadas somente nas criptas, em segredo e num silêncio solene. As lições sobre a teogonia e cosmogonia eram expressas por representações alegóricas; o MODUS OPERANDI da evolução gradual do Kosmos, dos mundos e finalmente de nossa terra, dos Deuses e dos homens, tudo isso era comunicado simbolicamente. As grandes representações públicas, que eram dadas durante as festas dos Mistérios, tinham por testemunha o povo que adorava cegamente as verdades ali personificadas. Somente os Altos Iniciados, os EPOPTAE, compreendiam sua linguagem e seu significado real. Tudo isso e muito mais ainda é conhecido pelos sábios.
Todas as antigas nações pretenderam saber que os Mistérios reais, concernentes ao que se chama, tão pouco filosoficamente, a criação, foram divulgados aos Eleitos de nossa raça (a quinta) por essas primeiras dinastias de REIS DIVINOS - "Deuses na carne", "Encarnações divinas ou Avatares".
As últimas estrofes extraídas do Livro de Dzyan para a DOUTRINA SECRETA (vol. 3, p. 27 - ed. inglesa) falam dos que reinaram sobre os descendentes "nascidos do Santo Rebanho" e... "que tornaram a descer e fizeram a paz com a quinta raça, e a instruíram e ensinaram".
A frase "fizeram a paz" mostra que houve uma CONTENDA precedente. O destino dos Atlantes em nossa filosofia e o dos pré-diluvianos na Bíblia corrobora essa idéia. Uma vez mais, e isso muitos séculos antes dos Ptolomeus, o mesmo abuso da ciência sagrada dominou lentamente os Iniciados do Santuário egípcio. Os ensinamentos sagrados dos Deuses, mesmo
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conservados em toda sua pureza durante séculos inumeráveis, a par da ambição pessoal e do egoísmo dos Iniciados, foram de novo corrompidos. O significado dos símbolos encontrou-se muitas vezes profanado por inconvenientes interpretações, e, bem cedo, os mistérios de Elêusis foram os únicos que permaneceram puros de toda alteração e de toda inovação sacrílega. Eram celebrados em Atenas em honra de Demeter (Ceres) ou da Natureza, e foi lá que a elite intelectual da Grécia da Ásia Menor foi iniciada. No seu quarto livro, Zózimo afirma que esses iniciados pertenciam a toda a humanidade (7) e Aristides chama aos Mistérios: "O Templo comum de toda a terra".
Foi para conservar alguma lembrança desse "templo" e reconstrui-lo oportunamente, que alguns eleitos, dentre os Iniciados, foram escolhidos e postos de reserva. Isto foi cumprido pelo seu Grande Hierofante em cada século, desde a época em que as alegorias sagradas mostraram os primeiros sintomas de profanação e de decadência.
Finalmente, os Grandes Mistérios de Elêusis tiveram o mesmo destino dos outros. Sua superioridade primordial e seu alvo primitivo são descritos por Clemente de Alexandria, que nos mostra como os Grandes Mistérios divulgavam os segredos e o modo da construção do Universo, sendo isso o começo, o fim e o último alvo do conhecimento humano. E mostrava-se ao Iniciado a natureza de todas as coisas tais como são (strom 8). Tal era a Gnose Pitagórica: "o conhecimento das coisas tais como são".
Epícteto fala dessas instruções em termos os mais elevados: "Tudo que lá está estabelecido, o foi por nossos Mestres para instrução dos homens e correção de nossos costumes" (apud Arriam, Dissert. lib. cap. 21) - e Platão diz o mesmo em seu PHEDON; o fim dos Mistérios era restabelecer a alma em sua primitiva pureza, ESSE ESTADO DE PERFEIÇÃO QUE ELA HAVIA PERDIDO.
Parte VIII
Mas chegou a época em que os Mistérios se desviaram de sua pureza, como aconteceu às religiões exotéricas. Isso começou quando o Estado, sob o conselho de Aristogiton, entendeu de fazer dos Mistérios de Elêusis uma constante e fecunda fonte de rendas. Promulgou-se uma lei para esse efeito. Daí por diante, ninguém podia ser iniciado sem pagar uma certa soma pelo privilégio. O que até então era adquirido ao preço de incessantes esforços, quase sobre-humanos, em direção à virtude e à perfeição, tornou-se adquirível com ouro. Os laicos, e mesmo os sacerdote - aceitando essa profanação, perderam o antigo respeito pelos Mistérios interiores e isso acabou por conduzir a ciência sagrada à profanação.
A ruptura feita no véu alargou-se em cada século e, mais do que nunca, os sublimes Hierofantes, temendo a publicação e alteração dos segredos mais santos da natureza, trabalharam para eliminá-los do programa INTERIOR, limitando seu pleno conhecimento a um pequeno número.
Aqueles que foram POSTOS DE RESERVA, tornaram-se os únicos guardiães da divina herança das idades passadas.
Sete séculos mais tarde, encontramos Apuleio, apesar de sua sincera inclinação à magia e à mística, escrevendo no seu "Idade de Ouro" uma sátira amarga contra a hipocrisia e o deboche de certas ordens de sacerdotes, meio-iniciados. Por ele nos cientificamos também de que no seu tempo (século II depois de J.C.), os Mistérios se tornaram tão comuns que pessoas de todas as condições e classes, em todas as nações, homens, mulheres e crianças, TODOS ERAM INICIADOS! Nesse tempo a iniciação era tão necessária quanto o batismo em nossos dias, e correspondia ao que é o batismo: uma cerimônia sem significação e de pura foram. Ainda mais tarde, os fanáticos da nova religião deitaram suas pesadas mãos sobre os Mistérios.
Os EPOPTAE, aqueles "que viam as coisas tais quais são", desapareceram um a um, emigrando para regiões inacessíveis aos cristãos. Os MISTOS (mistos ou velados), "esses que vêem as coisas tais como parecem ser", tornaram-se em seguida, rapidamente, os únicos senhores da situação.
São os primeiros, os "POSTOS DE RESERVA", que conservaram os verdadeiros segredos, e são os MITOS, os que só conhecem as coisas superficialmente, que assentaram a pedra fundamental da FRANCO-MAÇONARIA MODERNA. Dessa fraternidade primitiva de maçons, semi-pagãos, semi-convertidos, nasceram o ritual cristão e a maior parte dos dogmas.
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Os EPOPTAE e os MISTOS são ao mesmo tempo designados pelo nome de Maçons, pois todos, fiéis ao juramento feito a seus Hierofantes e "Reis" desaparecidos há muito, reconstruíram SEUS TEMPLOS; os EPOPTAE, seu templo "inferior", e os Mistos, seu templo "superior", pois tais eram os nomes com os quais eram irrespeitosamente designados em certas regiões, tanto na antiguidade, como em nossos dias. Sófocles fala, em ELECTRA, (ato II) sobre os fundamentos de Atenas - o lugar dos Mistérios de Elêusis - como sendo o "edifício sagrado dos Deuses", isto é, construído pelos Deuses. A iniciação era descrita como um "passeio do Templo", e a "purificação' ou "reconstrução do Templo" se referia ao corpo do Iniciado na sua última e suprema prova. (Ver o Evangelho de São João, II: 19). A doutrina exotérica era algumas vezes designada sob o nome de "templo", e a religião popular exotérica pelo nome de "cidade". CONSTRUIR UM TEMPLO significava fundar uma escola exotérica; CONSTRUIR "UM TEMPLO NA CIDADE" se referia ao estabelecimento de um culto público. Por conseguinte, os verdadeiros sobreviventes dos Maçons são esses do Templo INFERIOR, ou a Cripta, lugar sagrado da iniciação; são os únicos guardiães dos verdadeiros segredos maçônicos perdidos agora para o mundo.
De bom grado concedemos à fraternidade moderna dos Maçons o título de "construtores" do "TEMPLO SUPERIOR", apesar da superioridade do adjetivo dado a priori ser tão ilusória como a chama da sarça de Moisés nas Lojas dos Templários.
Parte IX
A alegoria mal compreendida, conhecida pelo nome de descida aos Infernos, causou muitos males. A "Fábula" esotérica de Hércules e de Teseu descendo às REGIÕES INFERNAIS; a viagem de Orfeu aos Infernos, encontrando seu caminho graças ao poder de sua lira (Ovídio, METAMORFOSES), a viagem de Krishna e finalmente do Cristo que "desceu aos Infernos" e "ressuscitou dos mortos" ao terceiro dia, todas se tornaram irreconhecíveis pelos "adaptadores" não iniciados dos ritos pagãos, que os transformaram em ritos e dogmas da Igreja.
Do ponto de vista astronômico, essa DESCIDA AOS INFERNOS simboliza o Sol durante o equinócio do outono. Imaginava-se, então, que ele abandonava as altas regiões siderais e travava um combate com o demônio das trevas, que nos tira a melhor parte de nossa luz. Concebia-se o sol sofrendo uma morte temporária e descendo às regiões infernais. Mas, sob o ponto de vista místico, essa alegoria simboliza os ritos de iniciação nas criptas do Templo, chamadas o "mundo inferior" (HADES). Baco, Héracles, Orfeu, Asklépios e todos os outros visitantes da cripta, desciam aos infernos, donde ressurgiam ao terceiro dia, pois todos eram Iniciados e "construtores do Templo Inferior".
As palavras de Hermes, dirigidas a Prometeu encadeado sobre as rochas áridas do Cáucaso - Prometeu ligado pela ignorância e devorado pelo abutre das paixões - aplicavam-se a cada neófito, a cada CHRESTOS durante as provas. "Não há fim para o teu suplício até que Deus (ou um deus) apareça e te alivie as tuas dores, consentindo em descer contigo ao tenebroso HADES, às sombrias profundezas do Tártaro" (Ésquilo: PROMETEU, 1.027 e ss.) Isto quer simplesmente dizer que, enquanto Prometeu (ou o homem) não encontrar o "deus" ou o Hierofante (o Iniciador) que desça voluntariamente consigo às criptas da iniciação e o dirija em torno do Tártaro, o abutre das paixões não cessará de devorar os seus órgãos vitais 8.
8 A região obscura da cripta, na qual, supunha-se, o candidato à iniciação rejeitava para sempre suas más paixões ou maus desejos. Provêm daí todas as alegorias contidas nas obras de Homero, de Ovídio, de Virgílio, etc..., que os sábios modernos tomam no sentido literal. O Phlegetonte era o rio no Tártaro, onde o Iniciado era mergulhado três vezes pelo Hierofante, depois do que estavam terminadas as provas. O homem havia nascido de novo; tinha deixado para sempre o velho homem de pecado na corrente sombria, e ao terceiro dia, quando saía do Tártaro, era um INDIVIDUALIDADE; a PERSONALIDADE estava morta. Toda alegoria (como a de Ixion, Tântalo, Sísifo, etc.) é a personificação de alguma paixão humana.
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Ésquilo, como Iniciado, não podia dizer mais do que isso! Mas, Aristófanes, menos piedoso, ou mais audacioso, divulga o segredo aos que não estão cegos pelos preconceitos por demais enraizados, em sua sátira imortal AS RÃS, sobre a "descida aos infernos" de Herákles. Lá encontramos o coro dos bem-aventurados (os Iniciados), os Campos-Elíseos, a chegada de Baco (o deus Hierofante) com Terakles, a recepção com as tochas acesas, emblema da NOVA VIDA e da RESSURREIÇÃO das trevas da ignorância humana para a luz do conhecimento espiritual, a VIDA ETERNA. Cada palavra da brilhante sátira atesta a intenção interior do poeta:
Animai-vos, tochas ardentes... pois as vens
Agitando em tua mão, Jaco 9
Estrela fosforescente do rito noturno
As iniciações finais sempre eram feitas à noite. Falar-se, por conseguinte, de alguém que houvesse descido aos infernos equivalia, na antiguidade, a designá-lo como um INICIADO PERFEITO. Aos que se sentirem inclinados a rejeitar essa explicação, eu farei uma pergunta: podem eles nos revelar, neste caso, a significação de uma frase contida no sexto livro de Eneida de Virgílio? Que quer dizer o poeta senão o que exprimimos acima, quando, introduzindo o venerável Anquises nos Campos Elíseos, ele o induz a aconselhar seu filho Enéas a realizar a viagem à Itália... onde teria que combater, em Latium, um povo rude e bárbaro; mas, acrescenta ele, "não te aventures a tal antes de teres concluído A DESCIDA AOS INFERNOS", quer dizer, "antes de seres um Iniciado".
Os clérigos benévolos que, sob a menor das provocações, estão sempre prontos a nos mandar ao Tártaro e às regiões infernais, não suspeitam o bom voto formulado a nosso respeito, e qual o caráter de santidade que deveremos adquirir para poder entrar num local tão sagrado.
Os pagãos não eram os únicos a ter os seus Mistérios. Belarmino (de Eccl. Triumph lib. II, cap. 14) afirma que os primeiros cristãos adotaram, dentre o conjunto das cerimônias pagãs, o costume de reunir-se na Igreja durante as noites que precediam suas festas, para ali passar em vigília, ou "vesperas".
Suas cerimônias, no começo, foram realizadas com pureza e a mais edificante santidade, mas nessas reuniões não tardaram em infiltrar-se abusos de imoralidade, e os Bispos julgaram melhor suprimi-las. Temos lido dúzias de livros que falam da licenciosidade que reinava nas festas religiosas pagãs. Cícero (de Leg. Lib. II, cap. 15) nos mostra Diagondas, o Aebano, que não
9 Outro nome de Baco.
As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria 31
encontra, para remediar tais desastres nas cerimônias, outras medidas senão a supressão dos próprios mistérios. Entretanto, quando comparamos as duas espécies de celebrações - os mistérios pagãos santificados desde tempos remotos, muitos séculos antes de nossa era, e os ágapes cristãos de uma religião apenas nascida e com pretensões a tão grande influência purificadora sobre seus conversos - não podemos deixar de lamentar a cegueira mental dos seus defensores cristãos, de citar em sua intenção esta pergunta de Roscommon:
"Se começais com tal pompa e tal ostentação,
Por que é tão mesquinho e tão baixo o vosso fim?"
Parte X
O Cristianismo primitivo - tendo derivado da Maçonaria primitiva - também tinha seus sinais, suas palavras de passe e seus graus de iniciação. "Maçonaria" é um termo antigo, e seu emprego não vai muito além da nossa era. Paulo intitula-se "Mestre Construtor", e era um deles.
Os antigos maçons eram designados por nomes diferentes, a maior parte dos ecléticos alexandrinos, os teósofos de Ammonius Saccas e os últimos neoplatônicos eram todos virtualmente maçons. Todos estavam ligados pelo juramento do segredo. Todos se consideravam uma fraternidade e tinham também seus sinais de reconhecimento. Os ecléticos ou filaleteos contavam em suas fileiras com os sábios mais capazes e mais eruditos da época, como também diversas cabeças coroadas. O autor da FILOSOFIA ECLÉTICA assim se exprime:
"Suas doutrinas foram adotadas pelos pagãos e pelos cristãos na Ásia e na Europa, e durante algum tempo tudo parecia favorável a uma fusão geral das crenças religiosas. Foram adotadas pelos imperadores Alexandre, Severo e Juliano. Sua influência predominante sobre as idéias religiosas excitaram os ciúmes dos cristãos de Alexandria; a escola foi transferida para Atenas, e em seguida fechada pelo imperador Justiniano. Seus instrutores SE RETIRARAM PARA A PÉRSIA 10 onde tiveram numerosos discípulos".
Outros pormenores poderiam ser interessantes. Sabemos que os Mistérios de Elêusis sobreviveram a todos os outros. Enquanto os cultos secretos dos Deuses Menores, como os CURATES, os DACTYLI, os adoradores de Adonis, de KBIRI, e mesmo esse do velho Egito, desapareciam sob a mão vingativa e cruel do desumano Theodósio 11, os Mistérios de Elêusis não podiam ser tão facilmente suprimidos. Eles eram, na verdade, a religião da Humanidade e brilhavam com todo seu antigo esplendor, senão na sua pureza primitiva. Seriam necessários vários séculos para aboli-los e eles se perpetuaram até o ano 396 de nossa era. Foi então que os "Construtores do Templo Superior, ou do Templo da Cidade", apareceram em cena pela primeira vez, e trabalharam sem descanso para introduzir seu ritual e seu dogma particular na Igreja nascente, sempre contendora e combativa. O tríplice "Santus" da missa da
10 Podemos acrescentar: e mais além, na Índia, na Ásia Central, pois encontraremos sua influência em todos os países asiáticos.
11 O assassino dos tessalônicos, que foram massacrados por esse piedoso filho da Igreja.
As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria 33
igreja católica romana é o S.S.S. daqueles maçons primitivos, e é também o prefixo moderno de seus documentos ou de todo "balaústre" 12; é a inicial de SALUTEM ou SAÚDE e por isso foi dito acertadamente por um Maçom: "Essa tríplice saudação maçônica é a mais antiga entre os maçons". (Ragon)
12 Balaústre - termo maçônico, significando trabalho escrito.
Parte XI
Mas os enxertos maçônicos na árvore da religião cristã não se limitam a isso. Durante os Mistérios de Elêusis, o vinho representado BACO e o pão ou trigo, CERES 13. Ora, Ceres ou Demeter era o princípio produtor feminino da terra, a esposa do pai Aether ou Zeus; e Baco, o filho de Zeus-Júpiter, era seu pai manifestado. Noutros termos, Ceres e Baco eram as personificações da substância e do espírito, os dois princípios vivificantes em a natureza e sobre a terra. O Hierofante Iniciador apresentava simbolicamente aos candidatos, antes da revelação final dos mistérios, o vinho e o pão, que estes comiam e bebiam para testemunhar que o espírito devia vivificar a matéria, isto é, que a Divina Sabedoria do Eu Superior devia penetrar no Eu interior ou alma, tomar posse dele, auto-revelar-se.
Esse rito foi adotado pela Igreja cristã. O Hierofante, que então era chamado o "Pai", tornou-se agora - menos o conhecimento - o padre, o "pai" que administra a mesma comunhão. Jesus se chama a si mesmo a vinha, e a seu "Pai", o Vinhateiro; suas palavras na Última Ceia mostram seu perfeito conhecimento do significado simbólico do pão e do vinho, assim como sua identificação com os LOGOI dos antigos: "Aquele que comer minha carne e beber meu sangue, terá a vida eterna"... E acrescenta: "as palavras (RHEMATA, ou palavras secretas) que vos dou, são Espírito e Vida". Elas o são, porque "é o Espírito que vivifica". Essas RHEMATA de Jesus são, na verdade, as palavras secretas DE UM INICIADO.
Mas entre esse nobre rito, tão velho como o simbolismo, e sua última interpretação antropomórfica, conhecida agora como transubstanciação, há um
13 Baco é certamente de origem hindu. Pausânias o mostra como sendo o primeiro que conduziu uma expedição contra a Índia e que construiu uma ponte sobre o Eufrates. "O cabo que servia para unir as duas margens opostas é mostrado hoje, diz um historiador, tecido de cepos de vinha e de ramos de hera restaira" XXXIV, 4). Arianus e Quinto Cúrcio explicavam a alegoria do nascimento de Baco, saído da coxa de Zeus, dizendo que ele havia nascido no monte Meru, e nós sabemos que Eratósthenes e Strabon acreditavam que o Baco hindu fora inventado pelos cortesãos de Alexandre, simplesmente para agradá-lo, pois que ele se comprazia em pensar que havia conquistado a Índia, tal qual se supunha havia feito Baco. Mas, por outro lado, Cícero menciona o Deus como sendo filho de Thyne e de Nisus; Dionísios significa o Deus Dis, do monte Nys da Índia. Baco coroado de hera ou Kissos, não é senão Krishna, um de cujos nomes era Kissen. Dionísios era, antes de tudo, o Deus com o qual se contava para libertar as almas dos homens de suas prisões de carne: - Hades ou o Tártaro humano, num destes sentidos simbólicos. Cícero chama a Orfeu "um filho de Baco", e aqui encontramos uma tradição que, não somente representa Orfeu como vindo da Índia (diziam-no moreno de pele tisnada), mas também o identifica com Arjuna, o "chela" e filho adotivo de Krishna. (Ver Five Years of Theosophy).
As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria 35
abismo de sofisma eclesiástico. Quanta força há na exclamação: "Infelizes sois, Homens da Lei, pois REJEITASTES A CHAVE DO CONHECIMENTO" (e hoje nem sequer permitis que gnose seja dada aos outros), e eu, com decuplada força digo que essas palavras jamais foram de maior aplicação que em nossos dias.
Sim, essa GNOSE "vós não a deixais penetrar em vós mesmo, e os que quiseram e querem atingi-la, foram por vós impedidos', e ainda os impedis.
Os sacerdotes modernos não são os únicos que merecem essa censura. Os maçons, os descendentes ou, em todo caso, os sucessores dos "construtores do Templo Superior" da época dos Mistérios, e que deviam ter um melhor conhecimento, escarnecem e desprezam os seus irmãos que se lembram de sua verdadeira origem. Diversos grandes sábios e cabalistas modernos, que são maçons e que poderíamos citar, não recebem de seus irmãos senão um desdenhoso sacudir de ombros. É sempre a mesma velha história. Mesmo Ragon, o mais erudito dentre os maçons de nosso século, queixou-se nestes termos: "Todas as velhas narrações atestam que as iniciações na antiguidade continham um cerimonial imponente, tornado memorável para sempre pelas grandes verdades divulgadas e pelos conhecimentos que dele resultaram. Entretanto, ALGUNS MAÇONS MODERNOS DE MEIO-SABER se apressam em tratar de charlatães todos os que, felizmente, se lembram dessas antigas cerimônias e desejam aplicá-las" (Curso. Filos.)
Parte XII
"Vanitas, vanitatum": Nada é novo sob o Sol. As "litanias da Virgem Maria" o provam da maneira mais categórica. O Papa Gregório I introduziu a adoração da Virgem Maria, e o Concílio de Caldedônia proclamou-a Mãe de Deus. Mas, o autor das Litanias não teve receio (talvez por culpa de sua inteligência) de orná-las com o títulos e adjetivos pagãos, como o demonstrarei.
Não há um símbolo ou metáfora nessas célebres Litanias que não pertença a um mundo de deusas; todas são Rainhas, Virgens ou Mães. Esses três títulos se aplicavam a Ísis, Rhea, Cibele, Diana, Lucífera, Lucina, Luno, Tellus, Latone, Triformis, Proserpina, Hécate, Juno, Vesta, Ceres, Leucotéia, Astarté, a celeste Vênus e Urânia, Alma Vênus, etc., etc...
Ao lado do significado primitivo da Trindade (significado esotérico, ou o do Pai, da Mãe e do Filho), não encontramos nós o "Trimurti" oriental (Deus de três faces), que no Panteão maçônico representa: "o Sol, a Lua e o Venerável"?. Ligeira alteração, em verdade, do Norte e do germânico Fogo, Sol e Lua?
Talvez fosse o íntimo conhecimento disto que fez o maçom Ragon escrever a seguinte profissão de fé:
"Para mim, o filho é o mesmo que Hórus, filho de Osíris e de Ísis; ele é o Sol que, cada ano, salva o mundo da esterilidade, e todas as raças da morte universal".
E ele continua falando das litanias da Virgem Maria, dos templos, das festas, das missas e dos serviços da Igreja, das peregrinações, oratórios, jacobinos, franciscanos, vestais, prodígios, "ex-voto", nichos, estátuas, etc...
De Marville, um grande hebraísta, tradutor da literatura rabínica, observa que os judeus dão à Lua todos os nomes que se acham nas Litanias e são utilizados para glorificar a Virgem. Encontra nas "Litanias de Jesus" todos os atributos de Osíris - o Sol Eterno - e de Hórus - o Sol anual.
E ele o prova.
"Mater Christi" é a mãe do "Redentor" dos antigos maçons, que é o "Sol". Entre os egípcios, os "hoi polloi" pretendiam que o Menino, símbolo da grande estrela central, Hórus, era o Sol de Osireth e Oseth, cujas almas, depois de sua
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morte, haviam animado o Sol e a Lua. Com os fenícios, Ísis se tornou Astarté, nome sob o qual adoravam a Lua personificada por uma mulher ornada de chifres que simbolizavam o crescente. Astarté era representada no equinócio de outono, depois que seu esposo (o Sol) tinha sido vencido pelo Príncipe das Trevas, e descido aos infernos, chorando a perda deste esposo, que é também, seu filho, tal qual o faz Ísis chorando seu esposo, irmão e filho (Osíris e Hórus). Astarté tem em sua mão uma vareta cruciforme, uma autêntica cruz, e chora sobre o crescente da Lua. A Virgem-Maria cristã é freqüentemente representada na mesma atitude, de pé sobre a Lua Nova, cercada de estrelas e chorando seu filho: "justa crucem lacrymosa dum pendebat filius" (ver o "Stabat Mater Dolorosa"). Não está aí a sucessora de Astarté, de Ísis? - pergunta o autor.
Realmente, basta recitarmos as "Litanias da Virgem" da Igreja Católica Romana, para verificar que repetimos os antigos encantamentos dirigidos à Adonaia (Vênus), a mãe de Adônis, o Deus Solar de tantas nações; à Mylitta (a Vênus assíria), deusa da Natureza; à Alilat, que os árabes simbolizam por dois chifres lunares; à Selene, mulher e irmã de Hélios, o deus Sol dos gregos; ou à "Magna Mater... honestissima, purissima, castissima", a Mãe Universal de todos os Seres, porque é a NATUREZA MÃE.
"Maria" é realmente a Ísis Myrionymos, a deusa mãe dos dez mil nomes! Como o Sol, que era Febo nos céus, tornou-se Apolo na terra e Plutão nas regiões mais inferiores (depois do por do Sol), da mesma forma a Lua, que era Feba nos céus, Diana na terra (Gaia, Latone, Ceres), tornou-se Hécate e Proserpina no Hades. Será espantoso que Maria seja chamada "Regina Virginum", "Rainha das Virgens", e "castissima", "a mais casta", quando as próprias orações que lhe são dirigidas às seis horas da manhã e da tarde, foram copiadas daquelas cantadas pelos gentios (pagãos), "às mesmas horas", em honra de Feba e de Hécate? Sabemos que os versos das "Litanias da Virgem Stella Matutina" é uma cópia fiel do verso que se encontra nas Litanias dos "Triformis" dos pagãos. Foi o Concílio que condenou Nestorius, por ter designado, pela primeira vez, Maria como a "Mãe de Deus", "Mater Dei".
Mais tarde teremos algo a dizer sobre essas famosas Litanias da Virgem, e demonstraremos plenamente sua origem. Colheremos as provas extraídas dos clássicos e dos modernos à medida que avançarmos, e completaremos o conjunto com os "Anais" das Religiões, tais como se encontram na doutrina esotérica. Enquanto esperamos, incorporaremos algumas outras exposições e daremos a etimologia dos termos, os mais sagrados, do ritual eclesiástico.
PARTE XIII
Prestemos alguns momentos de atenção às assembléias dos "Construtores do Templo Superior" nos primeiros tempos do Cristianismo. Ragon nos mostrou plenamente a origem dos seguintes termos:
a) "A palavra 'Missa' vem do latim MESSIS - 'colheita', donde o nome de MESSIAS, aquele que faz amadurecer as colheitas - 'Cristo-Sol'.
b) A palavra 'Loja', da qual se servem os maçons, fracos sucessores dos Iniciados, toma sua raiz em LOGA (LOKA em sânscrito), uma localidade e um MUNDO; e do grego LOGOS - a Palavra, um discurso, cujo pleno significado é: um local onde certas coisas são discutidas".
c) As reuniões dos LOGOS dos Maçons, PRIMITIVOS INICIADOS, acabaram sendo chamadas SYNAXIS, 'assembléias' de Irmãos, com o fim de rezar e celebrar a Ceia (refeição), onde eram utilizadas somente as oferendas não manchadas de sangue, tais como os frutos e cereais. Logo depois essas oferendas foram chamadas HOSTIAE, ou HOSTIAS puras e sagradas, em contraste com os sacrifícios impuros (como os prisioneiros de guerra, HISTES, donde o francês HOSTAGE - ÔTAGE ou REFÉM), e porque as oferendas consistiam de frutos da colheita, as primícias de MESSIS. Já que nenhum Pai da Igreja menciona, como certos sábios o teriam feito, que a palavra missa vem do hebreu MISSAH (OBLATUM, oferenda), esta explicação é tão boa quanto a outra. (Para um estudo profundo da palavra Missah e Mizda, ver os GNOSTICOS, de King, p. 124 e seguintes).
A palavra SYNAXIS tinha seu equivalente entre os gregos na palavra AGYRMOS (reunião de homens, assembléia). Referia-se à Iniciação nos Mistérios. As duas palavras, SYNAXIS e AGYRMOS (14) caíram em desuso, e a palavra MISSA prevaleceu e ficou.
Desejosos com estão os teólogos de velar pela sua etimologia, diremos que o termo "Messias" (Messiah) deriva da palavra latina MISSUS (Mensageiro, o Enviado). Mas, se assim é, essa palavra poderia também ser aplicada ao Sol, o mensageiro anual, enviado para trazer nova vida à terra e à sua produção. A palavra hebraica Messiah, MASHIAH (o ungido, de Mashah, ungir) dificilmente poderia ser aplicada no sentido eclesiástico, ou seu emprego ser justificado como autêntico, tanto quanto a palavra latina MISSAH (missa) não deriva da outra palavra latina MIT-TERE, MISSUM, "enviar" ou "reenviar". Porque o serviço
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da comunhão, seu coração e sua alma, se fundamenta na consagração e oblação da HÓSTIA (sacrifício), um pão ázimo (fino como uma folha) representando o corpo de Cristo na Eucaristia, e sendo feito de flor de farinha, é um desenvolvimento direto da colheita ou oferendas de cereais.
Ainda mais, as missas primitivas eram Ceias (ou último alimento do dia), simples refeição dos romanos, em que eles "faziam abluções", eram ungidos e se vestiam do SENATORY, e foram transformadas em refeições consagradas à memória da última ceia de Cristo.
No tempo dos apóstolos, os judeus convertidos se reuniam em seus SYNAXIS para ler os Evangelhos e suas correspondências (Epístolas). São Justino (ano 150 de nossa era) nos diz que essas Assembléias solenes eram feitas nos dias chamados "sun" (o dia do Senhor, e em latim, DIES MAGNUS). Nesses dias, havia o canto dos salmos, a "colação" do batismo com água pura e o ÁGAPE da Santa Ceia "com água e o vinho". Que tem a ver essa combinação híbrida das refeições romanas pagãs, erigidas em mistério sagrado pelos inventores dos dogmas da Igreja, com o MESSIAH hebreu, "aquele que deve descer às profundezas" (ou Hades), ou com o Messias (que é a sua tradução grega)? Como demonstrou Nork, JESUS JAMAIS FOI UNGIDO, NEM COMO GRANDE SACERDOTE, NEM COMO REI, e é por isso que seu nome MESSIAS não pode derivar da palavra equivalente hebraica, ainda mais que a palavra "ungido" ou "untado de óleo", termo homérico, é CHRI e CHRIO, ambos significando UNTAR O CORPO DE ÓLEO (ver Lúcifer, 1887: THE ESOTERIC MEANING OF THE GOSPELS - O Significado Esotérico dos Evangelhos).
As frases seguintes de um outro maçom de grau elevado, autor da SOURCES DES MESURES, resumem em algumas linhas esse "imbroglio" secular: "O fato é , diz ele, que existem DOIS MESSIAS: um, descendo por sua própria vontade ao abismo para a salvação do mundo (15) - é o Sol despojado de SEUS RAIOS DE OURO e coroado de raios negros como espinhos (simbolizando essa perda); o outro, o MESSIAS triunfante, que alcançou o ÁPICE DO ARCO DO CÉU, personificado pelo LEÃO DA TRIBO DE JUDÁ. Em ambos os casos, ele tem a cruz...
Nas AMBARVALIAS, festas romanas dadas em honra de Ceres, o ARVAL, assistente do Grande Sacerdote, vestido de branco imaculado, colocava sobre a HOSTIA (a oferenda do sacrifício) um bolo de trigo, água e vinha; provava o vinho das libações e dava-o a provar aos outros. A OBLAÇÃO (ou oferenda) era então erguida pelo Grande Sacerdote. Tal oferenda simbolizava os três reinos da natureza: o bolo de trigo (o reino vegetal), o vaso do sacrifício ou CÁLICE (o
As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria 40
reino mineral) e o PAL (a estola) do Hierofante, uma de cujas extremidades pousava sobre o cálice contendo o vinho da oblação. Essa estola era feita de pura lã branca de tosão de cordeiro.
Os padres modernos repetem gesto por gesto os atos do culto pagão. Eles erguem e oferecem o pão para a consagração; benzem a água que deve ser posta no cálice, e em seguida vertem o vinho, incensam o altar, etc., etc... e, voltando ao altar, lavam os dedos, dizendo: "Eu lavarei minhas mãos entre o Justo e rodearei teu altar, Ó Grande Deusa!" (Ceres). Assim o fazem porque o antigo sacerdote pagão assim o fazia, e dizia: "Eu lavo minhas mãos (com água lustral) entre o Justo (os irmãos completamente iniciados) e rodeio teu altar, ó Grande Deusa! (Ceres)".
O Grande Sacerdote fazia três vezes a volta ao altar, levando as oferendas, erguendo acima de sua cabeça o cálice coberto com a extremidade de sua estola feita de lã de cordeiro, branca como a neve...
A vestimenta consagrada, usada pelo Papa, PALLIUM, TEM A FORMA DE UMA MANTA FEITA DE LÃ BRANCA, COM UM GALÃO DE CRUZES PÚRPURAS. Na Igreja grega, o Padre cobre o cálice com a extremidade de sua estola pousada sobre seu ombro.
O Grande Sacerdote da antiguidade repetia três vezes durante o serviço divino seu "O Redemptor Mundi" a Apolo - o Sol; seu "Mater Salvatoris" a Ceres - a Terra; seu Virgo Partitura à Virgem Deusa, etc... pronunciando SETE COMEMORAÇÕES TERNÁRIAS. (Ouvi, ó maçons!). O número ternário tão reverenciado na antiguidade, como em nossos dias, é pronunciado sete vezes durante a Missa; temos três INTROITO, três KYRIE ELEISON, três MEA CULPA, três AGNUS DEI, três DOMINUS VOBISCUM, verdadeiras séries maçônicas. Acrescentemos-lhes os três ET CUM SPIRITU TUO, e a missa cristã nos oferecerá as mesmas SETE COMEMORAÇÕES TRÍPLICES.
Paganismo, Maçonaria, Teologia, tal é a trindade histórica que governa o mundo SUB-ROSA.
Podemos terminar com uma saudação maçônica, e dizer: Ilustre dignitário de Hiram Abif, Iniciado e "Filho da Viúva": o Reino das Trevas e da ignorância desaparece rapidamente, mas há regiões ainda inexploradas pelos sábios e que são tão negras quanto a noite do Egito.
FRATRES SOBRII ESTOTE ET VIGILATE.
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F I N I S
Ter, 30 de Agosto de 2011 00:18

1984 (Nineteen Eighty – Four) George Orwell

Publicado em Livros Escrito pelo Robespierre Cardoso da Cunha

ERA UM DIA FRIO E ENSOLARADO DE ABRIL, E OS RELóGIOS batiam treze horas. Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.

O saguão cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do fundo fôra pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna. Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a eletricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha de economia, preparatória da Semana do ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada acima do tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por tôda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda.

Dentro do apartamento uma voz sonora lia uma lista de cifras relacionadas com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica retangular semelhante a um espêlho fosco, embutido na parede direita. Winston torceu um comutador e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. Winston foi até a janela: uma figura miuda,

frágil, a magreza do corpo apenas realçada pelo macacão azul que era o uniforme do Partido. O cabelo era muito louro, a face naturalmente sanguínea, e a pele arranhada pelo sabão ordinário, as giletes sem corte e o inverno que mal terminara.

Lá fóra, mesmo através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Na rua, pequenos rodamoinhos de vento levantavam em pequenas aspirais poeira e papéis rasgados, e embora o sol brilhasse e o céu fosse dum azul berrante, parecia não haver côr em coisa alguma, salvo nos cartazes pregados em tôda parte. O bigodudo olhava de cada canto. Havia um cartaz na casa defronte, O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia o letreiro, e os olhos escuros procuravam os de Winston. Ao nível da rua outro cartaz, rasgado num canto, trapejava ao vento, ora cobrindo ora descobrindo a palavra INGSOC. Na distância um helicóptero desceu beirando os telhados, pairou uns momentos como uma varejeira e depois se afastou num vôo em curva. Era a Patrulha da Polícia, espiando pelas janelas do povo. Mas as patrulhas não tinham importância. Só importava a Polícia do Pensamento.

Por trás de 'Winston a voz da teletela ainda tagarelava a respeito do ferro gusa e da superação do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultâneamente. Qualquer barulho que Winston fizesse, mais alto que um cochicho, seria captado pelo aparelho; além do mais, enquanto permanecesse no campo de visão da placa metálica, poderia ser visto também. Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que freqüência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa dêste ou daquele individuo. Era concebivel, mesmo, que observasse todo mundo áo mesmo tempo. A realidade é que podía ligar determinada linha, no momento que desejasse. Tinha-se que viver - e vivia-se por hábito transformado em instinto na suposição de que cada som  era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro.

Winston continuou de costas para a teletela. Era mais seguro, conquanto até as costas pudessem falar. A um quilômetro dali o Ministério da Verdade, onde trabalhava, alteava-se, alvo e enorme, sôbre a paisagem fuliginosa. Era isto, pensou êle com uma vaga repugnância - isso era Londres, cidade principal da Pista N.O 1, por sua vez a terceira entre as mais populosas provincias da Oceania. Tentou encontrar na memória uma recordação infantil que lhe dissesse se Londres sempre tivera aquele aspecto. Haviam existido sempre aquelas apodrecidas casas do século dezenove, os flancos reforçados com espeques de madeira, janelas com remendos de cartolina e os telhados com chapa de ferro corrugado, e os muros doidos dos jardins, descaindo em tôdas as direções? E as crateras de bombas onde o pó de rebôco revoluteava no ar e o mato crescia à matroca sôbre os montes de escombros; e os lugares onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e tinham nascido sórdidas colónias de choças de madeira que mais pareciam galinheiros? Mas era inútil, não conseguia se lembrar: nada sobrava de sua infância, excepto uma série de quadros fortemente iluminados, que se sucediam sem pano de fundo e eram quase ininteligíveis.

O Ministério da Verdade - ou Miniver, em Novilíngua - era completamente diferente de qualquer outro objeto visível. Era uma enorme pirâmide de alvíssimo cimento branco, erguendo-se, terraço sôbre terraço, trezentos metros sôbre o solo. De onde estava Winston conseguia ler, em letras elegantes colocadas na fachada, os três lemas do Partido:

GUERRA É PAZ. LIBERDADE É ESCRAVIDÃO. IGNORANCIA É FORÇA.

Constava que o Ministério da Verdade continha três mil aposentos sôbre o nível do solo, e correspondentes ramificações no sub-solo. Espalhados por Londres havia outros três edifícios de aspecto e tamanho semelhantes. Dominavam de tal maneira a arquitetura circunjacente que do telhado da Mansão Vitória era possível avistar os quatro ao mesmo tempo. Eram as sedes dos quatro Ministérios que entre si dividiam todas as funções do governo: o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas.      Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto.

O Ministério do Amor era realmente atemorizante.  Não tinha janela alguma. Winston nunca estivera lá, nem a  menos de um quilômetro daquele edifício. Era um prédio impossível de entrar, excepto em função oficial, e assim mesmo atravessando um labirinto de rolos de arame farpado, portas de aço e ninhos de metralhadoras. Até as ruas que conduziam às suas barreiras externas eram percorridas por guardas de cara de gorila e fardas negras, armados de porretes articulados.

Winston voltou-se abruptamente. Afivelara no rosto a expressão de tranquilo otimismo que era aconselhável usar quando de frente para a teletela. Atravessou o cômodo e entrou na cozinha minúscula. Saindo do Ministério àquela hora, sacrificara o almoço na cantina, e sabia que não havia na casa mais alimento que uma côdea de pão escuro, que seria a sua refeição matinal, no dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com um rótulo branco em que se lia GIN VITóRIA. Tinha um cheiro enjoado, oleoso, como de vinho de arroz chinês. Winston serviu-se de quase uma xícara de gin, contraiu-se para o choque e enguliu-a de vez, como uma dose de remédio.

Instantâneamente, ficou com o rosto rubro, e os olhos começaram a lacrimejar. A bebida sabia a ácido nítrico, e ao bebê-la tinha-se a impressão exata de ter levado na nuca uma pancada com um tubo de borracha. No momento seguinte, porém, a queimação na barriga amainou e o mundo lhe pareceu mais ameno. Tirou um cigarro da carteira de CIGARROS VITóRIA e imprudentemente segurou-o na vertical, com que todo o fumo caiu ao chão. Puxou outro cigarro, com mais cuidado. Voltou à sala de estar e sentou-se a uma pequena mesa à esquerda da teletela. Da gaveta da mesa tirou uma caneta, um tinteiro, e um livro em branco, de lombo vermelho e capa de cartolina mármore.

Por um motivo qualquer, a teletela da sala fôra colocada em posição fóra do comum. Em vez de ser colocada, como era normal, na parede do fundo, donde poderia dominar todo o aposento, fôra posta na parede mais longa, diante da janela. A um dos seus lados ficava a pequena reentrância onde Winston estava agora sentado, e que, na construção do edifício, fôra provàvelmente destinada a uma estante de livros. Sentando-se nessa alcova, e mantendo-se junto à parede, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que respeitava à vista. Naturalmente, podia ser ouvido mas, contanto que permanecesse naquela posição, não podia ser visto. Em parte, fôra a extraordinária topografia do cômodo que lhe sugerira o que agora se dispunha a fazer, Mas fôra também sugerido pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um livro lindo. O papel macio, côr de creme, ligeiramente amarelado pelo tempo, era de um tipo que não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Era de ver, entretanto, que devia ser muito mais antigo. Vira-o na vitrina de um triste bricabraque num bairro pobre da cidade (não se lembrava direito do bairro) e fôra acometido imediatamente do invencível desêjo de possui-lo. Os membros do Partido não deviam entrar em lojas comuns ("transacionar no mercado livre," dizia-se), mas o regulamento não era estritamente obedecido, porque havia várias coisas, como cordões de sapatos e giletes, impossíveis de conseguir de outra forma. Relanceara o olhar pela rua e depois entrara, comprando o caderno por dois dólares e cinquenta. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para nenhum propósito definido. Levara-o para casa, às escondidas, na sua pasta. Mesmo sendo em branco, o papel era propriedade comprometedora.

O que agora se dispunha a fazer era abrir um diário. Não era um ato ilegal (nada mais era ilegal, pois não havia mais leis), porém, se descoberto, havia razoável certeza de que seria punido por pena de morte, ou no minimo vinte e cinco anos num campo de trabalhos forçados. Winston meteu a pena na caneta e chupou-a para tirar a graxa. A pena era um instrumento arcaico, raramente usada, mesmo em assinaturas, e êle conseguira uma, furtivamente, com alguma dificuldade, apenas por sentir que o belo papel creme merecia uma pena de verdade em vez de ser riscado por um lapis-tinta. Na verdade, não estava habituado a escrever a mão. Exceto recados curtíssimos, o normal era ditar tudo ao falascreve, o que naturalmente era impossível no caso. Molhou a pena na tinta e hesitou por um segundo. Um trernor lhe agitara as tripas. Marcar o papel era um ato decisivo. Com letra miuda e desajeitada escreveu:

4 de abril de 1984

Encostou-se ao espaldar. Descera sôbre êle uma sensação de completo desespêro. Para começar, não sabia com a menor certeza se o ano era mesmo 1984. Devia ser mais ou menos isso, pois estava convencido de que tinha trinta e nove anos, e acreditava ter nascido em 1944 ou 45; hoje em dia, porém, não era nunca possível fixar uma data num ou dois anos.

De repente ocorreu-lhe uma pergunta. Para quem estava escrevendo aquele diário? Para o futuro, os que não haviam nascido. Sua mente pairou um momento sôbre a data duvidosa que escrevera e de repente se chocou contra a palavra duplipensar em Novilíngua. Pela primeira vez percebeu de todo a magnitude do que empreendera. Como poderia se comunicar com o futuro? Era impossivel, pela própria natureza. Ou o futuro seria parecido com o presente, caso em que não lhe daria ouvidos, ou seria diferente, e nesse caso a sua situação não teria sentido.

Por algum tempo ficou olhando o papel estúpidamente. A teletela agora tocava estridente música militar. O curioso era que êle parecia não só ter perdido o poder de se exprimir como esquecido o que tinha em mente. Havia semanas que se preparava para aquele momento, e nunca lhe passara pela cabeça a idéia de precisar de mais que coragem. Escrever seria fácil. Tudo que tinha a fazer era transferir para o papel o intérmino e inquieto monólogo que se desenrolava na sua mente, fazia anos. Naquele momento, todavia, até o monólogo secara. Além disso, a variz comichava danadamente. E não ousava coçá-la, pois quando o fazia sempre inflamava. Os segundos passavam. De nada tinha consciência excepto da brancura do papel à sua frente, a coceira acima do tornozelo, o berreiro da música e uma leve bebedeira causada pelo gin.

De repente, pôs-se a escrever por puro pânico, mal percebendo o que estava registrando. A letra miúda e infantil traçou linhas tortas pelo papel, abandonando primeiro as maiúsculas e depois até os pontos:

4 de abril de 1984. Ontem à noite ao cinema. Tudo fitas de guerra. Uma muito boa dum navio cheio de refugiados bombardeado no Mediterrâneo. Público muito divertido com cenas de um homenzarrão gordo tentando fugir nadando dum helicóptero. primeiro se via êle subindo descendo nágua que nem golfinho, depois pelas miras do helicóptero, e daí ficava cheio de buracos o mar perto ficava rosa e de repente afundava como se os furos tivessem deixado entrar água. público dando gargalhadas quando afundou. então viu-se um escaler cheio de crianças com um helicóptero por cima. havia uma mulher de meia idade talvez judia sentada na proa com um menininho duns três anos nos braços. garotinho gritando de medo e escondendo a cabeça nos seios dela como querendo se refugiar e mulher pondo os braços em torno dele e consolando apesar de tambem estar roxa de medo. todo tempo cobrindo êle o mais possível como se os braços pudessem protegê-lo das balas. então o helicóptero soltou uma bomba de 20 quilos em cima dêles clarão espantoso e o bote virou cisco. daí uma ótima fotografia dum braço de criança subindo subindo subindo um helicóptero com a câmara no nariz deve ter acompanhado e houve muito aplauso no lugar do partido mas uma mulher da parte dos proles de repente armou barulho e começou gritar que não deviam exibir fita assim pras crianças não é direito na frente de crianças não e daí e tal até que a,polícia a botou na rua não acho que aconteceu nada para ela ninguém se importa com o que os proles dizem reação prole típica eles nunca...

Winston parou de escrever, em parte por sentir câibras na mão. Não sabia o que o levara a soltar aquela torrente de bobagem. O curioso, porém, é que, ao fazê-lo, uma recordação inteiramente diferente se esclarecera em sua memória, ao ponto de quase se sentir capaz de narrá-la. Percebia agora que fôra por causa do outro incidente que de súbito resolvera ir para casa e iniciar o seu diário aquele dia.

Sucedera aquela manhã no Ministério, se é possível dizer, que sucede algo tão nebuloso.

Eram quase onze horas e no Departamento de Registro, onde Winston trabalhava, já arrastavam cadeiras dos cubículos e as arrumavam no centro do salão, diante da grande teletela, preparando-se para os Dois Minutos de ódio. Winston ia ocupando seu lugar numa das filas do meio quando entraram inesperadamente na sala duas pessoas que conhecia de vista, mas com quem nunca falara. Uma delas era uma moça com quem se encontrara muitas vezes nos corredores. Não sabia como se chamava, mas sabia que trabalhava no Departamento de Ficção. Era de presumir - pois a vira levando uma chave inglêsa nas mãos sujas de graxa - que fosse mecânica de uma das máquinas de novelizar. Devia ter uns vinte e sete anos, e era de aparência audaciosa, com cabelo negro e espesso, rosto sardento e movimentos rápidos, atléticos. Uma estreita faixa escarlate, emblema da Liga Juvenil Anti-Sexo, dava várias voltas à sua cintura, o suficiente para realçar as curvas das ancas. Winston antipatizara com ela desde o primeiro momento. E sabia porquê. Era por causa da atmosfera de campos de hóquei, chuveiro frio, piqueniques e grande linha moral que conseguia inspirar. Êle antipatizava com tÔdas as mulheres, principalmente com as moças e bonitas. Eram sempre as mulheres, e principalmente as moças, os militantes mais fervorosos do Partido, os devoradores de palavras de ordem, os espiões amadores e os espiculas dos desvios. Esta jovem lhe dava a impressão de ser mais perigosa que a maioria. Uma vez que se haviam cruzado no corredor, ela lhe lançara um rápido olhar de esguelha que parecia tê-lo penetrado até o imo, e o enchera de terror. Até lhe ocorrera a idéia de que talvez fosse da Polícia do Pensamento. Na verdade, isso era pouco provável. Entretanto, continuava sentindo um estranho mal-estar, em cuja composição havia medo e hostilidade, e que sobrevinha sempre que ela sempre se aproximava.

A outra pessoa era um homem chamado O'Brien, membro do Partido Interno e ocupante de um posto tão remoto e de tamanha importância que Winston dêle só tinha uma vaga idéia. Um silêncio momentâneo calou o grupo reunido em torno das cadeiras quando viu o macacão negro do Partido Interno. O'Brien era um homem grande, troncudo, de pescoço taurino e rosto grosseiro, engraçado, brutal. Apesar da sua aparência temível tinha maneiras até distintas. Seu tique de re-arranjar os óculos no nariz, um gesto curioso, desarmava e - de certo modo indefinivel - parecia civilizado. Era um gesto que, se alguém ainda pensasse em velharias tais, poderia recordar um fidalgo do século dezoito oferecendo a caixa de rapé. Winston vira O'Brien talvez meia dúzia de vezes em outros tantos anos. Sentia-se fundamente atraido por êle, e não apenas por se sentir intrigado pelo contraste entre a urbanidade de O'Brien e o seu físico de pugilista. Era muito mais por causa de uma crença secreta     ou talvez não chegasse a crença, fosse mera esperança     de que não era perfeita a ortodoxia política de O'Brien. Havia em sua fisionomia algo que dava essa impressão. Ou ainda, talvez não fosse ortodoxia o que estava escrito em seu rosto, mas apenas inteligência. De qualquer forma, tinha o aspecto de ser pessoa com que se podia conversar, se fosse possível fraudar a teletela e falar-lhe a sós. Winston jamais fizera o menor esforço de verificar sua posição; na verdade, não havia maneira de o fazer. Naquele momento O'Brien olhou o relógio-pulseira, viu que eram quase onze horas e evidentemente resolveu ficar no Departamento de Registro até acabarem os Dois Minutos de ódio. sentou-se numa cadeira da mesma fila que Winston, a dois passos dêle. Entre os dois encontrava-se uma mulherzinha de cabelo côr de areia, que trabalhava no cubículo contíguo. A moça do cabelo escuro ocupou uma cadeira logo atrás.

Mais um instante, e um guincho horrendo, áspero, como de uma máquina monstruosa funcionando sem óleo, saiu da grande teletela. Era um barulho de fazer ranger os dentes e arrepiar os cabelos da nuca. O ódio começara.

Como de hábito, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Aqui e ali houve assovios entre o público. A mulherzinha de cabelo côr de areia emitiu um uivo misto de medo e repugnância. Goldstein era o renegado e traidor que um dia, muitos anos atrás (exatamente quantos ninguém se lembrava) fôra uma das figuras de proa do Partido, quase no mesmo plano que o próprio Grande Irmão, tendo depois se dedicado a atividades contrarevolucionárias, sendo por isso condenado à morte, da qual escapara, desaparecendo misteriosamente. O programa dos Dois Minutos de ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido.   Todos os subsequentes crimes contra o Partido, tôdas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, provinham diretamente dos seus ensinamentos. Nalguma parte do mundo êle continuava vivo e tramando suas conspirações: talvez no além-mar, sob proteção dos seus patrões estrangeiros; talvez até mesmo - de vez em quando corria o boato - nalgum esconderijo na própria Oceania.

Winston sentiu contrair-se o diafragma. Nunca podia ver a face de Goldstein sem uma dolorosa mistura de emoções. Era um rosto judaico, magro, com um grande halo de cabelo branco esgrouviado e um pequeno cavanhaque - um rosto arguto e no entanto, de certo modo, intrinsecamente desprezível, com um ar de tolice senil no nariz comprido e fino no qual se equilibravam os óculos. Parecia a cara duma ovelha, e a voz também recordava um balido. Goldstein lançava o costumeiro ataque peçonhento às doutrinas do Partido - um ataque tão exagerado e perverso que uma criança poderia refutá-lo, e no entanto suficientemente plausível para encher o cidadão de alarme, de receio que outras pessoas menos equilibradas o pudessem aceitar. Insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histèricamente que a revolução fôra traída - e tudo numa linguagem rápida, polissilábica, que era uma espécie de paródia do estilo habitual dos oradores do Partido, e até continha palavras em Novilíngua: maior número dessas palavras, com efeito, do que qualquer membro do Partido usaría na vida diária. E todo o tempo, para que não persistissem dúvidas quanto à realidade oculta pela lenga-lenga especiosa de Goldstein, marchavam por trás de sua cabeça, na teletela, infindas colunas do exército eurasiano - fileiras após fileiras de homens sólidos com rostos asiáticos, sem expressão, que vinham até a superfície da placa e sumiam, para ser seguidos por outros exatamente idênticos. O ritmo cavo e monótono das botas dos soldados formava uma cortina sonora para os balidos de Goldstein.

Antes do ódio se haver desenrolado por trinta segundos, metade dos presentes soltava incontroláveis exclamações de fúria. Era demais, suportar a vista daquela cara de ovelha satisfeita e do poderio terrífico do exército eurasiano, mostrado na tela: além disso, ver ou mesmo pensar em Goldstein produzia automàticamente medo e raiva. Era objeto de ódio mais constante que a Eurásia ou a Lestásia porquanto, quando a Oceania estava em guerra com uma dessas potencias, em geral estava em paz com a outra. O estranho, todavia, é que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os dias, e milhares de vezes por dia, nas tribunas, teletelas, jornais, livros, suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos olhos de todos como lixo atoa... e apesar de tudo isso, sua influência nunca parecia diminuir. Havia sempre novos bocós esperando para ser seduzidos. Não se passava dia sem que espiões e sabotadores, obedientes a ordens dêle, não fossem desmascarados pela Polícia do Pensamento. Era comandante de um vasto exército de sombras, uma rede subterrânea de conspiradores dedicados à derrocada do Estado. Supunha-se que se chamava a Fraternidade. Murmurava-se também a respeito de um livro terrível, um compêndio de tôdas as heresias, escrito por Goldstein, e que circulava clandestinamente aqui e ali. Era um livro sem título. Referiam-se a êle, simplesmente, por o livro. Mas só se sabia dessas coisas através de vagos boatos. Nem a Fraternidade nem o livro eram assuntos que um militante comum do Partido mencionasse.

No segundo minuto o ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras, e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela. A mulherzinha do cabelo de areia ficara tôda rosa, e abria e fechava a bôca como peixe jogado à terra. Até o rosto másculo de O'Brien estava corado. Estava sentado muito teso na sua cadeira, o peito largo se alteando e agitando como se resistisse ao embate duma vaga. A morena atrás de Winston pusera-se a berrar "Porco! Porco! Porco!" De repente, apanhou um pesado dicionário de Novilíngua e atirou-o à tela. O livro atingiu o nariz de Goldstein e ricochetou; a voz continuou, inexorável. Num momento de lucidez, Winston percebeu que êle também estava gritando com os outros e batendo os calcanhares violentamente contra a travessa da cadeira. O horrível dos Dois Minutos de ódio era que embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir aos outros. Em trinta segundos deixava de ser preciso fingir. Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um horrível êxtase de medo e vindita, um desêjo de matar, de torturar, de amassar rostos com um malho, transformando o indivíduo, contra a sua vontade, num lunático a uivar e fazer caretas. E no entanto, a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum maçarico. Assim, havia momentos em que o ódio de Winston não se dirigia contra Goldstein mas, ao invés, contra o Grande Irmão, o Partido e a Polícia do Pensamento; e nesses momentos o seu coração se aproximava do solitário e ridicularizado herege da tela, o único guardião da verdade e da sanidade num mundo de mentiras. No entanto, no instante seguinte se irmanava com os circunstantes, e tudo quanto se dizia de Goldstein lhe parecia verdadeiro. Nesses momentos, o seu ódio secreto pelo Grande Irmão se transformava em adoração, e o Grande Irmão parecia crescer, protetor destemido e invencível, firme como uma rocha contra as hordes da Ásia, e Goldstein, apesar do seu isolamento, sua fraqueza e da dúvida que cercava a sua própria existência, lhe parecia um hipnotizador sinistro, capaz de destruir a estrutura da civilização pelo mero poder da voz.

Nesses momentos era até possível dirigir o ódio neste ou naquele rumo, por ato voluntário. De repente, por uma espécie desse esforço violento com que, num pesadelo, se arranca a cabeça do travesseiro, Winston conseguiu transfe-

rir para a moça de cabelo escuro, sentada atrás dêle, o ódio que antes dedicava à figura da telâ. Belas e vívidas alucinações lhe atravessaram o cérebro. Haveria de matá-la a golpes de um cajado de borracha. Amarrá-la-ia nua a um poste e a crivaria de flechas como São Sebastião. Possui-la-ia e a degolaria no momento do gôzo. Além disso, percebeu mais claro que antes porque a odiava. Odiava-a porque era jovem, bonita e assexuada, porque desejava ir para a cama com ela, e porque nunca o faria, porque na cinturinha fina e convidativa, que parecia pedir que a segurassem com o braço, só havia a odiosa faixa escarlate, o agressivo símbolo de castidade.

O ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein transformara-se de fato num balido de ovelha, e por um instante o rosto se transformou numa cara de carneiro. Depois a cara de carneiro se fundiu na de um soldado eurasiano que parecia avançar, enorme e terrível, com a metralhadora de mão rugindo, parecendo saltar da superfície da tela, de modo tão real que alguns da primeira fileira se inclinaram para trás. No mesmo momento, porém, arrancando um fundo suspiro de alívio de todos, a figura hostil fundiu-se na fisionomia do Grande Irmão, de cabelos e bigodes negros, cheio de força e de misteriosa calma, e tão vasta que tomava quase toda a tela. Ninguém ouviu o que o Grande Irmão disse. Eram apenas palavras de incitamento, o tipo das palavras que se pronunciam no vivo do combate, palavras que não se distinguem individualmente mas que restauram a confiança pelo fato de serem ditas. Então o rosto do Grande Irmão sumiu de novo e no seu lugar apareceram as três divisas do Partido, em maiúsculas, em negrito:

GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA

Mas o rosto do Grande Irmão pareceu persistir por vários segundos na tela, como se o seu impacto nas pupilas fosse forte demais para se esmaecer tão rápido. A mulherzinha do cabelo côr de areia atirara-se sôbre o espaldar da cadeira que tinha à frente. Com um murmurio trêmulo que parecia dizer "Meu Salvador", extendeu os braços para a tela. Depois ocultou a face nas mãos. Era claro que orava.

Nesse momento, todo o grupo se pÔs a entoar um cantochão ritmado "G.I.!...G.I.! ... G.I.!" repetido inúmeras vezes, com uma longa pausa entre o G e o I - um som cavo e surdo, curiosamente selvagem, no fundo do qual se parecia ouvir batidas de pés nús e o rufo dos atabaques. Durou meio minuto talvez. Era um estribilho que se ouvia com frequência nos momentos de emoção dominadora. Era em parte um hino à sapiência e majestade do Grande Irmão porém, mais que isso, era auto-hipnotismo, o afogar deliberado da consciência por meio do barulho rítmico. As entranhas de Winston pareceram esfriar. Durante os Dois Minutos de ódio, não era possível deixar de participar do delírio geral, mas aquele cântico sub-humano "G.I.! ... G.I.!" sempre o enchia de pavor. Naturalmente, cantava com os outros: seria impossível proceder doutra forma. Dominar os sentimentos, controlar as feições, fazer o que todo mundo fazia, era uma reação instintiva. Havia porém um lapso de dois segundos em que a expressão de seus olhos poderia trai-lo. E foi exatamente nesse lapso que   a coisa sucedera - se é que de fato sucedera.

Momentâneamente, seu     olhar encontrara o de O'Brien, que se erguera. Tirara os    óculos e ia colocá-los no lugar, com um gesto característico. Mas houve uma fração de segundo em que os olhares se   encontraram e, enquanto durou, Winston viu - sim, viu! -     que O'Brien estava pensando o mesmo que êle. Completara-se uma inequívoca comunicação. Fôra como se os dois espíritos se abrissem e os pensamentos de um passassem ao outro, pelos olhos. "Estou contigo," pareceu dizer-lhe O'Brien. "Sei exatamente o que sentes. Sei tudo de teu desprezo, teu ódio, teu nojo. Mas não te aflijas, estou a teu lado!" E daí sumira-se a faísca de inteligência e a face de O'Brien se tornara inescrutável como a de todos.

Fôra tudo, e êle já nem tinha a certeza de que de fato acontecera. Tais incidentes jamais tinham seqüela. Tudo que faziam era manter viva, dentro dele, a fé, ou a esperança, de que houvesse outros inimigos do Partido. Afinal de contas, talvez fossem verdadeiros os boatos de vastas conspirações subterrâneas - quiçá existisse mesmo a Fraternidade! Era impossível, não obstante as infindas prisões, confissões e execuções, ter a certeza de que a Fraternidade não passava de invencionice. Alguns dias êle acreditava, outros não. Não havia provas, apenas visões fugidias que podiamsignificar algo ou nada: trechos de conversa entreouvida, rabiscos apagados nas paredes das privadas - e uma vez, até, no encontro de dois desconhecidos, um pequeno movimento de mãos que talvez fosse um sinal identificador. Era tudo palpite: provàvelmente imaginara a coisa. Voltou ao cubículo sem tornar a olhar para O'Brien. Mal lhe passara pela cabeça a idéia de aprofundar o contacto momentâneo. Seria inconcebivelmente perigoso, mesmo que soubesse como agir. Durante um segundo, dois, haviam trocado um olhar equívoco, e era o fim da história. Mas até aquilo era um acontecimento memorável, na   solidão amuralhada em que se era obrigado a viver.

Winston levantou-se   e acomodou-se melhor na cadeira. Soltou um arroto. Era o   gin que lhe subia do estômago.

Seus olhos tornaram a focar a página. Descobriu que estivera escrevendo, num  gesto automático, ao mesmo tempo que a memória divagava. E não era mais a letra desajeitada e miuda de antes. A pena correra voluptuosamente sôbre o papel macio, escrevendo em grandes letras de imprensa:

ABAIXO o GRANDE IRMÃO

ABAIXO o GRANDE IRMÃO

ABAIXO o GRANDE IRMÃO

ABAIXO o GRANDE IRMÃO

ABAIXO o GRANDE IRMÃO

muitíssimas vezes, enchendo meia página.

Não pôde deixar de sentir um laivo de pânico. Era absurdo, pois escrever aquelas palavras não era mais perigoso que o ato inicial de abrir o diário, mas,por um momento se sentiu tentado a rasgar as páginas usadas e abandonar por completo a empresa.

Não o fez, contudo, porque sabia ser inútil. Quer escrevesse ABAIXO O GRANDE IRMÃO ou não, não fazia diferença. Quer continuasse o diário, quer parasse, não fazia diferença. A Polícia do Pensamento o apanharia do mesmo modo. Cometera - e teria cometido, nem que não levasse a pena ao papel - o crime essencial, que em si continha todos os outros. Crimidéia, chamava-se. O crimidéia não era coisa que pudesse ocultar. Podia-se escapar com êxito algum tempo, anos até, porém mais cedo ou mais tarde pegavam o criminoso.

E era sempre à noite - as prisões eram sempre à noite.

O súbito arranco ao sono, a mão rude sacudindo o ombro, as luzes ferindo os olhos, o círculo de caras implacáveis em torno da cama. Na vasta maioria dos casos não havia julgamento, nem notícia da prisão. As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. O nome do cidadão era removido dos registros, suprimida tôda menção dele, negada sua existência anterior, e depois esquecido.      Era-se abolido, aniquilado; vaporizado era o termo corriqueiro.

Winston foi dominado por breve ataque de histeria. Pôsse a escrever em garranchos apressados:

me darão um tiro que mimporta me darão um tiro na nuca não mimporta abaixo o grande irmão eles sempre dão tiro na nuca que mimporta abaixo o grande irmão

Ergueu-se um pouco na cadeira, ligeiramente envergonhado de si próprio, e largou a caneta. Dali a um segundo levou um susto enorme. Batiam à porta.

Já?!  Deixou-se ficar, quieto como um camondongo, na esperança vã de que a pessoa se fosse sem insistir. Mas não, a batida repetiu-se. Seria pior atrasar-se. Com o coração batendo como um tambor - mas com a face provavelmente sem expressão, graças ao velho hábito - êle se levantou e encaminhou-se para a porta a passos tardos.

2

Quando pôs a mão no trinco viu que deixara o diário aberto na mesa. ABAIXO O GRANDE IRMÃO lia-se em tôda a página, em letras quase visíveis da porta, de tão grandes. Cometera um erro incrivelmente estupido. Percebeu, entretanto, que mesmo no seu pânico não quisera sujar o belo papel creme fechando o caderno sôbre a tinta fresca.

Respirou fundo e abriu a porta. Instantâneamente, uma vaga de alívio o dominou. Uma mulher incolor, insignificante, de cabelo ralo e pele encarquilhada, surgiu no vão.

Oh, camarada - disse, num gemido soturno - ouvi tua chegada. Achas que podes vir dar uma olhada na minha pia da cozinha? Entupiu...

Era a sra. Parsons, esposa de um vizinho do mesmo andar. ("Sra. era termo um tanto antipatizado pelo Partido - o correto era chamar todo mundo de "camarada" - mas com certas mulheres era usado instintivamente.) Teria uns trinta anos, mas parecia muito mais velha. Dava a impressão de ter poeira nas rugas. Winston seguiu-a pelo corredor. Êsses consertos amadores eram uma chatice quase diária. A Mansão Vitória era um prédio antigo, construido por volta de 1930, e estava caindo aos pedaços. O reboco vivia caindo às placas das paredes e do forro, os canos arrebentavam com qualquer geada, havía goteiras sempre que nevava um pouco, o sistema de aquecimento em geral funcionava a meio-vapor quando não o fechavam de vez, para economizar combustível. Os concertos, excepto os que os próprios inquilinos pudessem executar, dependiam da sanção de remotos comités, capazes de adiar dois anos a substituição duma vidraça quebrada.

- É só porque o Tom não está - explicou a sra. Parsons vagamente.

O apartamento dos Parsons era maior que o de Winston, e lúgubre de outra maneira. Tudo tinha um aspecto pisado, amassado, como se a casa acabasse de ser visitada por um animal violento. Acessórios esportivos - tacos de hóquei, luvas de boxe, uma bola furada, um par de shorts suados virados pelo avesso - jaziam no soalho, e sôbre a mesa havia uma pilha de pratos sujos e de cadernos de exercício, sebentos e orelhudos. Nas paredes viam-se bandeiras escarlates da Liga da Juventude e dos Espiões, e um cartaz tamanho natural do Grande Irmão. Pairava no ar o costumeiro cheiro de repolho cozido, comum a todo o edifício, mas ali misturado com a catinga mais pronunciada de suor - percebia-se isto à primeira cheirada, embora fosse difícil explicar como- de suor de uma pessoa ausente. Noutra sala alguém, com um pente e um pedaço de papel higiênico, estava tentando acompanhar a música militar que ainda saía da teletela.

- São as crianças - disse a sra. Parsons, lançando uma olhada apreensiva para a porta. - Não sairam hoje. E naturalmente...

Tinha o hábito de interromper as frases no meio. A pia da cozinha estava cheia até quase em cima duma água esverdeada, imunda, que fedia a repolho, mais que nunca. Winston ajoelhou-se e examinou o sifão. Tinha raiva de usar as mãos, e detestava abaixar-se, o que em geral lhe provocava tosse. A sra. Parsons ficou olhando, sem préstimo.

- Naturalmente, se Tom estivesse em casa, consertaria num momento - disse ela. - Êle gosta desses serviços. É tão jeitoso, Tom.

Parsons era colega de Winston no Ministério da Verdade. Era um homem gorducho mas ativo, de estupidez paralisante, uma massa de entusiasmo imbecil - um dêsses servos dedicados e absolutamente fiéis dos quais dependia a estabilidade do Partido, mais do que da Polícia do Pensamento. Aos trinta e cinco fôra a contragosto desligado da Liga da Juventude e antes de entrar para ela conseguira ficar nos Espiões um ano além da idade limite. No Ministério, trabalhava num serviço subordinado, para o que não precisava de inteligência, mas por outro lado era figura de proa no Comité Esportivo e em todos os outros comités empenhados na organização de piqueniques e passeatas comunais, demonstrações espontâneas, campanhas de economia e atividades voluntárias em geral. Informava ao interlocutor, com tranquilo orgulho, soltando baforadas do cachimbo, que compa-

recera ao Centro Comunal tôdas as noites, nos últimos quatro anos. Um tremendo cheiro de suor, uma espécie de testemunho inconsciente da dureza de sua vida, seguia-o por tÔda parte, e permanecia no ambiente mesmo depois dêle sair.

- Tens uma chave inglesa? - indagou Winston, apalpando a porca do sifão.

- Chave? - exclamou a sra. Parson, tornando-se invertebrada outra vez. - Não sei não. Quem sabe as crianças...

Houve um estrondo de botinas e outro guincho no pente, recordando a presença das crianças na sala de estar. A sra. Parsons trouxe a chave inglesa. Winston soltou a água e com nojo retirou 'o bolo de cabelo humano que entupira o cano. Lavou os dedos da melhor maneira possível na água fria da pia e voltou para a sala.

- Mãos ao ar! - urrou uma voz selvagem. Um menino bonito, de uns nove anos e cara de brigão, surgira por trás da mesa e o ameaçava com uma pistola automática de brinquedo, imitado por sua irmãzinha, de sete, e que empunhava um pedaço de madeira. Ambos vestiam calções azuis, camisas cinzentas e o lenço vermelho que compunham o uniforme dos Espiões. Winston levantou as mãos sôbre a cabeça, mas com mal-estar, tão viciosa era a atitude do garoto, que não lhe parecia pilhéria.  - És um traidor! - berrou o menino. - És um ideocriminoso! És um espião eurasiano. Eu te mato, te vaporizo, te mando para as minas de sal!

De repente, puseram-se os dois a saltar em torno dêle, berrando "traidor!" e "ideocriminoso!", a menininha imitando todos os movimentos do irmão. Era um tanto arrepiante, como um brinquedo de filhotes de tigre, que breve serão devoradores de homens. Havia nos olhos do menino uma espécie de ferocidade calculadora, um desejo bastante evidente de esmurrar ou dar um pontapé em Winston, e a consciência de ter quase o tamanho necessário para a agressão. Ainda bem que não brandia uma pistola de verdade, pensou Winston.

Os olhos da vizinha saltaram nervosamente de Winston às crianças, e vice-versa. Sob a luz mais forte da sala de estar êle notou com interêsse que de fato havia pó nas rugas do seu rosto.

- Ficam tão barulhentos, - disse ela. - Estão desapontados porque não puderam assistir ao enforcamento, é isso.

Não tenho tempo para levá-los, e Tom não voltará do serviço a tempo.

- Por que não podemos ir ver o enforcamento? - indagou o menino, num vozeirão.

- Quero vê o forcamento! Quero vê o forcamento! -

cantarolou a garota, saltitando pelo cômodo.

Deviam ser enforcados aquela noite, no Parque, uns prisioneiros eurasianos, criminosos de guerra. Isso acontecia uma vez por mês e era um grande espetáculo popular. As crianças sempre exigiam que as levassem. Winston despediu-se da sra. Parsons e encaminhou'-se para a porta. Mas ainda não dera seis passos pelo corredor quando um projétil o acertou na nuca, numa pancada muito dolorosa. Foi como se um arame em brasa o tivesse atingido. Girou nos calcanhares a tempo de ver a sra. Parsons arrastando o filho para a sala de estar, enquanto o menino metia no bolso um estilingue.

- Goldstein! - estertorou o menino quando a porta se fechou.  O que mais impressionou Winston, contudo, foi o olhar de terror inerme da mulherzinha de cara gris.

De volta ao apartamento, passou rápido diante da teletela e tornou a sentar-se à mesa, ainda esfregando o pescoço. Cessara a música. Substituira-a uma voz militar, que em tom stacccato lia, com gôzo brutal, uma descrição dos armamentos da nova Fortaleza Flutuante que acabava de ser ancorada entre a Islândia e as Ilhas Faroe.

Com aquelas horrendas crianças, pensou, essa pobre mulher deve levar uma vida de terror. Dali a um ano, ou dois, começarão a observá-la dia e noite, à cata de sintomas de heterodoxia. Quase tôdas as crianças eram horríveis. O pior de tudo é que, com auxílio de organizações tais como os Espiões, eram sistemàticamente transformadas em pequenos selvagens incontroláveis, e no entanto nelas não se produzia qualquer tendência de se rebelar contra a disciplina do Partido. Ao contrário, adoravam o Partido, e tudo quanto tinha ligação com êle. As canções, as procissões, as bandeiras, as caminhadas. a ordem unida com fusis de madeira, berrar palavras de ordem, adorar o Grande Irmão - era para elas uma espécie de jogo formidável. Toda sua ferocidade era posta para fora, dirigida contra os inimigos do Estado, contra os forasteiros, traidores, sabotadores, ideocriminosos. Era quase normal que as pessoas de mais de trinta tivessem medo aos próprios filhos. E com fartos motivos, pois rara era a

semana em que o Times não publicasse um tópico contando Como um pequeno salafrário - "herói infantil" era a expressão usada - ouvira alguma observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.

A picada do estilingue não doía mais. Winston segurou a caneta, desanimado, indagando de seus botões se encontraria mais o que registrar no diário. De repente, começou a pensar outra vez em O'Brien.

Anos atrás - quantos anos? Devia ser uns sete - sonhara estar caminhando num quarto escuro como breu. E alguém, sentado ao seu lado, dissera ao senti-lo passar: "Tornaremos a nos encontrar onde não há treva." Fôra dito baixinho, sem ênfase - uma declaração, não uma ordem. E êle continuara, sem parar. O curioso é que, na ocasião, no sonho, as palavras não o haviam impressionado maiormente. Sómente mais tarde, e aos poucos, é que tinham ganho em significação. Não podia lembrar agora se fôra antes ou depois do sonho que vira O'Brien pela primeira vez; nem se lembrava de quando identificara aquela voz como a de O'Brien. Fosse como fosse, existia a identificação. O'Brien lhe falara na escuridão.

Winston nunca conseguira ter certeza - mesmo depois do cintilar de olhares daquela manhã ainda era impossível ter certeza - da amizade ou inimizade de O'Brién. Nem lhe parecera ter muita importância. Entre êles havia um laço de compreensão mais importante do que o afeto ou a ideologia. "Tornaremos a nos encontrar onde não há treva", dissera êle. Winston não sabia o que significava, apenas acreditava que, de um modo ou outro, seria realidade.

A voz da teletela fez uma pausa. Um toque de clarim, belo e límpido, flutuou no ar estagnado. A voz continuou, áspera:

- Atenção! Atenção, por favor! Acaba de chegar uma notícia da frente de Malabar. Nossas forças do Sul da índia lograram uma gloriosa vitória. Estou autorizado a dizer que essa batalha poderá aproximar a guerra do seu fim. Eis a notícia...

Más notícias, pensou Winston. E com efeito, depois de uma sanguinolenta descrição do aniquilamento de um exército eurasiano, com formidáveis cifras de mortos e prisioneiros, divulgou-se a notícia de que, a partir da semana próxima, a ração de chocolate seria reduzida de trinta a vinte gramas.

Winston tornou a arrotar. O gin estava-se gastando, deixando uma sensação de vazio. A teletela - talvez para celebrar a vitória, talvez para afogar a lembrança do chocolate perdido - atacou "Oceania, nossa terra." Era dever de todos ouvirem o hino de pé. Todavia, na posição em que estava, não podiam vê-lo.

A "Oceania, nossa terra," seguiu-se música mais leve, Winston foi até a janela, sempre de costas para a tela. O dia continuava claro e despejado. Nalgum lugar distante uma bomba-foguete explodiu com um estrondo surdo, ecoante. Atualmente, caíam em Londres, vinte ou trinta bombas por semana.

Lá embaixo, na rua, o vento ainda fustigava o cartaz rasgado, e a palavra INGSOC ora aparecia ora desaparecia. Ingsoc. Os princípios sagrados do Ingsoc. Novilíngua, duplepensar, a mutabilidade do passado. Sentiu-se como quem vagueia nas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso onde êle próprio era o monstro. Estava só. O passado morto, o futuro inimaginável. Que certeza haveria de estar ao seu lado uma única criatura humana viva? E de que maneira saber que o domínio do Partido não duraria para sempre?     Como resposta, os três lemas da fachada branca do Ministério da Verdade lhe voltaram à mente:

GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA

Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos. Ali também, em letras minúsculas porém nítidas, liam-se as mesmas frases; do outro lado a cabeça do Grande Irmão. Até do dinheiro aqueles olhos o perseguiam. Moedas, selos, capas de livros, faixas, cartazes, maços de cigarro - em tôda parte. Sempre os olhos fitando o indivíduo, a voz a envolvê-lo.   Adormecido ou desperto, trabalhando ou comendo, dentro e fóra de casa, no banheiro ou na cama - não havia fuga. Nada pertencia ao indivíduo, com exceção de alguns centímetros cúbicos dentro do crânio.

O sol deslocara-se no céu e, na sombra, as miríades de janelas do Ministério da Verdade pareciam as sinistras seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston tremeu ante a pirâmide enorme. Era forte demais -não podia ser tomada de assalto. Mil bombas-foguetes não a deitariam por terra.

Tornou a indagar de si próprio: para quem estaria escrevendo o diário? Para o futuro, para o passado - para uma época que talvez fosse imaginária- E diante dêle abria-se não a morte, mas o aniquilamento. O diário seria reduzido a cinzas e êle a vapor. Sómente a Polícia do Pensamento leria o seu escrito, antes de suprimi-lo e eliminá-lo da lembrança. Como poderia apelar para o futuro sendo impossível a sobrevivência física de um vestígio do indivíduo, e até mesmo de uma palavra anônima rabiscada num pedaço de papel?

A teletela assinalou catorze horas. Precisava sair dali a dez minutos. Tinha de estar de volta ao serviço às catorze e trinta. Curiosamente, o soar das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Êle não passava dum fantasma solitário exprimindo uma verdade que ninguém jamais ouviria. Mas enquanto a exprimisse, a continuidade não seria interrompida. Não é fazendo ouvir a nossa voz mas permanecendo são de mente que preservamos a herança humana. Êle voltou à mesa, molhou a pena e escreveu: Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam sós - a uma época em que a verdade existir e o que foi feito não puder ser desfeito:

Cumprimentos da era de uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensar!

Êle já estava morto, refletiu. Pareceu-lhe que só agora, depois de começar á formular suas idéias, dera o passo decisivo. As consequencias de cada ato são incluidas no próprio ato. Escreveu:

Crimidéia não acarreta a morte: crimidéia É a morte.

Agora que se reconhecia como defunto, tornava-se importante ficar vivo o mais tempo possível. Tinha manchados de tinta dois dedos da mão direita. Era exatamente o tipo do pormenor que podia traí-lo. Algum enxerido do Ministério (mulher, provàvelmente; alguém como aquela zinha de cabelo côr de areia ou a morena do Departamento de Ficção) poderia querer saber por que andara escrevendo na hora do almôço, por que usara uma pena antiga, o que escrevera - e então soltar um palpite no local competente. Winston foi ao banheiro e cuidadosamente lavou a tinta, com o sabão áspero, arenoso e escuro, que arranhava como lixa e que portanto era ótimo para o que tinha em vista.

Guardou o diário na gaveta. Era absolutamente inútil pensar em escondê-lo, mas poderia ao menos certificar-se de que sua existência fôra ou não descoberta. Um cabelo deposto na margem da página daria na vista. Com a ponta do dedo recolheu um grão identificável de pó esbranquieçado e depositou-o no canto da capa, donde certamente cairia se o livro fosse mexido.

3

Winston sonhava com sua mãe.

Devia ter uns dez ou onze anos quando sua mãe desaparecera. E  'ra alta, estatuesca, meio calada, de movimentos vagarosos e magnífico cabelo claro. Do pai lembrava-se mais vagamente. Era moreno e magro, vestia sempre roupas escuras, bem postas (Winston lembrava-se vivamente das solas finas dos sapatos do pai), e usava óculos. Os dois deviam, evidentemente, ter sido tragados num dos grandes expurgos de 1950-60.

Naquele momento porém sua mãe estava sentada à frente dêle, num lugar fundo, com a filhinha nos braços. Êle não se lembrava da irmã senão como um nenêzinho fraco, sempre calado, de olhos grandes e vigilantes. Ambas o fitavam. Encontravam-se nalgum subterrâneo - no fundo de um poço, ou numa tumba muito profunda - mas era um lugar que, apesar de já ser muito mais baixo, submergia ainda e cada vez mais. Estavam no salão de um navio que naufragava, e olhavam para êle através da água que escurecia. Ainda havia ar no salão; elas podiam vê-lo e êle a elas, mas todo tempo as duas continuavam afundando, baixando nas águas verdes que dentro de alguns momentos as ocultariam para sempre. Êle se encontrava no claro, e com ar, enquanto elas eram absorvidas pela morte, e estavam no fundo por causa dêle estar ali. Êle sabia disso, elas sabiam, e era visível que sabiam. Mas não havia censura nem na fisionomia nem no coração das duas, apenas a certeza de que deviam morrer para que êle continuasse vivo, e que aquilo era parte da ordem inevitável das coisas.

Não podia lembrar-se do quê sucedera, mas sabia no sonho que, dum modo ou doutro, a vida de sua mãe e de sua irmã tinham sido sacrificadas pela dêle. Era um dêsses sonhos que, embora retenham o cenário onírico característico, são a continuação da vida intelectual do indivíduo, e no qual toma conhecimento de fatos e idéias que mesmo depois de acordar ainda parecem novos e valiosos. A coisa que agora impressionava Winston de repente era que a morte de sua mãe, quase trinta anos atrás, fôra trágica e tristonha, de um modo que não seria mais possível. Êle percebia que a tragédia pertencia ao tempo antigo, a uma época em que havia ainda vida privada, amor e amizade, e em que os membros duma família amparavam uns aos outros sem indagar razões. A lembrança de sua mãe maguava-lhe o coração porque ela morrera amando-o, numa época em que êle era criança e egoista demais para corresponder-lhe e porque, de certo modo, que êle não recordava, ela se sacrificara a uma concepção de lealdade particular e inalterável. Êle via que tais coisas não mais podiam acontecer. Hoje o que havia era medo, ódio, dor, porém nenhuma dignidade de emoção, nenhuma mágua profunda ou complexa. Tudo isto lhe pareceu ver nos grandes olhos de sua mãe e sua irmã, olhando-o através da água verde em que afundavam, centenas de braças abaixo donde êle estava.

De repente encontrou-se num relvado fofo e curto, numa noite estival, em que os raios oblíquos do sol ainda douravam o chão. A paisagem que contemplava aparecia tanto em seus sonhos que nunca podia ter certeza de a ter visto ou não no mundo real. Desperto, chamava-a de Terra Dourada. Era um velho pasto estragado pelos coelhos, com uma picada que serpeava de um lado a outro, e pontilhado de cupins. Na sebe maltratada, do outro lado do campo, os ramos dos ulmeiros balouçavam de leve na brisa, e suas folhas palpitavam em densas massas, como cabelo de mulher. Por ali perto, embora invisível, havia um regato límpido e lento, em que nadavam os mugens, nos espraiados à sombra dos chorões.

A moça do cabelo escuro vinha ao encontro dêle, atravessando o campo. Com o que pareceu a Winston um único movimento, ela arrancou as roupas e atirou-as desdenhosamente para o lado. Tinha o corpo alvo e macio, mas não lhe despertou desejo; na verdade, mal o olhou. O que o possuia naquele instante era admiração pelo gesto com que atirara as roupas de lado. Com sua graça e displicência parecia aniquilar uma cultura inteira, todo um sistema de pensa-

mento, como se o Grande Irmão, o Partido e a Polícia do Pensamento pudessem ser lançados ao nada por um gesto símples e esplêndido. Aquele também era um gesto que Pertencia aos tempos antigos. E Winston despertou com a palavra "Shakespeare" nos lábios.

A teletela estava soltando Um apito ensurdecedor, que continuou no mesmo tom durante uns trinta segundos. Eram sete e quinze, hora de se levantarem os empregados de escritórios. Winston arrancou o corpo da cama - nú, porquanto um membro do Partido Externo só recebia três mil cupões do racionamento de roupas por ano, e as duas peças de um pijama exigiam seiscentos - e apanhou uma camiseta suja e um par de cuecas que colocara numa cadeira próxima. A Educação Física começaria dentro de três minutos. No momento seguinte foi presa de violento acesso de tosse, que quase sempre o atacava pouco depois de levantar. Esvaziava-lhe os pulmões de tal forma que só podia recomeçar a respirar deitando-se de costas e aspirando fundo uma porção de vezes. As veias tinham inchado com o esfôrço da tosse, e a variz ulcerada começou a coçar.

- Grupo de trinta a quarenta! - bradou uma aguda voz feminina. - Grupo de trinta a quarenta! Tomai vossos lugares, por favor. De trinta a quarenta!

Winston ficou em posição de sentido diante do aparelho, onde já aparecera a imagem de uma moça magricela porém musculosa, metida em uniforme e sapatos de ginástica.

- Dobrar e esticar os braços! - ordenou. - Acompanhai o meu ritmo. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vamos, camaradas, um pouco de vida nisso! Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro!...

A dor do acesso de tosse não afugentara inteiramente do espírito de Winston a impressão produzida pelo sonho, e de certo modo os movimentos rítmicos do exercício a reavivaram. Enquanto atirava mecanicamente os braços para frente e para trás, afivelando no rosto o ar de carrancudo prazer que se considerava recomendável durante a Educação Física, lutava para recordar-se do período obscuro da infância. Era extraordinàriamente difícil. Do acontecido antes de 1960, tudo desbotara. Não havia anais a que fazer referência, e portanto até o fio da vida pessoal perdia nitidez. Lembrava-se de momentosos acontecimentos que com tôda probabilidade não tinham tido lugar, recordava-se dos pormenores de incidentes sem conseguir recapturar-lhes a atmosfera, e havia longos períodos em branco, aos quais nada podia atribuir. Tudo então fôra diferente. Tinham sido diferentes até os nomes de países, e suas formas no mapa. A Pista N.º 1 não tinha êsse nome naquela época: chamava-se Inglaterra, ou Grã-Bretanha, embora Londres - disso tinha certeza quase absoluta - sempre tivesse sido Londres.

Winston não podia lembrar definitivamente uma época em que o país não estivesse em guerra, mas era evidente um intervalo de paz bastante longo durante a sua infância, porque uma das suas mais longínqüas recordações era de um bombardeio aéreo que parecera a todos surpreender. Fôra talvez quando a bomba atômica caira em Colchester. Não se lembrava do bombardeio em si, mas lembrava-se do pai a segurar-lhe a mão com força, enquanto corriam para um lugar nas profundezas da terra, dando voltas e voltas numa escada espiral que fazia ruido sob seus pés e que por fim lhe cansou tanto as pernas que êle começou a choramingar e pararam para descansar. Sua mãe, com modos lentos e sonhadores, seguia-os a grande distância. Levava nos braços a menina - ou talvez fossem apenas cobertores: Winston não tinha certeza da garota já ser nascida. Por fim tinham ido dar num lugar atulhado e barulhento, que verificou ser uma estação do trem subterrâneo.

Havia gente sentada no chão de lagedo, e outros, muito apertadinhos, sentavam-se em catres metálicos, arrumados como beliches. Winston, mãe e pai, encontraram um lugar, perto dum velho e duma velha sentados num catre. O velho vestia um terno escuro, de boa qualidade e boné de pano preto na cabeça tôda branca. Tinha o rosto escarlate, e os olhos azuis cheios de lágrimas. Fedia a gin. Parecia porejá-lo pela pele, em vez de suor, e podia-se imaginar fossem puro álcool as lágrimas que lhe cresciam nos olhos. Entretanto, apesar de ligeiramente bêbedo, sofria uma dor genuina e insuportável. Com sua percepção infantil, Winston viu que algo terrível, que não tinha perdão nem remédio, acabara de suceder. Pareceu-lhe também saber do que se tratava. Morrera no bombardeio alguém que o velho amava; uma netinha talvez. A curtos intervalos, o velho repetia:

- Não deviamo tê comfiança neles. Eu te disse, Mãe, não disse? Foi nisso que deu tê confiança neles. Foi o que eu sempre disse. Não deviamo tê confiança nos sacana.

Mas quais sacanas não mereciam confiança, Winston já não se lembrava.

Desde mais ou menos aquela época, a guerra fôra literalmente contínua, embora, a rigor, não fosse sempre a mesma guerra. Durante vários meses, durante sua meninice, houvera confusas lutas de rua na própria Londres, e de algumas êle se recordava vivamente. Mas seguir a história de todo o período, dizer quem lutava, contra quem, em determinado momento, seria absolutamente impossível, já que nenhum registro escrito, nem palavra oral, jamais faziam menção de outro alinhamento de forças, diferente do atual. Naquele momento, por exemplo, em 1984 (se é que era 1984), a Oceania estava em guerra com a Eurásia e era aliada da Lestásia. Em nenhuma manifestação pública ou particular se admitia jamais que as três potências se tivessem agrupado diferentemente. Na verdade, como Winston se recordava muito bem, fazia apenas quatro anos a Oceania estivera em guerra com a Lestásia e em aliança com a Eurásia. Isso, porém, não passava de um naco de conhecimento furtivo, que êle possuía porque a sua memória não era satisfatoriamente controlada. Oficialmente, a mudança de aliados jamais tivera lugar. A Oceania estava em guerra com a Eurásia: portanto, a Oceania sempre estivera em guerra com a Eurásia. O inimigo do momento representava sempre o mal absoluto, daí decorrendo a impossibilidade de qualquer acordo passado ou futuro com êle.

O espantoso, refletiu pela décima milésima vez, ao forçar os ombros dolorosamente para trás (mãos nas cadeiras, fazia girar o corpo pela cintura, exercício que se acreditava fazer bem aos músculos dorsais) - o espantoso é que pode mesmo ser verdade. Se o Partido tem o poder de agarrar o passado e dizer que êste ou aquele acontecimento nunca se verificou - não é mais aterrorizante do que a simples tortura e a morte?

O Partido dizia que a Oceania jamais fôra aliada da Eurásia. Êle, Winston Smith, sabia que a Oceania fôra aliada da Eurásia não havia senão quatro anos. Onde, porém, existia êsse conhecimento? Apenas em sua consciência, o que em todo caso devia ser logo aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido - se todos os anais dissessem a mesma coisa - então a mentira se transformava em história, em verdade. "Quem controla o passado," dizia o lema do Partido, "controla o futuro: quem controla o presente controla o passado." E no entanto o passado, conquanto de natureza alterável, nunca fôra alterado. O que agora era verdade era verdade do sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias sôbre a memória. "Controle da realidade," chamava-se. Ou, em Novilíngua, "duplipensar."

- Descansar! - latiu a instrutora, um pouco mais benévola.

Winston deixou cair os braços e lentamente tornou a encher os pulmões de ar. Seu espírito mergulhou no mundo labiríntico do duplipensar. Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultâneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar.

Nesse momento a instrutora chamou-os de nova à ginástica.

- Vamos ver quem de nós é capaz de tocar a ponta dos pés! - disse, com entusiasmo - Sem dobrar os joelhos, camaradas, só a cintura. Um-dois! Um-dois!

Winston odiava êsse exercício, que lhe produzia dores nas pernas, desde os tornozelos até as nádegas e não raro lhe provocava acessos de tosse. O ar semi-agradável sumiu de suas meditações. O passado, refletiu, não apenas fôra alterado, fôra efetivamente destruido. Por que, como estabelecer até mesmo o fato mais patente, se não havia dêle registro, além do da memória? Tentou recordar-se do ano em que ouvira pela primeira vez falar do Grande Irmão. Achou que deveria ter sido na década de 1960 a 70, mas era impossível ter certeza. Nas histórias do Partido, o Grande Irmão naturalmente figurava como chefe e guardião da Revolução, desde o princípio. Suas elocubrações tinham aos poucos recuado no tempo até atingir o mundo fabuloso de 1930 a 50, éPoca em que os capitalistas, com estranhos chapéus cilíndricos, ainda rodavam pelas ruas de Londres em grandes e

brilhantes automóveis ou carruagens com janelas de vidro. Não era Possível saber até onde essa lenda era verdade e até onde era invenção. Winston não podia lembrar-se nem da data em que o Partido viera à luz. Não acreditava ter ouvido a palavra Ingsoc antes de 1960, mas era provável que na sua forma antiga, em Antilíngua - "Socialismo inglês"

- fosse corrente antes daquele ano. Tudo se fundia na névoa. As vezes, porém, podia colocar o dedo numa mentira definida. Não era verdade, por exemplo, como afirmavam os livros de história do Partido, que o Partido tivesse inventado o aeroplano. Lembrava-se de aviões desde a mais tenra idade. Mas não podia provar nada. Nunca havia prova. Apenas uma vez, em tôda sua vida, tinha tido em mãos prova documental inconfundível da falsificação de um fato histórico. E naquela ocasião...

- Smith! - gritou da teletela a voz da megera.             -

6079 Smith W! Tu, tu mesmo! Inclina-te mais, por favor. Podes fazer mais que isso. Não, não estás te esforçando. Mais baixo! Assim está melhor, camarada. Agora, todo mundo, descansar! Olhai   para mim.

Um calor quente e súbito dominou todo o corpo de Winston. O rosto continuou inescrutável. Jamais revelar desânimo! Jamais revelar ressentimento! Um simples olhar podia denunciá-lo. Ficou olhando a instrutora levantar os braços acima da cabeça e - não se podia dizer com graça mas com notável decisão e eficiência - inclinar-se e meter a falangeta sob os artelhos.

- Pronto, camaradas! É isto que vos quero ver fazer. Olhai de novo. Estou com trinta e nove anos e tive quatro filhos. Olhai. - Inclinou-se de novo - Vêde, que não dobro os joelhos! Todos podeis fazer, se quizerdes, - acrescentou, enquanto se levantava. - Com menos de quarenta e cinco, qualquer um pode tocar a ponta dos pés. Não temos todos o privilégio de lutar nas linhas da frente, mas pelo menos podemos conservar a linha e a saúde. Lembrai-vos dos rapazes da frente de Malabar! E dos marinheiros das Fortalezas Flutuantes! Pensai no que êles têm de suportar. Vamos tentar de novo. Agora está melhor, camarada, muito melhor! - ajuntou, animando-o, quando Winston, num tranco violento, conseguiu tocar os pés sem dobrar os joelhos, pela primeira vez em vários anos.

4

Com o suspiro profundo e inconsciente que nem mesmo a proximidade da teletela podia impedir, ao iniciar o dia de trabalho, Winston puxou para perto o falascreve, soprou a poeira do bocal e colocou os óculos. Depois desenrolou e grampeou quatro pequenos rolos de papel que haviam caido do tubo pneumático à direita da mesa.

Nas paredes do cubículo havia três orifícios. À direita do falascreve, um pequeno tubo pneumático para mensagens escritas; à esquerda, outro maior, para jornais; e no meio, bem ao alcance do braço de Winston, uma grande abertura retangular protegida por uma grade de arame. Destinava-se ao desembaraço de papéis servidos. Aberturas idênticas existiam aos milhares, ou às dezenas de milhares em todo o edifício, não apenas nas salas, como a pequenos intervalos, nos corredores. Por um motivo qualquer, haviam sido apelidados de buracos da memória. Quando se sabia que algum documento devia ser destruido, ou mesmo quando se via um pedaço de papel usado largado no chão, era gesto instintivo, automático, levantar a tampa do mais próximo buraco da memória e jogar o papel dentro dêle para que fosse sugado pela corrente de ar morno, até as caldeiras enormes, ocultas nalguma parte, nas entranhas do prédio.

Winston examinou as quatro tiras de papéis que havia desenrolado. Cada uma continha um recado de apenas uma ou duas linhas, na jíria abreviada - não se tratava só de Novilíngua, porém continha principalmente palavras nesse idioma - utilizada no Ministério para comunicações internas. Diziam:

times 17.3.84 gi disc malrepro africa retifica

times 19.12.83 previsão 3 ac 4.º trimestre 83 errata verifica número hoje

times 14.2.84 minifarto malnotícia chocolate retifica times 3.12.83 notícia ordemdia gi dupliplusimbom refs impessoas reescreve compl subsuper prearquivo.

Com um ligeiro sentimento de satisfação, Winston colocou de lado o quarto bilhete. Era um trabalho complexo e de responsabilidade, que seria melhor deixar por último. Os outros três eram simples questão de rotina, conquanto o segundo talvez exigisse uma tediosa pesquisa de cifras.

Winston discou "números atrasados" na teletela e pediu os exemplares correspondentes do Times, que escorregaram da bôca do tubo pneumático depois de uns minutos de espera. As mensagens recebidas referiam-se a artigos ou notícias que, por um motivo ou outro, deviam ser alterados ou, como se dizia oficialmente, retificados. Por exemplo, o Times de dezessete de março publicara que o Grande Irmão, discursando na véspera, predissera que a frente meridional indiana continuaria serena mas que seria lançada em breve uma ofensiva eurasiana no Norte da África. Entretanto, o Alto Comando Eurasíano desfechara sua ofensiva no sul da índia, deixando a África em paz. Tornava-se portanto necessário reescrever um parágrafo do discurso do Grande Irmão, de maneira a fazer com que predissesse exatamente o que sucedera. Ou ainda, o Times de dezenove de dezembro publicara as previsões oficiais da produção de vários artigos de consumo no quarto trimestre de 1983, correspondente ao sexto trimestre do Novo Plano Trienal. O jornal de hoje continha uma notícia sobre a produção real, pela qual se verificava que as profecias estavam redondamente erradas.

O serviço de Winston era retificar as cifras originais, fazendo com que concordassem com as posteriores. Quanto ao terceiro bilhete referia-se a simplíssimo erro, que poderia ser consertado num minuto. Recentemente, em fevereiro, o Ministério da Fartura dera a público uma promessa ("penhor categórico" eram as palavras oficiais) de que não haveria corte da ração de chocolate em 1984. Na verdade, como o

sabia Winston, a ração de chocolate deveria ser reduzida de trinta a vinte gramas no fim da semana. Bastava portanto substituir a promessa original por uma advertência de que provàvelmente seria necessário reduzir a ração por volta de abril.

Assim que Winston providenciou as correções ordenadas, prendeu com um grampo as correções falascritas aos exemplares correspondentes do Times e meteu-os no tubo pneumático. Daí, com um movimento tão inconsciente quanto possível, amassou o recado original e as notas que havia feito, e atirou-as no buraco da memória, para pasto das chamas.

O que sucedia no labirinto invisível a que levavam os tubos pneumáticos, êle não sabia em detalhe, mas apenas em termos gerais. Assim que fossem reunidas e classificadas todas as correções consideradas necessárias a um dado número do Times, aquela edição era reimpressa, destruido o número original, e o exemplar correto colocado no arquivo, em seu lugar. Êsse processo de alteração contínua aplicava-se não apenas a jornais, como também a livros, publicações periódicas, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, bandas de som, caricaturas, fotografias - a toda espécie de literatura ou documentação que pudesse ter o menor significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desta forma, era possível demonstrar, com prova documental, a correção de tôdas as profecias do Partido; jamais continuava no arquivo uma notícia, artigo ou opinião que entrasse em conflito com as necessidades do momento. Tôda a história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Em nenhum caso seria possível, uma vez feita a operação, provar qualquer fraude. A maior secção do Departamento de Registro, muito maior do que a de Winston, consistia simplesmente de gente que tinha por obrigação procurar e separar todos os exemplares de livros, jornais e outros documentos superados e por isso destinados à eliminação. Continuava no arquivo, com a data original, uma porção de Times que talvez, por causa de modificações do alinhamento político, ou profecias erradas do Grande Irmão, haviam sido alterados uma dúzia de vezes, e não havia outros exemplares que pudessem contradizê-lo. Os livros também eram recolhidos e reescritos uma porção de vezes, e invariàvelmente entregues aos leitores sem admissão alguma da troca. Nem mesmo as instruções escritas que Winston recebia, e das quais invariàvelmente se desfazia assim que as cumpria, ordenavam ou insinuavam qualquer ato de falsificação: a referência era sempre a erros, enganos, equívocos, mal-interpretações que precisavam ser corrigidos, no interêsse da exatidão.

Na verdade, porém (êle filosofou, enquanto reajustava as cifras do ministério da Fartura), não chegava a falsificação. Era apenas a substituição de uma sandice por outra. A maior parte do material tratado não tinha relação alguma com coisas reais, nem mesmo o tipo da ligação que se contém numa mentira declarada. As estatisticas eram tão fantásticas na versão original como na retificada. Com efeito, era função do pessoal inventar estatísticas, tirando-as da própria cachola. Por exemplo, o cálculo do Ministério da Fartura, prevendo a produção trimestral de botinas num total de cento e quarenta e cinco milhões de pares. A produ ção real, dizia-se, fôra de sessenta e dois milhões. Todavia Winston, ao reescrever a previsão, reduzira a cifra a apenas cinquenta e sete milhões, de modo a poder protestar, como de hábito, que a cota fôra superada. Em qualquer caso, os sessenta e dois milhões estavam tão perto da verdade quanto cinquenta e sete, ou cento e quarenta e cinco. Com tôda probabilidade, não haviam fabricado botina alguma. Ou, mais certo ainda, ninguém tinha a menor idéia de quantos calçados tinham sido produzidos; nem ninguém se importava. Tudo o que se sabia é que, cada trimestre, quantidades astronômicas de botinas eram produzidas no papel, ao passo que talvez metade da população da Oceania andava descalça. E assim era com todos os fatos registrados, pequenos ou grandes. Tudo se fundia e confundia num mundo de sombras no qual, por fim, até a data do ano se tornara incerta.

Winston olhou para o outro lado do corredor. Num cubículo correspondente ao seu, um homenzinho de queixo escuro e cara de precisionista, trabalhava com afinco, um jornal dobrado sôbre os joelhos e a boca bem junto ao tubo do falascreve. Chamava-se Tillotson, e parecia querer manter o que dizia em segrêdo entre êle e a teletela. Levantou os olhos e seus óculos relampaguearam uma centelha hostil na direção de Winston.

Winston mal conhecia Tillotson, e não tinha idéia de qual seria o seu serviço. Os funcionários do Registro hesitavam em falar das suas atividades. No longo corredor sem janelas, com sua dupla fila de cubículos e o interminável roçar de papéis e jornais, e a zoeira das vozes murmurando dentro dos falascreve, havia cerca de uma dúzia de pessoas que Winston não conhecia nem de nome, embora as visse andar apressadas pelo pavimento ou gesticular frenéticas nos Dois Minutos de ódio. Sabia que no cubículo ao lado a mulherzinha do cabelo côr de areia labutava dia após dia, não fazendo outra coisa senão procurar e suprimir da imprensa os nomes de pessoas vaporizadas, e portanto consideradas inexistentes. Era justo que tivesse êsse emprêgo, pois seu marido fôra vaporizado havia alguns anos. A alguns cubículos adiante, uma criatura terna, ineficiente, sonhadora, um homem chamado Ãmpleforth, de orelhas muito peludas e surpreendente talento para manejar rimas e metros, empenhava-se na produção de versões modificadas - textos definitivos, chamavam-se - de poemas que se haviam tornado ideológicamente ofensivos mas que, por um motivo ou outro, tinham de ser conservados nas antologias. E aquele corredor, com cerca de cinquenta funcionários, era apenas uma subseção, uma simples célula, podia-se dizer, da enorme complexidade do Departamento de Registro. Para cima, para baixo, para os lados, havia outros enxames de servidores executando uma inimaginável multidão de tarefas. Havia as enormes oficinas gráficas, com os seus sub-redatores, seus peritos em tipografia, e seus estúdios, equipadíssimos para a falsificação de fotografias. Havia a seção de teleprogramas com os seus técnicos, seus produtores, e as equipes de atores escolhidos especialmente pelo talento na imitação de vozes. Havia batalhões de investigadores de referências, cujo trabalho era apenas organizar listas de livros e periódicos a recolher. Havia os vastos depósitos, onde os documentos corrigidos eram guardados, e os fornos ocultos onde os originais eram destruidos. E funcionando anônimamente não se sabia como, nem onde, ficava o cérebro orientador, que coordenava todo o trabalho e fixava diretrizes, mandando conservar êste ou aquele fragmento do passado, falsificar outro, e eliminar completamente aquele outro.

E o Departamento de Registro, afinal de contas, não passava de uma pequena parte do Ministério da Verdade, cuja missão básica era não reconstruir o passado mas fornecer aos cidadãos da Oceania jornais, filmes, livros escolares, programas de teletela, peças, romances - com tôdas as informações concebíveis, instruções ou entretenimento, desde uma estátua até uma palavra de ordem, desde um poema lírico até um tratado de biologia, desde um be-a-bá até um dicionário de Novilíngua. E o Ministério tinha que satisfazer não apenas as cOmplexas necessidades do Partido, como repetir a mesma operação, em nível inferior, para o proletariado. Havia tôda uma série de departamentos autônomos que tratavam de li-

teratura, música, teatro e divertimentos proletários em geral. Neles eram produzidos jornalecos ordinários que continham pouca coisa mais que notícias de esporte, polícia e astrologia, sensacionais noveletas de cinco centavos, filmes transbordando de sexo, e cançonetas sentimentais compostas inteiramente por meios mecânicos numa espécie de caleidoscópio especial denominado versificador. Havia até uma sub-seção inteira - a Pornosec, como a chamavam em Novilíngua - dedicada à produção da pornografia mais reles, embalada em envelopes fechados, e que nenhum membro do Partido, além dos que nela trabalhavam, tinha licença de ver.

Enquanto Winston trabalhava, três bilhetes haviam caido do tubo pneumático; mas eram coisas simples, e êle os liquidou antes dos Dois Minutos de ódio o interromperem. Depois de terminado o ódio, voltou ao cubículo, apanhou o dicionário de Novilíngua da prateleira, empurrou o falascreve para o lado, limpou os óculos, e dedicou-se à tarefa principal da manhã.

O trabalho era o maior prazer na vida de Winston. Em geral, não passava duma rotina aborrecida, mas incluía às vezes trabalhos tão difíceis e intrincados que neles se podia perder como nas profundidades de um problema matemático - falsificações delicadas, sem coisa alguma para servir de orientação, além do conhecimento dos princípios do Ingsoc e um cálculo do que o Partido desejava fosse dito. Winston destacava-se nesse tipo de trabalho. Em certas ocasiões lhe haviam confiado até a retificação de artigos de fundo do Times, escritos inteiramente em Novilíngua. Desenrolou o bilhete que pusera de lado antes. Dizia:

times 3.12.83 noticia ordemdia gi dupliplusimbom refs impessoas reescreve compl subsuper prearquivo.

Em Anticlíngua (ou inglês comum) se poderia traduzir: A notícia da Ordem do Dia do Grande Irmão no Times de 3 de dezembro de 1983 é extremamente insatisfatória e faz referência a pessoas não existentes. Reescreve por completo e submete a minuta à autoridade superior antes de arquivar.

Wínston leu o artigo ofensivo. Ao que parece, a Ordein do Dia do Grande Irmão ocupara-se principalmente de elogiar a obra de uma organização conhecida por CCFF, que fornecia cigarros e outras miudezas aos marinheiros das Fortalezas Flutuantes. Um certo Camarada Withers, eminente membro do Partido Interno, merecera menção especial e até uma condecoração, a Ordem do Mérito Evidente, Segunda Classe.

Três meses depois a CCFF fôra dissolvida de repente, sem que se explicassem as razões. Podia-se imaginar que Withers e seus auxiliares tivessem caido em desgraça, porém nada transpirara nem na imprensa nem na teletela. Era de esperar-se, aliás, pois era incomum que os contraventores políticos fossem julgados ou mesmo denunciados em público. Os grandes expurgos, envolvendo milhares de pessoas, com julgamentos públicos de traidores e ideocriminosos que confessavam abjetamente os seus crimes, sendo depois executados, eram espetáculos especiais, que não ocorriam senão de dois em dois anos.  O mais comum era as pessoas caídas na antipatia do Partido sumirem simplesmente, e nunca mais se ouvir falar delas. Nunca se tinha a mínima idéia do que lhes sucedera. Em alguns casos, era até possível que não tivessem morrido.  Sem contar seus pais, Winston conhecia pessoalmente umas   trinta pessoas que haviam desaparecido.

Winston arranhou o nariz, de leve, com um grampo de papel. No cubículo do outro lado o Camarada Tillotson ainda se inclinava furtivo sôbre o falascreve. Levantou a cabeça por um momento: de novo o lampejo hostil dos óculos. Winston indagou de si próprio se acaso o Camarada Tillotson estava fazendo o mesmo que êle. Era perfeitamente possível. Trabalho tão delicado não devia nunca ser confiado a uma só pessoa; por outro lado, entregá-lo a um comité seria admitir abertamente a falsificação. O mais provável era que umas doze pessoas estivessem trabalhando em versões rivais do que na verdade dissera o Grande Irmão. Mais tarde, algum cérebro privilegiado do Partido Interno escolheria esta ou aquela versão, retocá-la-ia nalguns pontos e daria início aos complicados processos de referência cruzada necessários, e daí a mentira selecionada passaria aos anais permanentes, tornando-se verdade.

Winston não sabia porque Withers se desgraçara. Talvez por incompetência ou corrupção. Talvez o Grande Irmão apenas desejasse se livrar de um subordinado demasiado Popular. Ou quem sabe Withers, ou alguém ligado a êle tivesse sido suspeito de tendencias heréticas. Ou quiçá -era o mais provável - a coisa tivesse sucedido apenas porque Os expurgos e as vaporizações eram parte necessária da mecânica do govêrno. A única revelação positiva estava nas palavras "refs impessoas", que indicavam que Withers já

morrera. Não se devia imaginar isso, automàticamente, quando as pessoas eram detidas. As vezes eram postas em liberdade e assim continuavam um ano ou dois, antes de executadas. Muito raramente, pessoas que se acreditavam mortas havia muito tempo, -reapareciam como fantasmas num julgamento público, implicavam centenas de outras com seu testemunho e tornavam a desaparecer, então para sempre. Withers, todavia, já era uma impessoa. Não existia; nunca existira. Winston resolveu que não bastaria inverter a tendência do discurso do Grande Irmão, Seria melhor focalizar um assunto completamente desligado do tema original.

Poderia transformar a oração na denúncia costumeira dos traidores e ideocriminosos, porém isso daria um pouco na vista, enquanto que inventar uma vitória na frente, ou algum triunfo de superprodução no Nono Plano Trienal, poderia complicar demais os registros. Era preciso uma peça de pura fantasia. De repente, brotou-lhe na mente, sob rnedida, a imagem de um tal Camarada Ogilvy, recém-falecido em combate, em circunstâncias heróicas. Ocasiões havia em que o Grande Irmão dedicava a sua Ordem do Dia ao tributo de um humilde membro do Partido, um soldado raso, cuja vida e morte podiam ser apontadas como exemplos dignos de ser seguidos. Hoje, êle homenagearia o Camarada Ogilvy. Bem verdade, não existira essa pessoa, porém umas linhas de tipo e um par de fotos falsificadas logo lhe dariam vida.

Winston pensou um momento, puxou o falascreve para perto e começou a ditar no estilo familiar do Grande Irmão: estilo ao mesmo tempo militar e pedante, e muito fácil de imitar, por causa da abundância de perguntas retóricas, que êle fazia e êle próprio respondia ("Que lições devemos tirar dêste fato, camaradas? A lição - que é também um dos princípios fundamentais do Ingsoc - de que," etc., etc.).

Aos três anos de idade o Camarada Ogilvy recusava todos os brinquedos, além dum tambor, uma sub-metralhadora e um modêlo de helicóptero. Aos seis anos, - um ano antes do normal, por especial concessão - matriculara-se nos Espiões; aos nove já era chefe da tropa. Aos onze, denunciara o tio à Polícia do Pensamento, depois de entreouvir uma conversa que lhe parecera revelar tendencias criminosas. Aos dezessete tornara-se organizador distrital da Liga Juvenil Anti-Sexo. Aos dezenove, desenhara uma granada de mão adotada pelo Ministério da Paz e que, na sua primeira experiência, matara numa só explosão trinta e um prisioneiros eurasianos. Aos vinte e três perecera em ação. Perseguido por jatos inimigos ao sobrevoar o oceano índico com importantes despachos, amarrara ao corpo como contrapeso a sua metralhadora e saltara do helicóptero ao mar, com despachos e tudo - um fim que, segundo o Grande Irmão, não se podia contemplar sem sentir inveja. O Grande Irmão acrescentou alguns comentários sôbre a pureza e a unidade de propósito da vida do Camarada Ogilvy. Era abstinente total, não fumava, não se entregava a recreações além de uma hora no ginásio; fizera voto de celibato, por acreditar que o casamento e o cuidado da família eram incompatíveis com a devoção de vinte e quatro horas ao dever. Não tinha na conversação outros assuntos além dos princípios do Ingsoc, e nenhum objetivo na vida excepto a derrota do inimigo eurasiano e a perseguição de espiões, sabotadores, ideocriminosos e traidores em geral.

Winston debateu consigo mesmo se devia ou não conferir ao Camarada Ogilvy a Ordem do Mérito Evidente; por fim resolveu-se contra, em vista das desnecessárias referências cruzadas que envolveria.

De novo tornou a relancear a vista para o rival no cubículo defronte. Algo parecia dizer-lhe, com certeza, que Tillotson estava empenhado no mesmo trabalho que êle. Não havia meio de saber qual das versões por fim seria adotada, mas tinha a profunda convicção de que seria a sua. O Camarada Ogilvy, inexistente uma hora atrás, era agora um fato. Pareceu-lhe curioso ter a faculdade de criar homens mortos, mas não vivos. O Camarada Ogilvy, que jamais existira no presente, agora existia no passado, e existia com a mesma autenticidade, e as mesmas provas, que Carlos Magno ou Júlio César.

5

Na cantina de baixo pé direito, metida nas entranhas do solo, arrastava-se devagarinho a fila do almoço. A sala já estava atulhada, e o barulho era ensurdecedor. Da grade do balcão vinha uma nuvem de vapor de guisado, um cheiro metálico, azedo, que não chegava a dominar o odor do gin Vitória. Do outro lado da sala havia um pequeno bar,     um simples nicho na parede, onde se podia comprar gin a     dez centavos a dose grande.

- Exatamente quem eu procurava - disse uma  voz atrás de Winston.

Voltou-se. Era o seu amigo Syme, que trabalhava no Departamento de Pesquisa. "Amigo" talvez não fosse a palavra correta. Não se tinham mais amigos, tinham-se camaradas; mas havia alguns camaradas cuja companhia era mais agradável que outros. Syme era filólogo, especialista em Novilíngua. Com efeito, fazia parte da enorme equipe de peritos empenhada na compilação da Décima Primeira Edição do dicionário da Novilíngua. Era um sujeito mirrado, menor que Winston, de cabelo escuro e olhos grandes, saltados, que eram ao mesmo tempo zombeteiros e tristonhos, e que pareciam examinar atentamemte a face do interlocutor.

- Queria te perguntar se tens uma gilete - disse êle.

- Nenhuma! - respondeu Winston, apressado, como quem se sente culpado. - Procurei em tôda parte. Não existem.

Todo mundo vivia procurando gilete. Na verdade tinha duas lâminas, que estava escondendo. Havia meses que faltavam na praça. Em determinado momento, havia sempre algum artigo necessário que as lojas do Partido não tinham para fornecer. As vezes eram botões, outras linha para serzir meias, outras atacadores para sapatos; no momento, eram lâminas de barba. Só podiam ser encontradas, com um pouco de sorte, numa busca furtiva no mercado "livre."

- Há seis semanas que uso a mesma lâmina - acrescentou, mentindo.

A fila deu mais um salto à frente. Quando pararam, êle se voltou e encarou Syme outra vez. Os dois apanharam bandejas de metal, engorduradas, de uma pilha na ponta do balcão.

- Foste ver os enforcamentos, a noite passada? - indagou Syme.

- Estava trabalhando - disse Winston, com indiferença.

- Com certeza verei no cinema.

- Pobre substituição - comentou Syme. Seus olhos galhofeiros examinaram o rosto de Winston. Pareciam dizer: "Eu te conheço. Vejo através de ti, sei muito bem porque não foste ver os prisioneiros enforcados." Intelectualmente, Syme era venenoso de tão ortodoxo. Falava com satisfação e júbilo, muito desagradáveis, de ataques de helicópteros a aldeias inimigas, julgamento e confissão de ideocriminosos, execuções no subsolo do Ministério do Amor. Para se conversar direito com êle era essencial afastá-lo dêsses assuntos, enredando-o, se possível, nas tecnicalidades da Novilíngua, a respeito do que era interessante e bem informado. Winston virou a cabeça um pouco para o lado, para fugir ao exame dos grandes olhos escuros.

- Foi um bom enforcamento - prosseguiu Syme, recordando. - Mas creio que estragam o espetáculo quando, amarram os pés do cara. Gosto de vê-los esperneando. Mas acima de tudo, no fim, a língua saltando da bôca, azulzinha - azul brilhante. É o detalhe que mais me interessa.

- Outro! - berrou o prole de avental branco, que empunhava a concha de sopa.

Winston e Syme empurraram as bandejas por baixo da grade. E cada um recebeu, em segundos, o almoço regulamentar - marmita de metal com um guisado rosa-cinza, um pedaço de pão, um cubo de queijo, uma xícara de Café Vitória, preto, uma tablete de sacarina.

- Vamos para aquela mesa debaixo da teletela, - disse Syme. - E no caminho pegamos um gin.

O gin foi servido em xícaras de louça sem asa. Atravessaram em ziguezague o salão cheio e largaram as bandejas numa mesa de tampo de metal, no canto da qual alguém

deixara um lago de cozido, um líquido nojento que parecia vômito. Winston apanhou -a xícara de gin, fez uma pausa para ganhar coragem e enguliu a beberagem de gosto oleoso. Ao limpar as lágrimas dos olhos, descobriu de repente que estava com fome. Pôs-se a engulir colheradas do cozido que, entre outros ingredientes, tinha cubos de uma massa rosada, esponjosa, que devia ser úma carne qualquer. Nenhum dos dois falou enquanto não esvaziaram as marmitas. Na mesa à esquerda de Winston, um pouco para trás, alguém falava rápido, sem parar, uma cantilena áspera que parecia o grasnar de um pato, e que conseguia romper o falatório da cantina.

- Como vai o dicionário? - perguntou Winston, levantando a voz para se fazer ouvir.

- Devagar - respondeu Syme. - Estou nos adjetivos. É fascinante.

O rosto se lhe iluminara imediatamente com a menção da Novilíngua. Empurrou a marmita para o lado, apanhou com a mão delicada o cubo de queijo, o pedaço de pão com a outra, e ínclinou-se sôbre a mesa, para poder falar sem gritar.

- A Décima Primeira Edição será definitiva - disse êle. - Estamos dando à língua a sua forma final - a forma que terá quando ninguém mais falar outra coisa. Quando tivermos terminado, gente como tu terá que aprendê-la de novo. Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras - às dezenas, às centenas, todos os dias. Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050.

Mordeu famintamente o pão e enguliu dois bocados. Depois continuou a falar, com uma espécie de paixão pedante. O rosto magro e moreno animara-se, os olhos haviam perdido a expressão de chacota e tinham-se tornado quase sonhadores.

- É lindo, destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, que justificação existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. "Bom", por exemplo. Se temos a palavra "bom," para que precisamos de "mau"? "Imbom" faz o mesmo efeito - e melhor, porque é exatamente oposta, enquanto que mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais forte para dizer "bom", para que dispôr de tôda uma série de vagas e inúteis palavras como "excelente" e "esplêndido" etc. e tal? "Plusbom" corresponde à necessidade, ou "dupliplusbom" se queres algo inda mais forte. Naturalmente, já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras - ou melhor, uma única. Não vês que beleza, Winston? Naturalmente, foi idéia do Grande Irmão, - acrescentou, à guisa de conclusão.

Uma tênue ansiedade perpassou pelo rosto de Winston à menção do Grande Irmão. Isso não obstante, Syme imediatamente percebeu nele uma certa falta de entusiasmo.

- Não aprecias realmente a Novilíngua, Winston -disse, quase com tristeza. - Mesmo quando escreves em Novilíngua, pensas na antiga. Tenho lido artigos teus no Times. São bons, mas são traduções. No teu coração, havias de preferir a Anticlíngua, com tôda a sua imprecisão e suas inúteis gradações de sentido. Não percebes a beleza que é destruir palavras. Sabes que Novilíngua é o único idioma do mundo cujo vocabulário se reduz de ano para ano?

Winston naturalmente não sabia. Sorriu, com ar de simpatia (ao que esperava), não confíando em suas próprias palavras. Syme mordiscou outro fragmento do pão escuro, mastigou-o um pouco e continuou: -Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. Já, na Décima Primeira Edição, não estamos longe disso. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras, e a gama da consciência sempre um pouco menor. Naturalmente, mesmo em nosso tempo, não há motivo nem desculpa para cometer uma crimidéia. É apenas uma questão de disciplina, controle da realidade. Mas no futuro não será preciso nem isso. A Revolução se completará quando a língua for perfeita. Novilíngua é Ingsoc e Ingsoc é Novilíngua, - agregou com uma

espécie de satisfação mística. - Nunca te ocorreu, Winston, que por volta do ano de 2050, o mais tardar, não viverá um único ser humano capaz de compreender esta nossa palestra?

- Excepto... - começou Winston, em tom de dúvida, mas parou de repente.

Estivera a pique de dizer "Excepto os proles", mas controlou-se, sem ter plena certeza de que essa observação fosse ortodoxa. Syme, todavia, adivinhara o que êle quisera dizer.

- Os proles não são seres humanos, - disse êle, descuidado. - Por volta de 2050, ou talvez mais cêdo, todo verdadeiro conhecimento da Anticlíngua terá desaparecido. A literatura do passado terá sido destruida, inteirinha. Chaucer, Shakespeare, Milton, Byron - só existirão em versões Novilíngua, não apenas transformados em algo diferente, como transformados em obras contraditórias do que eram. Até a literatura do Partido mudará. Mudarão as palavras de ordem. Como será possível dizer "liberdade é escravidão se for abolido o conceito de liberdade? Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje o entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência.

Qualquer dia, refletiu Winston, com convicção profunda e repentina, Syme será vaporizado. É inteligente demais. Vê demasiado claro e fala sém subterfúgios. O Partido não gosta de gente assim. Um dia êle desaparecerá. Está na cara.

Winston liquidara o pão e queijo. Virou um pouco de lado na cadeira para beber a xícara de café. Na mesa à esquerda o homem da voz estridente continuava falando sem parar, sem dó dos ouvintes. Uma jovem, talvez su'a secretária, sentada de costas para Winston, escutava com atenção e parecia ansiosa em concordar com tudo quanto êle dizia, De vez em quando Winston apanhava uma observação como "Eu acho que tens tanta razão, concordo tanto contigo," dita numa voz feminina, juvenil e um tanto tola. Mas a outra voz não parava por um instante sequer, nem mesmo quando a moça falava. Winston conhecia o homem de vista, embora a seu respeito não soubesse senão que ocupava cargo importante no Departamento de Ficção. Teria uns trinta anos, e ostentava pescoço musculoso, e bôca grande, muito agitada. Como estava com a cabeça um pouco inclinada para trás, seus óculos captavam a luz e apresentavam a Winston dois discos brancos, em vez de olhos. O horrível era que daquela catadupa de som que borbotava de sua bôca, mal se podia distinguir uma palavra solta. Apenas uma vez Winston apanhou uma frase - "eliminação completa e final do goldsteinismo" - grasnada tôda de uma vez, numa peça só, como se fosse uma linha de linotipo. O resto não passava de barulho, quá-quá-quá. Embora não se pudesse ouvir o que o homem dizia, não podia haver dúvida quanto à natureza geral da litania. Talvez estivesse denunciando Goldstein e exigindo medidas mais severas contra os ideocriminosos e sabotadores, tálvez fulminando as atrocidades do exército eurasiano; podia estar louvando Grande Irmão ou os heróis da frente de Malabar - não fazia diferença. Fosse o que fosse, podia-se ter a certeza de que cada palavra era pura ortodoxia, puro Ingsoc. Olhando a cara sem olhos, a mandíbula mexendo sem parar, Winston teve a sensação curiosa de não se tratar de um legitimo ente humano, mas de uma espécie de manequim. Não era o cérebro do homem que falava, era a laringe. O que saía da bôca era constituido de palavras, mas não era fala genuina: era um barulho inconsciente, como o grasnido dum pato.

Syme calara-se por um momento, e com o cabo da colher desenhava arabescos de caldo sôbre a mesa. A voz da outra mesa continuou grasnando rápido, fácil de ouvir apesar da barulheira ambiente.

- Em Novilíngua há uma palavra que não sei se conheces. É patofalar - disse Syme. - Grasnar como pato. É uma dessas palavras interessantes que têm dois sentidos contraditórios. Aplicada a um adversário, é insulto; aplicada a um correligionário, é elogio.

Sem dúvida alguma Syme será vaporizado, Winston tornou a pensar. Pensou-o com um laivo de tristeza, embora soubesse muito bem que Syme o desprezava e hostilizava ligeiramente, e que era perfeitamente capaz de denunciá-lo como ideocriminoso se enxergasse algum motivo para assim Proceder. Havia algo de errado, de sutilmente errado, em Syme. Carecia de discreção, indiferença, e de estupidez salvadora. Não se podia dizer que fosse ortodoxo. Acreditava nos princípios do Ingsoc, venerava o Grande Irmão, rejubilava-se com as vitórias, odiava os hereges, não apenas com sinceridade como com zêlo incansável e informação recente, de que os militantes comuns não se aproximavam. Todavia, um ligeiro ar de má fama estava sempre presente nele. Dizia coisas que era melhor calar, lia livros demais, frequentava o

Café Castanheira, santuário de pintores e músicos. Não havia lei, nem implícita, contra a frequência do Café Castanheira; ainda assim, a casa era de maus preságios. Os antigos e desacreditados líderes do Partido costumavam reunirse lá, antes de serem expurgados. Dizia-se que o próprio Goldstein fôra visto algumas vezes lá, anos e décadas passadas. Não era difícil prever o fim de Syme. No entanto era fato que se Syme percebesse, por três segundos que fosse, a natureza das opiniões secretas de Winston, instantâneamente o denunciaria à Polícia do Pensamento. Aliás, era o que faria qualquer um: Syme mais que os outros, porém.

O zelo não bastava. Ortodoxia era inconsciência.

Syme ergueu o olhar.

- Aí vem Parsons, - anunciou. - E alguma coisa no seu tom de voz pareceu acrescentar: "aquele pobre idiota." De fato Parsons, vizinho de apartamento de Winston na Mansão Vitória, vinha se encaminhando para o lado dêles - um homenzinho atarracado, de estatura média, com cabelo claro e cara de rã. Aos trinta e cinco de idade, já criava rolos de gordura no pescoço e na barriga, mas seus movimentos eram alerta e infantis. Tôda a sua aparência era a de um menininho crescido, tanto que, embora usasse o macacão costumeiro,  era quase obrigatório imaginá-lo como um garoto de calças curtas azuis, camisa cinza e lenço vermelho dos Espiões. Visualizando Parsons, via-se sempre uma figura de joelhos gordos e covinhas, mangas arregaçadas sôbre braços cheios. Com efeito, Parsons invariàvelmente voltava aos shorts quando uma passeata comunal ou qualquer outra atividade física lhe dava pretexto. Cumprimentou-os com um quérulo "Alô, alô!" e sentou-se à mesa, cheirando intensamente a suor. Gotinhas de transpiração brilhavam-lhe no rosto rosado. Era extraordinária sua capacidade de exsudação. No Centro Comunal era sempre possível dizer quando êle estivera jogando pingue-pongue, pela molhadeira do cabo da raquete. Syme produzira uma tira de papel na qual havia uma longa coluna de palavras, e as estudava com um lapis-tinta na mão.

- Olha só êle trabalhando na hora do almôço - disse Parsons, dando uma cotovelada em Winston. - Puxa, hein? Que é isso aí, velhinho? Vai ver que é algo difícil para mim. Smith, meu velho, já te digo porque te procuro. É aquela conta que te esqueceste de me dar.

_. Que conta é essa? - indagou Winston, procurando dinheiro automàticamente. Cerca de quarta parte do salário de cada um tinha de ser destinada a contribuições voluntárias, que eram tantas que se tornava difícil se lembrar de tôdas.

- Para a Semana do ódio. Sabes... coleta domiciliar. Sou o tesoureiro de nosso quarteirão. Estamos dando uma virada grande. .. vamos dar um bruto show. Te digo que não será minha culpa se a Mansão Vitória não ostentar mais bandeiras que a rua tôda. Me prometeste dois dólares.

Winston achou e entregou duas notas amassadas e imundas, que Parsons anotou num pequeno canhenho, com a letrinha caprichada do analfabeto.

-Por falar nisso, meu velho - continuou - eu soube que o malandrinho do meu garoto te deu uma estilingada ontem. - Passei-lhe uma boa raspança por causa disso. Sim, até disse que lhe tomaria o estilingue se repetisse a proeza.

- Creio que ficou um Pouco chateado de não assistir à execução - disse Winston.

- Ah, bom... quero dizer, é o que deve esperar, não? São dois patifetes, e peraltas, mas tão esforçados! Só pensam nos Espiões, e na guerra, naturalmente. Sabes o que a minha filhinha fez sábado passado, quando a tropa saiu a passeio para as bandas de Berkhamsted? Convenceu duas meninas a acompanhá-la, afastou-se do grupo e passou a tarde tôda acompanhando um desconhecido. Estiveram duas horas no encalço dêle, pelos bosques a fora, e depois, quando chegaram a Amersham, entregaram-no às patrulhas.

- Por que fizeram isso? - indagou Winston, um tanto chocado. Parsons continuou, triunfante:

- Minha pirralha convenceu-se de que devia ser um agente estrangeiro... talvez tivesse saltado de paraquedas, por exemplo. Mas aqui é que está o busilis, velho. Sabes o que a levou a segui-lo? Descobriu que êle usava uns sapatos muito esquisitos - disse que antes nunca tinha visto ninguém com sapatos daqueles. Era portanto provável que fosse estrangeiro. Bem espertinha para um espirro de gente, de sete anos, hein?

- Que aconteceu ao homem? - perguntou Winston.

- Ah, isso não sei, naturalmente. Mas não ficaria nada surpreendido de que... - e Parsons imitou um soldado fazendo mira com o fusil, e com a língua estalou um tiro.

- Bom - fez Syme, distraido, sem nem ao menos levantar os olhos do papel.

- Naturalmente, não podemos nos arriscar - comentou Winston, lealmente.

- Quero dizer, estamos em guerra - disse Parsons. Como se para confirmar essas palavras, um toque de clarim soou da teletela, bem por cima da cabeça do trio. Não se tratava, contudo, da proclamação de uma vitória militar, mas apenas um anúncio do Ministério da Fartura.

- Camaradas! - gritou uma voz juvenil. - Atenção, camaradas! Temos gloriosas notícias! Ganhamos a batalha da produção! Os totais completos da produção de todos os artigos de consumo demonstram que o padrão de vida aumentou de nada menos que vinte por cento sÔbre o ano passado. Em tôda a Oceania houve esta manhã incontroláveis demonstrações espontâneas, com os trabalhadores marchando das fábricas e escritórios, e desfilando pelas ruas, com estandartes exprimindo sua gratidão ao Grande Irmão, pela nova vida feliz que a sua sábia liderança nos deu. Eis alguns dos totais finais. Gêneros alimentícios...

A expressão "nova vida feliz" correu várias vezes. últimamente, caira no gôto do Ministério da Fartura. Parsons, a atenção presa pelo toque marcial, escutava com ar solene e boca aberta, mistura de aborrecimento e enlevo. Não podia acompanhar as cifras, mas tinha a certeza de que deviam causar satisfação. Tirara do bolso um cachimbão imundo, já meio cheio de fumo chamuscado. Com cem gramas de tabaco por semana, raramente era possível encher o cachimbo até em cima. Winston fumava um cigarro Vitória, que mantinha cuidadosamente na horizontal. A nova ração só começava no dia seguinte e lhe restavam apenas quatro cigarros. Conseguira tapar os ouvidos aos barulhos mais distantes e estava escutando a parlapatice da teletela. Aparentemente, houvera até demonstrações de agradecimento ao Grande Irmão por aumentar para vinte gramas a ração semanal de chocolate. No entanto, apenas na véspera, fôra anunciada a redução para vinte gramas. Seria possível que engulissem aquilo, vinte e quatro horas depois? Pois enguliam. Parsons enguliu fàcilmente, com estupidez de animal. A criatura sem olhos, da outra mesa, enguliu fanàticamente, apaixonadamente, com um desêjo furioso de descobrir, denunciar e vaporizar quem quer que ousasse sugerir que na semana anterior fôra trinta gramas. Syme também - de modo mais complexo, com duplipensar de permeio - Syme enguliu. Então era êle o único de posse da lembrança?

Fabulosas estatísticas continuaram saindo da teletela. Em comparação com o ano anterior havia mais comida, mais roupa, mais casas, mais móveis, mais panelas, mais combustível, mais navios, mais helicópteros, mais livros, mais recémnascidos - tudo aumentara, excepto a doença, o crime e a loucura. Ano após ano, minuto após minuto, todo mundo, tudo, tudo o mais ganhava as alturas. Como fizera Syme antes, Winston tomou a colher e com o caldo se pôs a desenhar calungas sôbre a mesa. Meditava, ressentido, na textura física da vida. Teria sido sempre assim? Teria a comida tido sempre o mesmo gôsto? Olhou em tôrno da cantina. Um salão de teto baixo, paredes sujas do contacto de inúmeros corpos; maltratadas cadeiras e mesas de metal, tão juntinhas que os cotovelos se tocavam. Colheres arcadas, bandejas trincadas, rústicas xícaras brancas; gordurentas tôdas as superfícies, sujeira em cada frincha; e um cheiro azedo, composto de gin ordinário, café ruim, guisado metálico e roupa suja. Havia sempre, no estômago e na pele, uma espécie de protesto, a sensação de que se perdera, para um gatuno, algo a que se tinha direito. Era fato que não tinha recordação de nada muito diferente. Em tôdas as épocas que lembrava com precisão, nunca houvera suficiente para comer, nunca tivera meias ou roupa branca que não fossem esburacadas, mobília que não fosse capenga e gasta; e cômodos mal aquecidos, trêns subterrâneos atulhados, casas caindo aos pedaços, pão escuro, chá raro, café nojento, cigarros insuficientes - nada barato e abundante, excepto gin sintético. E conquanto as coisas piorassem com o envelhecimento do corpo, não era isto um sinal de ser diferente a ordem natural das coisas, quando o coração se confrangia ante o desconfôrto, a sujeira e a escassez, os invernos intermináveis, as meias pegajosas, os elevadores que nunca funcionavam, a água fria, o sabão áspero, os cigarros que se desfaziam, a comida de sabor mau e estranho? Por que achar tudo isso intolerável, a menos que se tivesse uma esPécie de lembrança ancestral de coisas outrora diferentes?

Tornou a olhar em volta da cantina. Quase todo mundo era feio, e seria feio ainda que se vestisse direito, em vez de usar o macacão do Partido. Do outro lado do salão, sózinho

numa mesa, um homem mirrado, que parecia um besouro, tomava uma xícara de café, os olhinhos atirando dardos suspicazes para um lado e outro. Como era fácil, pensou Winston, acreditar que o tipo físico considerado ideal pelo Partido - rapazes altos e musculosos, donzelas de grandes seios, louras, viçosas, queimadas de sol, alegres - existisse e mesmo predominasse. Na verdade, até onde podia julgar, a maioria, na Pista N.º 1, era de gente miuda, morena, mal favorecida. Era curioso que aquele tipo de escaravelho proliferasse nos Ministérios: homenzinhos tronchos, ainda moços e já obesos, de perninhas curtas, movimentos rápidos, assustados, faces gordas e inescrutáveis, de olhos minúsculos. Era o tipo que parecia florescer melhor sob o domínio do Partido.

O anúncio do Ministério da Fartura terminou com outra fanfarra e foi seguido de música metálica. Parsons, movido a um vago entusiasmo pelo bombardeio dos números, tirou o cachimbo da bôca.

- O Ministério da Fartura fez excelente trabalho êste ano - disse, abanando a cabeça com ar de quem sabe o que fala. - Por falar nisso, meu velho Smith, não tens uma giletinha que possas ceder?

- Nenhuma - replicou Winston. - Há seis semanas que estou usando a mesma lâmina.

- Ah, bom... achei que não fazia mal perguntar.

- Sinto muito.

O grasnido da mesa próxima, provisòriamente calado pelo aviso do Ministério, recomeçara, mais forte que nunca. Por algum motivo obscuro Winston de repente se surpreendeu pensando na sra. Parsons, com o cabelo ralo e poeira nas rugas. Dentro de dois anos aquelas crianças a denunciariam à Polícia do Pensamento. A sra. Parsons seria vaporizada. Syme seria vaporizado. Winston seria vaporizado. O'Brien seria vaporizado. Por outro lado, Parsons jamais seria vaporizado. A criatura sem olhos, da voz grasnante, jamais seria vaporizada. Os homenzinhos escaravelhais que tão de manso palmilhavam os labirintos dos Ministérios - êsses tampouco seriam vaporizados. E a moça do cabelo escuro, a guria do Departamento de Ficção: jamais seria vaporizada. Parecia-lhe saber por instinto quais sobreviveriam e quais pereceriam, embora não fosse fácil dizer o que dava direito à sobrevivência.

Naquele momento, foi arrancado das suas meditações por um violento golpe. A moça da mesa vizinha voltara-se de lado e estava olhando para êle. Era a rapariga do cabelo escuro. Olhava-o com o rabo dos olhos, mas com intensa curiosidade. No momento em que percebeu que êle também a fitava, desviou a vista.

O suor escorreu pela espinha de Winston. Um horrível arrepio de terror perpassou por êle. Sumiu quase imediatamente, mas deixou um ressaibo de mal-estar. Por que o fitaria daquele modo? Por que vivia a segui-lo? Infelizmente, não podia se lembrar se ela já estava na mesa quando êle chegara, ou se viera depois. A questão era que na véspera, durante os Dois Minutos de ódio, sentara atrás dêle sem haver necessidade visível de o fazer. Com tôda a certeza o seu óbjetivo real fôra escutá-lo e verificar se gritava bem alto contra Goldstein.

O pensamento anterior voltou à mente de Winston: provàvelmente não era da Polícia do Pensamento, devia ser o tipo do espião amador, que é a pior praga de tÔdas. Não sabia quanto tempo ela o estivera olhando, talvez uns cinco minutos, e era possível que não tivesse a fisionomia perfeitamente controlada. Era terrivelmente perigoso deixar os pensamentos vaguearem num lugar público, ou no campo de visão duma teletela. A menor coisa poderia denunciá-lo. Um tique nervoso, um olhar inconsciente de ansiedade, o hábito de falar sózinho - tudo que sugerisse anormalidade, ou algo de oculto. De qualquer forma, uma expressão facial imprópria (ar de incredulidade quando anunciavam uma vitória, por exemplo) era em si uma infração punível. Em Novilíngua havia até uma palavra para caracterizá-la: chamava-se facecrime.

A moça tornara a dar-lhe as costas. Afinal de contas, talvez não o estivesse seguindo. Talvez fosse coincidência sentar-se perto dêle dois dias seguidos. Êle depôs cuidadosamente na beira da mesa o cigarro que se apagara. Haveria de acabar de fumá-lo depois do trabalho, se pudesse evitar que o fumo caísse. Com tôda a probabilidade a pessoa da mesa vizinha era espiã da Polícia do Pensamento, e êle provàvelmente acabaria nos porões do Ministério do Amor, dali a três dias, mas uma ponta de cigarro não podia ser desperdiçada. Syme dobrara o papel em tira e metera-o no bolso. Parsons pusera-se a falar de novo.

- Já te contei, velho - perguntou, rindo e mordendo o cachimbo - uma vez que os meus dois pirralhos puseram fogo na saia duma velha, na feira, porque a viram embrulhar salsichas num cartaz do G.I.? De mansinho entraram atrás dela e puseram fogo no pano com uma caixa de fósforos. Queimaram-na um pedaço, creio. Safadinhos, hein? Vivos como azougue! Hoje em dia dão um treinamento de primeira nos Espiões -, melhor do que no meu tempo. Que é que achas, que forneceram aos garotos, agora? Estetoscópios para escutar pelas fechaduras! A menina trouxe um para casa a outra noite - experimentou na porta de nossa sala de estar, e calculou que podia ouvir o dôbro do que antes, quando colava a orelha na porta. Sim, naturalmente não passa dum brinquedo, mas já vai lhes dando a idéia, não é?

Nesse momento, a teletela soltou um apito contundente. Era o sinal de volta ao trabalho. Os três homens se levantaram num pincho, para correr aos elevadores, e o fumo restante deslisou do cigarro de Winston.

6

Winston escrevia no diário:

Faz três anos. Era uma noite escura, numa ruela sem luz, perto duma grande estação ferroviária. Ela estava parada perto duma porta, sob um lampeão que mal iluminava o lugar. Tinha rosto jovem, com pintura espessa. Foi realmente a pintura que me chamou a atenção, pois era branca como uma máscara, e os lábios muito vermelhos, brilhantes. As mulheres do Partido nunca se pintam. Não havia ninguém mais na rua, nem teletela. Ela disse dois dólares e eu...

Por um minuto foi difícil continuar. Fechou os olhos e apertou com os dedos, tentando afastar a visão que insistia em voltar. Tinha uma tentação quase indomável de berrar um bando de palavras indecentes a pleno pulmão. Ou bater a cabeça na parede, dar um pontapé na mesa ou atirar o tinteiro pela janela - fazer algo violento, doloroso ou ruidoso que pudesse apagar a lembrança-que o atormentava.

Nosso pior inimigo, refletiu, é o sistema nervoso. A qualquer momento a tensão que há dentro da gente pode-se traduzir num sintoma visível. Pensou num homem com quem cruzara na rua, havia algumas semanas: um sujeito de aspecto comum, membro do Partido, de trinta e cinco ou quarenta anos, alto e magro, levando uma pasta. Estavam a apenas alguns metros de distância quando o lado esquerdo do rosto do homem se contorceu súbitamente num espasmo. Tornou a acontecer quando cruzaram: era apenas um tremor, um arrepio, rápido como o clique do obturador duma máquina fotográfica, mas evidentemente habitual. Lembrou-se de ter pensado na ocasião: êsse pobre diabo está danado. O mais aterrorizante era o ato talvez ser inconsciente. O pior de

todos os perigos era falar dormindo. Não havia meio de se proteger contra aquilo.

Êle suspirou e continuou escrevendo: Entrei com ela pela porta e atravessamos um quintal, chegando à cozinha dum porão. Contra a parede havia uma cama, e sôbre a mesa uma lâmpada, muito fraquinha. Ela.. Rílhou os dentes. Gostaria de cuspir. Ao mesmo tempo que na mulher da cozinha do porão pensou em Katharine, sua esposa. Winston era casado - ou fÔra casado; com certeza ainda era casado, pois, tanto quanto sabia, a espôsa não morrera. Pareceu inalar de novo o odor morno da cozinha do porão, um cheiro misto de percevejos, roupa suja e perfume ordinário, e no entanto atraente, porque nenhuma mulher do Partido usava perfume, nem se podia imaginar que fizesse tal coisa. Só os proles usavam perfume. Para êle, aquele cheiro trazia à mente o ato sexual.

A escapada com aquela mulher fôra a primeira, em dois anos ou mais. Andar com prostitutas era proibido, naturalmente, mas era dessas regras que às vezes os militantes tinham coragem de quebrar. Era perigoso, mas não era caso de vida ou morte. Ser apanhado com uma marafona poderia significar cinco anos num acampamento de trabalhos forçados; apenas isso, se não houvesse outra infração. E era fácil, contanto que se evitasse ser surpreendido no ato. Os bairros pobres pululavam de mulheres prontas a se entregarem. Algumas podiam ser compradas até por uma garrafa de gin, que os proles não tinham direito de beber. Tàcitamente, o Partido se inclinava até a incentivar a prostituição, para dar saída a instintos que não podiam ser totalmente suprimidos. Mera luxúria não tinha maior importância, contanto que fosse furtiva e sem alegria, e só envolvesse mulheres de uma classe submersa e desprezada. O crime imperdoável era a promiscuidade entre membros do Partido. Mas - embora êste crime fosse invariàvelmente confessado pelos acusados, nos grandes expurgos - era difícil imaginar que acontecesse.

O objetivo do Partido- não era simplesmente impedir que homens e mulheres criassem lealdades difíceis de controlar. Seu propósito real, não declarado, era roubar todo o prazer ao ato sexual. Não tanto o amor como o erotismo era o inimigo, tanto dentro como fora do casamento. Todos os casamentos entre membros do Partido tinham de ser aprovados por um comité nomeado para êsse fim e - embora o princípio jamais fosse claramente declarado - a permissão era sempre recusada se o casal desse a impressão de haver qualquer atração física. O único fim reconhecido do casamento era procriar filhos para o serviço do Partido. A cópula devia ser considerada uma pequena operação ligeiramente repugnante, como um clister. Isto tampouco era dito em voz alta, mas de modo indireto era ensinado a cada membro do Partido, desde a infância. Havia até organizações como a Liga Juvenil Anti-Sexo, que advogava completo celibato para ambos os sexos. Tôdas as crianças deveriam nascer por inseminação artificial (insemart) e educadas em instituições públicas. Isto, Winston sabia, não era para se levar de todo a sério, mas de certo modo se encaixava na ideologia geral do Partido. O Partido estava procurando matar o instinto sexual, ou, se não fosse possível matá-lo, torcê-lo e torná-lo indecente. Êle não sabia o porque dessa conduta, mas assim era, e lhe parecia natural que assim fosse. E, no que se referia às mulheres, os esforços do Partido haviam logrado considerável êxito.

Êle tornou a pensar em Katharine. Devia fazer nove, dez - quase onze anos que se haviam separado. Era curioso que pensasse nela tão raramente. Às vezes, passava dias e dias sem se lembrar de que fôra casado. Tinham vivido juntos apenas quinze meses. O Partido não permitia o divórcio, mas até incentivava a separação quando não havia filhos.

Katharine era uma moça alta, de cabelos claros, muito erecta, de esplêndidos movimentos. Tinha rosto ousado, aquilino, que se poderia chamar nobre até se descobrir não haver Pràticamente nada por trás dêle. Logo no comêço da vida conjugal descobrira que Katharine possuía, sem exceção, a mente mais estúpida, vulgar e vazia que já conhecera - embora fosse talvez por conhecê-la mais intimamente que à maioria das pessoas. Não tinha na cabeça um pensamento que não fosse uma palavra de ordem, e não havia imbecilidade, absolutamente nenhuma, que ela não engulisse se o Partido a impingisse. Dera-lhe, para uso interno, o apelido de "banda sonora humana". Todavia, aguentaria viver com ela se não fosse uma coisa - sexo.

Assim que a tocava, a esposa parecia se encolher e enrijar. Abraçá-la era o mesmo que cingir uma imagem de madeira articulada. E o estranho era que, mesmo quando ela o apertava contra o seu corpo, êle tinha a impressão de

que o repelia com tôdas as suas fôrças. Era a rigidez dos seus músculos que dava aquela impressão. Deixava-se ficar de olhos fechados, sem resistir nem cooperar, apenas- se submetendo. Embaraçava extraordinàriamente, e tornava-se horrível depois de algum tempo. Entretanto, êle suportaria viver com ela, se pudessem combinar manter o celibato Mas foi a própria Katharine quem recusou êsse arranjo. Dísse que deviam produzir um filho, se possível. De modo que o exercício continuou a ter lugar, uma vez por semana, regularmente, sempre que não fosse impossível. Ela chegava a lembrá-lo pela manhã, como uma tarefa que deve ser feita à noite e que não pode ser esquecida. Referia-se ao ato com duas expressões. Uma era "fazer um filho," e a outra era "nosso dever ante o Partido" (sim, palavras textuais). Muito breve êle adquiriu verdadeiro horror da aproximação do dia convencionado. Por sorte, não houve filho, e por fim ela concordou em suspender as experiências. Pouco depois, separaram-se.

Winston suspirou alto. Tornou a apanhar a caneta e escreveu:

Ela atirou-se na cama, e imediatamente, sem qualquer preliminar, da maneira mais grosseira e horrível que se pode imaginar, levantei-lhe a saia. Eu.. .Tornou a ver-se, à luz débil do abajur, as narinas cheias do odor de percevejo e perfume barato, e no coração uma sensação de derrota e ressentimento que, mesmo naquele momento, vinha de cambulhada com a recordação do corpo branco de Katharine, congelado para sempre pelo poder hipnótico do Partido. Por que teria de ser sempre assim? Por que não poderia ter uma mulher própria, em vez de recorrer a essas aventuras sórdidas, com intervalos de vários anos? Um amor genuíno, porém, era quase impossível de imaginar. Tôdas as mulheres do Partido eram iguais. Nelas a castidade era tão profunda quanto a lealdade ao Partido. Por meio de cuidadoso condicionamento, em tenra idade, por meio de jogos e água fria, pelo lixo que lhes impingiam na escola, nos Espiões e na Liga Juvenil, por meio de conferências, paradas, canções, lemas e música marcial, tinham expulso o sentimento natural. A razão dizia-lhe que devia haver exceções, mas no fundo do coração não acreditava nisso. Eram tôdas inexpugnáveis, como desejava o Partido. E o que êle queria, mais do que ser amado, era deitar abaixo aquela muralha de virtude, mesmo que fosse apenas uma vez na vida inteira. Executado com êxito, o ato sexual era rebelião. O desêjo era crimidéia. Despertar o instinto de Katharine, se o tivesse conseguido, seria como que seduzi-la, embora fosse sua esposa.

Mas era preciso escrever o resto da história. E êle escreveu:

Levantei o abajur. Quando a vi sob a luz... Depois da treva, a luzinha fraca do candieiro de querosene lhe parecera muito clara. Pela primeira vez, pôde ver a mulher direito. Dera um passo para ela e    se detivera, cheio de luxúria e terror. Tinha dolorosa consciência do risco que corria entrando ali. Era perfeitamente possivel que as patrulhas o apanhassem na saída: podiam até estar esperando na porta, naquele momento. E se êle fosse embora sem realizar o que fôra fazer!

Era preciso escrevê-lo, era preciso confessá-lo. O que vira de repente, sob a luz da lâmpada, era que se tratava duma velha. A pintura do rosto era tão grossa que dava a impressão de que ia rachar como uma máscara de cartão. Havia fios brancos no cabelo; mas o detalhe verdadeiramente revoltante era a bôca, que se entreabria, revelando nada mais que uma caverna negra. A mulher não tinha dente algum.

Êle escreveu com pressa, aos garranchos: Quando a vi sob a luz, percebi que se tratava duma velha, de uns cinqüenta anos pelo menos. Mas fui em frente e fiz o que fôra fazer.

Tornou a apertar as pálpebras com os dedos. Escrevera tudo, por fim, mas não fazia diferença. A terapia não dera resultado. Continuava, mais forte que nunca, o desêjo de berrar obscenidades a plenos pulmões.

7

Se há esperança, escreveu Winston, está nos proles. Se esperança houvesse, devia estar nos proles, porque só neles, naquela massa desdenhada, formigante, 85% da população da Oceania, podia se gerar fôrça suficiente para destruir o Partido. O Partido não poderia ser derribado de dentro. Seus inimigos, se é que tinha inimigos, não tinham modo de se reunir, nem mesmo de se identificar. Mesmo que existisse a legendária Fraternidade, como era possível que existisse, era inconcebível que os seus membros pudessem jamais se reunir em grupos maiores que dois ou três. A rebelião revelava-se num olhar, numa inflexão da voz; no máximo, num cochicho ocasional. Mas os proles, se de algum modo adquirissem consciência do seu poderio, não precisariam conspirar. Bastava-lhes levantarem-se e sacudirse, como um cavalo sacode as moscas. Se o quisessem, poderiam demolir o Partido no dia seguinte. Mais cedo ou mais tarde, isso lhes haveria de ocorrer. No entanto... !

Lembrou-se de uma vez em que ia passando por uma rua cheia de gente quando um tremendo grito de centenas de vozes - vozes de mulher - se fizera ouvir num beco lateral, pouco adiante. Era um formidável brado de ira e desespêro, um "Oh-o-o-o-oh!" forte e grave, que continuou como a reverberação de um sino. Seu coração dera um pinote. Começou! pensara. Um conflito! Por fim os proles se libertam! Quando chegou ao local, viu um bando de duzentas ou trezentas mulheres, cercando as barracas de uma feira, faces trágicas como se fossem passageiros condenados num navio a soçobrar. Naquele momento exato, porém, o desespêro geral se subdividiu numa multidão de briguinhas. Ao que parece uma das barracas tinha caçarolas estanhadas à venda. Eram de folha fina, horrorosas, mas era dificílimo arranjar panelas. O estoque não durara muito, portanto. As mulheres que tinham conseguido comprar tentavam se afastar com as caçarolas em punho, pisadas e acotoveladas pelo resto, enquanto dúzias de outras clamavam, em tôrno da barraca, acusando o feirante de favoritismo e de ter mais caçarolas escondidas. Houve nova série de uivos. Duas mulheres gordalhufas, uma delas com o cabelo caindo sôbre os olhos, tinham agarrado a mesma caçarola e estavam tentando se apossar dela. Por um momento, houve empate. Depois o cabo se desprendeu. Winston observou-as enojado. E no entanto, por um momento, que poderio aterrorizante se fizera ouvir naquele grito de algumas centenas de gargantas! Por que não poderiam gritar dessa forma quando acontecesse algo de fato importante?

Escreveu: Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes, e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem.

Refletiu que a frase poderia ser quase a transposição de um dos textos básicos do Partido. O Partido proclamava, naturalmente, ter libertado os proles da servidão. Antes da Revolução eram oprimidos pelos capitalistas, tinham sido chicoteados e submetidos à fome, as mulheres forçadas a trabalhar nas minas de carvão (na verdade, as mulheres ainda trabalhavam nas minas), as crianças vendidas às fábricas com a idade de seis anos. Simultâneamente, fiel aos princípios do duplipensar, o Partido ensinara que os proles eram naturalmente inferiores, que deviam ficar em sujeição, como animais, pela aplicação de algumas regras simples. Pouquíssimo se sabia a respeito dos proles. Não era necessário saber muito. Contanto que continuassem a trabalhar e se reproduzir, não tinham importância suas outras atividades. Abandonados a si mesmos, como gado solto nas planuras argentinas, haviam regressado a um modo de vida que lhes parecia natural, uma espécie de tradição ancestral. Nasciam, cresciam nas sargetas, iam para o trabalho aos doze, atravessavam um breve período de floração da beleza e do desêjo sexual, casavam-se aos vinte, atingiam a maturidade aos trinta, e em geral morriam aos sessenta. O trabalho físico pesado, o trato da casa e dos filhos, as briguinhas com a vizinhança, o cinema, o futebol, a cerveja e, acima de tudo, o jôgo, enchiam-lhes os horizontes.  Mantê-los sob contrôle não era difícil. Alguns agentes da Polícia do Pensamento

estavam sempre entre êles, soltando boatos, marcando e eliminando os poucos individuos julgados capazes de se tornar perigosos; mas não se tentava doutriná-los com a ideologia do partido. Não era desejável que os proles tivessem sentimentos políticos definidos. Tudo que se lhes exigia era uma espécie de patriotismo primitivo ao qual se podia apelar sempre que fosse necessário levá-los a aceitar rações menores ou maior expediente de trabalho. E mesmo quando ficavam descontentes, como às vezes acontecia, o descontentamento não os conduzia a parte alguma porque, não tendo idéias gerais, só podiam focalizar a animosidade em ridículas reivindicações específicas. Os males maiores geralmente lhes fugiam à observação. A grande maioria dos proles nem tinha teletelas em casa. Até a polícia civil interferia pouquíssimo com êles. Havia enorme criminalidade em Londres! todo um mundo subterrâneo de ladrões, bandidos, prostitutas, vendedores de narcóticos e contraventores de todo tipo; mas como tudo se passava entre os próprios proles, não tinha importância. Em tôdas as questões morais, permitia-se-lhes obedecerem ao código ancestral. O puritanismo sexual do Partido não lhes era imposto. A promiscuidade não era punida, e o divórcio era permitido. Nesse particular, até a adoração religiosa teria sido permitida se os proles demonstrassem algum sintoma de desejá-la ou dela carecerem. Ninguém desconfiava dêles. Como dizia o lema do Partido: "Os proles e os animais são livres."

Winston esticou o braço e coçou cautelosamente a variz ulcerada. Começara a comichar de novo. O que sobrevinha invariàvelmente era a impossibilidade de saber como de fato fôra a vida antes da Revolução. Tirou da gaveta um livro escolar de história, que tomara emprestado à sra. Parsons, e pôs-se a copiar um trecho no diário:

Antigamente (dizia), antes da gloriosa Revolução, Londres não era a bela cidade que hoje conhecemos. Era um lugar escuro, sujo, miserável, onde pouca gente tinha bastante que comer e onde centenas e milhares de pobres não tinham calçado nem abrigo onde dormir. Crianças de mais ou menos a tua idade tinham de trabalhar doze horas por dia, para patrões cruéis, que as castigavam com chicotes quando trabalhavam muito devagar e não lhes davam senão côdeas de pão velho e água. Mas no meio dessa terrível pobreza havia umas poucas casas belíssimas habitadas pelos ricos, que tinham até trinta criados para cuidar dêles. Êsses homens ricos chamavam-se capitalistas. Eram gordos, feios, de caras perversas, como a que vês na página ao lado. Repara que veste um grande casaco negro, chamado fraque, e um chapéu estranho, brilhante, como uma chaminé truncada, e que se chamava cartola. Era êsse o uniforme dos capitalistas e ninguém mais podia usá-lo.  Os capitalistas eram donos de tudo no mundo, e tôdas as outras pessoas eram escravas dêles. Eram donos de tôda a terra, tôdas as casas, tôdas as fábricas, todo o dinheiro. Se alguém lhes desobedecesse, podiam jogá-lo na prisão, ou podiam tomar-lhe o emprego e matá-lo lentamente, pela fome. Quando um cidadão comum falava com um capitalista, tinha de se encolher e se inclinar, tirar o boné e chamá-lo de "Senhor." O chefe de todos os capitalistas denominava-se Rei, e...

Mas êle conhecia o resto do catálogo. Vinhàm as referências aos bispos com suas vestes opulentas, os juizes e os mantos de arminho, o pelourinho, o cepo, a roda de castigo, o gato de nove caudas, o Banquete do Lord Maior e a prática de beijar o artelho do Papa. Haveria também o chamado jus primae noctis, que provàvelmente não seria citado num livro para crianças. Era o direito de todo capitalista de dormir com qualquer operária de suas fábricas.

Como era possível dizer onde acabava a verdade e começava a mentira? Podia ser verdade que o ser humano comum agora vivesse melhor do que antes da Revolução. A única prova em contrário era o protesto mudo nos ossos, o sentimento instintivo de que as condições em que vivia eram intoleráveis e que deviam ter sido diferentes. De repente achou que as únicas coisas verdadeiramente típicas da vida moderna não eram nem a crueldade nem a insegurança, mas apenas a nudez, a miséria, o desânimo. Olhando-se em tôrno, verificava-se que a vida não apenas diferia das mentíras que Provinham das teletelas, como também dos ideais que o Partido buscava atingir. Muitas atividades cotidianas, mesmo para um membro do Partido, eram neutras e não políticas, questão de cumprir tarefas tediosas, lutar por um lugar no trem subterrâneo, remendar uma meia gasta, esmolar uma pastilha de sacarina, guardar uma ponta de cigarro. O ideal criado pelo Partido era enorme, terrível, luzidio - um mundo de aço e concreto, de monstruosas máquinas e armas aterrorizantes - uma nação de guerreiros e fanáticos, marchando

avante em perfeita unidade, todos tendo os mesmos pensamentos e gritando as mesmas divisas - trezentos milhões comm a mesma cara - trabalhando perpètuamente, lutando, triunfando, perseguindo. A realidade eram cidades caindo em ruinas, escuras, onde o populacho subnutrido perambulava com sapatos furados, vivendo em remendadas casas do século dezenove que sempre cheiravam a repolho e latrinas de mau funcionamento. Parecia ter uma visão de Londres, vasta e arruinada, uma cidade de um milhão de latas de lixo, e misturada com ela a figura da sra. Parsons, mulher de cara enrugada e cabelo ralo, lidando sem esperança com um cano de esgôto.

Tornou a esticar o braço e a coçar o tornozelo. Dia e noite as teletelas feriam os ouvidos com estatísticas provando que hoje o povo tinha mais alimento, mais roupa, melhores casas, melhor divertimento - que vivia mais, trabalhava menos, era mais alto, mais saudável, mais forte, mais feliz, mais inteligente, mais bem educado, do que o povo de cinquenta anos atrás. Nenhuma palavra podia ser provada ou negada. O Partido proclamava, por exemplo, que hoje 40% dos proles eram alfabetizados; e dizia que antes da Revolução o total não chegava a 15%. O Partido afirmava que a mortalidade infantil era agora de apenas 160 por mil, enquanto que antes fôra trezentos por mil - e assim por diante. Era uma equação única com duas incógnitas. Podia muito bem dar-se que cada palavra, literalmente, dos livros de história, mesmo quando aceite sem dúvida, fosse pura fantasia. Tanto quanto sabia, podia muito bem ser que nunca tivesse havido o jus primae noctis, nem capitalistas, nem cartola.

Tudo se fundia na névoa. O passado era raspado, esquecida a raspagem, e a mentira tornava-se verdade. Apenas uma vez na vida possuira - depois do acontecimento: era o que importava - prova concreta, inegável de uma falsificação. Tivera-a entre os dedos durante uns trinta segundos. Devia ter sido em 1973 - isto é, mais ou menos na ocasião em que se havia separado de Katharine. O acontecimento, porém, tivera lugar sete ou oito anos antes.

Com efeito, a história começara por volta de 1965, o período dos grandes expurgos em que os chefes originais da Revolução tinham sido liquidados duma vez por tôdas. Aí por 1970 não sobrava ninguém, excepto o Grande Irmão. A essa altura todos os restantes haviam sido acusados de traição e atividades contra-revolucionárias. Goldstein fugira e escondera-se em lugar não sabido, e dos outros alguns tinham desaparecido, enquanto que a maioria fôra justiçada, após espetaculares julgamentos públicos em que confessara amplamente seus crimes. Entre os últimos sobreviventes, contavam-se três homens chamados Jones, Aaronson e Rutherford. O trio devia ter sido preso em 1965. Como acontecia com frequência, tinham sumido durante um ano ou mais, de modo que ninguém sabia se estavam vivos ou mortos; de repente tinham aparecido para se incriminar da maneira habitual. Confessaram entendimentos com o inimigo (que naquela data era a Eurásia), desfalque de dinheiros públicos, assassínios de vários dignos membros do Partido, intrigas contra a liderança do Grande Irmão que se tinham iniciado muito antes da Revolução, e atos de sabotagem causadores da morte de centenas de milhares de inocentes. Depois de confessar, tinham sido perdoados, reestabelecidos no Partido e nomeados para cargos que pareciam importantes mas que não passavam de sinecuras. Os três haviam escrito longos e abjetos artigos no Times, analisando as razões da sua defecção e prometendo emendar-se.

Algum tempo depois, Winston vira os três no Café Castanheira. Lembrava-se do fascínio com que os examinara, com o rabo dos olhos. Eram bem mais velhos que êle, relíquias de um mundo antigo, quase que as últimas grandes figuras remanescentes do passado heróico do Partido. O encanto da luta clandestina e da guerra civil ainda pairava ligeiramente sôbre êles. Winston teve a impressão, embora já os fatos e datas se fossem confundindo, que lhes soubera os nomes muito antes de conhecer o do Grande Irmão. Mas eram também fora-da-lei, inimigos, intocáveis, condenados à extinção com absoluta certeza, dali a um ano ou dois. Ninguém que tivesse caido uma vez em mãos da Polícia do Pensamento conseguia escapar. Eram cadáveres esperando que os devolvessem ao sepulcro.

Não havia ninguém nas mesas próximas. Não era prudente ser visto nas proximidades dos três. Estavam sentados, mudos, diante de copos de gin com cravo que era a especialidade do café. Dos três, o que mais impressionara Winston pela aparência fôra Rutherford. Havia sido um famoso caricaturista, e seus desenhos brutais tinham concorrido para inflamar a opinião pública antes e durante a RevOluÇão. Mesmo agora, a longos intervalos, suas caricaturas apareciam no Times. Eram simplesmente uma imitação do

antigo estilo, e curiosamente inertes, sem convicção. Eram sempre um recozido de antigos temas - cortiços, crianças esfomeadas, batalhas de rua, capitalistas de cartola (até nas barricadas os capitalistas pareciam conservar as cartolas) - um esfôrço infindo, frouxo, de voltar ao passado. Era um homem monstruoso, com uma juba de cabelo grisalho e gorduroso, rosto inchado e cortado de cicatrizes, grossos lábios negróides. Devia ter sido imensamente forte; agora o corpanzil era apenas balofo, mole, caído, banhas sobrando em tôdas as direções. Parecia ruir diante dos olhos dos circunstantes, como alui uma montanha.

Eram quinze horas, hora solitáría. Winston já não conseguia lembrar-se do que fôra fazer no café àquela hora. Estava quase deserto. Das teletelas se desprendia uma música de latas. Os três estavam sentados no seu canto, sem falar, quase imóveis. Sem que lhe pedissem, o garçon trazia novos copos de gin. Na mesa, ao lado dêles havia um tabuleiro de xadrez, com as peças arrumadas, mas o jôgo não começara. E então, durante talvez meio minuto, algo sucedeu às teletelas. A música que tocavam mudou,' como também mudou o tom. Ouviu-se... era algo muito difícil de descrever. Uma nota peculiar, partida, um zurro, uma chacota, que Winston, para seu uso pessoal, considerou amarela. E da tela uma voz cantou:

Sob a frondosa castanheira Eu te vendi e tu me vendeste: Lá estão êles, e aqui estamos nós, Sob a frondosa castanheira.

Os homens nem se mexeram. Mas quando Winston tornou a fitar o rosto arruinado de Rutherford, notou que tinha os olhos rasos dágua. E pela primeira vez observou, com uma espécie de arrepio por dentro, sem que no entanto soubesse o que lhe dava arrepios, que tanto Aaronson como Rutherford tinham nariz quebrado.

Pouco depois os três tinham sido presos de novo. Ao que parece, haviam-se metido em novas conspirações no mesmo momento em que tinham ganho a liberdade. No segundo julgamento, confessaram de novo todos os velhos crimes acrescentando uma porção de outros. Foram executados e sua sina registrada nas  histórias do Partido, como advertência à posteridade. Cerca de cinco anos depois, em 1973, Winston desenrolava um maço de documentos que acabava de cair do tubo pneumático quando deu com um fragmento de papel que evidentemente fôra colocado entre os outros e esquecido. No instante em que o desenrolou percebeu-lhe o valor. Era meia página arrancada do Times de uns dez anos antes - a parte superior, e incluia a data - e continha uma foto dos delegados numa função do Partido em Nova York. No meio-do grupo destacavam-se Jones, Aaronson e Rutherford. Impossível confundi-los; ademais, seus nomes constavam da legenda.

Isso não obstante, os homens tinham confessado, em ambos os julgamentos, que naquela data tinham estado em sólo eurasiano. Tinham voado de um aeroporto secreto no Canadá a um ponto da Sibéria, onde conferenciaram com membros do Estado Maior Eurasiano, a quem haviam traido importantes segredos militares. A data gravara-se na mente de Winston porque era o dia do equinócio do verão; mas a históría tôda deveria estar registada numa porção de outros lugares.  Só havia uma conclusão possível: as confissões eram falsas.

Naturalmente, isto em si não era nenhum descobrimento. Nem Winston imaginara que as pessoas suprimidas nos expurgos houvessem de fato cometido os crimes de que eram acusadas. Mas ali estava prova concreta; era um fragmento do passado abolido, como um ôsso de fóssil que surge numa camada errada e destrói uma teoria geológica. Seria suficiente para fazer o Partido se esbarrendar, se fosse possível Publicá-la e tornar conhecida do mundo a sua significação.

Êle continuara trabalhando. Assim que vira a fotografia, e o que queria dizer, cobrira-a com uma folha de paPel. Por sorte, ao desenrolá-la, estava de cabeça para baixo, em relação à teletela.

Colocou no joelho o bloco de rascunho e empurrou a cadeira para trás, de modo a se afastar o mais possível da teletela. Manter o rosto sem expressão não era difícil, e com esfôrço se podia até controlar a respiração: mas não era Possível controlar o bater do coração, e a teletela era bastante sensível para captá-lo. Êle se quedou por dez minutos, atormentado pelo terror de que algum acidente - um pé de vento que de repente lhe limpasse a mesa - o traisse. Então, sem tornar a descobri-la, jogou a fotografia no buraco da memória, com outros papéis servidos. Dali a um minuto, talvez, não passaria de cinzas.

Isso fôra dez, onze anos atrás.     Hoje, talvez, tivesse guardado o recorte. Era curioso que o fato de tê-lo entre os dedos lhe parecesse fazer tanta diferença, agora que a fotografia própriamente dita, e o acontecimento que registrava, não passavam de recordações. Seria menos forte o domínio do Partido sôbre o passado, indagou êle, porque existira um dia uma prova que deixara de existir?

Mas hoje, supondo, que fosse possível recuperá-la das cinzas, a fotografia talvez não fizesse prova alguma. Na ocasião em que descobrira o caso a Oceania não estava mais em guerra com a Eurásia, e devia ter sido aos agentes da Lestásia que os três haviam traido a pátria. Depois disso tinha havido outras reviravoltas - duas, três, não lembrava quantas.  Com tôda a certeza as confissões tinham sido escritas e reescritas, a ponto dos fatos e datas originais não terem a mínima importância. O passado não podia apenas ser modificado, podia ser mudado continuamente. O que mais o afligia, com uma sensação de pesadêlo, era nunca compreender com clareza por que se iniciara a tremenda ímpostura. Eram óbvias as vantagens imediatas da falsificação do passado, mas os motivos finais eram misteriosos. Êle tornou a pegar a caneta e escreveu:

Compreendo COMO: não compreendo PORQUE. Indagou de seus botões, como fizera muitas vezes, se não era lunático êle próprio. Talvez um lunático seja apenas uma minoria de um. Antigamente, fôra sinal de loucura acreditar que a terra gira em tôrno do sol; hoje, crer que o passado é inalterável. Podia ser o único a ter aquela crença, e sendo sózinho, lunático. A idéia de ser lunático, porém, não o perturbava grandemente. O horror era estar enganado.

Tomou o livro escolar e olhou o retrato do Grande Irmão que formava o frontispício. O olhar hipnótico fixou o de Winston. Era uma fôrça enorme, fazendo pressão - algo que penetrava o crânio, se chocava contra o cérebro, amedrontava e fazia perder a fé, persuadia quase a negar a evidência dos sentidos. No fim, o Partido anunciaria que dois e dois são cinco, e todos teriam que acreditar. Era inevitável que o proclamasse mais cedo ou mais tarde: exigia-o a lógica de sua posição. Sua filosofia negava tàcitamente não apenas a validez da experiência como a própria existência da realidade externa. O bom senso era a heresia das heresias. E o que mais aterrorizava não era que matassem o cidadão por pensar diferente, mas a possibilidade de terem razão. Por que, afinal de contas, como sabemos que dois e dois são quatro? Ou que existe a lei da gravidade? Ou que o passado é inalterável? Se tanto o passado como o mundo externo só existem na mente, e se a mente em si é controlável... então? Mas não! De repente a coragem de Winston pareceu fortalecer-se. O rosto de O'Brien, sem ser recordado por nenhuma evidente associação de idéias, surgira-lhe no espírito. E soube, com mais certeza do que antes, que O'Brien estava do seu lado. Estava escrevendo o diário para O'Brien - a O'Brien; era uma espécie de carta interminável, que ninguém leria, mas que era dirigida a uma certa pessoa e por isso adquiria vibração.

O Partido ordenava que o indivíduo rejeitasse a prova visual e auditiva. Era a sua ordem final, essencial. O coração de Winston fraquejou quando pensou no enorme poderio que tinha pela frente, a facilidade com que qualquer intelectual do Partido o deitaria por terra num debate, os sutis argumentos que não conseguiria compreender, e muito menos responder. E no entanto, sentia ter razão! Êles estavam errados! O óbvio, o tolo, e o verdadeiro tinham que ser defendidos. Os truismos são verdadeiros, êsse é que é o fato! O mundo sólido existe, suas leis não mudam. As pedras são duras, a água é líquida, os objetos largados no ar caem sôbre a crosta da terra. Com a impressão de falar com O'Brien e também de estar fixando um importante axioma, êle escreveu:

A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Admitindo-se isto, tudo o mais decorre.

8

Do fundo de uma viela vinha um cheiro de café torrado, - café de verdade, e não café Vitória - que invadia a rua. Winston parou involuntàriamente. Durante talvez dois segundos perdeu-se no mundo semi-olvidado da infância. Daí uma porta bateu, parecendo cortar o aroma como se fosse  um ruido.

Caminhára vários quilômetros no leito da rua e a variz ulcerada estava pulsando. Era a segunda vez em três semanas que falhava a um sarau no Centro Comunal: gesto audacioso, pois podia ter a certeza de que era cuidadosamente verificado o número de presenças no Centro. Em princípio, um membro do Partido não tinha horas vagas, e não ficava nunca só, excepto na cama. Supunha-se que quando não estivesse trabalhando, comendo ou dormindo, devia participar de alguma recreação comunal; era sempre ligeiramente perigoso fazer qualquer coisa que sugerisse o gôsto pela solidão, mesmo que fosse apenas passear sózinho. Em Novilíngua havia uma palavra para isso: proprivida, e significava individualismo e excentricidade. Mas aquela noite, ao sair do Ministério, tentara-o a calidez do ar de abril. O azul do céu era o mais morno que havia visto aquele ano, e de súbito, pareceu-lhe intolerável a longa e ruidosa noitada no Centro, com os jogos aborrecidos e cansativos, as conferências, a camaradagem forçada, lubrificada pelo gin. Num impulso, afastara-se da parada do ônibus e vagueara pelo labirinto de Londres, primeiro para o sul, depois para o leste, depois para o norte, perdendo-se em ruas desconhecidas e pouco ligando à direção tomada. "Se há esperança," escreveu no diário, "está nos proles." As palavras tornavam-lhe à mente, expressão de uma verdade mística e de um palpável absurdo. Encontrava-se nas favelas de côr parda, que ficavam ao norte e a leste do que fôra um dia a estação de São Pancrácio. Subia uma rua calçada a lages, de casinhas de dois andares, com portas escalavradas que abriam sôbre a via pública, e que de certo modo sugeríam buracos de ratos. Entre as pedras da rua havia, aqui e ali, poças de água imunda. Entrando e saindo das casas escuras, e embarafustando, pelos becos estreitos que desembocavam dos dois lados da rua, o povo formigava numa quantidade incrível - moças em plena floração, os lábios grosseiramente pintados; rapazes que perseguiam as moças; mulheres inchadas e desgraciosas que eram imagem do que seriam as moças dali a dez anos, velhos arcados, arrastando os pés; crianças descalças e esfarrapadas que brincavam nas poças dágua e se dispersavam aos gritos furiosos das mães. Talvez a quarta parte das janelas da rua estavam quebradas e remendadas com papelão. A maioria não prestava atenção em Winston; alguns o fitavam com uma espécie de disfarçada curiosidade. Duas mulheres monstruosas, com braços côr de tijolo cruzados sôbre o avental, conversavam diante duma porta. Winston percebeu trechos de frase:

- Sim, eu disse prela. Tá muito bom, eu disse. Mas se tu tivesse no meu lugar tu fazia que nem eu fiz. É faci criticá, eu falei, mas não tens os mermo problema que eu.

- Ah - fez a outra - é isso mermo. Escritinho. As vozes estridentes calaram-se de súbito. As mulheres estudaram-no em silêncio hostil, quando êle passou. Mas não era exatamente hostilidade; era mais uma espécie de cautela, um enrijamento momentâneo, como à passagem de um animal raro. O macacão azul não podia ser comum numa rua como aquela. Na verdade, era imprudente ser visto em tais lugares, a não ser que se tivesse uma tarefa específica. As patrulhas poderiam detê-lo se o vissem. "Posso examinar teus papéis, camarada? Que estás fazendo aqui? A que hora saiste do   trabalho? É o teu caminho habitual para casa?" e assim por diante. Não que houvesse algum regulamento contra o regresso ao lar por um caminho diferente, mas bastava para chamar a atenção da Polícia do Pensamento.

De repente, a rua tôda se agitou. De todos os lados soaram gritos de advertência. Os populares se escondiam em casa como coelhos. Uma moça saltou de uma porta, pouco adiante de Winston, agarrou uma criancinha que brincava numa poça, embrulhou-a no avental e tornou à casa, num pulo. No mesmo instante um homem de terno preto, amassado como uma sanfona, e que surgira de um bêco lateral, correu para Winston, apontando o céu, muito nervoso:

- Vapor! - gritou. - Cuidado, patrão! Estoura já! Deita logo!

Não se sabia porque os proles tinham dado o apelido     de vapor" às bombas-foguete. Winston prontamente se jogou de bruços. Os proles raro se enganavam quando faziam essa advertência. Pareciam possuir uma espécie de instinto que lhes dízia, com vários segundos de antecedência, que um foguete estava chegando, embora voassem mais rápido que o som. Winston protegeu a cabeça com os antebraços. Houve um ribombo que pareceu fazer o chão ofegar. Uma chuva de detritos caiu-lhe nas costas. Quando se levantou viu que estava coberto de fragmentos de vidro da janela próxima.

Continuou andando. A bomba demolira um grupo de casas duzentos metros além, na mesma rua. Elevava-se para o céu uma nuvem negra de fumaça, e debaixo dela outra de pó de caliça, na qual já se formava a multidão, cercando os escombros. Diante dêle, no lagedo, havia um montículo de rebôco e estuque, e no meio uma faixa vermelho vivo. Quando chegou perto viu que era uma mão humana decepada pelo pulso. Fóra o corte sanguinolento, a mão esbranquiçara de tal modo que parecia um modêlo de gesso. Com um pontapé atirou a mão à sarjeta e depois, para evitar o povaréu, dobrou uma ruela à direita. Dali a três ou quatro minutos deixara a área afetada pela bomba, e o sórdido formigamento da vida das ruas continuava como se nada tivesse sucedido. Eram quase vinte horas, e as lojas de bebidas frequentadas pelos proles ("bares", eram chamados) estavam cheias de fregueses. Pelas emporcalhadas portas de vai-vem, que se abriam e fechavam sem cessar, vinha um cheiro de urina, serragem e cerveja azeda. Num ângulo formado pela fachada saliente de uma casa, três homens estavam parados, muito juntos, estudando um jornal seguro pelo do meio, e que os dois outros liam por cima do ombro dêle. Mesmo antes de chegar perto o suficiente para lhes distinguir as feições, Winston pôde ver como estavam absortos. Devia ser algo muito sério o que lhes prendia a atenção. Estava a alguns passos de distância quando de        ' repente o grupo se afastou e dois homens se puseram a altercar violentamente. Por um minuto, até pareceu que fossem às vias de fato.

- Não escutas o que t'digo? Pois se tou dizeno que nenhum número acabado em sete já ganhou há mais de um ano e dois meis!

- Ganhô sim!

- Ganhô nada! Lá na terra tomei nota de tudo, doizano, num pedaço de papé. Escrevi que nem relógio: direitinho. E 'tdigo que nenhum número acabado em sete...

- Ganhô sim! Espera aí que já me lembro do danado do número. Quatro, zero, sete, era a terminação. Foi em fevereiro... segunda semana de fevereiro.

- Fevereiro a vovózinha! Eu tomei nota preto no branco. E t'digo que nenhum número...

Ora, cala a bôca! - disse o terceiro homem. Estavam falando da Loteria. A uns trinta metros de distância, Winston olhou para trás. Ainda discutiam, rosto apaixonado, febril. A Loteria, com seus enormes premios semanais, era o acontecimento público a que os proles davam a maior atenção. Era provável que houvesse milhões de proles para quem a Loteria era o principal senão o único motivo de continuar a viver. Era o seu deleite, sua loucura, seu anódino, seu estimulante intelectual. Quando se tratava da Loteria, até gente que mal sabia ler e escrever fazia intrincados cálculos e fantásticas proezas de memória. Havia um exército de homens que ganhava a vida graças à simples venda de sistemas, previsões e amuletos. Winston nada tinha que ver com a exploração da Loteria, que era administrada pelo Ministério da Fartura, mas sabia (como sabiam todos do Partido) que em grande parte os premios eram imaginários. Na realidade, só eram pagas pequenas quantias, sendo pessoas inexistentes os ganhadores da sorte grande. Na ausência de qualquer intercomunicação real entre uma parte e outra da Oceania, não era difícil arranjar isso.

Mas se esperança havia, estava nos proles. Era preciso agarrar-se a isso com unhas e dentes. Quando se traduzia o pensamento em palavras, parecia razoável: mas quando se consideravam os seres humanos que passavam pela calçada a idéia se'transformava em ato de fé. A rua que tomara descia um declive. Teve a sensação de já ter andado pela vizinhança, e de haver por perto uma avenida principal. Dalguma parte chegou-lhe aos ouvidos uma gritaria geral. A rua fez uma curva brusca e acabou nuns degraus que con-

duziam a um beco em nivel inferior, onde alguns barraqueiros vendiam legumes murchos. Naquele momento, Winston recordou-se donde estava. O beco dava para a rua principal, e depois da próxima esquina, a menos de cinco minutos dali, ficava o bricabraque onde comprara o livro branco que era agora seu diário. E a pequena papelaria, onde comprara a caneta e o tinteiro.

Deteve-se um instante no alto da escada. Do outro lado do beco havia um barzinho miserável cujas janelas pareciam embaciadas mas na verdade estavam apenas cobertas de pó. Um ancião arcado mas ativo, com bigode branco eriçado como um camarão, empurrou a porta e entrou. Contemplando-o, Winston de repente imaginou que o velho, que devia ter no mínimo oitenta anos, já devia ser maduro ao tempo da Revolução. Êle e uns poucos outros eram os últimos elos vivos com o desaparecido mundo capitalista. No Partido não havia muita gente que tivesse idéia formada antes da Revolução. A geração mais antiga tinha sido, na sua maioria, liquidada nos grandes expurgos das décadas de 1950 a 70, e as sobras, aterrorizadas, se haviam refugiado na mais completa submissão intelectual. Se ainda restasse vivo alguem capaz de fazer uma descrição verídica das condições na primeira metade do século, só podia ser um prole. De repente, veio à mente de Winston o trecho do livro de história que copiara no seu diário, e um impulso lunático o dominou. Entraria no bar, travaria conhecimento com o velho e o interrogaria. Haveria de pedir-lhe: "Fale-me de sua vida quando o sr. era menino. Como era, naqueles dias? As coisas eram melhores que hoje, ou eram piores?"

Apressadamente, como se tivesse recêio de perder a coragem, desceu os degraus e atravessou a rua estreita.  Era loucura, evidentemente. Como de praxe, não havia regulamento contra a conversa com os proles nem a frequencia de seus bares, mas era ato muito fóra do comum para passar despercebido. Se as patrulhas aparecessem êle poderia desculpar-se dizendo que se sentira mal, porém era pouco provável que lhe dessem crédito. Empurrou a porta, e um horrendo cheiro de queijo e cerveja azeda, atingiu-o em cheio. Quando entrou o barulho das vozes diminuiu talvez a metade do volume. Por trás das costas podia sentir todo mundo a examinar-lhe o macacão. Um jôgo de flechinhas ao alvo, no outro extremo da sala, interrompeu-se por uns trinta segundos. O velho que êle seguira estava no balcão, altercando com o botequineiro, um rapaz corpulento, de nariz de gancho e braços enormes. Vários fregueses do bar, com os copos na mão, observavam a cena.

- Te pedi com educação, não foi? - insistiu o velho endireitando os ombros belicosamente. - Qué me dizê que não têm uma caneca de pinta nesta birosca?

- E que demônio de troço é uma pinta? - quis saber o botequineiro, inclinando-se para a frente e apoiando-se no balcão com as pontas dos dedos.

- Oia só êle! Botequineiro que nem sabe o que é pinta! Ué, uma pinta é a metade duma quarta, e tem quatro quartas no galão. Daqui a pouco tenho que te ensiná o abc!

-   Nunca escuitei falá nisso - disse o rapaz. - Litro e meio-litro... é só o que servimos. Aí estão as canecas na sua frente.

- Gosto de pinta - persistiu o velho. - Você bem que me podia servi uma pinta. Não tinha essas besteiras de litro quando eu era moço.

- Quando tu era moço nós todos morava trepado nas arve - disse o botequineiro, olhando de soslaio para os outros fregueses.

Houve uma gargalhada geral, e pareceu desaparecer o mal-estar causado pela entrada de Winston. Sob a barba branca que despontava, o velho corou violentamente. Voltou-se, falando sózinho, e tropeçou em Winston, que o segurou delicadamente pelo braço.

- Permites que te ofereça um gole?

- O sr. é um cavalheiro - disse o outro, tornando a endireitar os ombros. Não parecia ter notado o macacão azul de Winston. - Uma pinta! - acrescentou, agressivo, dirigindo-se ao botequineiro. - Uma pinta da boa!

O taverneiro serviu dois meios-litros de cerveja marron escura em canecas que enxaguara num balde debaixo do balcão. Nos bares dos proles só se podia tomar cerveja. Não lhes era permitido tomar gin, conquanto, na prática, fosse facílimo arranjá-lo. O jôgo das flechinhas se reanimara, e os homens encostados ao balcão, haviam reiniciado a conversa sôbre a Loteria. Por um momento, fôra esquecida a presença de Winston. Debaixo da janela havia uma mesa junto à qual podia conversar à vontade com o velho. Era um perigo horrível, mas pelo menos não havia teletela no salão, o que verificara logo ao entrar.

- Êle bem que podia me serví uma pinta, - queixou-se o velho, sentando. - Meio litro não chega. Não satisfais. E um litro é muito. Me faz a bixiga trabalhá. E o preço!?

- Deves ter visto muita coisa mudar, desde mocinho

- começou Winston, experimentando.

Os olhos azul pálido do homem percorreram o bar do alvo das flechas ao balcão, do balcão à porta dos "Homens" como se as mudanças tivessem ocorrido ali mesmo.

- A cerveja era mió - disse por fim. - E mais barata! Quando eu era moço, cerveja clara - da boa - custava quatro dinheiros a pinta. Isso antes da guerra, naturalmente.

- Que guerra? - indagou Winston.

- De tôdas as guerras - respondeu o velho, vagamente. Levantou o copo e tornou a endireitar os ombros. - Com os meus mió voto de saúde e filicidade.

No pescoço magro o pomo de Adão, muito pontudo, fez um rapidíssimo movimento de subir e descer, e a cerveja sumiu. Winston foi ao balcão e voltou com dois outros meios-litros. O velho parecia ter esquecido seus preconceitos.

- És muito mais velho que eu - disse Winston. -

Devias ser adulto antes de eu nascer. Deves lembrar como era a vida antigamente, antes da Revolução. Gente da minha idade não sabe nada daquela época. Só podemos ler nos livros, e o que dizem os livros pode não ser verdade. Gostaria de conhecer tua opinião a respeito. Os livros de história dizem que antes da Revolução a vida era completamente diferente do que é hoje. Reinava a mais terrível opressão, injustiça, pobreza - pior do que tudo que imaginamos. Aqui em Londres a maioria do povo nunca tinha bastante o que comer, do berço ao túmulo. Metade da população não tinha sapato. TrabalhaVa doze horas por dia, saía da escola aos nove anos, dormiam dez em cada quarto. Ao mesmo tempo havia um grupinho, de alguns milhares - os chamados capitalistas - ricos e poderosos. Eram donos de tudo quanto existia. Moravam em casarões lindos com trinta empregados, passeavam de automóvel e carruagem de quatro cavalos, bebiam champanha, usavam cartolas...

O rosto do velho se iluminou.

- Cartolas! - disse êle. - Engraçado que fale nisso. A mema coisa me veiu na  cabeça onte, não sei pruquê.

tava pensano, fais tanto tempo que não vejo uma cartola! Acabaro, parece. A última veis que usei uma foi no entêrro de minha cunhada. E isso foi...     Ah, bom, não sei mais a data, mas foi uns cinquenta anos atrais. Naturalmente aluguei ela prô entêrro, compreende, né?

- As cartolas não têm importância - disse Winston, com paciência. - A coisa é que êsses capitalistas, mais alguns advogados e padres, e outros que tais, que viviam no meio dêles, eram os donos da terra. Tudo existia para o gôzo dêles. O povinho comum, os trabalhadores, eram escravos dêles. Podiam fazer o que bem entendessem. Podiam mandar-vos como gado para o Canadá. Podiam dormir com vossas filhas, se quisessem. Podiam mandar bater-vos com uma coisa chamada gato de nove caudas. Tinhas que tirar o boné quando passavas por êles. Cada capitalista andava com um bando de lacaios que...

O rosto do velho tornou a iluminar-se.

- Lacaios! - disse êle. - Palavra que não escuito já fais tempão. Lacaios. Me fais vortá muito zano pra trais. Me lembro... chi, nem me alembro quanto tempo! ... que eu às veis ia pro Aide Parque escuitá os cara fazeno discurso. Exército da Sarvação, Católico, judeu, indiano... todo mundo. E havia um sojeito - não sei do nome dêle, mas era um faladô batuta, isso era. E metia o pau. "Lacaios!" gritava. "Lacaios da burguesia! Cupichas da classe dominante!" Parasita era outra palavra bonita. E hienas, êle falava muito em hiena. O sior compreende, né, êle tava falando contro Partido Trabalhista.

Winston teve a impressão de que as linhas se haviam cruzado.

- O que na verdade desejo saber é isto: achas que hoje há mais liberdade do que naquele tempo? És tratado mais como ser humano? No passado os ricaços, os que mandavam...

- A Câmara dos Lordes - completou o velho, reminiscente. - Vá lá, a Câmara dos Lordes. O que te pergunto é isto, essa gente te tratava como inferior, só porque era rica e tu eras pobre? Não é verdade que tinhas de chamar os ricos de "senhor" e tirar o boné quando passavas por êles?

O velho pareceu meditar profundamente. Bebeu talvez a quarta parte da caneca de chope antes de responder.

- Sim. Êles gostavo que a gente cumprimentasse êles co boné. Era siná de respeito, né? Eu não concordava, mais fazia. Tinha de fazê.

E era comum - apenas repito o que li, nos livros de história - que essa gente e sua criadagem empurrassem os outros para a sargeta?

- Uma vez um cara me empurrou - disse o velho. -

Me lembro como se fosse onte. Era a noite da Regata -

ficavam levado da breca em noite de Regata - e eu bumba num rapaz na avenida Shaftesbury. Todo impelicado, o zinho - camisa de peito duro, cartola, sobretudo preto. Ia indo em zigue-zague pela calçada e eu esbarrei nele sem querer. Êle disse "Por que não olha para onde vai?" disse. E eu disse "Cê pensa que comprou o raio da calçada?" Êle disse "Eu te torço êsse pescoço duma figa se você se mete a sebo ... .. Cê tá bebo, já te mando prendê," eu disse. E o sr. não acredita, mas êle botô as mãos no meu peito e me deu um empurrão que quaji me atira debaixo das roda dum ônibu. Daí eu, uai, eu era moço, e ia lhe largá uma daquelas...

Uma espécie de desespêro dominou Winston. A memória do velho não passava de um monturo de pormenores atoa. Poderia interrogá-lo o dia inteiro sem obter nenhum dado genuino. De certo modo, as histórias do Partido talvez fossem verdadeiras: podiam até ser completamente verídicas. Fez a última tentativa.

- Talvez não me expliquei bem, - disse. - O que quero dizer é o seguinte. Vives há muito tempo. Viveste metade da vida antes da Revolução. Em 1925, por exemplo já eras adulto. Pelo que recordas, podes dizer que a vida em 1925 era melhor que agora, ou pior? Qual escolherias, quando preferias viver, naquela época ou agora?

O homem fitou longamente o alvo das flechinhas. Terminou o chope, mais devagar que antes. Quando falou foi com um ar tolerante, filosófico, como se a cerveja o tivesse abrandado.

- Sei o que o sr. espera que eu diga. Espera que diga que preferia ser moço'tra veis. A maioria das pessoa diz que queria ser moça, se o sr. perguntá. A gente tem saúde e fôrça quando é mais novo. Quando se chega a esta idade não se tem mais saúde. Meus pé dói muito e minha bixiga então nem se fala. Seis a sete veis por noite tenho de levantá, Mais tem sua vantage, sê velho. Não tenho tanta dor de cabeça. Nada de muié, e é formidave. Há uns trinta ano que não ando com muié, se o sr. credita. Nem quis, posso jurá.

Winston encostou-se ao peitoril da janela. Não adiantava continuar. Ia comprar mais cerveja quando o velho de repente se levantou e se encaminhou rápido para o mictório fedorento, ao lado da sala. O segundo meio-litro estava funcionando. Winston ficou um minuto ou dois olhando a caneca vazia, e mal notou quando os pés o levaram de novo para a rua. Dali a vinte anos, no máximo, refletiu êle, a pergunta simples e momentosa "Antes da Revolução a vida era melhor que agora?" deixaria de ser respondível para todo o sempre. De fato, porém, já era irrespondível, pois alguns dispersos sobreviventes do mundo antigo eram incapazes de comparar uma época com outra. Lembravam-se de um milhão de coisas inúteis, duma briga com um colega, a busca de uma bomba de bicicleta, a expressão no rosto de uma irmã falecida, o rodopio da poeira numa manhã de vento, setenta anos atrás: mas todos os fatos relevantes já estavam fora do alcance da sua visão. Eram como a formiga, que pode ver pequenos objetos, mas não enxerga os grandes. E quando a memória falhava, e os registos escritos eram falsificados - era forçoso aceitar a assertiva do Partido de que tinham melhorado as condições da vida humana, porque não existia, nem jamais poderia existir, qualquer padrão de comparação.

Naquele momento o fio dos seus pensamentos se deteve de repente. Êle parou e levantou o olhar. Estava numa rua estreita, com algumas lojinhas escuras perdidas entre residencias. Bem por cima de sua cabeça pendiam três fanadas esferas de metal, que tinham jeito de haver sido douradas. Pareceu-lhe conhecer o lugar. Pois, claro! Estava diante da quinquilharia onde comprara o diário!

Um arrepio de medo o agitou. Já fôra bastante ousado comprar o livro, e jurara nunca mais se aproximar da casa. Entretanto, no momento em que deixava o pensamento vaguear, os pés o levavam para lá, por iniciativa própria. Era exatamente contra impulsos suicidas dessa natureza que esperara se defender, iniciando o diário. Observou ao mesmo tempo que embora fossem quase vinte e uma horas, a loja continuava aberta. Com a sensação de que daria menos na vista entrando do que ficando na calçada, entrou. Se perguntassem, responderia, plausivelmente, que procurava lâminas de barba.

O proprietário acabava de pendurar do teto um mal cheiroso candieiro de azeite. Era um homem de seus sessenta

anos , frágil e arcado, de nariz comprido, benévolo, olhos calmos deformados pelos óculos grossos, Tinha cabelo quase branco, mas as sobrancelhas eram bastas e pretas. Os óculos, e seus movimentos exageradamente gentis, e o fato de usar paletó de veludo negro, davam-lhe um ar indefinível de intelectualidade, como se fosse literato, ou músico talvez. A voz era suave, parecia desbotada e sua prosódia era menos dissonante do que a da maioria dos proles.

- Reconheci o sr. na calçada, - disse, imediatamente.

- Foi o senhor que me comprou aquele álbum de recordações. Papel lindo, um mimo para uma moça. Linho creme, chamava-se. Há uns... digamos cinquenta anos... que não se fabrica papel assim. - Contemplou Winston por cima das lentes. - Procura alguma coisa em partícular? Ou só quer uma olhada? Ia passando - respondeu Winston, aéreo. - Vim dar uma olhada. Não quero nada. Perfeitamente - concordou o homem. - Não creio que pudesse satisfazê-lo. - Fez um gesto de desculpas com a mão. - O sr. está vendo. Não tenho nada. Loja vazia. Cá entre nós, está morto o ramo de antiquário. Ninguém mais o quer. Nem há estoque. Móveis, porcelanas, cristais - tudo foi acabando. E naturalmente o que era de metal foi fundido.  Há muitos anos que não vejo um castiçal de latão.

Ao invés, a lojinha estava atulhada de mercadorias, mas coisa alguma  valia nada. Mal se podia andar, porque o chão estava tomado por pilhas de molduras empoeiradas. Na janela havia bandejas com porcas e parafuso, formões sem corte, canivetes de folha partida, relógios enegrecidos que nem fingiam poder funcionar, e uma variedade enorme de bricabraque. Apenas numa mesinha ao canto havia uma miscelânea - caixas de rapé, laqueadas, broches de ágate, coisas assim - que parecia incluir algo interessante. Quando Winston dela se aproximou, seú olhar foi atraído porum objeto liso, redondo, que brilhava suavemente, à luz do lampeão. Tomou-o na mão e examinou-o.

Era um pesado bloco de vidro, hçmisférico, e tanto a textura como o colorido do cristal ostentavam estranha suavidade, como a da água da chuva. Bem no centro, ampliado pela superfície convexa, havia um objeto côr de rosa, em voluta, que lembrava uma rosa ou uma anêmona dó mar.

- Que é isto? - perguntou Wihston, fascinado.

- É coral - informou o velho. - Deve ter vindo do oceano índico. Costumavam embuti-lo assim, em vidro. Isso foi feito no mínimo há cem anos. Quem sabe até mais.

- É lindo - suspirou Winston.

- é mesmo - concordou o velho, com ar de apreciador.

- Mas pouca gente o diria hoje. - Tossiu. - Se por acaso o sr. quiser comprar, são quatro dólares. Lembro-me duma época em que uma coisa dessas renderia oito libras esterlinas, e oito libras eram, .. bom, não sei mais calcular... mas era um bocado de dinheiro. Hoje porém, quem liga às antiguidades genuinas, as poucas que restam?

Winston pagou imediatamente os quatro dólares e meteu no bolso o cobiçado objeto. Atraía-o não tanto a sua beleza como o fato de pertencer a uma época muito diferente da atual. O vidro macio, límpido como água da chuva, não se parecia com vidro algum, dos que conhecia. A coisa era-lhe duplamente atraente por ser inútil, embora adivinhasse que fôra usada outrora como pêso de papéis; pesava muito no bolso, mas por sorte não fazia muito volume. Era um objeto estranho, comprometedor mesmo, para um membro do Partido possuir. Tudo quanto fosse antigo, e tudo quanto fosse belo, era sempre vagamente suspeito. O velho tornara-se bem mais loquaz depois de receber os quatro dólares. Winston percebeu que teria aceito três, ou mesmo dois.

- Lá em cima tenho um quarto, que o sr. talvez queira conhecer - disse. - Não há grande coisa, algumas peças apenas. Deixe-me acender o lampeão.

Acendeu outra lâmpada e, sempre arcado, tomou a dianteira, subindo os degraus altos e gastos. Ganharam um corredor minúsculo e entraram num cômodo que não dava para a rua, abrindo sôbre um pátio lageado e uma floresta de coifas de chaminé. Winston reparou que o quarto estava mobiliado como se alguém ainda o habitasse. Havia um pedaço de tapete no soalho, um ou dois quadros na parede, e uma poltrona funda, mal conservada, junto à lareira. Um carrilhão antigo, com mostrador de doze horas, tiquetaqueava na escarpa. Sob a janela, ocupando quase a quarta parte do cômodo, uma cama enorme, de casal, ainda com o colchão.

- Usei o quarto até minha mulher morrer - disse o velho, em tom de meia desculpa. - Estou -vendendo a mobília aos pouquinhos. Essa cama de mogno é linda, ou seria, se fosse possível livrá-la dos percevejos. Creio porém que o sr. julga um pouco sem jeito.

Levantou o lampeão, para iluminar todo o quarto, e sob luz morna e amarelada, o lugar parecia curiosamente convidativo. Pela cabeça de Winston perpassou a idéia de que seria facílimo alugar o quarto por alguns dólares semanais, se tivesse coragem de se arriscar. Era uma idéia louca, impossível, a ser abandonada imediatamente. Mas o quarto despertara nele uma espécie de nostalgia, de saudade ancestral. Parecia-lhe saber exatamente que impressão dava sentar-se num quarto assim, numa poltrona ao pé do fogo, com os pés na guarda e a chaleira no gancho: completamente só, em completa segurança, sem ninguém a fitá-lo, sem voz a persegui-lo, sem ruido algum além do tiquetaque do relógio e o chilrear da chaleira.

- Não há teletela! - murmurou, embevecido.

- Nunca tive dinheiro para comprar uma - disse o velho. - E não sinto falta. Ali tenho uma bonita mesa de abrir, naquele canto. Só que se o sr. quiser usá-la tem de trocar as dobradiças.

No outro canto havia uma pequena estante de livros e Winston já se encaminhara para ela. Só continha porcaria. A busca e destruição de livros fôra realizada no bairro dos proles com o mesmo método que nos outros. Era pouco provável que ainda existisse na Oceania algum livro impresso antes de 1960. O velho, ainda empunhando a lâmpada, estava parado na frente de um quadro emoldurado em paurosa, prêso à parede diante da lareira.

- Se o sr. estiver interessado em gravuras antigas...

- começou, delicadamente.

Winston atravessou o quarto para examinar o quadro. Era uma gravura em aço de um edifício oval, de janelas retangulares, e uma pequena tôrre na frente. Havia uma grade de ferro em tôrno do prédio, e atrás algo semelhante a uma estátua. Winston fitou-o alguns momentos. Parecialhe vagamente familiar, embora não se lembrasse da estátua.

- A moldura está fixa na parede - explicou o velho.

- Se quiser, posso desaparafusá-la.

- Conheço êsse prédio - anunciou Winston por fim.

- Está em ruinas, agora. Fica no meio da rua do Palácio da Justiça.

- É isso, perto do Fôro. Foi bombardeado em... há muitos anos. Era uma igreja, antigamente. Chamava-se S. Clemente dos Dinamarqueses. - Sorriu, com ar de desculpa, como quem dissesse algo ligeiramente ridículo e acrescentou: - Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente!

- Como é?

- Ah... Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente. Uma modinha que havia quando eu era menino. Não me lembro como é que continuava, mas sei que acabava assim: Aí vem uma luz para te levar para a cama, Aí vem um machado para te cortar a cabeça. Era uma espécie de dança. Faziam um corredor de mãos dadas e braços erguidos e a gente passava por baixo. Quando chegava em "para te cortar a cabeça," desciam os braços e prendiam a pessoa. Era tudo com o nome das igrejas. Tôdas as igrejas de Londres - isto é, as principais.

Winston indagou vagamente de si mesmo a que século pertenceria a igreja. Era sempre difícil determinar a idade de um prédio londrino. Tudo quanto fosse grande e imponente, e de aparência relativamente nova, era automàticamente declarado post-revolucionário, enquanto que tudo mais, evidentemente antigo, era atribuido a um período obscuro denominado Idade Média. Afirmava-se que séculos e séculos de capitalismo não haviam produzido nada de valor. Da arquitetura não se podia aprender mais história do que dos livros. Ruas, pedras comemorativas, estátuas, nomes de ruas - tudo quanto pudesse lançar luz sôbre o passado fôra sistemàticamente alterado.

- Nunca soube que foi uma igreja.

- Ainda há uma porção delas em pé - disse o velho

- embora as utilizem para outros fins. Como era mesmo a cantiga? Ah, já sei: "Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente, Me deves três vintens, dizem os sinos de S. Martinho" É o que lembro. O vintém era uma moedinha de cobre, meio parecida com um centavo.

- E S. Martinho, onde ficava?

- S. Martinho? Ainda está no lugar. Fica na praça da Vitória, ao lado da pinacoteca. Um edifício com fachada triangular, colunata, egrande escadaria.

Winston conhecia  bem o prédio. Era um museu destinado a diversas exposições de propaganda - miniaturas de bombas-foguetes e Fortalezas Flutuantes, modelos de cera representando atrocidades do inimigo e assim por diante.

- Chamava-se S. Martinho dos Campos - acrescentou o velho - mas não me lembro de nenhum campo naquelas paragens.

Winston não comprou a gravura. Teria sido uma propriedade ainda mais incongruente do que o pêso de papéis, e impossível de levar para casa, a não ser que a tirasse da moldura. Mas se deixou ficar alguns minutos com o velho, cujo nome, descobriu, não era Weeks - como se poderia concluir do letreiro na fachada - mas Charrington. Ao que parecia, o sr. Charrington era um viuvo de sessenta e três anos e residia na loja havia trinta. Todo êsse tempo tencionara mudar o nome da placa, mas nunca tomara a decisão final. Durante a palestra, a cantiga meio esquecida ecoou na cabeça de Winston. Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente. Me deves três víntens, dizem os sinos de S. Martinho! Era curioso, mas repetindo a letra tinha a ilusão exata de ouvir sinos, os sinos de uma Londres perdida que ainda existia nalguma parte, disfarçada e ,esquecida. De suas tôrres fantasmais êle parecia ouvi-los bimbalhando. Entretanto, até onde podia recordar, nunca na vida ouvira um sino.

Despediu-se do sr. Charrington e desceu a escada sózinho, para que o velho não o visse examinando a rua antes de sair. Já resolvera que, depois de um intervalo apropriado - um mês, por exemplo, - correria de novo o risco de visitar a loja. Talvez não fosse mais perigoso do que falhar a um sarau no Centro. A grande tolíce fôra voltar ali, depois de comprar o diário, sem saber se o dono da loja merecia confiança. Contudo... ! Sim, pensou, haveria de voltar. Compraria novas amostras de linda bobagem. Compraria a gravura de S. Clemente dos Dinamarqueses, desemoldurando-a e levando-a para casa escondida dentro do macacão. Arrancaria da memória do sr. Charrington o resto da cançoneta. Até o projeto'lunático de alugar o quarto de cima tornou a cintilar no seu juizo. Durante uns cinco segundos talvez a exaltação o tornou descuidado e êle pisou a calçada sem dar uma única espiadela preliminar. Ia até trauteando, com melodia improvisada Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente, Me deves três vinténs, dizem os... De repente o coração pareceu-lhe gelar no peito, e as tripas derreterem. Uma pessoa de macacão azul vinha na direção oposta, a menos de dez metros. Era a morena do Departamento de Ficção. A luz crepuscular era pouca, mas suficiente para reconhecê-la. Ela olhou-o bem no rosto- e continuou como se não o tivesse visto.

Durante uns segundos, Winston sentiu-se tão paralisado que não pôde se mexer. Depois virou para a direita e saiu com passos tardos, sem notar que tomara a direção errada. De qualquer maneira, uma questão se esclarecera. Não podia mais haver dúvida de que a moça o estava espionando. Devia tê-lo seguido até lá, porque não era crível que por puro acaso fosse passear a mesma noite pela mesma ruinha obscura, a quilômetros de distância de qualquer bairro habitado por membros do Partido. Era demasiada coincidência. Pouco importava que pertencesse à Polícia do Pensamento, ou que fosse mera espiã amadora, impelida pelo desejo de fazer média. Provàvelmente, vira-o também entrar no bar.

Andar era um esfôrço. A cada passo, o pêso de cristal no bolso lhe batia na coxa, e êIe teve ganas de jogá-lo fora.

O pior de tudo era a dor de barriga. Durante uns dois minutos, teve a impressão de que morreria se não fosse logo à privada. Mas não devia haver gabinetes públicos num bairro daqueles. Felizmente, o espasmo passou, deixando em seu lugar uma dor surda.

A rua era um beco sem saída. Winston parou, ficou uns segundos pensando no que fazer, depois deu meia-volta e regressou. Ao se voltar, ocorreu-lhe que como a moça cruzara por êle uns três minutos antes, haveria de alcançá-la, provàvelmente. Poderia segui-la até um lugar ermo, e então esmagalhar-lhe o crânio com um paralelepípedo. O pêso de papel seria suficiente para isso. Mas êle abandonou imediatamente o plano, porque era insuportável a simples idéia do esfôrço físico. Não podia correr, não podia desferir uma Pancada. Além disso, ela era jovem e vigorosa e certamente se defenderia. Pensou também em correr ao Centro Comunal e ficar lá até fechar, de modo a estabelecer um álibi parcial para a noite. Mas também isso era impossível. Uma tremenda lassitude o dominava. O que queria era ir logo para casa, sentar-se e descansar.

Passava das vinte e duas quando chegou ao apartamento. As luzes seriam desligadas na chave geral às vinte e três e trinta. Foi à cozinha e enguliu uma xícara quase cheia de Gin Vitória. Foi então à mesa, no nicho da sala, sentou-se

e tirou o diário da gaveta. Mas não o abriu imediatamente. Na teletela uma mulher com voz de lata berrava uma canção patriótica. Êle ficou contemplando o papel mármore da capa do caderno, tentando sem êxito banir dos sentidos aquela voz.

Era à noite que vinham buscar a gente, sempre à noite.

O melhor era matar-se antes de ser apanhado. Sem dúvida havia gente capaz disso. Com efeito, muitos dos desaparecidos eram suicidas. Mas era preciso coragem desesperada para se matar num mundo em que era impossível obter armas de fogo, ou veneno rápido e certo. Pensou, com uma espécie de assombro, na inutilidade biológica da dor e do medo, na traição do corpo humano que sempre se congela na inércia, no momento exato em que dêle se exige esfôrço especial. Poderia ter silenciado a moça morena se conseguisse agir com rapidez, mas precisamente por causa do perigo extremo que corria perdera a capacidade de agir. Ocorreu-lhe que, em momentos de crise, nunca se luta com um inimigo externo, mas com o próprio organismo. Mesmo agora, apesar do gin, a dor surda do ventre tornava impossível dois pensamentos consecutivos. E é o mesmo em tôdas as situações aparentemente heróicas ou trágicas. No campo de batalha, na câmara de tortura, num navio que naufraga, as causas por que lutamos são sempre secundárias, esquecidas, porque o corpo incha,e se infla até ocupar todo o universo, e mesmo quando não nos paralisa o mêdo, nem gritamos de dor, a vida é uma luta, minuto a minuto, contra a fome, o frio, a insônia, contra uma dor de estômago ou de dentes.

Abriu o diário. Era importante escrever alguma coisa. A mulher da teletela atacara nova canção. Sua voz parecia ferir-lhe os miolos como estilhaços irregulares de vidro. Êle procurou pensar em O'Brien, para quem, ou a quem, estava escrevendo o diário, mas ao invés se pôs a pensar no que lhe aconteceria quando a Polícia do Pensamento o levasse. Não fazia diferença, se o matassem logo. Ser morto era o que esperava. Mas antes da morte (ninguém falava de tais coisas, mas todo mundo sabia) havia a rotina da confissão: rastejar no chão e implorar misericórdia, o estalo de ossos partidos, os dedos quebrados e o cabelo com coágulos de sangue. Por que passar por tudo isso, se o fim era sempre o mesmo? Por que não encurtar de alguns dias ou algumas semanas a vida do sujeito? Ninguém jamais escapava ao descobrimento, nem ninguém deixava de confessar. Quando se sucumbia à crimidéia era certo que em determinada data se estava morto. Por que então aquele terror fatal do futuro, que nada alterava?

Êle tornou a tentar, com um pouco mais de êxito, conjurar a imagem de O'Brien. "Tornaremos a nos encontrar onde não há treva," dissera O'Brien. Êle sabia o que significavam aquelas palavras, ou acreditava saber.       O lugar onde não havia trevas era o futuro imaginário, que nunca se podia ver mas que, pelo pensamento, se podia partilhar misticamente. Mas com a voz da tela a lhe azucrinar os ouvidos, não era possível continuar o fio dos pensamentos. Pôs um cigarro na bôca. Metade do fumo caiu-lhe na língua, uma poeira amarga difícil de cuspir. O rosto do Grande Irmão surgiu-lhe na mente, deslocando o de O'Brien. Tal como fizera uns dias antes, tirou um níquel do bolso e examinou-o.

O rosto fitava-o de frente, pesado, calmo, protetor, mas que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro? Como um dôbre a finados, voltaram-lhe à mente as palavras:

GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA

 

IA PELA METADE O EXPEDIENTE MATUTINO E WINSTON SAIRA do cubículo para ir à toilette.

Uma figura solitária caminhava ao seu encontro, do outro extrêmo do corredor enorme, bem iluminado. Era a moça do cabelo escuro. Quatro dias se havíam passado desde o encontro diante da casa de quinquilharia. Quando se aproximou, viu que ela trazia o braço direito na tipóia, que se não distinguia a distância por ser da mesma côr que o macacão. Certamente machucara a mão fazendo girar um dos grandes caleidoscópios nos quais eram "criados" os enredos das novelas. Era um desastre comum no Departamento de Ficção.

Estavam a talvez quatro metros de distância quando a moça tropeçou e caiu de bruços. Soltou um grito de dor agudo. Devia ter caido sôbre o braço ferido. Winston deteve-se. A moça levantara-se sôbre os joelhos. Seu rosto estava de côr amarelo-creme, que fazia destacar a bôca, mais vermelha que nunca. Fixava-o dentro dos olhos, com uma expressão implorante que parecia mais de medo que de dor.

Uma emoção estranha agitou o coração de Winston. Diante dêle estava um inimigo que queria matá-lo; mas diante dêle, também, havia uma criatura humana, sofrendo, talvez com um osso quebrado. Já se adiantara instintivamente para ajudá-la. No momento em que a vira cair sôbre o braço vendado, sentira como que uma dor no próprio corpo.

- Te machucaste? indagou.

- Não é nada. Meu braço. Daqui a um instantinho está bom.

Ela falou como tivesse o coração agitado. Empalidecera fortemente.

- Não quebraste nada?

- Não, estou bem. Doeu um pouco, mas já passou. Deu-lhe a mão livre, e êle ajudou-a a levantar-se. Ela já recuperara um pouco do seu colorido e parecia estar melhor.

- Não é nada - repetiu. - Apenas deu um baque no pulso. Obrigada, camarada!

E com isso continuou na direção em que ia antes, com o mesmo passo decidido, como se de fato fosse nada. O incidente todo mal durara meio minuto. Nem isso, talvez. Não permitir que os sentimentos se revelem na fisionomia era um hábito que adquirira proporções de instinto, e além disso tudo sucedera diante duma teletela. Não obstante, fôra muito difícil não trair uma surpresa momentânea, porque nos dois ou três segundos que estivera a ajudá-la a moça passara à mão dêle um objeto qualquer. Não havia dúvida de que o fizera intencionalmente. Era algo pequeno e chato. Quando entrou no mictório, êle transferiu o objeto ao bolso e apalpou-o com as pontas dos dedos. Era um pedaço de papel, dobrado várias vezes.

Parado diante do vaso êle conseguiu, manobrando os dedos, desdobrar o papel. Evidentemente, continha um recado. Por um momento, sentiu-se tentado a trancar-se na privada e lê-lo ali mesmo. Mas seria uma estúpida loucura, como sabia muito bem. Não havia lugar que as teletelas vigiassem com maior atenção e continuidade.

Voltou ao cubículo, sentou-se, atirou o fragmento de papel, com tôda a naturalidade, entre outros papéis sôbre a escrivaninha, colocou os óculos e puxou o falascreve na sua direção. "Cinco minutos", disse êle consigo mesmo, "cinco minutos no mínimo!" Dentro do peito o coração lhe martelava com um barulho de dar medo. Felizmente, estava ocupado com um trabalho de rotina, mera retificação de uma lista de cifras, o que não exigia grande atenção.

Fosse o que fosse, devia ter sentido político a mensagem do papel. Tanto quanto podia imaginar, só havia duas possibilidades. Uma, e a mais provável, era de que a moça fosse agente da Polícia do Pensamento, como temia. Não sabia por que a Polícia do Pensamento haveria de mandar recados daquela maneira, mas devia ter seus motivos. O que estava escrito no papel podia ser uma ameaça, uma in-

timação, uma ordem de suicídio, uma armadilha qualquer. Mas havia outra possibilidade, mais louca, que insistia em levantar a cabeça, embora debalde tentasse suprimi-la. Era de a mensagem vir não da Polícia do Pensamento, mas de alguma organização clandestina. Talvez a Fraternidade existisse, afinal de contas! Talvez a moça fizesse parte dela! Sem dúvida, a idéia era absurda, mas lhe brotara na mente no mesmo instante em que sentira o papel na mão. Só dali a uns dois minutos foi que a outra explicação mais provável lhe ocorrera. E mesmo agora, conquanto o intelecto lhe dissesse que o recado com certeza significava morte - não era o que êle acreditava, e a esperança irracional persistia, o coração tumultuava, e foi com dificuldade que impediu a voz de tremer ao murmurar os números dentro do falascreve.

Enrolou todos os papéis da tarefa terminada e meteu o maço no tubo pneumático. Oito minutos haviam passado. Reajustou os óculos no nariz, suspirou e puxou outro maço de papéis, com o recado em cima. Alisou-o com os dedos. No papel estava escrito, em caligrafia graúda e irregular:

Eu te amo.

Durante vários segundos êle ficou tão boquiaberto que nem se lembrou de atirar no buraco da memória o papel incriminador. Quando afinal o jogou fora, não pôde resistir a uma segunda leitura, para se certificar de que eram aquelas as palavras, embora soubesse muito bem do perigo que corria em demonstrar demasiado interêsse.

O resto da manhã, foi-lhe muito difícil trabalhar. Pior que concentrar a mente numa série de servicinhos insignificantes era a necessidade de ocultar sua agitação perante a teletela. Teve a impressão de que uma fogueira lhe ardia na barriga. Foi um tormento o almôço na cantina quente, cheia, ruidosa. Tivera a esperança de ficar a sós uns minutos, na hora do almôço, mas por azar o imbecil do Parsons viera sentar-se ao lado dêle, o fedor de suor quase sobrepujando o cheiro ativo do guisado, e metralhou-o com uma série de comentários sôbre a Semana do ódio. Estava interessadíssimo num modêlo, em papier mâché, da cabeça do Grande Irmão, de dois metros de largura, que a tropa de Espiões da filha estava confeccionando para a festa. O mais irritante era que, em meio à barulhada de vozes, Winston mal ouvia o que dizia Parsons, e se via obrigado a pedir-lhe, constantemente, que repetisse palavras fátuas. Apenas uma vez entreviu a pequena, do outro lado da sala, sentada com outras duas. Ela pareceu não tê-lo visto, e êle não olhou mais naquela direção.

A tarde foi mais suportável. Logo depois do almôço chegou-lhe às mãos um serviço delicado, difícil, que tomou várias horas de pesquisa e exigiu o abandono de tudo o mais.

Consistia da falsificação de uma série de relatórios de produção, de dois anos antes, de maneira a desacreditar um eminente membro do Partido Interno que estava agora meio comprometido. Era a função que Winston desempenhava com mais talento, e durante mais de duas horas conseguiu não pensar na moça.  Depois, a lembrança do seu rosto voltou e com ela um desêjo furioso, intolerável, de estar só. Seria impossível pensar na situação enquanto não conseguisse ficar só. À noite, porém, tinha de ir ao Centro Comunal. Enguliu outra refeição sem gôsto na cantina, correu ao Centro, tomou parte na farça solene de um "grupo de discussão", jogou duas partidas de pingue-pongue, tragou vários copos de gin e assistiu uma conferência de meia-hora, sob o título "Ingsoc em relação ao xadrez." Sentia a alma sêca de tanto aborrecimento, mas não teve impulso de f'ugir à noitada no Centro. À vista das palavras Eu te amo crescera dentro dêle o desêjo de viver, parecendo-lhe estúpido assumir riscos miudos. Não foi senão às vinte e três horas, sózinho na cama - e no escuro, que era o jeito de se defender da teletela, contanto que ficasse quieto - que pôde pensar continuamente.

Era um problema físico que exigia solução: como entrar em contacto  com a moça e combinar um encontro. Já não considerava a possibilidade de ser armadilha. Sabia que não era, por causa da inconfundível agitação da morena ao lhe entregar o bilhete. Era evidente que morria de medo, como seria natural. Tampouco lhe passara pela cabeça a idéia de recusar a declaração. Cinco noites antes pensara em esmagar-lhe o crânio com um paralelepípedo; mas isso não importava. Pensava em seu corpo nú e jovem, como o vira em sonhos. Imaginara-a uma tola, como tôdas as outras, a cabeça recheada de patranhas e ódio, a barriga cheia de gêlo. Uma espécie de febre o dominou, ao pensar que Poderia perdê-la, o corpo jovem e alvo fugindo dêle! O que temia, mais do que qualquer outra coisa, era que ela mudasse de idéia, se não fizesse logo por entrar em contacto com ela. Mas era enorme a dificuldade física de se encontrarem. Era

como mover uma pedra ao xadrez, depois de ter levado mate. Para onde quer que se virasse, tinha a teletela pela frente. Na verdade, tÔdas as maneiras possíveis de se comunicar com ela lhe haviam ocorrido nos cinco minutos após ler o recado; mas agora, com tempo para refletir, examinou-as, uma a uma, como quem depõe na mesa uma fila de instrumentos.

Evidentemente, não se podia repetir o encontro havido aquela manhã. Se ela trabalhasse no Departamento de Registro, seria relativamente simples, porém êle tinha idéia muito vaga da localização do Departamento de Ficção e não havia pretexto para visitá-lo. Se soubesse onde morava, e a que hora deixava o trabalho, poderia dar um jeito para encontrá-la no caminho de casa. Mas segui-la não era aconselhável, porque teria que esperar nas imediações do Ministério, o que certamente seria notado. Quanto a mandar uma carta pelo correio, era impossível. Por um processo que nem mesmo era secreto, tÔdas as cartas eram abertas em trânsito. Na verdade, pouquíssima gente escrevia cartas. Quando, ocasionalmente, havia necessidade de se mandar uma comunicação, existiam cartões postais impressos   com  longas listas de frases, e o cídadão riscava as que não se aplicavam.    Além do mais, não sabia o nome da moça, e muito menos          o enderêço. Por fim resolveu que o melhor lugar seria a cantina. Se conseguisse sentar-se a uma mesa com ela, mais ou menos no meio da sala, longe das teletelas, e com suficiente ruido de conversação em tôrno - e se essas condições durassem uns trinta segundos, talvez fosse possível trocar algumas palavras.

Durante uma semana, a partir daquele dia, a vida foi um sonho sem descanso. No dia seguinte ela não apareceu na cantina senão quando êle estava de saída, e o apito já tocara. Com certeza fôra transferida a outra turma. Passaram sem se olhar. No dia seguinte, ela estava na cantina na hora do costume, mas com outras três colegas, e bem debaixo duma teletela. A seguir, por três dias penosos, não apareceu. O cérebro e o corpo de Winston pareciam atacados de intolerável' sensibilidade, uma espécie de transparência, que transformava em agonia qualquer movimento, qualquer som, contacto ou palavra que tivesse de pronunciar ou ouvir. Mesmo dormindo não podia fugir-lhe à imagem. Não tocou o diário. Se alívio havia, estava no trabalho, no qual às vezes podia se esquecer do mundo por períodos de até dez minutos. Não tinha a menor idéia do que teria acontecido com ela. Não havia jeito de informar-se. Poderia ter sido vaporizada, poderia ter-se suicidado, poderia ter sido transferida a outra parte da Oceania: o pior, e mais provável, era que tivesse simplesmente mudado de idéia, e resolvido evitá-lo.

No dia seguinte ela reapareceu. Já não tinha o braço na tipóia, porém o pulso ainda estava enrolado em esparadrapo. O consôlo de revê-la foi tamanho que não pôde resistir à tentação de fitá-la durante vários segundos. No dia seguinte, quase conseguiu falar-lhe. Ao entrar na cantina, ela já estava junto duma mesa, longe da parede, e sózinha. Era cedo, e a sala não estava cheia. A fila avançou vagarosa até Winston quase chegar ao balcão. Nesse momento deteve-se uns dois minutos porque alguém se queixava de não ter recebido sua pastilha de sacarina. Mas a jovem ainda estava só quando Winston tomou a bandeja e se encaminhou para a mesa. Ia caminhando com naturalidade, fingindo procurar lugar mais adiante. Estava a três metros dela, talvez. Mais dois segundos e pronto. Então uma voz atrás dêle chamou "Smith!" Êle fingiu não ouvir. "Smith!" repetiu mais alto. Inútil. Voltou-se. Um moço louro, cara de bobo, chamado Wilsher, que êle mal conhecia, convidava-o, com um sorriso, a sentar-se à sua mesa. Não era seguro recusar. Tendo sido reconhecido, não podia preferir a mesa da moça sózinha. Daria na vista. Sentou-se com um sorriso amável.

O rosto louro e tolo correspondeu. Winston teve uma alucinação em que se via dando uma machadada bem no meio daquele sorriso alvar. Uns minutos depois, a mesa da jovem estava cheia.

Ela porém devia tê-lo visto encaminhar-se na sua direção, e talvez lhe percebesse o intento. No dia seguinte, êle procurou chegar cedo. Com efeito, lá estava ela, numa mesa mais ou menos no mesmo lugar, e só. A pessoa que o antecedia na fila era um homenzinho de movimentos rápidos, feito um besouro, de cara chata e olhos miúdos e suspicazes. Quando Winston se voltou do balcão, com a bandeja, viu que o homenzinho ia reto na direção da mesa da moça. O coração caiu-lhe aos pés. Havia lugar numa mesa pouco mais adiante, Porém na aparência do homem alguma coisa dizia que amava o próprio confôrto o suficiente para escolher a mesa mais vazia. Com gêlo no coração, Winston acompanhou-o. Não adiantaria nada, a menos que pudesse ficar a sós com ela.

Nesse momento houve um baque tremendo. O homenzinho estava de quatro, a bandeja voara longe, e dois arroios de sopa e café corriam pelo soalho. Êle levantou-se com uma olhada maligna a Winston, de quem evidentemente desconfiava de o haver derrubado. Mas nada sucedeu. Cinco segundos depois, com o coração dando pinotes, Winston sentava-se à mesa da moça.

Não a olhou. Desocupou a bandeja e começou a comer. Era importantíssimo falar imediatamente, antes que viesse alguém. No entanto, um medo terrível se apossara dêle. Uma semana se passara desde que ela lhe dera o recado. Talvez tivesse mudado de idéia, com certeza mudara de idéia! Era impossível que uma coisa dessas corresse bem; isso não acontece na vida real. Êle teria calado para sempre se naquele momento não visse Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, vagando pelo salão, à procura de um lugar para sentar. Com seus modos aéreos, Ampleforth tinha simpatia por Winston, e certamente escolheria aquela mesa, se o visse. Sobrava-lhe talvez um minuto. Tanto Winston como a moça comiam sem parar. Ingeriam sem o menor prazer uma sopa rala, um caldo de vagens. Muito baixinho, Winstón pôs-se a falar. Nenhum dos dois levantou a vista. Metendo colherada após colherada do liquido na bôca, trocaram as palavras necessárias, num murmurio sem expressão.

A que horas sais do serviço? Dezoito e trinta. Onde podemos nos encontrar? Praça da Vitória, perto do monumento. É cheio de teletelas. Não importa, se houver povo. Algum sinal? Não. Não te aproximes, se eu não estiver no meio da multidão. Não me olhes. Apenas chega perto.

- A que horas?

- Às dezenove.

- Muito bem. Ampleforth não viu Winston e sentou-se noutra mesa. Não tornaram a falar e até onde é possível a duas pessoas sentadas à mesma mesa: uma diante da outra, não se olharam. A moça terminou o almôço ràpidamente e se foi, enquanto Winston fumava um cigarro Vitória.

Já antes da hora marcada, Winston estava na praça. Deu algumas voltas em tôrno da base da enorme coluna em gomos, no alto da qual a estátua do Grande Irmão, voltada para o sul, fitava os céus onde havia derrotado os aeroplanos eurasianos (aeroplanos lestasianos, tinha sido, anos atrás) na batalha da Pista N.º 1. Na rua, diante da coluna, havia a estátua de um homem a cavalo que se supunha representar Oliveiros Cromwell. Cinco minutos depois da hora a moça ainda não aparecera. De novo o medo terrível se apossou de Winston. Ela não viria, mudara de idéia! Encaminhouse lentamente para a face norte da praça e com pálido prazer identificou a igreja de S. Martinho, cujos sinos, quando ainda tinha sinos, haviam cantado "Me deves três vintens." Nesse momento, viu a moça junto à base do monumento, lendo ou fingindo ler uma proclamação que subia em espiral pela coluna. Não era seguro aproximar-se enquanto não se acumulasse mais gente. Havia teletelas por tôda parte. Naquele momento, porém, elevou-se da esquerda uma gritaria, acompanhada do barulho de veículos pesados. De repente, todo mundo pareceu convergir para um só ponto. A moça deu volta em tôrno dos leões, na base do monumento, e juntou-se à massa. Winston seguiu-a. Enquanto corria percebeu, por uns gritos, que estava passando um comboio de prisioneiros eurasianos.

Já uma quantidade considerável de pessoas bloqueava o lado sul da praça. Winston, que em circunstâncias normais gravitava para a periferia de qualquer aglomeração, empurrou, acotovelou, esgueirou-se, tentando alcançar o meio do povaréu. Dali a pouco estava a um braço de distância da moça, mas de permeio havia um enorme prole e uma mulher quase tão vasta, sua espôsa certamente, e formavam impenetrável muralha de carne. Winston forcejou de lado e com um violento empurrão conseguiu meter o ombro entre os dois. Por um momento teve a impressão de que iam esmagar suas entranhas com as ancas musculosas, mas por fim passou, suando um pouco. Estava ao lado dela. Os ombros se tocavam, e ambos fixavam um ponto qualquer, no meio da rua.

Uma longa fila de caminhões, com guardas de cara de pau, armados de metralhadoras de mão, e postados em cada canto, ia passando lentamente. Nos caminhões iam de cócoras, muito apertados, uns soldadinhos amarelos, metidos em esfarrapados uniformes verdoengos.       As tristes caras mongólicas olhavam para fora, sem a menor curiosidade. De vez em quando, os caminhões davam um tranco e se ouvia

o tilintar de metais: todos os prisioneiros usavam grilhões. Passaram muitos caminhões atulhados de caras tristes. Winston sabia que estavam passando, mas só os via intermitentemente. O ombro da moça, e o seu braço direito, até o cotovelo, se comprimiam contra êle. A face estava tão perto que podia quase sentir-lhe o calor. Ela assumira imediatamente o comando da situação, como fizera na cantina. Pôs-se a falar com a mesma voz sem expressão que antes, mal mexendo os lábios, um murmurio que se perdia em meio ao vozerio e ao estrondo dos caminhões.

- Estás-me ouvindo?

- Estou.

- Estás livre domingo à tarde?

- Estou.

- Então escuta com cuidado.      Tens de decorar isto. Vai à estação de Paddington...

Com uma precisão militar que o assombrou, a moça delineou o itinerário que deveria seguir. Meia hora de trem. Sair da estação e encaminhar-se para a esquerda. Dois quilômetros pela estrada. Uma porteira sem travessão superior. Um caminho atravessando o campo. Uma alameda gramada. Uma picada entre touceiras. Uma árvore morta coberta de musgo. Era como se tivesse um mapa na cabeça. - Lembras de tudo? - murmurou por fim.

- Lembro.

- Viras à esquerda, depois à direita, depois à esquerda outra vez. A porteira sem travessão de cima.

- Sim. A que horas?

- Às quinze, mais ou menos. Talvez tenhas que esperar. Chegarei por outro caminho. Decoraste tudo?

- Decorei.

- Então dá o fora o mais depressa possível. Não seria preciso dizê-lo. Mas por um momento não lhes foi possível livrar-se da multidão. Os caminhões continuavam passando, e o povo, insaciável, queria olhar. No comêço algumas vaias e assovios tinham soado, de membros do Partido ali presentes, mas não haviam durado muito. A emoção geral era de simples curiosidade. Estrangeiros, fossem da Eurásia ou da Lestásia, eram considerados animais estranhos. Literalmente, não eram vistos nunca a não ser como prisioneiros, e mesmo como prisioneiros não eram vistos senão de relance. Nem se sabia o que lhes acontecia, além de alguns enforcados como criminosos de guerra: os outros desapareciam, presumivelmente em campos de trabalhos forçados. Aos rostos redondos dos mongóis se haviam sucedido faces de tipo mais europeu, sujas, barbudas e exaustas, de zigomas salientes. Seus olhos às vezes fitavam os de Winston, com estranha intensidade, e se afastavam. O comboio terminava. No último caminhão vinha um velho, o rosto coberto de cabelo grisalho desgrenhado, viajando de pé com os punhos juntos cruzados diante do peito, como se estivesse acostumado a algemas. Era quase chegado o momento dos dois se separarem. Mas no último instante, quando a multidão ainda os prendia, a mão da moça procurou a de Winston e apertou-a ligeiramente.

O aperto de mão não durou nem dez segundos e no entanto pareceu que as mãos tinham estado juntas longo tempo. Êle teve tempo de aprender todos os detalhes daquela mão. Explorou os longos dedos afuselados, as unhas bem feitas, a palma calejada pelo trabalho duro, a carne macia do pulso. Decorou-a pelo tato e soube que a reconheceria se a visse. No mesmo instante ocorreu-lhe que ainda não sabia a côr dos olhos da moça. Deviam ser castanhos, mas não raro gente de cabelo escuro tem olhos azuis.   Voltar a  cabeça e olhá-la seria uma loucura inconcebível. Com as mãos se apertando, invisíveis em meio aos corpos, os dois    olhavam firmes para a frente, e ao invés dos da jovem, os   olhos do velho prisioneiro fitaram melancólicamente Winston por entre as grenhas de cabelo encanecido.

10

Winston ia caminhando pela alameda pintalgada de luz e sombra, banhando-se em lagos dourados sempre que os ramos se separavam. Debaixo das árvores, à esquerda, o chão era um mar de campânulas. O ar parecia beijar-lhe a pele. Era dois de maio. Do meio do bosque se ouvia o arrulhar dos pombos bravos.

Ainda era cêdo. A viagem não oferecera impecilhos, e a moça tinha tanta experiência, evidentemente, que Winston sentia menos medo do que sentiria, em circunstâncias normais. Presumivelmente ela saberia achar um lugar seguro. Em geral, não se podia imaginar maior segurança no campo do que em Londres. Não havia teletelas, naturalmente, mas havia sempre o perigo de microfones ocultos, que captavam as vozes e reconheciam os transviados; além disso, não era fácíl viajar só sem atrair a atenção. Para distâncias inferiores a cem quilônetros não havia necessidade de carimbar o passaporte, mas às vezes havia patrulhas nas estações, examinando os papéis de todos os membros do Partido que por acaso encontrassem, e fazendo perguntas indiscretas. Todavia, nenhuma patrulha aparecera, e afastando-se da estação êle verificara, olhando para trás com frequência, que ninguém o seguia. O trem estava cheio de proles, alegres e festivos por causa do calor. O vagão de bancos de pau em que viajou estava completamente tomado por uma família só, enorme, desde a bisavó banguela até um nenê de um mês, a caminho de uma visita aos parentes do interior e, como explicaram sem cerimoniosamente a Winston, da compra de um pouco de manteiga no mercado negro.

A alameda alargou-se e dali a um minuto êle chegou à picada de que ela lhe falara, um simples atalho de gado, que mergulhava entre as touceiras. Não tinha relógio, mas não deviam ser ainda quinze horas. As campânulas eram tantas que não podia caminhar sem pisá-las. Ajoelhou-se e pôs-se a colher algumas, em parte para matar o tempo, mas em parte também pela vaga idéia de que seria agradável ter um ramo de flores para dar à moça quando aparecesse. Já reunira um maço regular, e estava sentindo o aroma um tanto enjoativo quando um ruido o fez gelar: era o estalido inconfundível de um pé quebrando um ramo. Continuou colhendo flores. Era o que melhor tinha a fazer. Podia ser a pequena, mas podia ser outra pessoa. Voltar-se seria acusar-se. Colheu mais uma e mais outra campânula. De repente sentiu uma mão no ombro.

Olhou para cima. Era a moça. Ela abanou a cabeça, num sinal evidente de que devia ficar quieto. Depois separou as touceiras e tomou a frente, seguindo a picada no rumo do bosque. Era claro que ali estivera antes, pois evitava os trechos pantanosos como quem conhece o chão. Winston seguiu-a, ainda com o ramo de flores na mão. Sua primeira sensação foi de alívio mas, olhando o corpo forte e esguio à sua frente, com a faixa rubra apertada, que ressaltava a curva dos quadris, começou a pesar-lhe a própria inferioridade. Mesmo agora ainda lhe parecia perfeitamente possível que ela se voltasse, lhe desse uma olhada e se afastasse. Winston estava embriagado pela doçura do ar e o verdor das folhas. Já na caminhada da estação, à luz do sol de maio, se sentira sujo e estiolado, uma criatura de quatro paredes, com os poros entupidos do pó fuliginoso de Londres. Ocorreu-lhe que até aquele momento ela provàvelmente não o vira à plena luz do dia. Chegaram à árvore caida de que ela havia falado. A moça saltou sôbre o tronco e forcejou abrindo uma touceira, num lugar onde não parecia haver caminho. Quando Winston a seguiu, achou-se numa clareira natural, um pequeno recôndito atapetado de relva e completamente cercado de altos freixos novos, como uma parede. A moça parou e voltou-se.

- Aqui estamos, - anunciou. Os dois se entreolharam, a vários passos de distância. Winston ainda não tivera coragem de se aproximar.

- Não quis dizer nada na alameda - continuou ela -porque podia ser que houvesse um micro escondido. Não creio que haja, mas pode haver. E aqueles suinos são bem capazes de reconhecer a voz da gente. Aqui não há perigo.

Êle continuou sem coragem de se aproximar.

- Não há perigo? - indagou, estúpidamente.

- Não. Olha as árvores. - Eram freixos pequenos, que tinham sido podados e haviam brotado de novo, formando uma floresta de ramos, nenhum dos quais mais grosso que um punho. - Não há lugar para se esconder um micro. E eu já estive aqui antes.

Estavam apenas conversando. Winston conseguira achegar-se um pouco. Ela estava parada diante dêle, muito tesa, tendo nos lábios um sorriso que parecia irônico, como se admirada de que levasse tanto tempo para agir. As campânulas tinham caido ao chão, em cascata. Pareciam ter caído por si próprias. Êle segurou-lhe a mão.

- Acredítas - disse - que até agora não sabia a côr dos teus olhos? - Eram castanhos, notou, um castanho bastante claro, com cílios escuros. - Agora que viste direito como sou, ainda agüentas me olhar?

- Fàcilmente.

- Tenho trinta e nove anos. Tenho uma espôsa de que não me posso livrar. Tenho varizes. E cinco dentes postiços.

- Pouco me importa. No momento seguinte, ela estava nos seus braços, sem que fosse possivel dizer por iniciativa de quem. No comêço não sentiu senão a mais completa incredulidade. O corpo moço apertado contra o seu, a massa de cabelo escuro tocando-lhe a face e... sim! ela virou o rosto e êle beijou a bôca grande e vermelha. Ela passara-lhe os braços pelo pescoço, e o chamava de querido, amado, bem amado. Winston puxouw-a para o chão, e ela não resistiu permitindo-lhe que fizesse o que bem entendesse. Mas a verdade é que não tinha outra sensação física, excepto a do mero contacto. Sentia-se incrédulo e orgulhoso. Estava satisfeito daquilo acontecer, mas não tinha desejo físico. - Era cedo demais, a juventude e a boniteza o haviam amedrontado, êle estava muito acostumado a viver sem mulher... não sabia por que razão. A moça ergueu-se um pouco e tirou uma campânula dos cabelos. E sentou-se, encostada nêle, passando um braço por sua cintura.

- Não tem importância, querido. Não há pressa. Temos a tarde inteira. Êste esconderijo não é esplêndido? Encontrei-o uma vez que me perdi num passeio coletivo. Pode-se ouvir uma pessoa se aproximar a cem metros de distância.

-  Como te chamas? - perguntou Winston.

-  Júlia. Eu sei o teu nome. É Winston... Winston Smith.

-  Como descobriste?

-  Creio que tenho mais jeito de descobrir as coisas. Diz-me, que achavas de mim antes do dia em que te dei o recado?

Êle não se sentiu tentado a mentir-lhe. Seria uma espécie de sacrifício amoroso contar-lhe tudo.

- Eu te odiava - disse. - Queria te violar e depois te assassinar. Há duas semanas, pensei muito a sério em te esmagar a cabeça com uma pedra. Se queres saber, imaginei que fosses da Polícia do Pensamento.

A moça riu-se com gôzo, evidentemente interpretando aquelas palavras como um tributo à excelência do seu disfarce.

- Da Polícia do Pensamento? Pensaste mesmo isso?

- Bem, talvez não, exatamente. Mas pelo teu aspecto geral ... apenas porque és jovem, fresca e sadia, compreendes ... pensei que provàvelmente...

- Pensaste que eu fosse boa militante. Pura de palavras e atos. Faixas, passeatas, palavras de ordem, jogos, piqueniques comunais... tôda a tralha. E achaste que se eu tivesse uma pequena oportunidade havia de te denunciar como ideocriminoso e levar-te à morte?

- Sim, algo parecido. Há muitas raparigas assim, sabes, não é?

- É esta porcaria que dá essa impressão - disse ela, arrancando a faixa escarlate da Liga Juvenil Anti-Sexo e atirando-a a uma ramagem. Daí, como se o gesto lhe recordasse algo, apalpou o bolso do macacão e tirou uma barra de chocolate. Quebrou-a pela metade e deu um dos pedaços a Winston. Antes mesmo de pegá-lo êle sentiu, pelo cheiro, que se tratava de chocolate fora do comum. Era escuro e brilhante, e envolto em papel prateado. Em geral o chocolate era pardo-fosco, quebradiço, com gôsto de fumaça de lixo. Êle porém já havia provado chocolate daqueles. O Perfume adocicado despertara-lhe recordações que não podia precisar, mas que eram poderosas e perturbadoras.

- Onde arranjaste isto?

- No mercado negro - ela respondeu, indiferente. -Na verdade, externamente eu sou assim. Destaco-me nos jogos. Fui chefe de tropa nos Espiões, faço trabalho voluntário três noites por semana na Liga Juvenil Antí-Sexo. Passei horas e horas grudando sandices pelas paredes de Londres. Sempre levo uma ponta de faixa nas passeatas. Estou sempre de cara alegre e nunca tiro o corpo de nada. Grita sempre com a massa, digo eu. É o único jeito de não correr perigo.

O primeiro fragmento de chocolate derretera-se na língua de Winston. Delicioso! Mas aínda revoluteava pela periferia da sua consciência aquela recordação, algo que podia sentir mas não reduzir a uma forma definida, como um objeto visto com o rabo do ôlho. Empurrou-a para longe, sabendo apenas que se tratava da lembrança de algum ato que gostaria de desfazer mas não podia.

- És muito moça - disse. - Uns dez ou quinze anos mais moça que eu. Que foi que viste em mim para te atrair?

- Alguma coisa na tua cara. Achei que devia me arriscar. Tenho jeito para descobrir gente que não se adapta. Assim que te vi achei que eras contra êles. . Êles, aparentemente, eram o Partido, e principalmente o Partido Interno, a respeito do qual falava com ódio e desdém manifestos, a ponto de arrepiar Winston, embora soubesse estarem em segurança, se é que podiam estar em segurança nalguma parte. Outra coisa que o surpreendera fôra a linguagem forte que usava. Não era recomendável dizer nomes feios, sendo-se membro do Partido, e Winston raramente xingava, pelo menos em voz alta. Júlia, entretanto, parecia incapaz de mencionar o Partido, especialmente o Partido Interno, sem usar os palavrões que se vêem escritos a gis e a carvão em certas ruas escuras. Não lhe desagradava que assim fosse: era apenas um sintoma da revolta de Júlia contra o Partido e seus métodos, e lhe parecia natural e saudável, como o espirro de um cavalo que fareja feno podre. Tinham saído da clareira e vagueavam outra vez pela alameda pintalgada, com os braços passados pela cintura, sempre que o caminho permitisse a passagem de dois. Êle observou que a cintura dela parecia muito mais maleável sem a faixa odiosa. Falavam em cochichos. Fora da clareira, dissera Júlia, era melhor ficarem quietinhos. Dali a pouco chegaram ao fim do bosquete. Ela o deteve.

É melhor pararmos aqui. Pode haver alguém vigiando. Não corremos perigo enquanto ficarmos por trás das ramadas.

Estavam na sombra de umas aveleiras. O sol, filtrando-se por entre  as folhas inúmeras, ainda lhes ardia no rosto. Winston olhou para o campo e sofreu um choque, lento e curioso, de reconhecimento. Conhecia-o de vista. Um pasto velho, no restÔlho, com um caminho que serpeava de um lado a outro, pontilhado de cupins. Na sebe irregular, do lado oposto, os ramos dos ulmeiros balouçavam de leve na brisa, e suas folhas palpitavam em densas massas, como cabelo de mulher. Devia haver por aqui, embora não pudesse vê-lo, um regato com espraiados verdes onde nadavam mugens.

- Não há um regato por aqui? - sussurrou.

- Há, sim. Fica na beirada do outro campo. Tem peixes, uns peixes grandes. Podes vê-los nadando nas lagoas, sob os chorões, abanando a cauda.

-  É a Terra Dourada... quase - murmurou êle.

-  Terra Dourada?

-  Não é nada. Uma paisagem que às vezes vejo em sonhos.

-  Olha! - cochichou Júlia. Um tordo pousára num ramo, a menos de cinco metros de distância, quase na altura do rosto dos dois. Era possível que não os tivesse visto. Estava ao sol, e êles na sombra. Estirou as asas, tornou a fechá-las cuidadosamente, inclinou a cabeça por um instante, como que saudando o sol, e desencadeou uma torrente sonora. Dentro do silêncio da tarde era pasmoso o volume de som. Winston e Júlia deixaram-se ficar, muito juntos, imóveis, fascinados.  A música continuou, minuto após minuto, com assombrosas variações, sem nunca se repetir, quase como se o pássaro estivesse a exibir, de propósito, o seu virtuosismo. Às vezes parava por alguns segundos, abria e fechava as asas, depois inflava o peito malhado e tornava a romper na cantoria. Winston observava-o com um ar de vaga reverência. Para quem, para o que, estaria o tordo cantando? Não havia nem companheira nem rival à vista. Que é que o fazia pousar num campo deserto e soltar sua música no vazio? Winston indagou de si mesmo se, apesar de tudo, não haveria por perto um microfone escondido. Êle e Júlia tinham falado em sussurros, e o micro não poderia tê-los percebido, mas com certeza captaria o

canto do tordo. Talvez, na ponta do fio, um homenzinho com cara de besouro escutasse atento - escutasse canto. Aos poucos, porém, o embevecimento da música repeliu da mente de Winston tôdas as especulações. Era uma espécie de bálsamo despejado por cima de todo seu corpo, misturado com os raios do sol que se filtravam por entre as folhas. Parou de pensar, ficou apenas sentindo. No seu braço, a cintura da moça era morna e macia. Atraiu-a para mais perto, de modo a senti-la junto ao peito; o corpo de Júlia parecia derreter-se no dêle. Onde quer que o tocasse com as mãos, cedia como água. As bocas estavam presas; muito diferente dos beijos quase formais que haviam trocado antes. Quando separaram o rosto, os dois suspiraram profundamente.

O passarinho assustou-se e esvoaçou, fugindo.

Winston aproximou os lábios da orelha dela.

- Agora - sussurrou.

- Aqui não - foi a resposta. - Vamos voltar para o esconderijo. É mais seguro.

Ràpidamente, quebrando aqui e ali uns ramos secos, os dois voltaram para a clarêira. Quando mais uma vez se encontraram na segurança da muralha de árvores novas, Júlia voltou-se e parou diante dêle. Ambos ofegavam, mas o sorriso reapareceu nas comissuras dos lábios. Ela o fitou durante um instante, e depois apalpou o zip do macacão. Ah, sim! Foi quase como no sonho de Winston. Quase com a mesma ligeireza, ela tirou a roupa, e quando a atirou para um lado foi com o mesmo gesto magnífico que parecia aniquilar tôda uma civilização. O corpo muito branco lampejou ao sol. Mas, por um momento, êle não o olhou. Tinha os olhos grudados na face sardenta, no leve sorriso de ousadia. Ajoelhou-se diante dela e tomou-lhe as mãos.

- Já fizeste isto antes?

- Naturalmente. Centenas de vezes... quer dizer, muitíssimas vezes.

- Com membros do Partido?

- Sempre com membros do Partido.

- Do Partido Interno?

- Não, com aqueles porcos, não. Mas há uma porção que gostaria de fazer uma fèzinha, se tivesse oportunidade. Não são tão santos quanto pretendem.

O coração dêle deu um pincho. Muitíssimas vezes, dissera ela. Oxalá tivessem sido centenas... milhares. Tudo quanto cheirasse a corrupção o enchia sempre de ardentes esperanças. Quem poderia saber? O Partido talvez estivesse podre sob a crosta superior; seu culto da severidade é a auto-negação podiam ser apenas uma máscara da iniquidade. Se pudesse infeccioná-los todos com lepra ou sífilis, com que prazer o faria! Tudo que servisse para apodrecer, debilitar, minar! Êle puxou-a para baixo, fê-la ajoelhar-se à sua frente.

- Escuta. Quantos mais homens tiveste, mais te quero. Compreendes?

- Perfeitamente.

- Odeio a pureza, odeio a virtude. Não quero que exista virtude alguma, em parte nenhuma. Quero que todos sejam corruptos até os ossos.

- Então eu sirvo, querido.' Sou corrupta até os ossos.

- Gostas de fazer isto? Não me refiro a mim, sómente. Gostas da coisa em si?

- Adoro! Acima de tudo, era o que êle desejava ouvir. Não sómente o amor de uma pessoa, mas o instinto animal, o desejo simples, indiscriminado; era a fôrça que faria a derrocada do Partido. Apertou-a contra o chão, esmagando campanulas. Desta vez não houve impecilho. Dentro de alguns instantes, o ofegar do peito de ambos voltou ao normal, e com um agradável torpor, cairam separados. O sol parecia ter esquentado mais. Ambos tinham sono. Êle puxou o macacão abandonado e cobriu-a um pouco. Quase imediatamente cairam no sono e dormiram cerca de meia-hora.

Winston acordou primeiro. Sentou-se e ficou contemplando a face sardenta, ainda adormecida, apoiada na palma da mão. Com exceção da bôca, Júlia não podia ser considerada bonita. Olhando-se de perto, descobria-se uma ruga ou duas perto dos olhos. O cabelo escuro e curto era extraordinariamente espesso e macio. Winston raciocinou que ainda não sabia todo o nome dela, e onde morava.

Aquele corpo jovem e forte, agora completamente desprotegido, provocou nele uma sensação de pena, e proteção. Mas não voltou de todo a ternura fisica, orgânica, que sen-

tira sob a aveleira, enquanto cantava o tordo. Puxou o macacão de lado e estudou a pele branca e macia. Antigamente, pensou êle, um homem olhava um corpo de mulher, via que era desejável e pronto. Mas agora não era possível ter amor puro, ou pura lascívia. Não havia mais emoção pura; estava tudo misturado com medo e ódio. A união fôra uma batalha, o clímax uma vitória. Era um golpe desferido no Partido. Era um ato político.

11

- Podemos voltar aqui - disse Júlia. - Em geral, não há perigo em usar duas vezes o mesmo esconderijo. Mas só daqui a um mês ou dois, claro.

Assim que despertara, mudara totalmente sua conduta. Tornou-se alerta e prática, vestiu-se, ajustou na cintura a faixa escarlate, e pôs-se a organizar os detalhes da viagem de regresso. A Winston pareceu natural deixar-lhe a iniciativa. Evidentemente, Júlia tinha uma dose de manha prática de que êle carecia, e parecia também ter conhecimento exaustivo dos arredores de Londres, fruto de inúmeros passeios comunais. O itinerário que ela lhe sugeriu diferia bastante do que usara antes, e levava-o a outra estação.

- Nunca vás para casa pelo mesmo caminho que vieste- aconselhou, com ar de quem anuncia um importante princípio geral. Iria primeiro, e Winston esperaria meia-hora, antes de tomar o rumo de volta.

Disse o nome dum lugar onde poderiam se encontrar depois do trabalho, dali a quatro dias. Era uma rua de bairro pobre, onde havia uma feira geralmente cheia de gente ruidosa. Ela fingiria procurar algo nas barracas, como se quisesse comprar atacadores de sapato ou linha de coser. Se achasse não haver perigo, assoaria o nariz quando êle se aproximasse; senão, deveria passar sem reconhecê-la. Com sorte, porém, não haveria risco em conversarem um quarto de hora no meio da multidão combinando outro encontro.

- E agora preciso ir embora - disse ela, assim que êle decorou as instruções. - Devo voltar às dezenove e trinta. Tenho de trabalhar duas horas para a Liga Juvenil Anti-Sexo, distribuindo volantes, ou algo parecido. Não é horroroso? Queres me dar uma escovadela, por favor? Tenho

alguma folha ou raminho no cabelo? Tens certeza? Então, adeus, meu amor, adeus!

Atirou-se nos braços dêle, beijou-o quase com violência, e dali a um momento abriu caminho entre as árvores, desaparecendo no bosque com barulho mínimo. Winston continuava sem saber-lhe o nome nem o endereço. Não fazia diferença, porém, pois era inconcebível que pudessem se encontrar num recinto fechado, ou trocar qualquer comunicação escrita.

Aconteceu porém que nunca voltaram à clareira do bosque. Durante o mês de maio só houve outra ocasião em que conseguiram ficar sós algum tempo. Foi noutro esconderijo conhecido de Júlia, o campanário de uma igreja arruinada, local quase deserto onde uma bomba atômica caira trinta anos antes. Era bom lugar para se esconder, mas o perigo era chegar até lá. O resto do tempo só podiam se encontrar nas ruas, cada vez num lugar diferente, e nunca durante mais de meia-hora. Na rua, em geral era possível conversar, de certo modo. Vagueando pelas calçadas cheias de gente, sem ser lado a lado, e nunca se entreolhando, tinham palestras curiosas, intermitentes, que sumiam e reapareciam como os fachos de um farol, súbitamente silenciadas pela aproximação de um uniforme do partido ou a proximidade de uma teletela, e reiniciadas, minutos mais tarde, no meio duma frase, ou então cortadas ex-abrupto quando se separavam num ponto combinado, e continuadas quase sem introdução no dia seguinte. Júlia parecia bastante acostumada a esta espécie de conversa, a que chamava "falar a prestações." Tinha também uma surpreendente habilidade de falar sem mexer os lábios. Apenas uma vez, em quase um mês de encontros noturnos, conseguiram trocar um beijo. Iam passando em silêncio por uma rua lateral (Júlia nunca falava quando estavam longe das artérias principais) quando se ouviu um ribombo ensurdecedor; a terra tremeu e o ar se escureceu. Winston achou-se caído de lado, com escoriações e muito medo. Uma bomba-foguete devia ter caído bem perto. De repente viu o rosto de Júlia, a alguns centímetros do seu, branca de morte, branca como gis. Até os lábios tinham perdido a côr. Estava morta! Apertou-a contra o peito e sentiu que estava beijando um rosto vivo e palpitante. Aquela brancura tôda era dum pó que caira em cima dos dois. A face de ambos fôra coberta de forte camada de caliça.

Havia noites em que, chegados ao ponto de encontro, tinham de passar um pelo outro sem dar sinal de vida, por causa de alguma patrulha à vista, ou de um helicóptero pairando por perto. Mesmo que fosse menos perigoso, seria difícil encontrar tempo para se encontrar. A semana de trabalho de Winston era de sessenta horas, e a de Júlia ainda mais longa, e os dias de folga variavam conforme a pressão do serviço, nem sempre coincidindo. E Júlia raro tinha uma noite inteiramente livre. Perdia um tempo fabuloso, assistindo conferências e demonstrações, distribuindo literatura da Liga Juvenil Anti-Sexo, preparando faixas para a Semana do ódio, cobrando contribuições da campanha de poupança, e atividades similares. Valia a pena, dizia ela; era camuflagem. Respeitando as leis menores podia infringir as maiores. Chegou mesmo a induzir Winston a hipotecar mais uma noite, oferecendo-se para trabalhar numa fábrica de munições, nas horas vagas, o que faziam voluntàriamente todos os zelosos militantes. Assim, uma noite por semana, Winston passava quatro horas de paralisante chatice, atarrachando e montando pedacinhos de metal, provàvelmente partes de fusiveis de bomba, numa oficina mal iluminada e ventilada onde o bater dos martelos se misturava penosamente com a música das teletelas.

Quando se encontraram na tôrre da igreja, foram preenchidos os claros da sua conversação fragmentada. Era uma tarde sufocante. No quartinho em cima do compartimento dos sinos, o ar era quente e estagnado, e havia um cheiro horrível de guano de pombo. Passaram horas conversando, sentados no soalho empoeirado, coberto de detritos. De vez em quando um dêles se levantava para espiar pelas seteiras, verificar que não vinha ninguém.

Júlia tinha vinte e seis anos de idade. Morava numa hospedaria com outras trinta moças ("Sempre o mau cheiro das mulheres! Como eu odeio as mulheres!" exclamava, entre parênteses), e trabalhava, como êle imaginara, nas máquinas novelizadoras do Departamento de Ficção. Apreciava o trabalho, que consistia principalmente em fazer funcionar e manter em bom estado um poderoso e complicado motor elétrico. Era "inesperta" porém gostava de usar as mãos e sentia-se à vontade com maquinaria. Sabia descrever todo o processo de composição de um romance, desde a diretriz geral traçada pelo Comité de Planejamento até os retoques finais, pelo Esquadrão de Reescritores. Ela, porém, não se

interessava pelo produto acabado. "Não tínha gôsto pela leitura," disse. Para ela, os livros não passavam de artigos que tinham de ser produzidos, como botinas ou compotas.

Não se recordava de coisa alguma antes de 1960, e a única pessoa que conhecera e falava frequentemente dos dias anteriores à Revolução era um avô, que desaparecera quando Júlia tinha oito anos. Na escola, capitaneara o time de hóquei e dois anos consecutivos ganhára o troféu de ginástica. Fôra chefe de tropa nos Espiões e secretária distrital da Liga da Juventude antes de entrar para a Liga Juvenil Anti-Sexo. Sempre se demonstrara excelente cidadã. Até fôra (sinal infalível de boa reputação) escolhida para trabalhar na Pornosec, a sub-secção do Departamento de Ficção que produzia pornografia barata para distribuição entre os proles. Os que lá trabalhavam lhe davam o apelido de Casa da Lama, observou ela. Ali permanecera um ano, ajudando a produzir livretos em envoltórios fechados, com títulos tais como Contos da Chibata ou Uma Noite Num Internato de Moças, comprados furtivamente por jovens proles, que tinham a impressão de adquirir algo ilegal.

- Como são êsses livros? - indagou Winston, curioso.

- Oh, droga horrorosa. São chatíssimos. Só têm seis enredos, que são misturados e adaptados. Naturalmente eu só estava nos caleidoscópios. Nunca estive no Esquadrão de Reescritores.   Não sou literata, meu caro... nem sirvo para isso.

Winston soube, estarrecido, que todos os trabalhadores da Pornosec eram moças, à exceção do chefe. A teoria era de que os homens, cujos instintos sexuais são menos controláveis que os das mulheres, corriam maior risco de ser contaminados pela imundície que lhes passava pelas mãos.

- Nem gostam de mulheres casadas - acrescentou. -

As pequenas são consideradas sempre tão puras! Eu pelo menos não sou.

Tivera o seu primeiro caso amoroso aos dezesseis anos, com um militante de sessenta, que depois se suicidara para fugir à prisão.

- E fez muito bem - comentou Júlia - porque senão haveriam de descobrir meu nome, quando êle confessasse. -

Depois daquele houvera muitos outros. Aos seus olhos, a vida era muito simples. Queria divertir-se; "êles", isto é, o Partido, não queriam deixá-la; porisso infringia a lei da melhor maneira possível. Parecia achar igualmente natural que "êles" quisessem proibir os prazeres e que os cidadãos buscassem fugir à prisão. Odiava o Partido, e confessava-o em outras tantas palavras cruas, mas não o criticava em geral. Excepto no que tangia à sua vida particular, não lhe interessava a doutrina partidária. Êle observou que Júlia nunca usava palavras de Novilíngua, nem mesmo as que haviam passado à linguagem corrente. Nem nunca ouvira falar da Fraternidade, recusando-se mesmo a acreditar na sua existência. Considerava estúpida qualquer revolta organizada contra o Partido; fadada ao insucesso, dizia.      O inteligente era desrespeitar a lei e continuar vivendo. Winston indagou de si mesmo, vagamente, quantos outros, como Júlia, devia haver na nova geração - jovens crescidos no mundo da Revolução, não sabendo nada mais, achando o Partido algo inalterável, como o céu, não se rebelando contra sua autoridade, mas simplesmente fugindo a ela, como um coelho evita o cão.

Não discutiram a possibilidade de casamento. Era demasiado longínqua para merecer consideração. Nenhum comité imaginável sancionaria tais nupcias, mesmo que Winston pudesse se livrar de Katherine. Nem como sonho de olhos abertos oferecia esperança.

- Que tal era tua mulher? - indagou Júlia.

- Era...   conheces a palavra de Novilíngua benpensante? Isto é, naturalmente ortodoxa, incapaz de um mau pensamento?

- Não, não conheço a palavra, mas conheço o tipo, isso conheço.

Êle pôs-se a contar-lhe a história de sua vida conjugal, mas o curioso é que ela já parecia conhecer as partes essenciais. Descreveu a Winston, quase como se o tivesse visto ou sentido, o enrijamento do corpo de Katheríne assim que êle a tocava, a maneira por que parecia ainda repeli-lo com tÔda força, mesmo quando nele se enroscava com braços e pernas. Com Júlia êle não achava difícil falar de tais coisas: afinal, Katherine deixara de ser uma lembrança dolorosa para ser apenas desagradável.

- Eu aguentaria se não fosse uma coisa - disse êle. Falou-lhe da frígida cerimoniazinha a que Katherine o forçava uma vez por semana. - Ela o detestava, mas nada conseguiria fazê-la mudar de idéia. Costumava chamar o ato de. .. és capaz de adivinhar?

- Nosso dever para com o Partido - disse Júlia, prontamente.

Como sabes? Também estive na escola, querido. Aulas de sexo uma vez por mês para as maiores de dezesseis. E no Movimento Juvenil. Esfregam na cara da gente, anos a fio. Sei que dá resultado, em muitas. Mas nunca se pode saber; há tantas hipócritas.

Ela pôs-se a discorrer sôbre o assunto. Com Júlia, tudo girava em tôrno da sua própria sexualidade. Assim que êste assunto vinha à balha, de algum modo, mostrava-se muito informada. Ao contrário de Winston, percebera o sentido íntimo do puritanismo sexual do Partido. Não era apenas pelo fato do instinto sexual criar um mundo próprio, fóra do controle do Partido e que portanto devia ser destruido, se possível. O mais importante era a privação sexual que provocava a histeria, desejável porque podia ser transformada em febre guerreira e adoração dos chefes. Ou como explicava Júlia:

- Quando amas, gastas energia; depois, ficas contente, satisfeito, e não te importas com coisa alguma. Êles não gostam que te sintas assim. Querem que estoures de energia o tempo todo. Todo êsse negócio de marchar para cima e para baixo, dar vivas, agitar bandeirolas, é sexo que azedou. Se estás contente contigo mesmo, por que havias de admirar o Grande Irmão, os Planos Trienais e os Dois Minutos de ódio e todo o resto da maldita burrice?

Era bem verdade, pensou êle. Havia uma ligação direta e íntima entre a castidade e a ortodoxia política. Como poderiam ser mantidos no tom o medo, o ódio e a credulidade lunática que o Partido necessitava nos seus membros, a não ser pelo engarrafamento de um poderoso instinto, usado como fôrça motriz? O impulso sexual era perigoso ao Partido e o Partido o transformara em vantagem a seu favor. A truque semelhante tinham submetido o instinto da paternidade. Como não era possível abolir a família (ao contrário, os pais eram incitados a gostar dos filhos quase à moda antiga) as crianças eram sistemàticamente atiradas contra os pais, e ensinadas a espioná-los e a denunciar os seus desvios. Dessa forma a família se tornára uma extensão da Polícia do Pensamento. Era um meio pelo qual todo mundo podia ser cercado, noite ou dia, por delatores que o conheciam intimamente.

De sopetão, o pensamento de Winston voltou a Katherine. Sem dúvida, ela o denuncíaria à Polícia do Pensamento se não fosse tão estúpida que percebesse a heresia dos pensamentos. Mas o que na verdade a recordou foi o calor sufocante da tarde, que lhe cobria a testa de bagas de suor. Começou a contar a Júlia algo que acontecera, ou antes, que deixara de acontecer, numa tarde muito quente, onze anos atrás.

Havia apenas três ou quatro meses que haviam casado. Tinham-se perdido num passeio comunal, em Kent. Haviam se afastado dos outros apenas uns minutos, mas tomado um caminho errado, e por fim se achado na beira de uma velha mina de calcáreo. Era uma queda vertical de dez ou vinte metros, com grandes rochas ao fundo. Não havia ninguém a quem perguntar a direção certa. Assim que descobriram estar perdidos, Katherine começou a ficar nervosa. Afastarse do bando barulhento, por uns minutos que fosse, dava-lhe a impressão de estar agindo mal. Queria correr de volta pelo caminho e procurar na outra direção. Mas nesse momento Winston notou uns tufos de prímulas crescendo nas grétas do penedo. Um tufo era de duas côres, maravilha e tijolo, aparentemente crescendo na mesma raiz. Nunca vira nada parecido, e chamou Katherine.

- Olha, Katherine! Olha aquelas flores. Aquele maço perto do fundo. Vês que são de côres diferentes?

Ela já virara para regressar, mas veiu espiar, inquieta. Chegou até a inclinar-se sôbre o rochedo para ver onde éle apontava. Winston estava parado, um pouco para trás, e segurou-a pela cintura para firmá-la. Naquele momento, ocorreu-lhe que estavam completamente sós. Não havia por ali nenhuma criatura humana, não se movia uma folha, não havia um pássaro acordado. Num lugar daqueles, era muito pequeno o perigo de haver um microfone escondido, e se microfone houvesse, só poderia captar sons. Era a hora mais quente, mais sonolenta da tarde. O sol fustigava-os, e a testa dêle estava banhada em suor. Uma idéia lhe veiu...

- Por que não lhe deste um bom empurrão? - indagou Júlia. - Eu daria.

- Sim, querida, já sei. Eu também, se fosse a pessoa que sou hoje. Ou talvez eu... não sei não.

- Lamentas não tê-la empurrado?

- Lamento. De certo modo, foi uma pena.

Estavam sentados, um ao lado do outro, sôbre o soalho empoeirado. Puxou-a para mais perto. Júlia descansou a cabeça no ombro dêle, e o aroma agradável dos seus cabelos sobrepujou o cheiro dos pombos. Era muito moça, pensou Winston, ainda esperava algo da vida, não compreendia não ser solução empurrar uma pessoa inconveniente, rochedo abaixo.

- Na verdade, não faria a menor diferença.

- Então por que lamentas não ter empurrado a zinha?

- Por que prefiro uma positiva a uma negativa. Neste jôgo, não podemos ganhar. Alguns fracassos são melhores que outros, e é tudo.

Sentiu-a dar de ombros, num movimento de desaprovação. Sempre o contradizia quando êle saía com essas. Não aceitava, como lei da natureza, a derrota do indivíduo. De certo modo percebia estar condenada, e que mais cedo ou mais tarde a Polícia do Pensamento a apanharia e mataria, mas com outra parte do cérebro acreditava ser possível construir um mundo secreto onde podia viver como quisesse. Tudo que precisava era sorte, esperteza e audácia. Não compreendia que não existia felicidade, que a única vitória estava no futuro distante, muito depois da morte, e que desde o momento de declarar guerra ao Partido era melhor considerarse cadáver.

- Estamos mortos - disse êle.

- Não estamos mortos ainda - contestou Júlia, prosàicamente.

- Fisicamente, não. Seis meses, um ano... cinco anos concebivelmente. Tenho medo da morte. És jovem, de modo que presumo que tens mais medo que eu. Naturalmente, procuraremos evitá-la. Mas isso não faz muita diferença. Enquanto os humanos permanecerem humanos, a vida e a morte são a mesma coisa.

- Besteira! Com quem preferes dormir, comigo ou com um esqueleto? Não gostas de estar vivo? Não aprecias a sensação de dizer: êste sou eu, esta é minha mão, minha perna, sou real, sou sólido, sou vivo! Não gostas disto?

Ela voltou-se e apertou os seios contra o corpo dêle. Winston pôde sentir-lhe os peitos, maduros e firmes, sob o macacão. O corpo dela parecia transmitir ao seu um pouco de juventude e vigor.

- Gosto, sim.

- Então para de falar de morte. E agora ouve, temos de combinar novo encontro. Já podemos voltar à clareira do bosque. Demos-lhe uma boa folga. Mas desta vez deves ir por caminho diferente. Já pensei em tudo. Pegas o trem... mas olha, já te desenho um mapa.

E com seus modos práticos ela marcou um retângulo de pó e, tirando um pau do ninho de um pombo, pôs-se a riscar uma planta no chão.

12

Winston olhou em tôrno do quartinho mal ajambrado sôbre a loja do sr. Charrington. Ao lado da janela, a cama enorme fôra feita, com cobertores esfarrapados e um travesseiro sem fronha. O relógio antigo, de mostrador de doze horas, tiquetaqueava na lareira. No canto, sôbre a mesa de abrir, o pêso de papéis que êle comprara na última visita cintilava suavemente na semi-obscuridade.

Na guarda do fogão havia um veterano fogareiro a óleo, uma caçarola e duas xícaras, fornecidos pelo sr. Charrington. Winston acendeu o fogo e pôs a panela dágua a ferver. Trouxera um envelope cheio de Café Vitória e umas pastilhas de sacarina. Os ponteiros do relógio marcavam sete e vinte; na verdade eram dezenove e vinte. Ela devia chegar às dezenove e trinta.

Loucura, loucura,. dizia-lhe o coração; loucura consciente, gratuita, suicida. De todos os crimes que um membro do Partido podia cometer, êste era o mais difícil de ocultar. A idéia a princípio lhe viera à cabeça sob forma de uma visão do pêso de vidro espelhado pela superfície da mesa de dobrar. Como previra, o antiquário acedera em alugar o quarto. Evidentemente, vinham a calhar uns dólares extra. Nem pareceu chocado ou desrespeitoso quando ficou claro que Winston queria o quarto com a finalidade de receber uma mulher. Ao invés, seu olhar perdeu-se na meia distância e êle falou de generalidades, com um ar tão delicado que parecia ter-se tornado parcialmente invisível. A poSsibilidade da solidão, disse êle, é muito valiosa. Todo mundo quer um lugar onde possa ficar só. E quando tem um lugar assim, é cortesia comum se calarem os que dêle souberem. E apesar de parecer fanado e fora da vida, acrescentou até que a casa tinha duas entradas, sendo uma pelo quintal, que abria sôbre o beco.

Debaixo da janela, alguém cantava. Winston espiou para fora, protegido pela cortina de musselina. O sol de junho ainda boiava alto nos céus, e no pátio ensolarado uma mulher monstruosa, sólida como uma pilastra normanda, com formidandos antebraços avermelhados e um avental de aniagem na cintura, caminhava entre uma tina de lavar e um varal, estendendo uma porção de panos quadrados em que Winston reconheceu fraldas. Sempre que não tinha a bôca cheia de prendedores, cantava, com poderosa voz de contralto:

"Foi apenas uma fantasia desesperada,

Que passou como um dia de abril,

Mas um olhar, uma palavra, e os sonhos provocados,

Roubaram o meu coração gentil!"

Havia semanas que a canção estava em voga em Londres. Era uma das músicas sem conta, publicadas para os proles, por uma sub-secção do Departamento de Música. As letras eram compostas, sem intervenção humana, num instrumento chamado versificador. Mas a mulher cantava com tamanho sentimento que transformava aquéla horrível pieguice num som quase agradável. Winston podia ouvir a mulher cantando e o ranger dos sapatos no lagedo, gritos de crianças nas ruas, e às vezes, na distância, o regougo esmaecido do tráfego, e no entanto o quarto parecia curiosamente mudo, por causa da ausência da teletela.

Loucura, loucura, loucura! tornou a pensar. Era inconcebível que pudessem frequentar aquele lugar por mais de algumas semanas sem serem descobertos. Mas a tentação de ter um esconderijo que fosse verdadeiramente dêles, dentro de casa, à mão, fôra demasiada. Durante algum tempo após a visita ao campanário da igreja, não tinham podido se encontrar. As horas de trabalho tinham sido dràsticamente aumentadas, à espera da Semana do ódio. Ainda faltava mais de um mês, porém os preparativos vastos, complexos, exigiam trabalho extra de todo mundo. Afinal, ambos haviam conseguido a mesma tarde livre.     Tinham combinado ir à clareira do bosque. Como sempre,    Winston mal olhou para Júlia, quando se cruzaram no meio da multidão. Mas pela breve olhada que lhe lançou, pareceu-lhe que estava mais pálida do que do costume.

- Não pode ser - murmurou, assim que julgou seguro falar. - Quero dizer, amanhã não posso.

- Que?

- Amanhã de tarde, não posso ir.

- Por que?

- Pelo motivo comum. Desta vez começou cedo. Por um momento, êle se sentiu furioso. Naquele mês, volvido desde que a conhecera intimamente, modificara-se a natureza do seu desejo. No comêço, pouca sensualidade houvera nele. O primeiro contacto amoroso fôra simplesmente um ato de volição. Mas depois da segunda vez as coisas haviam mudado de figura. O aroma dos cabelos, o gôsto da bôca, a maciez da pele pareciam havê-lo penetrado, ou envolvê-lo. Ela se tornara uma necessidade física, algo que não apenas queria como sentia ter direito a gozar. Quando Júlia anunciou que não poderia ir, teve a impressão de estar sendo lesado. Mas naquele momento a multidão os apertou e, acidentalmente, as mãos se encontraram. Ela apertou-lhe ligeiramente as pontas dos dedos, num gesto que parecia pedir não desejo mas afeto. Winston raciocinou que, quando se vive com uma mulher, êsse tipo de desapontamento deve ser uma coisa normal, que acontece mais de uma vez; de repente, domínou-o uma profunda ternura, como nunca sentira antes. Desejou que fossem um casal com dez anos de existência em comum. Desejou passear com ela pelas ruas, como estavam fazendo naquele instante, mas abertamente, sem medo, falando de frivolidades e comprando pequenas bobagens para o lar. Desejou, acima de tudo, que tivessem um lugar onde ficar a sós, sem sentir a obrigação de fazer o amor, cada vez que se encontravam. Não foi exatamente naquele instante, mas no dia seguinte, que lhe ocorreu alugar o quarto do antiquário. Quando sugeriu o plano a Júlia, ela concordou com inesperada presteza. Ambos sabiam ser loucura. Era como se dessem, de propósito, um passo para o túmulo. Sentado na beira da cama, Wínston tornou a pensar nos porões do Ministério do Amor. Era curioso que aquele horror predestinado se acendesse e apagasse na sua consciência. Lá estava êle, fixado no tempo futuro, precedendo a morte com a mesma certeza que 99 precede 100. Não era possível evitá-lo, mas talvez fosse adiá-lo; e no entanto, ao invés disso, de vez em quando, êle encurtava a vida, por um ato consciente, voluntário.

Naquele momento, ouviu-se um     passo rápido nas escadas. Júlia irrompeu no quarto. Trazia um saco de ferramentas de lona marron crua, com que às vezes a vira entrando e saindo do Ministério. Tentou colhê-la nos braços, mas Júlia desvencilhou-se um tanto apressada, em parte por estar ainda com a bolsa na mão.

- Meio segundo - disse. - Olha só o que eu trouxe. Trouxeste êsse horrendo Café Vitória? Logo vi. Podes levá-lo de volta, porque não precisamos dêle. Olha.

Ajoelhou-se, abriu a bolsa, e tirou algumas chaves- inglêsas e de fenda que enchiam a parte superior. Por baixo havia vários pacotes de papel. O primeiro embrulho que entregou a Winston lhe pareceu, ao tato, ter uma consistência estranha e no entanto vagamente familiar. Estava cheio de uma substância pesada, pulverulenta, que cedia onde se apertasse o papel.

- É açúcar?

- Açúcar de verdade. Nada de sacarina. E aqui temos um pão - um pão branco, decente, não aquela broa insôssa - e uma latinha de geléia. Uma lata de leite... e olha! Disto eu me orgulho. Tive de enrolá-lo numa estopa, Po'rque...

Mas não era preciso explicar porque o enrolára. O aroma já enchia o quarto, um aroma rico e convidativo, que lhe parecia uma emanação da meninice, mas que de vez em quando ainda sentia, propagando-se por um corredor antes de uma porta bater, ou espalhando-se misteriosamente numa rua cheia de gente; um cheiro olfateado uns segundos e depois perdido de novo.

- É café - murmurou Winston. - Café de verdade.

- Café do Partido Interno. Um quilo inteiro aqui.

- Como conseguiste arranjar tudo isto?

- É tudo para o Partido Interno. Não há nada que aqueles suinos não tenham. Nada. Mas naturalmente os garçons e os empregados afanam as coisas e... olha, trouxe também um pacotinho de chá.

Winston acocorara-se ao pé de Júlia. Rasgou um bico do pacote.

- Chá mesmo. Não são folhas de amora.

- Tem rodado muito chá por aí. Capturaram a Índia, sei lá - explicou ela, vagamente. - Mas escuta, querido. Quero que me dês as costas três minutos. Vai sentar do

outro lado da cama. Não chegues à janela. E não olhes enquanto eu não te disser.

Winston ficou olhando, distraído, através da cortina de musselina. Lá no pátio a mulher dos braços avermelhados continuava marchando da tina para o varal, e vice-versa. Tirou dois prendedores de roupa da bôca e cantou com profundo sentimento:

"Dizem que o tempo tudo cura,

Dizem que sempre se pode esquecer,

Mas os sorrisos e lágrimas, anos a fio,

Ainda fazem meu coração sofrer."

Sabia de cor a estúpida' canção. A voz subia, boiando no doce ar estival, muito afinada, carregada de uma espécie de feliz melancolia. Tinha-se a impressão de que ficaria perfeitamente contente se a noite de junho fosse infindável, e inesgotável o monte de roupa suja, para ficar ali mil anos, pendurando fraldas no varal e cantarolando bobagens. E Winston achou curioso o fato de nunca ter ouvido um membro do Partido cantar a sós, espontâneamente. Isso teria parecido ligeiramente ortodoxo, uma excentricidade perigosa, como falar sózinho. Talvez fosse apenas quando as pessoas estão próximas da fome que sentem desejo de cantar.

- Já podes virar - disse Júlia. Êle voltou-se e, por um segundo, quase não pôde reconhecê-la. Francamente, esperara vê-la nua. Mas Júlia não estava nua. Operara uma transformação muito mais surpreendente. Pintara o rosto.

Devia ter ido a uma loja do bairro proletário e comprado um jôgo completo de cosmética. Passara baton forte nos lábios, ruge nas faces, pó de arroz no nariz; até havia, em tôrno dos olhos, um toque de tinta que os realçava. A maquilagem não fôra bem feita, mas nesse particular Winston não tinha grandes exigencias. Não havia nunca visto ou imaginado uma mulher do Partido usando cosméticos. Era espantosa a melhora do seu aspecto. Com uns retoques de côr aqui e ali Júlia não apenas se fizera muito mais bonita como, sobretudo, mais feminina. O cabelo curto e o macacão masculinizante apenas davam destaque a êsse efeito. Quando a tomou nos braços, uma onda de violeta sintética lhe invadiu as narinas. Lembrou-lhe a semi-escuridão de uma cozinha no sub-solo e a bôca cavernosa de uma mulher. Era o mesmo cheiro; mas não importava.

- E perfume, também!

- Sim, querido. Perfume também! E sabes o que vou trazer da próxima vez? Vou arranjar um vestido de verdade, vestido de mulher, não sei ainda onde, e vou usá-lo em vêz destas calças horrorosas. E vou usar meias de seda e sapatos de salto alto! Neste quarto serei mulher, não uma militante do Partido!

Jogaram a roupa   para o lado e se aboletaram na vasta cama de  mogno. Era a primeira vez que êle se despia de todo em presença dela. Até então tivera muita vergonha do corpo pálido e magro, das varizes saltadas na barriga da perna e  a mancha acima do tornozelo. Não havia lençóis, porém o  cobertor sôbre o qual se haviam deitado era poído e liso, o tamanho e a elasticidade da cama os encheram de espanto.

- Com certeza está cheia de percevejos, mas que importa? - disse Júlia. Não se viam mais camas de casal, excepto na casa dos proles. Winston algumas vezes dormira numa, na infância. Júlia jamais, tanto quanto podia se lembrar.

Dali a pouco adormeceram. Quando Winston acordou os ponteiros do relógio indicavam quase nove. Não se mexeu, porque Júlia estava dormindo com a cabeça apoiada na curva do braço dêle. A maior parte da maquilagem se transferira para a cara dêle e o travesseiro, porém uma mancha de ruge ainda realçava a beleza das maçãs do rosto de Júlia. Um raio amarelo do sol poente atravessava oblíquo os pés da cama e iluminava a lareira, onde fervia ruidosamente a água da caçarola. No pátio, a mulher se calara, porém débeis gritos de crianças ainda flutuavam no ar, vindos da rua.

Winston ficou a meditar vagamente se no passado abolido fôra normal dormirem numa cama assim, na fresca de uma noite de verão, um homem e uma mulher sem roupa, fazendo o amor quando quisessem, falando do que bem entendessem, sem sentir nenhuma obrigação de levantar, simplesmente largados no leito ouvindo os ruidos pacíficos lá de fora. Não era possível que tivesse havido uma era em que tais coisas fossem comuns. Júlia acordou, esfregou os olhos e ergueu-se num cotovelo, para olhar o fogareiro.

- Metade da água evaporou - disse ela. Daqui a um minuto levanto e faço café. Ainda temos uma hora. A que horas cortam a luz no teu prédio?

- Às vinte e três e trinta.

- Na minha hospedaria às vinte e três. Mas precisas chegar mais cedo porque...  Ei! Vai-te embora, bicho imundo!

Ela de repente enredou-se na cama, apanhou um sapato do chão e atirou-o com fôrça a um canto, com um gesto vigoroso, juvenil, como êle a vira fazer, jogando o dicionário em Goldstein, aquela manhã, durante os Dois Minutos de ódio.

Que foi? Um rato. Mostrou o focinho ali naquele buraco do rodapé. Estás vendo o buraco? Preguei-lhe um bom susto.

- Ratos! - murmurou Winston. - Neste quarto!

- Andam por tôda parte - disse Júlia, indiferente, tornando a deitar-se. - Vivem até na cozinha da pensão. Alguns bairros de Londres pululam de ratos. Sabias que atacam criancinhas? Pois é, atacam. Em algumas dessas ruas, uma mulher não tem coragem de deixar um filho sózinho dois minutos. São os grandões, pardos, os piores. E o mais horrível é que -os brutos...

- Chega! - implorou Winston, cerrando os olhos.

- Querido! Estás tão pálido? Que aconteceu? Tens nojo de ratos?

- De todos os horrores do mundo... um rato! Ela apertou-se contra êle e enrolou as pernas e os braços nele, como se para tranquilizá-lo com o calor de seu corpo. Êle não reabriu os olhos imediatamente. Por alguns momentos tivera a sensação de voltar a um pesadelo que se repetia ciclicamente na sua vida. Era sempre a mesma coisa. Estava parado diante duma muralha de trevas, e do outro lado da muralha havia algo insuportável, algo demasiado horrível para se fazer face. No sonho, a sua sensação mais profunda era sempre de auto-engano, porque de fato não sabia o que havia atrás da muralha de treva. Com um esfôrço fatal, como se arrancasse um pedaço do próprio cérebro, poderia ter trazido o mistério à luz. Mas sempre acordava sem descobrir o que era: de certo modo, porém, ligava-se com o que dizia Júlia quando a interrompera.

- Desculpa - pediu êle. - Não é nada. É que não gosto de ratos e pronto.

- Não te preocupes, querido, não deixarei que os bicharocos entrem aqui. Vou calafetar o buraco com aniagem, antes de sairmos. E da próxima vez trago reboco e tapo o orifício direitinho.

já fôra meio esquecido o instante negro de pânico. Sentindo-se ligeiramente envergonhado de si mesmo, êle sentouse, encostando na guarda da cama. Júlia saltou, vestiu o macacão e fez café. O cheiro que se elevou da caçarola era tão poderoso e inebriante que êles fecharam a janela, não fosse alguém senti-lo e começar a especular. Ainda melhor que o sabor do café era a textura sedosa que lhe dava o açúcar, de que Winston quase esquecera após tantos anos de sacarina. Com a mão no bolso e segurando uma fatia de pão com geléia na outra, Júlia passeou pelo quarto, dando olhadas indiferentes à estante de livros, indicando a melhor maneira de consertar a mesa dobradiça, atirando-se na velha poltrona estofada para ver se era confortável, e examinando o absurdo relógio de doze horas com uma espécie de chacota tolerante. Levou para a cama o pêso de papéis, para examiná-lo na luz melhor. Êle tomou-o, fascinado, como sempre, pelo aspecto macio, de água de chuva, do vidro secular.

- Que é isto? - indagou Júlia.

- Não creio que seja nada... quer dizer, não creio que tenha servido para nada. É por isso que gosto dêle. É um pedacinho de história que se esqueceram de alterar. É uma mensagem de cem anos atrás, se ao menos soubéssemos lê-la.

- E aquela gravura ali - Júlia indicou com a cabeça o quadro na parede oposta - também tem cem anos de idade?

- Mais. Talvez duzentos.     Não se sabe. Hoje em dia é impossível descobrir a idade de qualquer coisa.

Ela foi espiá-la.

- Foi aqui que o bruto meteu o focinho - disse, dando um chute no rodapé, logo abaixo do quadro. - Que lugar é êsse? Já vi essa casa.

- É uma igreja, ou foi uma igreja. Chamava-se S. Clemente dos Dinamarqueses. - O fragmento de cantiga que o sr. Charrington lhe ensinara voltou-lhe à memória e êle acrescentou, quase com saudade: - Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente!

Para sua imensa surpresa, Júlia continuou:

- Me deves três vinténs, dizem os sinos de S. Martinho,

Quando me pagarás? dizem os sinos de Old Bailey... Não me lembro como é que continua. Só sei que acaba assim: Aí vem uma luz para te levar para a cama. Aí vem um machado para te cortar a cabeça!

Pareciam santo e senha. Mas devía haver outro verso depois de "os sinos de Old Bailey." Talvez conseguisse arrancá-lo da lembrança do sr. Charrington, se o espicaçasse bem.

- Quem te ensinou isso?

- Meu avô. Costumava cantar-me essa cantiga quando eu era menina. Foi vaporizado quando eu tinha oito anos... ou pelo menos desapareceu. O que será limão? -acrescentou, inconsequente. - Já vi laranja. É uma espécie de fruta redonda, amarela, com casca grossa.

- Eu me lembro do limão. Era bem comum até 1950 e pouco. Era tão azedo que só de cheirar a gente ficava com a bôca amarga.

- Aposto que êsse quadro tem bichos por trás - disse Júlia. - Um dia dêstes arranco-o daí e dou-lhe uma boa limpadela. Acho que já é hora de irmos embora. Preciso tirar esta tinta da cara.  Que chatura! Depois tiro o baton do teu rosto.

Winston só levantou   dali a uns minutos. O quarto escurecia. Voltou-se para     a luz e ficou examinando o pêso de papéis. O que lhe oferecia inexaustível interêsse não era o fragmento de coral, porém o interior do vidro em si. Tinha tremenda profundidade e no entanto era quase transparente como o ar. Como se a superfície do vidro fosse a abóbada celeste, contendo um pequenino mundo, completo com sua atmosfera. Winston tinha a impressão de poder penetrá-lo, e que de fato estava nele, junto com a cama de mogno e a mesa dobradiça, o relógio, a gravura em aço e o próprio pêso de papéis. O pêso de vidro era o quarto em que estava, e o coral era a vida de Júlia e a dêle, fixadas para a eternidade no coração do cristal.

13

Syme desaparecera. Um dia, faltou ao trabalho: alguns levianos comentaram sua ausência. No dia seguinte ninguém mais falou dêle. No terceiro dia, Winston foi ao vestíbulo do Departamento de Registro, examinar o indicador geral. Um dos avisos era uma lista impressa de membros do Comité de Xadrez, do qual Syme fizera parte. Tinha quase exatamente o mesmo aspecto que antes - nada fôra riscado -mas faltava um nome. Bastava. Syme deixara de existir: nunca existira.

Fazia um calor infernal. No labirinto ministerial, as salas sem janelas, com ar condicionado, tinham temperatura normal, mas lá fóra as calçadas assavam os pés da gente, e era um horror o mau cheiro dos subterrâneos na hora de maior tráfego. Iam a pleno vapor os preparativos para a Semana do ódio, e o pessoal de todos os ministérios trabalhava extraordinário. Passeatas, comícios, paradas militares, conferências, exposições de bonecos de cera, sessões cinematográficas, programas de teletela, era preciso organizar tudo; era preciso montar palanques, fazer efígies, inventar lemas, escrever canções, circular boatos, falsificar fotos. Os colegas de Júlia, no Departamento de Ficção, haviam suspendido a produção de novelas e estavam redigindo uma série de panfletos de atrocidades. Winston, além do seu serviço regular, passava longas horas, todos os dias, examinando exemplares atrasados do Times, alterando e embelezando tópicos que seriam citados nos discursos. Tarde da noite, quando bandos de proles desordeiros vagabundeavam pelas ruas, a cidade tinha um ar curiosamente febril. As bombasfoguetes caíam com maior frequência e às vezes havia, na distância, enormes explosões, que ninguém sabia explicar, e a respeito das quais corriam cabeludos boatos.

A nova toada que seria prefixo musical da Semana do ódio (Canção do Ódio, era o seu título) já fôra composta e era tocada incessantemente nas teletelas. Tinha um ritmo selvagem, de latido, que não podia exatamente ser chamado de música, e parecia o rufar de um tambor. Entoada por centenas de vozes, ao som de passos em marcha, era aterrorizante. Os proles a haviam adotado e nas ruas, à noite, competia com a sempre popular "Foi apenas uma fantasia desesperada". Os filhos dos Parsons a tocavam, a qualquer hora da noite ou do dia, com um pente e um pedaço de papel higiênico. As noites de Winston estavam mais ocupadas que nunca. Bandos de voluntários, organizados por Parsons, preparavam a rua, para a Semana, cosendo bandeiras e faixas, pintando cartazes, fixando paus de bandeira nos telhados e arriscando o pescoço para esticar fios através da rua, para suster as faixas. Parsons gabava-se de que só a Mansão Vitóría exibiria quatrocentos metros de fita agaloada. Sentia-se no seu elemento e andava alegre que só um periquito.

O calor e o trabalho manual lhe haviam dado pretexto para usar shorts e camisa aberta. Andava por tôda parte, empurrando, puxando, serrando, martelando, improvisando, alegrando todo mundo, incitando os camaradas com exortações e soltando, de cada dobra do corpo, uma nuvem inesgotável de cheiro acre de suor.

De repente, aparecera por tôda Londres um novo cartaz. Não tinha legenda, e representava simplesmente a monstruosa figura de um soldado eurasiano, de três ou quatro metros de altura, avançando com enormes botas e uma cara mongólica sem expressão, apontando uma metralhadora portátil apoiada no quadril. De onde quer que se olhasse o cartaz, o cano da metralhadora, ampliado pela perspectiva, parecia apontar para a gente. O cartaz enchera todos os espaços livres, tornando-se mais numeroso do que os retratos do Grande Irmão. Os proles, normalmente apáticos em relação à guerra, estavam sendo incitados a um dos cíclicos frenesis de patriotismo. Como que para se harmonizar com a atitude geral, as bombas-foguetes matavam mais gente do que de costume. Uma caiu em Stepney, num cinema cheio, sepultando várias centenas de vítimas nas ruinas. Tôda a população da vizinhança saiu à rua, para um longuíssimo cortejo fúnebre, que durou horas e foi, na verdade, um comício de indígnação. Outra bomba caiu sôbre um terreno baldio usado como parque infantil, e fez picadinho de várias dezenas de crianças. Houve outras demonstrações de raiva, Goldstein foi queimado em efígie, centenas de cartazes do soldado eurasiano foram rasgados e jogados nas fogueiras, e uma porção de lojas foram pilhadas, na confusão; correu então um boato de que os espiões estavam dirigindo as bombasfoguete por meio de ondas de rádio, e um velho casal, suspeito de ser de origem estrangeira, teve a casa incendiada e morreu sufocado.

No quarto em cima da loja do sr. Charrington, quando conseguiam ir lá, Júlia e Winston ficavam deitados, lado a lado, na cama debaixo da janela, nús por causa do calor. O rato não voltara mais, porém os percevejos se haviam multiplicado nefandamente. Não parecia lhes importar. Sujo ou limpo, o quarto era o paraíso. Assim que chegavam, polvilhavam tudo com pimenta comprada no mercado negro, tiravam a roupa e faziam o amor com o corpo suado, adormeciam e despertavam para verificàr que os percevejos haviam reagido e se agrupavam para o contra-ataque.

Durante o mês de junho encontraram-se quatro, cinco, seis... sete vezes. Winston abandonara o hábito de beber gin a tôda hora. Parecia não precisar mais dêle. Engordara, a variz ulcerada sarára, deixando apenas uma nódoa parda na pele, acima do tornozelo; não sofria mais de acessos de tosse de madrugada. O processo da vida cessara de ser intolerável, e não sentia mais ímpetos de fazer caretas para a teletela nem de gritar nomes feios. Agora que possuíam um esconderijo seguro, quase um lar, já não lhes parecia tão mau encontrar-se freqÜentemente, e apenas por algumas horas. O que importava era a existência do quarto sôbre a loja do antiquário. Saber que estava lá, inviolado, era quase o mesmo que estar nele. O quarto era um mundo, uma redoma do passado, onde sobreviviam animais extintos. O antiquário, pensava Winston, era outro animal extinto. Geralmente se detinha uns minutos para conversar com êle, antes de subir. O velho parecia sair raramente, ou nunca, e tampouco parecia ter fregueses. Levava uma existência fantasmal entre a lojinha escura e uma cozinha ainda menor onde preparava as refeições e que continha, entre outras coisas, um gramofone incrivelmente antigo, com uma enorme trompa. Parecia contente de poder conversar. Perambulando no meio do seu estoque de frioleiras, com o nariz comprido, os óculos espessos, e os ombros arcados metidos num paletó de veludo, tinha sempre um ar vago mais de cole-

cionador de que de mercador. Com desbotado entusiasmo acariciava uma velharia insignificante - uma tampa de porcelana para garrafa, um pedaço pintado de caixa de rapé, um medalhão de pechisbeque contendo um anel de cabelo de alguma criança morta - sem nunca pedir a Winston que comprasse nada, mas apenas que admirasse. Conversar com êle era como ouvir uma caixa de música já gasta. Tirara dos cantos da memória outros fragmentos de cançonetas esquecidas. Havia uma que falava de vinte e      quatro gralhas, outra a respeito duma vaca de chifre partido, e ainda outra sôbre a morte do pobre pintarroxo.

- Pensei que o sr. poderia se interessar - dizia, com uma risadinha de desculpas, sempre que apresentava novo fragmento. Mas nunca podia lembrar mais do que alguns versos de cada canção.

Winston e Júlia sabiam - de modo que nunca baniam do espírito - que não podia durar muito o que estava acontecendo. Havia ocasiões em que a morte vindoura parecia tão palpável quanto a cama que ocupavam, e então se agarravam com uma espécie de desesperada sensualidade, como uma alma danada se agarra ao último bocado de prazer quando faltam apenas cinco minutos para soar a hora. Mas havia também ocasiões em que tinham a ilusão não apenas de segurança como de permanência. Tinham a impressão de que, enquanto estivessem naquele quarto, nenhum mal lhes poderia advir. Chegar até lá era difícil e perigoso, mas o quarto era um santuário. Era como se Winston olhasse dentro do pêso de papel, com sensação de ser possível penetrar aquele mundo de vidro, e que, uma vez dentro dêle, o tempo se ímobilizaria. Com frequencia se entregavam a sonhos escapistas conscientes. A sorte haveria de ajudá-los, indefinídamente, e continuariam a aventura até o fim da vida natural. Ou Katherine morreria e, com auxílio de manobras sutis, Winston e Júlia conseguiriam casar. Ou então se suicidariam juntos. Ou desapareceriam, alterando as fisionomias de modo que ninguém os reconhecesse, aprenderiam a falar com sotaque proletário, arranjariam emprêgo numa fábrica e viveriam até o fim numa ruela obscura. Tudo tolice, como bem sabiam. Na verdade, não havia fuga. Não tinham intenção de executar nem o único plano praticável, o suicidio. Viver dia a dia, semana a semana, esticando um presente que não tinha futuro, parecia um instinto irresistível, como os nossos pulmões sempre procuram inspirar, enquanto existe ar.

Às vezes, falavam também de se dedicar à rebelião ativa contra o Partido, sem a menor noção de como dar o primeiro passo. Mesmo que a fabulosa Fraternidade existisse, havia o problema de encontrar o caminho dos seus quadros. Contou a Júlia a estranha intimidade que existia, ou parecia existir, entre êle e O'Brien, e o impulso que às vezes sentia, de comparecer simplesmente à presença de O'Brien, anunciar-se como inimigo do Partido e pedir-lhe auxílio. Curioso que isto não parecesse a Júlia nada de impossivelmente audacioso. Estava acostumada a julgar as pessoas pela fisionomia, e lhe parecia natural que Winston acreditasse e confiasse em O'Brien, por causa de uma simples olhada. Além do mais, parecia-lhe ponto pacífico que todo mundo, ou quase, odiava secretamente o Partido e haveria de quebrar suas leis, se acreditasse poder fazê-lo em segurança. Mas recusava-se a acreditar que existisse, ou pudesse existir, oposição generalizada, organizada. As caraminholas a respeito de Goldstein e o seu exército clandestino, dizia ela, não passavam de besteiras que o Partido inventara, para servir aos seus propósitos, e que os militantes fingiam crer. Vezes sem conta, em comícios do Partido e demonstrações espontâneas, ela gritara a plenos pulmões, pedindo a execução de gente cujos nomes nunca ouvira e em cujos supostos crimes não acreditava de modo algum. Quando se haviam realizado os julgamentos públicos, ocupara o seu lugar nos destacamentos da Liga da Juventude que circundavam o tribunal, de manhã à noite, entoando ritmicamente "Morte aos traidores!" Durante os Dois Minutos de ódio sempre superava os outros nos insultos a Goldstein. Entretanto tinha idéia muito obscura de quem fosse Goldstein e que doutrinas pregava. Crescera depois da Revolução e era moça demais para se lembrar das batalhas ideológicas de 1950 a 1970. Era coisa que não podia imaginar um movimento político independente: e depois, o Partido era invencível. Sempre existiria, e seria sempre o mesmo. Só era possível rebelar-se contra êle por desobediência secreta ou, no máximo, por atos isolados de violência, como assassinar alguém, dinamitar alguma coisa.

De certo modo era muito mais alerta do que Winston, e muitíssimo menos suscetível à propaganda do Partido. Uma vez, quando êle mencionou a guerra contra a Eurásia, a propósito de qualquer coisa, ela o espantou dizendo, com tôda

a naturalidade que, na sua opinião, não havia guerra alguma. As bombas-foguete que caíam diàriamente sôbre Londres eram provàvelmente disparadas pelo govêrno da própria Oceania, "só para amedrontar a turma." Era uma idéia que jamais ocorrera a Winston. Também provocou -uma espécie de inveja nele contando-lhe que durante os Dois Minutos de ódio tinha grande dificuldade para não estourar em gargalhadas. Porém só punha em dúvida os ensinamentos do Partido quando a interessavam pessoalmente. No mais, estava disposta a aceitar a mitologia oficial, simplesmente porque a diferença entre verdade e mentira não lhe parecia importante. Acreditava, por exemplo, e porque o aprendera na

escola, que o Partido inventara o aeroplano. (Quando êle estava na escola, recordava Winston, antes de 1960, o Partido só afirmava ter inventado o helicóptero; doze anos mais tarde, no tempo de Júlia, já reclamava o avião; dali a uma geração com certeza se apossaria da máquina a vapor.) E quando êle disse que os aviões existiam antes dêle nascer, e muito antes da Revolução, o fato pareceu a Júlia totalmente sem interêsse. Afinal, que importava o inventor dos aeroplanos? Foi choque maior para êle descobrir, por um comentário passageiro, que ela não se lembrava de que, quatro anos atrás, a Oceania estivera em guerra com a Lestásia, e em paz com a Eurásia. Era verdade que considerava a guerra uma farça; mas aparentemente não notára nem a mudança do nome do inimigo. "Pensei que sempre estivéssemos em guerra com a Eurásia," exclamou, evasivamente. Isso o amedrontou um pouco. A invenção dos aeroplanos sucedera antes de Júlia nascer, mas a reviravolta da guerra ocorrera havia apenas quatro anos, quando já era adulta. Discutiu com ela durante um quarto de hora talvez. No fim, conseguiu forçar-lhe a memória a recordar vagamente que, outrora, o inimigo fôra a Lestásia e não a Eurásia. Todavia, isso não lhe parecia significativo.

- Que importa? - indagou, impaciente. - É sempre uma horrível guerra depois da outra, e a gente sabe que o noticiário é todo falso mesmo.

Às vezes êle lhe falava do Departamento de Registro e das impudentes falsificações que lá executava. Essas coisas não pareciam horrorizá-la. Não sentia o abismo abrindo-se aos seus pés, ao pensar nas mentiras que se transformavam em verdades. Êle contou-lhe a história de Jones, Aaronson e Rutherford, e do momentoso papelzinho que um dia tivera entre os dedos. Não a impressionou grandemente. Na verdade, a princípio, ela nem compreendeu a situação.

- Eram teus amigos?

- Não, nunca os conheci. Eram membros do Partido Interno. Além disso, eram muito mais velhos do que eu.

Pertênciam ao passado, vinham de antes da Revolução. Eu mal os conhecia de vista.

- Então por que te preocupas? Não vivem matando gente o tempo todo?

Tentou fazê-la compreender.

- Foi um caso excepcional. Não foi apenas um assassínio. Percebes que o passado, a partir de ontem, foi abolido? Se sobrevive nalguma parte, é em alguns objetos sólidos, sem palavras ligadas a êle, como naquele pedaço de vidro. Já não sabemos quase nada sôbre a Revolução e os anos anteriores à Revolução. Todos os registros foram destruidos ou falsificados, todo livro reescrito, todo quadro repintado, tôda estátua, rua e edifício rebatizado, tôda data alterada. E o processo continua, dia a dia, minuto a minuto. A história parou. Nada existe, excepto um presente sem-fim no qual o Partido tem sempre razão. Eu sei, naturalmente, que o passado é falsificado, mas jamais me seria possível prová-lo, mesmo sendo eu o autor da falsificação. Depois de feito o serviço, não sobram provas. A única prova está dentro da minha cabeça, e não sei com certeza se outros seres humanos partilham minhas recordações.        Apenas naquele caso, em minha vida tôda, possuí prova real, concreta, depois do acontecimento... anos depois.

- E de que adiantou?

- Não adiantou nada, porque a joguei fóra uns minutos depois. Porém se a mesma coisa acontecesse hoje, eu guardaria a prova.

- Ora, eu não! Estou disposta a correr riscos, mas só por coisas que valham a pena, não por causa de pedacinhos de papel. Que poderias fazer com o recorte, se o guardasses?

- Pouca coisa, talvez. Mas era prova. Poderia ter semeado algumas dúvidas, aqui e ali, supondo que ousasse mostrá-lo a alguém. Não creio que possamos alterar coisa alguma nesta vida. Mas posso imaginar pequenos nódulos de resistência brotando aqui e ali... pequenos grupos de gente que se reune, e vão crescendo, e deixando algumas notas, de modo que a geração seguinte possa continuar a obra.

- Não estou interessada na próxima geração, querido. Estou ínteressada em nós.

- És rebelde só da cintura para baixo - disse êle. Ela achou esta frase excepcionalmente jocosa e atirou os braços em tôrno dêle, deliciada.

Tampouco tinha Júlia o menor interêsse pelas ramificações da doutrina do Partido. Sempre que êle começava a falardos princípios do Ingsoc, duplipensar, a mutabilidade do passado e a negação da realidade objetiva, e a usar palavras de Novilíngua, ela ficava aborrecida, confusa, e dizia não ter jamais prestado atenção a essas coisas. Sabia que era tudo lixo, portanto para que se preocupar com êle? Sabia quando aplaudir e quando vaiar, e era tôda a ciência de que precisava. Quando êle persistia em falar de tais assuntos, Júlia tinha o hábito desconcertante de adormecer. Era uma dessas pessoas que podem adormecer a qualquer momento, em qualquer posição. Falando com ela, Winston percebeu como era fácil aparentar ortodoxia, sem ter a menor noção do que fosse ortodoxia. De certo modo, o ponto de vista do Partido se impunha com mais êxito às pessoas incapazes de compreendê-lo. Aceitavam as mais flagrantes violações da realidade porque jamais percebiam inteiramente a enormidade do que se lhes exigia, e não estavam suficientemente interessadas para observar o que acontecia. Graças à falta de compreensão permaneciam sãs de juizo. Apenas enguliam tudo, e o que enguliam não lhes fazia mal, porque não deixava resíduo, do mesmo modo que um grão de milho passa, sem ser digerido, pelo corpo de uma ave.

14

Por fim acontecera.    Chegara a esperada mensagem. Pareceu-lhe que a vida tôda estivera esperando aquilo.

Caminhava pelo longo corredor do Ministério e estava quase no local onde Júlia lhe metera o bilhete na mão quando percebeu que o seguía alguém, mais encorpado que êle. Essa pessoa, fosse quem fosse, tossiu um pouco, como um prelúdio à fala. Winston parou abruptamente e voltou-se. Era O'Brien.

Afinal encontravam-se face a face, e pareceu-lhe que o seu único impulso era fugir. O coração martelava furiosamente. Não conseguiria falar. O'Brien, todavia, continuara no mesmo movimento, colocando a mão por um momento no braço de Winston, de modo que agora caminhavam lado a lado. Começou a falar com a solene cortesia característica que tanto o diferenciava da maioria dos membros do Partido Interno.

- Tinha esperança de poder-te falar - disse. - Li outro dia no Times um teu artigo em Novilíngua. Tens um interesse de erudito na Novilíngua, não é?

Winston recuperara um pouco do seu auto-controle.

- Erudito, não. Sou um mero amador. Não é o meu forte. Nunca tive nenhuma interferência na construção do idioma.

- Mas o escreves com muita elegância - insistiu O'Brien.

- E não é apenas minha opinião. Recentemente, conversei com um amigo teu, que é um perito. No momento, foge-me da memória o nome dêle.

O coração de Winston tornou a pular, doloridamente. Era inconcebível que aquelas palavras não fossem referência a Syme. Porém Syme não estava apenas morto, fôra abolido, era uma impessoa. Seria mortalmente perigoso fazer-lhe

uma referência identificável. A observação de O'Brien deveria, evidentemente, ser tomada como sinal, código. Dividindo uma pequena crimidéia, os dois tornavam-se cúmplices. Tinham continuado pelo corredor, mas de repente O'Brien se deteve. Com a amistosidade curiosa e desarmante que sempre lograva comunicar ao gesto, recolocou os óculos no nariz. E continuou:

- O que eu de fato queria te dizer, a propósito do artigo, é que notei o uso de duas palavras obsoletas. Que se tornaram obsoletas muito recentemente. Já viste a décima edição do Dicionário de Novilíngua?

Não. Não creio que já tenha sido publicado. No Departamento de Registro ainda usamos a nona.

- Creio que a décima edição só será publicada daqui a alguns meses. Mas foram preparados alguns exemplares especiais, de amostra. E eu recebi um. Talvez gostasses de examiná-lo?

- Apreciaria imenso - disse Winston, percebendo imediatamente aonde levava a conversa. Algumas novidades são muito engenhosas. A redução do número de verbos, por exemplo... creio que gostarás de ver isso. Vejamos, mando-te um mensageiro te entregar o dicionário? O pior é que invariàvelmente me esqueço de tudo. O melhor, talvez, seria ires buscá-lo no meu apartamento, à hora que quisesses. Espera, que já te dou meu enderêço. Estavam parados diante duma teletela. Um tanto distraido, O'Brien procurou em dois bolsos e dêles tirou um pequeno canhenho de capa de couro e uma lapiseira-tinta, de ouro. Logo abaixo da teletela, em posição tal que pudesse ser lido por quem estivesse de plantão no outro extremo do fio do aparelho, êle rabiscou um enderêço, arrancou a página e deu a Winston.

- Em geral estou em casa à noite - disse êle. - Se não estiver, minha empregada te entregará o Dicionário.

E afastou-se, deixando Winston com o pedaço de papel que, desta vez, não havia necessidade de esconder. Não obstante, decorou-o cuidadosamente e algumas horas mais tarde jogou-o no buraco da memória, com um maço de outros papéis.

Tinham conversado um par de minutos, no máximo. O episódio só podia ter um significado. Fôra engendrado como meio de dar a Winston o enderêço de O'Brien. Isto era necessário porque, excepto pela pergunta direta, não era nunca possível descobrir onde morava uma pessoa. Não havia guias nem indicadores de espécie alguma. "Se queres me ver, podes me encontrar aqui," era o sentido da mensagem de O'Brien. Talvez até houvesse um recado oculto no Dicionário. Fosse como fosse, uma coisa era certa. A conspiração com que sonhava existia, e êle alcançara a sua periferia.

Sabia que mais cedo ou mais tarde obedeceria ao chamado de O'Brien. Talvez amanhã, talvez após longa espera... não tinha certeza. O que estava acontecendo era apenas o desenvolvimento de um processo iniciado muitos anos antes. O primeiro passo   fôra um pensamento secreto, involuntário, o segundo fôra o início do diário. Passara das idéias às palavras, e agora das palavras aos atos. O último passo era algo que teria lugar no Ministério do Amor. Êle o aceitara. O fim estava contido no comêço. Mas era assustador; ou mais exatamente, era um prenúncio de morte, como se estivesse menos vivo. Até mesmo falando com O'Brien, um tiritar de frio se apossara do corpo de Winston, quando o significado das palavras calou. Tivera a sensação de pisar na terra úmida de um túmulo, e não era consôlo algum saber que o túmulo lá estava, à sua espera.

15

Winston acordara com os olhos rasos dágua. Júlia rolou sonolenta para êle, murmurando algo que poderia ser Que foi?

Sonhei - começou êle. E calou-se. Era complexo demais para traduzi-lo em palavras. Havia o sonho em si e havia, ligada a êle, uma lembrança consciente, que penetrara no seu espírito alguns segundos depois de acordar.

Deixou-se ficar de costas, olhos fechados, ainda embebido da atmosfera do sonho. Era um vasto sonho luminoso em que tôda a sua vida parecia estirar-se diante dêle como uma paisagem numa tarde de verão, depois da chuva. Tudo acontecera dentro do pêso de papel, mas a superfície do vidro era a abóbada celeste, e dentro da abóbada estava tudo inundado de luz clara e suave na qual se podia enxergar distâncias intermináveis. O sonho também estava incluido - com efeito, de certo modo consistira nisso - por um gesto do braço feito por sua mãe, e repetido trinta anos mais tarde pela judía que vira no cinema, tentando proteger o filhinho contra as balas, antes que os helicópteros fizessem explodir os dois.

- Sabes - perguntou - que até êste momento eu acreditava ter a'ssassinado minha mãe?

- Por que a assassinaste? - indagou Júlia, quase a dormir.

- Não a assassinei. Não fisicamente. No sonho, recordara-se da sua última visão da mãe, e alguns minutos após despertar havia voltado à mente um bando de pequenos acontecimentos com ela relacionados. Era uma lembrança que êle devia ter deliberadamente excluido da consciência durante muitos anos. Não tinha certeza da data, mas não podia ter menos de dez anos, talvez doze, quando sucedera.

O pai sumira havia algum tempo; quanto tempo antes, não podia precisar. Lembrava-se melhor das circunstâncias agoniadas da época: os pânicos periódicos dos ataques aéreos, a corrida às estações do trem subterrâneo, as pilhas de escombros por tôda parte, as proclamações ininteligíveis pregadas nas esquinas, os bandos de rapazes todos de camisa da mesma côr, as filas enormes diante das padarias, o metralhar intermitente na distância - e acima de tudo, o fato de nunca haver o bastante para comer. Lembrava-se de longas tardes passadas com outros meninos remexendo em latas de lixo e montes de refugo, catando os talos de folhas de repolho, cascas de batatas, às vezes até pedaços de côdea de pão velho que limpavam cuidadosamente das cinzas. e também da espera da passagem de caminhões que faziam determinado itinerário, carregando comida para o gado e que, sacolejando nos trechos de mau calçamento, às vezes derrubavam fragmentos de torta de algodão.

Quando o pai desapareceu, sua mãe não demonstrou nenhuma surpresa ou mágua violenta, porém uma repentina mudança a acometeu. Parecia ter perdido a fibra. Era evidente, até para Winston, que ela esperava algo que deveria acontecer. Fazia todo o necessário - cozinhava, lavava, remendava, fazia a cama, varria, espanava - sempre muito devagar e com uma curiosa economia de gestos supérfluos, como uma figura criada por um artista e que se movesse por si mesma. O corpo grande e bem proporcionado pareceu cair num marasmo natural. Durante horas a fio ficava sentada quase imóvel na cama, cuidando da filhinha, uma criança miúda, enfermiça, muito calada, de dois ou três anos, e a quem a magreza dera feições de símio. De raro em raro, tomava Winston nos braços e apertava-o contra o seio longo tempo, sem dizer nada. E êle percebia, apesar da pouca idade e do seu egoismo, que esta atitude era ligada a uma coisa imencionável que não tardaria a ocorrer.

Lembrava-se do quarto em que moravam, um aposento escuro, abafado, que parecia cheio, pela metade, com uma cama de cabeceira branca. Na guarda da lareira havia um fogareiro a gás, e uma prateleira onde ficavam os gêneros. No patamar, fora do quarto, havia uma pia de louça marrom, comum a várias famílias. Lembrava-se do corpo estatuesco de sua mãe, inclinado sôbre o fogareiro, mexendo a caçarola.

Sobretudo lembrava-se da sua fome contínua, e das brigas encarniçadas e sórdidas às refeições. Perguntava a sua mãe, chocarreiramente, milhares de vezes, porque não havia mais comida, gritava e esbravejava com ela (recordava-se até dos tons de sua voz, que estava começando a mudar prematuramente e de vez em quando reboava de maneira especial), ou tentava uma nota patética e nasal, num esfôrço de ganhar mais que o seu quinhão. E ela estava disposta a darlhe mais que o quinhão. Considerava natural que êle, "o rapaz", recebesse a maior porção; por mais que lhe desse, porém, êle invariàvelmente pedia mais. Em cada refeição ela lhe pedia que não fosse egoista e lembrasse que a irmãzinha doente também precisava de alimento, mas era inútil. Êle chorava de raiva quando a mãe parava de servi-lo, tentava arrancar-lhe das mãos a caçarola e a colher, furtava bocados do prato da irmã. Sabia que assim as condenava à fome, mas não podia evitá-lo; sentia-se até com direito a agir dessa forma. A fome clamorosa que tinha na barriga parecia justificá-lo. Entre as refeições, se a mãe não vigiasse, êle constantemente pilhava as magras provisões da prateleira.

Um dia, foi distribuida uma ração de chocolate. Havia semanas ou meses que não se via chocolate. Winston lembrava-se com muita clareza daquele precioso pedacinho de chocolate. Era uma barra de duas onças (naquele tempo ainda se falava em onças) para os três.' Evidentemente, devia ser dívidida em três partes iguais. De repente, como se ouvisse a voz de outrem, êle se ouviu exigindo, com voz grossa e forte, que lhe dessem a barra tôda. A mãe respondeu-lhe que não fosse guloso. Houve uma longa e incômoda discussão, que durou horas, com gritos, uivos, lágrimas, queixas, acordos. A irmãzinha, agarrada à mãe com as duas mãos, exatamente como um filhote de macaco, olhava-o com grandes olhos doridos. Por fim, a mãe quebrou a barra em quatro pedaços iguais, dando três a Winston e o último à menina. A garota apanhou e ficou a olhá-lo, feito água parada, talvez sem saber o que fosse. Winston observou-a um momento. Depois, com um bote repentino e célere, arrancou o pedaço de chocolate da mão da irmã e correu para a porta.

- Winston, Winston! - chamou sua mãe. - Volta e devolve o chocolate da tua irmã!

Êle parou, mas não voltou. Os olhos ansiosos de sua mãe o fixavam. Naquele momento ela estava pensando na coisa que êle não sabia o que fosse, mas que deveria acontecer. A menina, consciente de ter sido furtada, gemia dèbilmente. A mulher passou o braço em tôrno da filha e apertou-lhe o rosto contra o peito. Naquele gesto havia algo que revelou a Winston: sua irmã estava morrendo. Fez meia-volta e disparou escada abaixo, o chocolate a melar-lhe os dedos.

Nunca mais tornara a ver a mãe. Depois de devorar o chocolate, sentira-se um tanto envergonhado de si mesmo e ficara na rua várias horas, até a fome lhe indicar o caminho de casa. Quando chegou, a mãe desaparecera. Naquela época, isso já-se estava tornando normal. Nada sumira do quarto, excepto a mulher e a filha. Não tinham levado roupa alguma, nem mesmo o capote da mãe. Até aquele dia, Winston não sabia com certeza se ela estava morta ou não. Era perfeitamente possível que a tivessem apenas enviado a uma colonia correcional. Quanto à irmã, poderia ter sido mandada, como Winston, a um dos orfanatos surgidos em consequência da guerra civil; ou podia ter sido levada para o campo com sua mãe, ou meramente abandonada nalguma parte, para morrer.

O sonho ainda estava vívido no seu espírito, especialmente o gesto protetor do braço no qual parecia se conter todo o seu significado. Winston lembrou-se de outro sonho, de dois meses antes. Na posição exata em que sua mãe sentara na cama miseranda, de colcha branca, com a filha agarrada ao peito, ela aparecera no navio naufragado, bem abaixo dêle, e afundando cada vez mais, sempre a fitá-lo através da água escura.

Contou a Júlia a história do desaparecimento de sua mãe. Sem abrir os olhos, ela rolou sôbre si mesma e instalou-se em posição mais confortável.

- Eu te vejo como uma fèrinha diabólica, naquela época - disse ela, indistintamente. - Tôdas as crianças são féras.

- São, mas o importante da história... Pela sua respiração pausada tornou-se evidente que ela adormecera de novo. Êle gostaria de ter continuado falando da mãe. Não supunha, pelo que ainda se lembrava dela, que tivesse sido mulher fora do comum, e muito menos inteligente; e no entanto possuira uma espécie de nobreza, de pureza, simplesmente porque obedecia a cânones que eram seus próprios. Seus sentimentos eram dela mesma, e não

podiam ser alterados pelas circunstâncias externas. Não lhe ocorreria que um ato ineficaz se tornaria, por isso mesmo, sem sentido. Quando se ama alguém, ama-se, e quando não se tem nada mais para lhe dar, ainda se lhe dá amor. Acabado o chocolate; a mãe agarrara a menina. Era inútil, não adiantava nada, não produzia mais chocolate, não evitava nem a morte da menina nem a sua; mas parecia-lhe natural fazê-lo. A refugiada do navio    também cobrira o menininho com o braço, que não era mais defesa contra as balas do que uma folha de papel. O que o Partido fizera de terrível era persuadir os seus membros de que meros impulsos, meras sensações, não tinham importância, ao mesmo tempo que lhes roubava todo poder sôbre o mundo material. Uma vez no jugo do Partido, o que a pessoa sentisse ou não, o que fizesse ou deixasse de fazer, literalmente não fazia diferença. Acontecesse o que acontecesse, o indivíduo sumia, e nem êle nem seus atos eram jamais mencionados. Era banido do rio da história. E no entanto, aos cidadãos de apenas duas gerações atrás, isto não teria parecido importante, porque não tentavam alterar a história. Eram governados por lealdades particulares que não punham em dúvida. O que importava eram relações individuais, e podia ter valor em si um gesto completamente irrelevante, um abraço, uma lágrima, uma'palavra dita a um moribundo. De repente, ocorreu-lhe que os proles tinham continuado assim. Não eram leais a um partido, país ou ideologia, eram leais aos seus semelhantes. Pela primeira vez na vida não desprezou os proles nem pensou neles apenas como fôrça inerte que um dia ganharia vida e regeneraria o mundo. Os proles tinham continuado humanos. Não se haviam endurecido por dentro. Haviam conservado as emoções primitivas que êle próprio tivera de reaprender por esfÔrço consciente. E assim raciocinando êle se lembrou, sem ligação aparente, de como vira, havia algumas semanas, uma mão amputada na rua e como a chutara para a sargeta, como se fosse um talo de couve.

-   Os proles são seres humanos - disse êle, em voz alta.

- Nós não somos humanos.

-   Por que? - quis saber Júlia, que acordara outra Vez. Êle meditou uns instantes.

- Já te ocorreu que o melhor que temos a fazer é simplesmente ir embora daqui, antes que seja tarde demais, e nunca mais nos vermos?

- Sim, querido, já me ocorreu diversas vezes, Mas não, não vou sair, e pronto.

- Temos tido sorte - disse êle - mas não pode durar muito tempo. És jovem. Pareces normal e inocente. Se te afastas de gente como eu, podes viver mais cinquenta anos.

- Não. Já pensei em tudo. O que fizeres, eu faço também. E não te afobes. Tenho jeito para viver.

- Podemos ficar juntos mais seis meses... um ano...

não há maneira de saber. No fim, é certo que nos separem. Percebes como seremos solitários? Quando nos peguem, não haverá nada, literalmente nada, que possamos fazer um pelo outro. Se eu confessar, êles te fusilam, e se eu recusar confessar, te fusilam do mesmo modo. Nada que eu possa dizer ou fazer, ou proibir-me de dizer, te adiará de cinco minutos a hora da morte. Nem ao menos saberemos se o outro estará morto ou vivo. Ficaremos completamente inermes. A única coisa que importa é que não atraiçoemos um ao outro, embora nem isso faça a menor diferença.

- Se te referes à confissão, ah, isso confessaremos. Todo mundo sempre confessa. Não podes evitar. Êles torturam a gente.

- Não, não é confessar. Confissão não é traição. O que digas ou faças não importa. O que importa são os sentimentos. Se conseguirem me obrigar a deixar de te amar... isso seria traição.

Ela raciocinou.

- Isso não podem fazer. É a única coisa que não podem. Podem te fazer dizer« qualquer coisa. .. tudo... mas não podem te obrigar a acreditar. Não penetram na gente.

- Não - êle concordou, um pouco mais esperançado.

- É verdade. Não penetram na gente. Se podes sentir que vale a pena continuar humano, mesmo que isso não dê o menor resultado, terás vencido os torturadores.

Êle pensou na teletela com seu ouvido insone. Podiam espionar o indivíduo noite e dia, mas se êle não perdesse a cabeça ainda conseguia ludibriá-los. Com tôda a sua sagacidade, não tinham jamais conquistado o segrêdo de descobrir o que pensa outro ser humano.        Talvez isso fosse menos verdade quando o cídadão lhe caisse nas unhas. Não se sabia o que acontecia dentro do Ministério do Amor, mas era possível adivinhar:   torturas, drogas, delicados instrumentos que registravam    as reações nervosas do paciente, e o desgaste gradual pela   falta de sono, a solidão, o interro-

gatório persistente.  Pelo menos, seria impossível ocultar fatos. Podiam ser encontrados pela pergunta, e arrancados pela tortura. Mas se o objetivo era não tanto continuar vivo como continuar humano, que diferença poderia fazer, no fim? Não podiam alterar os sentimentos do indivíduo: nem êle próprio o consegue, mesmo que o deseje. Podiam desnudar, nos mínimos detalhes, tudo quanto houvesse feito, dito ou pensado; mas o imo do coração, cujo funcionamento é um mistério para o próprio indivíduo, continu  ava inexpugnável.

16

Haviam resolvido, por fim se haviam resolvido! A sala em que estavam era comprida e suavemente iluminada. A teletela fôra reduzida a um murmúrio; a maciez e espessura do tapete azul dava a impressão de se andar no veludo. No extremo da sala, O'Brien estava sentado a uma mesa, sob uma lâmpada de abajur verde, com um monte de papéis de cada lado. Nem se dignara levantar o olhar quando o criado introduziu Júlia e Winston.

O coração de Winston batia com tanta fôrça que duvidava poder falar. Haviam resolvido, haviam-se resolvido afinal, era tudo que conseguia pensar. Fôra ousadia ir à casa de O'Brien, e pura loucura chegar à sua porta com Júlia; embora fosse verdade que tivessem ido por caminhos diferentes apenas se encontrando diante da porta. Mas era preciso muita coragem e esfôrço nervoso para entrar num lugar dêsses. Só em ocasiões muito raras se viam por dentro as residências do Partido Interno, ou se visitava o bairro em que moravam os chefes. Tôda a atmosfera do enorme edifício de apartamentos, a riqueza e a vastidão de tudo, os cheiros fora do comum de boa comida e bom fumo, os elevadores silenciosos e incrivelmente rápidos, disparando para cima e para baixo, os criados de jaqueta branca, sempre apressados - era tudo intimidante. Embora Winston tivesse um bom pretexto de ali estar, a cada passo assombrava-o o medo de que um guarda de farda negra aparecesse de repente, ao dobrar uma esquina, exigisse seus papéis e o mandasse embora. O criado de O'Brien, porém, admitira os dois sem titubear. Era um homenzinho de cabelo escuro,paletó branco, cara losangular, inteiramente sem expressão, e que poderia passar por chinês. O corredor pelo qual os

guiou era atapetado, e tinha paredes creme, com rodapé branco, tudo imaculadamente limpo. Era de dar medo.

Winston não se lembrava de ter visto um corredor cujas paredes não fossem marcadas da sujeira do contacto de corpos humanos.

O'Brien tinha um pedaço de papel entre os dedos e parecia estudá-lo atentamente. O rosto largo, inclinado de modo que se podia ver a linha do naríz, parecia ao mesmo tempo formidável e inteligente. Dur  ante talvez vinte segundos êle continuou imóvel. Depois puxou o falascreve para perto e ditou um recado no jargão híbrido dos Ministérios: - Itens um vírgula cinco vírgula sete aprovados completos ponto sugestão contida item seis dupliplus ridícula quase crimidéia cancelar pontos incontinuar construtivo anteobtendo pluscompleto orçamento máquinas extracustos ponto fim mensagem.

Levantou-se deliberadamente da cadeira e aproximou-se dêles, sem ruido, andando pelo tapete espesso. Com as palavras em Novilíngua, parecia ter deixado para trás um pouco da sua atmosfera oficial, porém a sua catadura era mais fechada do que de costume, como se estivesse aborrecido com a interrupção. Ao terror que Winston já sentia misturou-se de repente um traço de embaraço comum. Pareceu-lhe perfeitamente possível que houvesse cometido um êrro estúpido. Na verdade que prova tinha de que O'Brien fosse um conspirador político? Nada, além de uma chispa no olhar e uma única observação equívoca: fora isso, só a sua imaginação secreta, fundada num sonho. Não podia ao menos fingir que fora pedir o Dicionário emprestado, pois nesse caso seria impossível explicar a presença de Júlia. Quando O'Brien passou pela teletela, um pensamento pareceu vir-lhe à mente. Deteve-se, voltou-se e apertou um comutador na parede. Houve um estalido sêco e a voz parou.

Júlia soltou uma pequena exclamação, uma espécie de guincho de surpresa. Mesmo em meio ao seu pânico, Winston ficou tão admirado que não pôde deixar de exclamar:

- Desligou a teletela!

- Sim - disse O'Brien - desliguei. Nós temos êsse privilégio.

Estava na frente dêles. O corpanzil sólido dominava o casal, e a expressão fisionômica continuava indecifrável. Estava esperando, severo, que Winston falasse, mas do que?

Era bem concebível que não passasse de um homem ocupado, surpreendido e irritado com a interrupção. Ninguém falou. Depois de calar-se a teletela a sala parecia quieta como um túmulo. Os segundos passaram, enornes. Com dificuldade, Winston continuava a fixar seus olhos nos de O'Brien. De repente, a carranca se dissolveu no que poderia ser o começo dum sorriso. Com seu gesto característico, O'Brien recolocou os óculos no nariz.

- Falo eu, ou falas tu?

- Eu falo - ofereceu-se Winston prontamente. - Aquilo está mesmo desligado?

- Está. Tudo desligado. Estamos sós.

- Viemos aqui porque... Fez uma pausa, percebendo pela primeira vez como eram vagos os seus motivos. Como não sabia que espécie de auxílio esperava de O'Brien, não era fácil dizer a que fôra. Continuou, consciente de que suas palavras deviam parecer fracas e pretenciosas:

- Acreditamos que existe alguma conspiração, alguma organização secreta trabalhando contra o Partido, e que estás envolvido nela. Queremos também trabalhar nela. Somos inimigos do Partido. Não acreditamos nos princípios do Ingsoc. Somos ideocriminosos. Também somos adúlteros. Conto tudo isto porque queremos nos entregar à tua mercê. Se queres incriminar-nos de qualquer outra forma, estamos prontos.

Calou-se e olhou sôbre o ombro, com a impressão de que a porta se abrira. De fato, o criado de cara amarela surgira sem bater. Winston viu que êle trazia uma bandeja com um frasco de cristal e copos.

- Martin é dos nossos - disse O'Brien, impassível. -

Traz a bebida aqui, Martin. Põe a bandeja na mesa redonda. Temos cadeiras suficientes? Então sentemos e conversemos comodamente. Traz uma cadeira para ti, Martin. Falamos de negócios. Podes deixar de ser criado durante dez minutos.

O homenzinho sentou-se, completamente à vontade, e no entanto ainda com ar de servo, o ar de um criado de quarto que goza de um privilégio. Winston considerou-o de soslaio. Ocorreu-lhe que a vida tôda do homem era desempenhar um papel, e que achava perigoso abandonar, por um momento que fosse, sua falsa personalidade. O'Brien tomou a garrafa de cristal pelo pescoço e encheu os copos com um líquido vermelho escuro. Provocou em Winston vagas me-

mórias de algo que vira havia muito tempo numa parede ou num tapume - uma vasta garrafa -composta de luzes que pareciam borbulhar e despejar o conteúdo num copo. Visto de cima, o líquido parecia quase negro, mas no frasco brilhava como um rubi. Tinha um cheiro agri-doce. Viu Júlia apanhar o copo e cheirá-lo com cândida curiosidade.

- Chama-se vinho - informou O'Brien, com a sombra dum sorriso. - Sem dúvida leste a respeito do vinho, nos livros. Mas não são muitos do Partido Externo que o conhecem. - O rosto solenizou-se de novo, e êle ergueu o copo:

- Creio que devemos beber um brinde. À saúde do nosso chefe, Emmanuel Goldstein.

Winston agarrou o copo com certa ânsia. Vinho era algo com que sonhára e sôbre o qual lera. Como o pêso de papel ou as cantigas semi-esquecidas do sr. Charrington, pertencia ao passado, desaparecido e romântico, o tempo de dantes, como gostava de chamá-lo secretamente, nos seus pensamentos. Sem saber por que motivo, sempre acreditara que o vinho tinha sabor intensamente doce,  como de geléia de amora, e um efeito inebriante imediato. Mas quando o enguliu, a bebida lhe causou uma decepção. A verdade èra que, depois de beber gin durante anos, mal  podia prová-lo. Depôs na mesa o copo vazio.

- Então Goldstein existe?

- Sim, existe, e está vivo. Onde, não   sei.

- E a conspiração... a organização? Existe? Não é mera invenção da Polícia do Pensamento?

- Existe, sim. Chama-se a Fraternidade. Nunca saberás muito mais a respeito da Fraternidade, excepto que existe e que pertences a ela. Voltarei ao assunto daqui a pouco. - Olhou o relógio-pulseira. - É imprudente, mesmo para os membros do Partido Interno, desligar a teletela mais de meia-hora. Não devias ter vindo com a moça, e tereis de sair separados. Tu, camarada - e índicou Júlia com a cabeça - sairás antes. Temos uns vinte minutos à nossa disposição. Compreendeis que devo fazer algumas perguntas. Em termos gerais, a que estais dispostos?

- A qualquer coisa de que formos capazes - respondeu Winston.

O'Brien voltara-se um pouco na cadeira, de modo que estava de frente a Winston. Quase não considerava Júlia, parecendo achar que Winston falava por ela. Piscou repetidamente, e começou a fazer as perguntas em voz baixa, sem expressão como se fosse uma rotina, uma espécie de catecismo,  cujas respostas já lhe fossem conhecidas.

-  Estás disposto a dar a vida?

-  Estou.

-  Estás disposto a assassinar?

-  Estou.

-  A cometer atos de sabotagem que poderão causar a morte de centenas de inocentes?

- Sim.

- A trair tua pátria às potências estrangeiras?

-  Sim.

-  Estás disposto a fraudar, forjar, fazer chantagem, corromper a mente infantil, distribuir entorpecentes, incentivar a prostituição, disseminar dôenças venéreas - fazer tudo quanto possa causar a desmoralização e debilitar o poder do Partido?

- Sim.

- Se, por exemplo, servisse aos nossos interesses atirar ácido sulfúrico no rosto duma criança, farias isso?

- Faria, sim.

- Estás disposto a perder tua identidade e viver o resto da tua vida como garçon ou estivador?

- Estou.

- Estás disposto a te suicidar, se e quando isso te for ordenado?

- Sim.

- Estais dispostos, os dois, a vos separardes e nunca mais vos tornardes a ver?

- Não! - irrompeu Júlia. A Winston pareceu haver uma longa pausa antes de responder. Por um momento até lhe pareceu estar privado da fala. A língua movia-se sem som, formando primeiro a sílaba de uma palavra, depois de outra, inúmeras vezes. Até pronunciá-la, não sabia ao certo o que diria.

- Não - repetiu, por fim.

- Fizeste bem de me dizer - disse O'Brien. - É necessário saber tudo.

Voltou-se para Júlia e acrescentou, com voz um pouco mais expressiva:

- Compreendes que, mesmo que êle sobreviva, talvez seja pessoa diferente? Pode ser que tenhamos de dar-lhe nova identidade. Seu rosto, seus movimentos, a forma de suas mãos, a côr do cabelo... até a voz poderão ser diferen-

tes. E tu também podes te transformar numa pessoa diferente. Nossos cirurgiões podem alterar as pessoas, torná-las irreconheciveis. Às vezes é necessário. Às vezes chegamos a amputar um membro.

Winston não pôde impedir outra olhada de soslaio ao rosto mongol de Martin. Não havia cicatrizes visíveis. Júlia empalidecera um pouco, e suas sardas se destacavam mais, porém olhava O'Brien nos olhos. Murmurou algo que parecia ser assentimento.

- Bom. Então está resolvido. Havia uma caixa de cigarros, de prata, sôbre a mesa.

Com ar distraído, O'Brien ofereceu-a aos outros, serviu-se e depois levantou-se, pondo-se a passear de um lado para outro da sala, como se pensasse melhor de pé. Eram cigarros muito bons, bem feitos e firmes, de papel extraordinàriamente sedoso. O'Brien tornou a olhar o relógio-pulseira.

- Melhor voltares à cozinha, Martin - disse êle. -

Vou ligar daqui a um quarto de hora. Examina bem a cara dêstes camaradas antes de ires. Hás de revê-los. Eu talvez não.

Exatamente como fizera à porta, o homenzinho de olhos escuros os fitou com firmeza. Não havia em seus modos uma fagulha de amabilidade. Estava aprendendo de cor as fisionomias, porém não sentia interesse por êles. Winston imaginou que um rosto sintético talvez fosse incapaz de mudar de expressão. Sem falar nem fazer qualquer cumprimento, Martin saiu, fechando a porta atrás de si, em silêncio. O'Brien continuava passeando pela sala, uma das mãos no bolso do macacão negro, a outra segurando o cigarro.

- Compreendeis que lutareis no escuro? Estareis sempre no escuro. Recebereis ordens e obedecereis, sem saber porque. Mais tarde vos mandarei um livro do qual aprendereis a verdadeira natureza da sociedade em que vivemos, e a estratégia pela qual a destruiremos. Quando tiverdes lido o livro, sereis membros integrais da Fraternidade. Mas entre os objetivos gerais pelos quais lutamos, e as tarefas imediatas do momento, nada sabereis. Digo-vos que existe a Fraternidade, mas não posso dizer-vos se conta com cem membros, ou dez milhões. Pelo vosso conhecimento pessoal, não podereis dizer que chega a uma dúzia. Tereis três ou quatro contactos, que serão renovados de tempos em tempos, à medida que desaparecerem. Como êste foi vosso primeiro contacto, será conservado. Quando receberdes ordens, será de mim. Se considerarmos necessário comunicar-nos convosco, será por meio de Martin. Quando fordes por fim presos, confessareis. É inevitável. Mas tereis pouquíssimo para confessar, além de vossas próprias ações. Não conseguireis trair senão um punhado de gente sem importância. Provàvelmente não traireis nem a mim. A essa altura, já estarei morto, ou terei me transformado em pessoa diferente, com cara diferente.

Continuou a caminhar de um lado para outro sôbre o tapete macio. Apesar do volume do seu corpo, havia uma graça notável nos seus movimentos. Destacava-se até no gesto que metia a mão no bolso, ou manipulava um cigarro. Mais do que de fôrça, dava a impressão de confiança e de compreensão, colorida de ironia. Por mais sério que fosse, não tinha nada da parcialidade estreita que distingue o fanático. Quando falava de assassínio, suicídio, moléstias venéreas, membros amputados e rostos alterados, era com um ligeiro ar de zombaria. "Isto é inevitável," parecia dizer o seu tom de voz. "Isto é o que temos de fazer, sem piedade. Mas não é o que faremos quando a vida de novo valer a pena ser vivida." Uma onda de admiração, quase de adoração, fluiu de Winston. Esquecera-se da figura remota de Goldstein. Quando se olhava para os ombros poderosos de O'Brien e sua cara de feições tão maciças, tão feia e no entanto tão civilizada, era impossível acreditar que pudesse ser derrotado. Não havia estratagema que êle não pudesse vencer, nenhum perigo que não pudesse prever. Até Júlia parecia impressionada. Deixara o cigarro apagar e agora escutava atentamente. O'Brien continuou:

- Já ouviste boatos da existência da Fraternidade. Sem dúvida já tens ídéia dela. Imaginaste, provàvelmente, um vasto mundo clandestino de conspiradores, reunindo-se secretamente, em porões, rabiscando mensagens nas paredes, reconhecendo-se por meio de códigos ou gestos especiais. Nada disso existe. Os membros da Fraternidade não têm meio algum de se reconhecer e é impossível a qualquer um conhecer a identidade de mais que outros poucos. O próprio Goldstein, se caisse nas mãos da Polícia do Pensamento, não poderia fornecer uma lista completa dos conspiradores, nem informação que permitisse compilá-la. Não existe essa lista. A Fraternidade não pode ser eliminada porque não é uma organização no sentido comum da palavra. Nada a cimenta, excepto uma idéia, uma idéia indestrutível. Jamais terás

nada para te sustentar, excepto, a idéia. Não terás camaradagem nem incentivo. Quando por fim fores apanhado, não terás socorro. Nunca ajudamos nossos militantes. No máximo, quando é absolutamente necessário que alguém silencíe, conseguimos às vezes meter uma lâmina de barba na cela do prêso. Terás que te acostumar a viver sem resultados e sem esperança. Trabalharás algum tempo, serás prêso, confessarás e morrerás. São os únicos resultados que verás. Não há possibilidade de se dar uma mudança perceptível durante nossa vida. Nós somos os mortos. Nossa única vida verdadeira está no futuro. Nela tomaremos parte como punhados de pó e esquírolas de ossos. Mas a que distância está êsse futuro, não há meio de saber. Pode ser daqui a mil anos. No momento, nada é possível, excepto alargar aos poucos a zona de sanidade mental. Não podemos agir coletivamente. Só podemos expandir nosso conhecimento de indivíduo a indivíduo, geração após geração. Em face da Policia do Pensamento, não há outro modo.

Parou e pela terceira vez olhou para o relógio.

- Já é quase hora de saires, camarada - disse a Júlia.

- Espera, o frasco ainda está pela metade. Encheu os copos e ergueu o seu pela haste.

- A que brindaremos, desta vez? - perguntou, ainda com a mesma leve sugestão de ironia. - À confusão da Polícia do Pensamento? À morte do Grande Irmão? À humanidade? Ao futuro?

- Ao passado - arriscou Winston.

- O passado é mais importante - concordou O'Brien, gravemente. Esvaziaram os copos, e dali a um momento Júlia levantou-se. O'Brien tirou uma caixinha do alto de um armário e deu-lhe uma pastilha branca, que recomendou dissolver na bôca. Era importante, disse êle, não sair cheirando vinho: os ascensoristas eram muito observadores. Assim que a porta se fechou sôbre a moça pareceu esquecer que ela existia. Deu mais uma ou duas passadas e deteve-se.

- Há minúcias a providenciar. Tens um esconderijo qualquer?

Winston explicou  que tinha o quarto da loja do sr. Charrington.

- Bastará, por    enquanto.   Mais tarde, arranjaremos algo para os dois. É  importante  mudar de esconderijo frequentemente. Entrementes, vou mandar-te um exemplar do livro... - e Winston reparou que até O'Brien parecia pronunciar aquela palavra como se estivesse em grifo - o livro de Goldstein, compreendes, assim que for possível. Talvez se passem alguns dias antes de eu conseguir um. Não há muitos exemplares, como podes imaginar. A Polícia do Pensamento procura-os e destrói-os quase no mesmo ritmo em que são produzidos. Faz pouca diferença, porém. O livro é indestrutível. Se o último exemplar sumisse, poderíamos reproduzi-lo quase palavra por palavra. Levas uma pasta de couro ao escritório? - indagou.

- Em geral, levo.

- Que jeito tem?

- É preta, muito surrada. Com duas alças.

- Preta, duas alças, muito surrada... bom. Um dia, no futuro próximo - não posso fixar a data - uma das mensagens da tua tarefa matutina conterá um erro de imprensa, e terás que pedir repetição. No dia seguinte, irás à repartição sem a pasta. Nesse dia, na rua, um homem tocará teu braço e dirá "Acho que derrubaste esta pasta." E a que te entregar conterá um exemplar do livro de Goldstein. Deves devolvê-lo dentro de catorze dias.

Calaram-se ambos por uns instantes.

- Temos um par de minutos, ainda - disse O'Brien.

- Tornaremos a nos encontrar... se nos encontrarmos...

Winston levantou o olhar para êle.

- Onde não há treva? - perguntou, hesitante. O'Brien fez que sim, sem aparentar surpresa.

- Onde não há treva - repetiu, como se reconhecesse a alusão. - E agora, queres dizer alguma coisa antes de sair? Dar um recado? Fazer uma pergunta?

Winston raciocinou. Não parecia haver nenhuma outra pergunta a que desejasse resposta; e menos ímpulso ainda de pronunciar generalidades altissonantes. Em vez de coisas diretamente ligadas a O'Brien ou à Fraternidade, surgiu-lhe na mente uma espécie de figura composta do quarto escuro onde sua mãe passara os últimos dias, o quartinho por cima da loja do sr. Charrington, o pêso de papéis, e a gravura em aço na moldura de pau-rosa. Quase sem querer, perguntou:

-  Conheces uma cantiga muito velha que começa Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente?

De novo O'Brien fez que sim com a cabeça. Com uma espécie de grave cortesia, completou a quadra:

"Laranjas e limões, dizem os sinos de S. Clemente,

Me deves três vinténs, dizem os sinos de S. Martinho,

Quando me pagarás? dizem os sinos de Old Bailey,

Quando eu ficar rico, dizem os sinos de Shoreditch."

- Sabes o último verso! - exclamou Winston.

- Sei, sim. E agora, creio que é hora de te retirares. Espera um pouco. É melhor te dar uma destas pastilhas.

Quando Winston se levantou, O'Brien estendeu a manopla. Apertou-lhe a mão com fôrça, quase quebrando os ossos de Winston. De saída, olhou para trás, mas O'Brien já parecia estar entregue à tarefa de bani-lo do seu espírito. Estava esperando, com a mão no comutador da teletela. Por trás dêle, eram visíveis a escrivaninha com o abajur verde, o falascreve e as cestas de arame cheias de papéis. O incidente estava encerrado. Dali a trinta segundos, O'Brien mergulharia no seu trabalho interrompido e de grande importância para o Partido.

17

Winston estava gelatinoso de cansaço. Gelatinoso era a palavra certa. Ocorreu-lhe espontâneamente. O corpo parecia ter não apenas a debilidade da gelatina, como a sua translucidez. Tinha a impressão de que, se erguesse a mão, conseguiria ver a luz do outro lado. Todo o sangue e a linfa se haviam esgotado, num imenso deboche de trabalho, deixando apenas uma frágil estrutura de nervos, ossos e pele. Tôdas as sensações pareciam ampliadas. O macacão roçava-lhe os ombros, a calçada comichava-lhe sob os pés, e até abrir e fechar a mão era um esfôrço que fazia as juntas estralarem.

Em cinco dias, trabalhara mais de noventa horas. E o mesmo acontecera com todo mundo no Ministério. Agora, estava tudo acabado e, literalmente, não havia mais o que fazer, nenhuma tarefa do Partido até o dia seguinte, pela manhã. Podia passar seis horas no esconderijo e nove na própria cama. Lentamente, à luz do sol moderado daquela tarde, tomou por uma rua suja, na direção da loja do sr. Charrington, sempre de olho no aparecimento de alguma patrulha, porém irracionalmente convencido de que aquele dia não havia perigo de que o detivessem. A pesada pasta que levava chocava-se contra seus joelhos a cada passo, provocando uma sensação de formigamento na perna. Dentro dela estava o livro, que já estava em    seu poder havia seis dias, e que ainda não conseguira abrir,  nem mesmo olhar.

No sexto dia da Semana do ódio,      depois das passeatas, discursos, gritaria, cantoria, bandeiras, cartazes, filmes, esculturas em cera, rufar de tambores e guinchar de clarins, reboar de pés em marcha, ronco das esteiras dos tanques, zumbido dos aviões no ar, troar dos canhões - depois de seis dias de atividade, quando o grande orgasmo se apro-

ximava trêmulo do clímax e o ódío geral contra a Eurásia se condensara em tamanho delírio que a multidão teria certamente esquartejado com as unhas os doís mil prisioneiros de guerra eurasianos cujo enforcamento público se realizaria no último dia - exatamente nesse momento, fôra anunciado que a Oceania não estava em guerra com a Eurásia. Estava em guerra com a Lestásia. A Eurásia era aliada.

Evidentemente, não se admitiu modificação alguma. Apenas se fez saber, com extrema inesperabilidade e em tÔda parte ao mesmo tempo, que a inimiga era a Lestásia e não a Eurásia. Winston estava participando de uma demonstração numa praça central de Londres quando o fato ocorreu. Era noite, e os rostos brancos e as bandeiras escarlates estavam banhadas na luz dos refletores. A praça fôra tomada por vários milhares de pessoas, inclusive um bloco de mil escolares com o uniforme dos Espiões. Na plataforma enfeitada de vermelho arengava à massa um orador do Partido Interno, homenzinho magro com braços desproporcionadamente longos, e uma cabeçorra calva sôbre a qual dançavam algumas melenas. Figura de um conto fantástico, contorcido de ódio, agarrava com uma das mãos o pescoço do microfone, enquanto com a outra, enorme no extremo do braço ossudo, gadunhava o ar, ameaçadoramente. A voz, metalizada pelos amplificadores, catalogava incessantemente atrocidades, massacres, deportações, pilhagens, violações, tortura de prisioneiros, bombardeio de civis, propaganda mentirosa, agressões injustas, tratados desrespeitados. Era quase impossível escutá-lo sem se deixar convencer, primeiro, e depois enlouquecer. Com intervalo de alguns momentos a fúria da multidão fervia e a voz do orador era afogada por um rugido feroz, selvagem, subindo incontrolável de milhares de gargantas. Os berros mais selvagens eram os dos escolares. Havia uns vinte minutos que falava quando um mensageiro subiu à plataforma e um pedaço de papel foi passado às mãos do demagogo. Êle desenrolou-o sem parar; nada se alterou na sua voz, nem nos gestos, nem no conteúdo do que dizia. Mas de repente mudaram os nomes.        Sem que uma palavra fosse pronunciada nesse sentido, uma onda de compreensão percorreu a massa. A Oceania estava     em guerra com a Lestásia! No momento seguinte houve uma tremenda comoção. As faixas, bandeiras e cartazes que adornavam a praça estavam todos errados! Cerca da metade ostentava caras erradas! Era sabotagem! Os agentes de Goldstein tinham agido! Houve um ruidoso interlúdio durante o qual os cartazes foram arrancados das paredes, as bandeiras rasgadas e pisadas. Os Espiões executaram proezas admiráveis, marinhando sôbre os telhados e cortando as faixas presas às chaminés. Dentro de um minuto ou dois tudo acabou. O orador, ainda agarrado ao microfone, ombros arcados para frente, a mão enorme ainda ameaçando, continuara o discurso. Dali a um minuto, os urros de féra da multidão furiosa de novo rasgaram os ares. O ódio continuou exatamente como antes. Apenas o alvo fôra mudado.

Em retrospecto, o que impressionara Winston, fôra ter o orador passado de um inimigo a outro no meio da frase, não apenas sem pausa: sem a menor ofensa à sintaxe. Mas, no momento, tivera outras coisas a preocupá-lo. Fôra no momento exato das desordens que um homem, cujo rosto não pôde ver, lhe deu um tapinha no ombro e disse: "Desculpe, acho que derrubaste tua pasta." , E Winston a tomara distraido, sem falar. Sabia que alguns dias se passariam, sem oportunidade de abri-la. No instante em que a demonstração acabara, fôra direto ao Ministério da Verdade, embora já fosse quase vinte e três horas. Todo o pessoal do Ministério fizera o mesmo. Não havia necessidade das ordens emitidas pelas teletelas, chamando-os aos seus postos.

A Oceania estava em guerra com a Lestásia: a Oceania sempre estivera em guerra com a Lestásia. Grande parte da literatura política dos últimos cinco anos tornara-se completamente obsoleta. Relatórios e reportagens de todo gênero - jornais, livros, panfletos, filmes, faixas sonoras, fotografias - tudo precisava ser retificado com a velocidade do raio. Embora nenhuma ordem específica, sabia-se que os chefes do Departamento tencionavam que, dali a uma semana, não existisse em parte alguma qualquer referência à guerra com a Eurásia, ou à aliança com a Lestásia. O trabalho era estafante, e mais ainda porque o processo não podia ser chamado pelo seu nome legítimo. No Departamento de Registro todos trabalhavam dezoito horas cada vinte e quatro, com apenas duas sonecas de três horas. Tinham trazido colchões do porão e armado pelos corredores: as refeições consistiam de sanduiches e Café Vitória levados em carrinhos pelos empregados da cantina. Cada vez que Winston parava para ir dormir, procurava deixar a escrivaninha limpa, mas cada vez que voltava, de olhos remelentos e doloridos, encontrava mais um monte de cilindros de papel, que

lhe cobriam a mesa como uma nevada, quase tapando o falascreve e transbordando para o chão, de modo que a primeira tarefa era sempre pô-los em ordem, para ter lugar onde trabalhar. - O pior era que o trabalho não era todo puramente mecânico.    Com freqüência, bastava substituir apenas um nome por outro, mas qualquer notícia detalhada exigia cautela e imaginação. Era considerável, o próprio conhecimento de geografia necessário para transferir a guerra de uma a outra parte do mundo.

No terceiro dia, seus olhos doíam insuportàvelmente e precisava limpar os óculos repetidas vezes. Era como se lutasse contra uma esmagadora missão física, algo que podia recusar e que, no entanto, tinha ânsia neurótica de realizar. Tanto quanto podia se lembrar, não o perturbava o fato de ser uma cinica mentira cada palavra que murmurava no falascreve, cada rabisco do seu lapis-tinta. Tinha a ânsia de todos os colegas do Departamento de realizar uma falsificação perfeita. Na manhã do sexto dia diminuiu o chorrilho de papeletas. Durante quase meia-hora, nada saiu do tubo; depois caiu um cilindro, e depois nada. Ao mesmo tempo o trabalho amainava em tôda parte. Um profundo suspiro, embora secreto, levantou-se em tôda a repartição. Encerrara-se uma formidanda proeza, que nunca poderia ser mencionada. Era agora impossível a qualquer ser humano provar documentadamente que houvera uma guerra com a Eurásia. Às doze em ponto, anunciou-se inesperadamente que todos os funcionários do Ministério estavam de folga até a manhã seguinte. Winston, ainda levando a pasta que continha o livro, e que tivera aos pés enquanto trabalhava, e sob o corpo enquanto dormia, foi para casa,     barbeou-se e quase adormeceu no banho, embora a água não estivesse mais do que tépida.

Com uma espécie de voluptuoso estralar de juntas, subiu a escada da loja do sr. Charrington. Estava     cansado, mas não tinha mais sono. Abriu a janela,   acendeu o sujo fogareiro de óleo e encheu dágua uma caçarola,  para o café. Júlia não devia demorar; enquanto não viesse,   leria o livro. Sentou-se na poltrona esfiapada e abriu a pasta.

Um pesado volume negro, numa encadernação tosca, sem nome nem título na capa. O tipo também parecia ligeiramente irregular. As páginas estavam gastas nas margens, e se destacavam com facilidade, como se o livro tivesse passado por muitas mãos. No frontispício havia o título: TEORIA E PRÁTICA DO COLETIVISMO OLIGARQUICO

por

Emmanuel Goldstein

Winston pôs-se a ler:

Capítulo I

Ignorância é Fôrça

Desde que se começou a escrever a história, e provàvelmente desde o fim do Período Neolítico, tem havido três classes no mundo, Alta, Média e Baixa. Têm-se subdividido de muitas maneiras, receberam inúmeros nomes diferentes, e sua relação quantitativa, assim como sua atitude em relação às outras, variaram segundo as épocas; mas nunca se alterou a estrutura essencial da sociedade. Mesmo depois de enormes comoções e transformações aparentemente irrevogáveis, o mesmo diagrama sempre se restabeleceu, da mesma forma que um giroscópio em movimento sempre volta ao equilíbrio, por mais que seja empurrado dêste ou daquele lado.

Os objetivos dêsses três grupos são inteiramente irreconciliáveis. . .

Winston parou de ler, principalmente com o fito de apreciar o fato de estar lendo, em confôrto e segurança. Estava só: nem teletela, nem orelha no buraco da fechadura, nem impulso nervoso de espiar por cima do ombro ou de tapar a página com a mão. O ar doce do verão soprava-lhe na face. De algum lugar distante vinham amortecidos gritos de crianças: no quarto não havia ruido além da voz de inseto do relógio. Êle afundou mais ainda na poltrona e pousou os pés na guarda da lareira. Era a felicidade, a eternidade. De repente, como às vezes fazemos com um livro que temos a certeza de ler e reler, palavra por palavra, abriu-o numa página diferente e encontrou-se no Capítulo III. Continuou:

Capítulo III

Guerra é Paz

A divisão do mundo em três grandes super-estados foi acontecimento que poderia ter sido, e deveras foi, previsto

antes de meados do século vinte. Com a absorção da Europa pela Rússía e do Império Britânico pelos Estados Unidos  passaram a ter existência efetiva duas das três grandes potências, a Eurásia e a Oceania. A terceira, a Lestásia, só surgiu como unidade distinta após outra década de lutas confusas. As fronteiras entre os três super-estados são arbitrárias nalguns pontos, e noutros flutuam segundo as fortunas da guerra, mas de modo geral obedecem linhas geográficas. A Eurásia compreende tôda a parte setentrional dos continentes europeu e asiático, de Portugal ao estreito de Béring. A Oceania compreende as Américas, as ilhas do Atlântico, inclusive as Britânicas, a Australásia e a parte meridional da África. A Lestásia, menor que as outras, e de fronteiras ocidentais menos'definidas, compreende a China e os países ao sul da China, as Ilhas do Japão e uma grande porém cambiante porção da Mandchúria, da Mongólia e do Tibé.

Numa ou noutra aliança, êsses três super-estados estão permanentemente em guerra, e assim tem sido nos últimos vinte e cinco anos. A guerra, contudo, não é mais a luta desesperada e aniquiladora que costumava ser nas primeiras décadas do século vinte. É uma luta de objetivos limitados entre combatentes incapazes de destruir um ao outro, sem causa material para guerrear e sem mesmo qualquer genuina divergência ideológica. Isto não significa que as operações de guerra, ou a atitude em relação a ela, se tenham tornado mais cavalheirescas ou menos sanguinárias. Ao contrário, a histeria guerreira é contínua e universal em todos os países, e atos tais como estupros, pilhagens, matança de crianças e escravização de povoações inteiras, e represálias contra prisioneiros que chegam a incluir a morte pela água fervente e o enterramento de seres vivos, são considerados normais, e até merítórios, quando cometidos pelos amigos, e não pelo inimigo. Materialmente, porém, a guerra envolve número muito pequeno de cidadãos, principalmente peritos de alta especialização, e causa relativamente poucas vítimas. O combate, quando há combate, trava-se nas vagas fronteiras cuja localização, o indivíduo comum só pode imaginar, ou em tôrno das Fortalezas Flutuantes que guardam os pontos estratégicos das rotas marítimas. Nos centros de civilização a guerra não significa senão escassez constante de mercadorias de consumo, e a queda ocasional de uma bombafoguete, que talvez cause algumas dezenas de mortes. Com efeito, a guerra mudou de aspecto. Mais exatamente, mudaram de ordem de importância as razões pelas quais se faz a guerra. Os motivos já parcialmente presentes nas grandes guerras do início do século vinte tornaram-se, dominantes e são agora reconhecidos conscientemente, e levados em consideração.

Para compreender a natureza da guerra atual porque, apesar do reagrupamento que se dá a intervalos, é sempre a mesma guerra - deve-se perceber, em primeiro lugar, que não pode ser decisiva. Nenhum dos três super-estados poderia ser definitivamente vencido, nem mesmo pelos dois outros juntos. O equilíbrio é muito grande, e formidáveis suas defesas naturais. A Eurásia é protegida por suas vastas massas de terra, a Oceania pela imensidade do Atlântico e do Pacífico, a Lestásia pela fecundidade e a industriosidade dos seus habitantes. Tampouco existe, sempre do ponto de vista material, nada, que valha a pena. Com o estabelecimento de economias auto- suficientes, nas quais a produção e o consumo se equilibram, a luta pelos mercados - causa principal das guerras anteriores - desapareceu, ao passo que a procura das matérias primas não é mais caso de vida ou morte. Cada um dos três super-estados é tão vasto que possui em seu próprio território quase todos os materiais de que necessita. Na medida em que a guerra tem objetivo econômico direto, é uma guerra pela mão de obra. Entre as fronteiras dos super-estados, e não permanentemente de posse de nenhum, há um tosco quadrilátero cujos ângulos são Tanger, Brazzaville, Darwin e Hong Kong, contendo aproximadamente um quinto da população da terra. É pela Posse dessas regiões densamente povoadas, e da calota polar setentrional, que as três potências vivem em guerra. Na prática, nenhuma jamais controla tôda a área contestada. Partes dela mudam de mãos constantemente, e é a casualidade de se apoderar dêste ou daquele fragmento, por um repentino golpe de traição, que dita a incessante modificação dos aliados.

Todos os territórios disputados contêm valiosos minerais, e alguns produzem importantes produtos vegetais, tais como borracha, que nos clímas mais frios é necessário sintetizar por métodos relativamente caros. Acima de tudo, porém, contêm uma prodigiosa reserva de mão de obra barata. Quem quer que controle a África equatorial, ou os países do Oriente Médio, ou a índia meridional, ou o arquipélago in-

donésio, dispõe também de massas de dezenas ou centenas de milhões de peões diligentes e mal-pagos. Os habitantes dessas regiões, reduzidos mais ou menos abertamente à condição de escravos, passam continuamente de conquistador a conquistador e são gastos, como o carvão ou o petróleo, na corrida para produzir mais armamentos, capturar mais território, controlar mais braços, para produzir mais armamentos, para capturar mais território e assim infinitamente. Cumpre notar que a luta, na verdade, nunca se alastra além da periferia das áreas contestadas. As fronteiras da Eurásia oscilam entre a bacia do rio Congo e a margem norte do Mediterrâneo; as ilhas do Oceano índico e do Pacífico são constantemente capturadas e recapturadas pela Oceania ou pela Lestásia; na Mongólia a linha divisória entre Eurásia e Lestásia não é estável; em tôrno-do Polo as três potências reclamam enormes territórios em grande parte desabitados e inexplorados; mas o equilíbrio de forças mantém-se sempre na mesma, e permanece inviolado o território que forma o núcleo de cada super-estado. Além disso, o trabalho dos povos explorados que vivem no Equador não é realmente necessário para a economia do mundo. Nada acrescentam à riqueza da terra, desde que só produzem para finalidades bélicas, sendo o propósito de fazer guerra estar sempre em melhor posíção para fazer outra guerra. O trabalho escravo permite a aceleração do ritmo guerreiro. Se não existisse, a estrutura da sociedade mundial, e o processo pelo qual se mantém, não mudaria essencialmente.

O objetivo primário da guerra moderna (segundo os princípios do duplipensar, essa meta é simultâneamente reconhecida e não reconhecida pelos cérebros orientadores do Partido Interno) é usar os produtos da máquina sem elevar o padrão de vida geral. Desde o fim do século dezenove, foi latente na socíedade industrial o problema de dar fim ao excesso de artigos de consumo. Atualmente, que poucos seres humanos têm bastante para comer, êsse problema evidentemente não urge, e assim poderia vir a ser, mesmo sem a intervenção de um processo destruidor artificial. O mundo de hoje é um planeta nu, faminto e dilapidado, em comparação com o que existia antes de 1914, e ainda mais se comparado com o futuro imaginário aguardado pelos seus habitantes daquela era. No comêço do século vinte, a visão de uma sociedade futura incrivelmente rica, repousada, ordeira e eficiente - um refulgente mundo antissético de vidro, aço e concreto branco de neve - fazia parte da consciência de quase tôda pessoa alfabetizada. A ciência e a tecnologia se desenvolviam num ritmo prodigioso, e parecia natural imaginar que continuassem se desenvolvendo. Isto não ocorreu, todavia, em parte por causa do empobrecimento causado por longa série de guerras e revoluções, em parte porque o progresso científico e técnico dependia do hábito empírico do raciocínio, que não podia sobreviver numa sociedade estritamente regimentada. No seu conjunto, o mundo é hoje mais primitivo do que era cinquenta anos atrás. Certas zonas atrasadas progrediram, e vários disposítivos, sempre ligados à guerra -e à espionagem policial, foram de@senvolvidos, mas já não há experiência nem invenção, e nunca foram completamente reparados os estragos da guerra atômica de 1950 e pouco. Não obstante, persistem os perigos inerentes à máquina. Desde o momento em que a máquina surgiu, tornouse claro a todos que sabiam raciocinar que desaparecera em grande parte a necessidade do trabalho braçal do homem e, portanto, a da desigualdade humana. Se a máquina fosse deliberadamente utilizada com êsse propósito, a fome, o excesso de trabalho, a sujeira, o analfabetismo e a doença poderiam ter sido eliminados em algumas gerações. E na verdade, sem ter sido usada com êsse propósito, porém por uma espécie de processo automático - produzindo riqueza que às vezes se tornava impossível deixar de distribuir - a máquina elevou grandemente o padrão de vida do ser humano comum, num período de uns cinquenta anos, ao fim do século dezenove e no comêço do vinte.

Tornou-se também claro que o aumento total da riqueza ameaça a destruição - com efeito, de certo modo era a destruição - de uma sociedade hierárquica. Num mundo em que todos trabalhassem pouco, tivessem bastante que comer, morassem numa casa com banheiro e refrigerador, e possuissem automóvel ou mesmo avião, desapareceria a mais flagrante e talvez mais importante forma de desigualdade. Generalizando-se, a riqueza não conferia distinção. Era possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse pessoal de bens e luxos, fosse igualmente distribuida, ficando o poder nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia ser estável. Pois se o lazer e a segurança fossem por todos fruidos, a grande massa de seres humanos normalmente estupidificada pela miséria aprenderia a ler e aprenderia a pensar

por si; e uma vez isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde veria que não tinha função a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De'maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na báse da pobreza e da ignorância. Regressar ao passado agrícola, como imaginaram alguns pensadores no comêço do século vinte, não era solução praticável. Entrava em conflito com a tendência para a mecanização, que se tornára pouco menos que instintiva em quase todo o mundo, e além disso, qualquer país que permanecesse industrialmente atrasado ficaria indefeso militarmente e estaria fadado a ser dominado, direta ou indiretamente, pelos rivais mais progressistas.

Tampouco era solução satisfatória manter as massas na miséria restringindo a produção de mercadorias. Isto aconteceu, em grande parte, durante a fase final do capitalismo, mais ou menos entre 1920 e 1940. Permitiu-se que estagnasse a economia de muitos países, a terra deixou de ser arroteada, o maquinário básico permaneceu na mesma, grandes setores da população foram impedidos de trabalhar e mantidos semivivos por meio de caridade estatal. Mas isto também provocava debilidade militar, e como fossem evidentemente desnecessárias as privações, tornavam inevitável a oposição. O problema era manter em movimento as rodas da indústria sem aumentar a riqueza real  do mundo. Era preciso produzir mercadorias, porém não    distribui-las. E, na prática, a única maneira de o realizar é   pela guerra contínua.

O essencial da guerra é a destruição, não necessàriamente de vidas humanas, mas     dos produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que doutra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e portanto, com o passar do tempo, inteligentes. Mesmo quando as armas de guerra não são destruidas, sua manufatura ainda é um modo conveniente de gastar mão de obra sem produzir nada que se possa consumir. Uma Fortaleza Flutuante, por exemplo, contém trabalho suficiente para construir várias centenas de navios cargueiros. Depois de algum tempo é demantelada, por obsoleta, sem ter trazido benefício material a ninguém, e com novo e enorme esfôrço, constrói-se outra. Em princípio, o esfôrço bélico é sempre planejado de maneira a consumir qualquer excesso que possa existir depois de satisfeitas as necessidades mínimas da população. Na prática, as necessidades da população são sempre subestimadas, e o resultado é haver uma escassez crônica de metade dos essenciais mas isto é considerado vantagem. É uma política consciente manter perto do sofrimento até os grupos favorecidos porquanto o estado geral de escassez aumenta a importância dos pequenos privilégios e assim amplia a distinção entre um grupo e outro. Pelos padrões do início do século vinte, até mesmo um membro do Partido Interno leva vida austera e laboriosa. Não obstante, os poucos luxos de que goza, o apartamento espaçoso e bem mobiliado, a melhor qualidade da sua roupa, a superioridade da sua comida, bebida e fumo, seus dois ou três criados, seu automóvel ou helicóptero particular, o colocam numa esfera diferente de um membro do Partido Externo, que por sua vez tem vantagens semelhantes em comparação com as massas submersas a que chamamos "proles". A atmosfera social é de uma cidade sitiada, onde a posse de um pedaço de carne de cavalo diferencia entre a riqueza e a pobreza. E, ao mesmo tempo, a consciência de estar em guerra e portanto em perigo, faz parecer natural a entrega de todo o poder a uma pequena casta: é uma inevitável condição de sobrevivência.

Veremos que a guerra não apenas realiza a necessária destruição como a efetua de maneira psicológicamente aceitável. Em princípio, seria bastante simples gastar o excesso de mão de obra construindo templos e pirâmides, cavando buracos e tornando a enchê-los, ou mesmo produzindo grandes quantidades de mercadorias e queimando-as. Mas isso só daria a base econômica, mas não a emocional, de uma sociedade hierárquica. Trata-se aqui não do moral das massas, cuja atitude não tem importância, contanto que sejam mantidas no trabalho, mas do moral do Partido. Espera-se que até mesmo o mais humilde membro do Partido seja competente, industrioso e inteligente, dentro de estreitos limites, Porém é também necessário que seja um fanático crédulo e ignorante, cujas reações principais sejam medo, ódio, adulação e triunfo orgiástico. Em outras palavras, é necessário que tenha a mentalidade apropriada ao estado de guerra. Não importa que de fato haja uma guerra e, como não é possível uma vitória decisiva, pouco importa que a guerra vá bem ou mal. O que importa é que possa existir o estado de guerra. A divisão intelectual que o Partido exige dos seus membros, e que é mais fácil de obter numa atmosfera de guerra, é agora quase universal, porém, quanto mais se sobe nos quadros,

mais nítida se torna. É precisamente no Partido Interno que a histeria de guerra e o ódio ao inimigo são mais fortes. Na sua posição de administrador, muitas vezes é necessário a um membro do Partido Interno saber se esta ou aquela notícia de guerra é falsa, e muitas vezes, êle pode perceber que a guerra inteira é espúria e que, ou não está sendo travada, ou está sendo travada por objetivos diferentes dos declarados: mas essa conciência é fàcilmente neutralizada pela técnica do duplipensar. Entrementes, nenhum membro do Partido Interno hesita por um instante na sua crença mística de que a guerra é real, que está fadada a terminar pela vitória, ficando, a Oceania senhora indisputável do mundo inteiro.

Todos os membros do Partido Interno crêem, como num artigo de fé, nessa vitória futura. Será obtida quer pela aquisição gradual de território e, consequentemente, acúmulo de esmagadora preponderância de força, quer pelo descobrimento de uma nova arma irrespondível. A busca de novas armas prossegue sem cessar, e é uma das poucas atividades restantes em que o espírito inventivo ou especulativo se pode expandir. Atualmente, na Oceania, a ciência quase cessou de existir, no sentido antigo. Em Novilíngua não existe palavra para "ciêncía". O método empírico de raciocínio, no qual se basearam todos os desenvolvimentos científicos passados, se opõe aos princípios fundamentais do Ingsoc. E mesmo o progresso tecnológico só se verifica quando os seus produtos podem ser, de alguma forma, utilizados para limitar a liberdade humana. Em tôdas as artes úteis o mundo ou está parado ou retrocede. Os campos são cultivados com arados de tração animal, enquanto os livros são escritos por máquinas. Mas nos assuntos de importância vital - ou seja, a guerra e a espionagem policial - ainda é incentivado o sistema empírico, ou pelo menos tolerado. As duas metas do Partido são conquistar tôda a superfície da terra e extinguir de uma vez para sempre qualquer possibilidade de pensamento independente. Há, portanto, dois grandes problemas que o Partido deve resolver. Um dêles é descobrir o que pensa outro ser humano, e o outro é matar várias centenas de milhões de pessoas em alguns segundos, sem dar aviso prévio. Êste é o assunto da pesquisa científica que ainda subsiste. O cientista de hoje ou é uma mistura de psicólogo e inquisidor, estudando com extraordinária minúcia o significado das expressões faciais, dos gestos, e tons de voz, e verificando os efeitos reveladores das drogas-da-verdade, terapia de choque, hipnose e tortura física; ou é quimico, físico ou biólogo só interessado pelos ramos da sua profissão ligados à supressão da vida. Nos vastos laboratórios do Ministério da Paz, e nas estações experimentais ocultas nas florestas brasileiras ou no deserto australiano, ou nas ilhas perdidas da Antártida, os grupos de peritos continuam sua missão, infatigáveis. Alguns se ocupam, simplesmente, de planejar a logística de futuras guerras; outros de inventar maiores e ainda maiores bombas-foguete, explosivos cada vez mais poderosos, blindagens mais e mais resistentes; outros buscam novos gases, mais letais, ou venenos solúveis capazes de ser produzidos em quantidades tais que destruam a vegetação de continentes inteiros, ou culturas de germes maléficos imunizados contra todos os    anticorpos possíveis; outros se esforçam para produzir um veículo que abra caminho sob a terra como um submarino por baixo dágua, ou um aeroplano tão independente da base como um navio de vela; outros ainda exploram possibilidades mais remotas, tais como focalizar os raios do sol através de lentes suspensas a milhares de quilômetros da terra, ou provocar terremotos e maremotos artificiais pela alteração do calor no centro do planeta.

Mas nenhum dêsses projetos jamais se aproxima da realização, e nenhum dos três super-estados obtém dianteira significativa sôbre os outros. O que é mais notável é que as três potências já possuem, na bomba atômica, uma arma muito mais poderosa do que as suas atuais pesquisas lhes permitirão descobrir.    Conquanto o Partido, segundo seu hábito, reivindique essa invenção, as bombas atômicas apareceram em mil novecentos e quarenta e poucos, e foram usadas em larga escala cerca de dez anos mais tarde. Nessa ocasião, algumas centenas de bombas foram lançadas contra os centros industriais, principalmente da Rússia europeia, Europa ocidental e América do Norte. O efeito foi convencer os grupos dominantes de todos os países que algumas bombas atômicas mais significariam o fim de tôda sociedade organizada e, portanto, do seu próprio poder. Daí por diante, embora não se fizesse, nem se insinuasse qualquer tratado formal, as bombas-A não foram mais jogadas. As três potências continuam produzindo bombas atômicas, e as guardam à espera da oportunidade decisiva que aguardam para mais cedo ou mais tarde.      Entrementes, a arte da guerra permaneceu quase estática durante trinta ou quarenta anos. Usam-se mais helicópteros do que antigamente, os aviões de

bombardeio   foram em grande parte substituidos por projé teis auto-impelidos, e o frágil encouraçado móvel deu lugar à quase insubmergível Fortaleza Flutuante; fóra isso, foi pequeno o desenvolvimento. O tanque, o submarino, o torpedo, a metralhadora, e até o fusil e a granada de mão continuam sendo usados. E apesar dos infindos morticínios comunicados pela imprensa e as teletelas, nunca se repetiram as batalhas desesperadas das guerras anteriores, em que centenas de milhares e até milhões de homens eram às vezes mortos em algumas semanas.

Nenhum dos três estados tenta     qualquer manobra que envolva o risco d'uma séria derrota. Quando empreendem uma operação de grande envergadura, é em geral um ataque de surpresa a um aliado. É a mesma a estratégia seguida pelas três potências, ou pelo menos as que fingem seguir.

O plano prevê, pela combinação de luta, trocas e oportunos golpes de traição, a aquisição de uma série de bases que circundem completamente um ou outro rival, e então assinar um pacto de amizade com êsse rival, permanecendo em paz com êle o tempo suficiente para que as suspeitas esmoreçam. Durante êsses anos de espera, foguetes carregados de bombas atômicas podem ser acumulados em todos os pontos estratégicos; serão por fim disparados simultâneamente, com efeitos tão devastadores que é impossível retaliar. Surge então o momento de assinar um tratado de amizade com a terceira potência mundial, preparando outro ataque. Êste plano, evidentemente, é puro castelo no ar, impossível de realizar. Além disso, não há combate algum, excepto nas zonas contestadas, em tôrno do Equador e do Polo Norte; jamais se empreende qualquer invasão de território inimigo. Isto explica o fato de serem arbitrárias em muitos pontos as fronteiras entre os super-estados. A Eurásia, por exemplo, poderia fàcilmente conquistar as Ilhas Britânicas, que geogràficamente fazem parte da Europa, e por outro lado seria possível a Oceania levar suas fronteiras até o Reno ou o Vístula. Mas isto violaria o princípio de integração cultural, respeitado por todos os lados, embora jamais formulado. Se a Oceania conquistasse as regiões outrora conhecidas por França e Alemanha, seria necessário, ou exterminar os habitantes, tarefa de enorme dificuldade física, ou assimilar uma população de uns cem milhões de pessoas que, no que se refere ao desenvolvimento técnico, estão mais ou menos no nível da Oceania. O problema é o mesmo para os três super-estados. É absolutamente necessária, para sua estrutura, que não haja contacto com estrangeiros, excepto, limitadamente, com prisioneiros de guerra e escravos de côr. Mesmo o aliado oficial de hoje é considerado com suspeita. Além dos prisioneiros de guerra, o cidadão médio da Oceania jamais põe olhos num cidadão da Eurásia ou da Lestásia, sendo-lhe proibido aprender línguas estrangeiras.      Se lhe fosse permitido o contacto com os forasteiros, descobriria que são criaturas semelhantes e que é mentira a maior parte do que ouviu a respeito dêles. Acabar-se-ia o mundo fechado em que vive, e se evaporariam o medo, o ódio, e o sentido de razão permanente, de que depende o seu moral. É portanto admitido por todos os lados que, não obstante a frequência com que a Pérsia, o Egito, Java ou Ceilão mudam de mãos, as fronteiras básicas não devem nunca ser atravessadas, salvo pelas bombas.

Atrás disto tudo há um fato que se não menciona jamais em voz alta, mas que é tàcitamente compreendido e usado como orientação: ou seja, o de que as condições de vida, nos três super-estados, são mais ou menos as mesmas. Na Oceania, a filosofia dominante é chamada Ingsoc, na Eurásia é chamada Neo-Bolchevismo, e na Lestásia é conhecida por uma palavra chinesa em geral traduzida por Adoração da Morte, mas que se poderia melhor chamar Obliteração do Ego. O cidadão da Oceania não pode saber coisa alguma a respeito dos fundamentos das outras duas filosofias, aprendendo porém a execrá-las como bárbaros ultrages à moralidade e ao sentido comum. Na verdade, as três filosofias mal se distinguem umas das outras, e os sistemas sociais de que são base não se distinguem de modo algum. Por tôda parte há a mesma estrutura piramidal, a mesma adoração de um chefe semi-divino, a mesma economia que existe para a guerra contínua. Segue-se que os três super-estados não só não podem vencer um ao outro, como não levariam vantagem se o fizessem. Ao contrário, enquanto continuarem em conflitos, amparam-se uns aos outros, como três fusis num sarilho. E, como é praxe, os grupos dominantes das três potências ao mesmo tempo sabem e ignoram o que estão fazendo. Dedicam a vida à conquista do mundo, mas também sabem que é necessário continuar a guerra, sem fim e sem vitória. Entrementes, o fato de não haver perigo de conquista torna possível a negação da realidade que    'é a característica principal do Ingsoc, e dos sistemas rivais de racio-

cínio. Neste ponto é necessário repetir o que já dissemos: que a guerra, tornando-se contínua, mudou fundamentalmente de caráter.

No passado a guerra era, quase por definição, algo que mais cedo ou mais tarde chegava ao fim, em geral em inconfundível vitória ou derrota. Também no passado, a guerra era um dos instrumentos pelo qual as sociedades humanas se mantinham em contacto com a realidade física. Todos os governantes de tôdas as épocas têm tentado impôr aos seus adeptos uma falsa visão do mundo, mas não podiam se dar ao luxo de encorajar nenhuma ilusão que tendesse a prejudicar a eficiência militar. Considerando que a derrota signíficava a perda de independência, ou outro resultado geralmente julgado indesejável, era preciso tomar sérias precauções contra a derrota. Não se podia ignorar os fatos físicos. Na filosofia, religião, ética, ou política, dois e dois podem ser cinco, mas quando se desenha um canhão ou um' aeroplano, somam quatro. As nações ineficientes eram vencidas, mais cedo ou mais tarde, e a luta pela eficiência era inimiga das ilusões. Além do mais, para ser eficiente, era necessário saber aprender do passado, o que exigia conhecimento bastante exato do que sucedera nesse passado. Naturalmente, os jornais e livros sempre foram parciais, e coloridos por diversos pontos de vista, mas seria impossível a falsificação da espécie e na escala hoje praticada. A guerra era uma firme salvaguarda de saúde mental e, no que se referia às classes dominantes, provàvelmente a mais importante de tôdas as salvaguardas. Enquanto era possível perder ou ganhar guerras, nenhuma classe dominante podia ser completamente irresponsável.

Mas quando a guerra se torna literalmente contínua, cessa também de ser perigosa. Quando a guerra é contínua, não existe necessidade militar.   O progresso técnico pode cessar e os fatos mais palpáveis podem ser negados ou desprezados. Como vimos, as pesquisas que poderiam ser chamadas científicas são ainda levadas a cabo, com finalidades bélicas, mas são, em essência, um sonho vão, e não importa que não dêem o menor resultado. A eficiência não mais é necessária, nem mesmo a eficiência militar. Nada é eficiente na'Oceania, excepto a Polícia do Pensamento. Já que cada um dos super-estados é invencível, cada qual é, com efeito, um universo separado dentro do qual se pode praticar sem risco qualquer perversão mental. A realidade só exerce a sua pressão através das necessidades da vida cotidiana - comer e beber, morar e vestir, evitar engulir veneno, cair de janelas do último andar, e coisas semelhantes. Entre a vida e a morte, e entre o prazer físico e a dor física, ainda há uma distinção, mas é só. Sem contacto com o mundo externo e com o passado, o cidadão da Oceania é como um homem no espaço interestelar, que não tem  meios de saber que direção leva para baixo ou para cima. Os governantes dêsse estado são absolutos como os faraós e os césares não puderam ser. São obrigados a evitar que os seus correligionários morram de fome em quantidades tais que se tornem inconvenientes, e são forçados a permanecer no mesmo baixo nível de técnica militar que os seus rivais; uma vez atingido esse minimo, porém, podem torcer a realidade e dar-lhe a forma que lhes aprouver.

A julgar pelos padrões das guerras passadas, a guerra de hoje é, portanto, uma impostura. É como os combates entre certos ruminantes, cujos chifres são dispostos em ângulo tal que não pódem ferir um ao outro. Entretanto, apesar de irreal, ela tem sentido. Devora os excedentes dos artigos de consumo, e ajuda a conservar a atmosfera mental especial que uma sociedade hierárquica exige. A guerra, como veremos, é agora assunto puramente interno. No passado, os grupos dominantes de todos os países, não obstante pudessem reconhecer seu interêsse comum e, em consequência, limitassem o poder destruidor da guerra, de fato combatiam, e o vencedor sempre saqueava o vencido. Em nossos dias, êles não combatem uns aos outros. A guerra é travada, pelos grupos dominantes, contra os seus próprios súditos, e o Seu objetivo não é conquistar territórios, nem impedir que os outros o façam, porém manter intacta a estrutura da sociedade. Daí, o se haver tornado equívoca a própria palavra "guerra." Seria provàvelmente correto dizer que a guerra deixou de existir ao se tornar contínua. A pressão que exerceu sôbre os seres humanos entre a Idade Neolítica e o comêço do século XX desapareceu e foi substituida por algo bem diferente. O efeito seria mais ou menos o mesmo se os três super-estados, ao invés de se guerrearem, concordassem em viver em paz perpétua, cada qual inviolado dentro das suas fronteiras. Pois nesse caso ainda seria um universo contido em si próprio, para sempre livre da influência moderadora do perigo externo. Uma paz verdadeiramente

permanente seria o mesmo que a guerra permanente. Êste

- embora a vasta maioria dos membros do Partido só o compreendam num sentido mais raso - é o significado profundo do lema do Partido: Guerra é Paz.

Winston parou de ler por um momento. Na distância remota uma bomba-foguete estourou. Ainda não sumira a deliciosa sensação de se sentir só com o livro proibido, num quarto sem teletela. A solidão e a segurança eram sensações físicas, de certo modo misturadas com o cansaço do seu corpo, a maciez da cadeira, a brisa gentil que tocava o rosto, soprando pela janela. O livro fascinava-o ou, mais exatamente, dava-lhe nova tranquilidade. De certo modo, nada lhe dizia de novo, mas isso fazia parte do seu atrativo. Dizia o que êle diria, se lhe fosse possível pôr ordem nos seus pensamentos desataviados. Era produto de um cérebro semelhante ao seu, porém -enormemente mais poderoso, mais sistemático, menos medroso. Êle percebia que os melhores livros são os que dizem o que já se sabe. Voltara ao Capítulo 1 quando ouviu o passo de Júlia na escada e levantou-se para lhe sair ao encontro. Ela largou a bolsa de ferramentas no chão e atirou-se aos braços dêle. Fazia mais de uma semana que não se viam.

- Recebi o livro - anunciou êle, quando se soltaram.

- Recebeste? Que bom! - exclamou ela, sem maior interêsse, e imediatamente se ajoelhou ao pé do fogareiro de óleo para fazer café.

Não voltaram ao assunto senão depois de terem estado meia hora na cama. A noite refrescara um pouco, levando-os a puxar a colcha. Lá de baixo vinham os ruidos familiares de botinas arrastando no lageado, e cantoria. A mulheraça de braços vermelhos, que Winston Vira na sua primeira visita, parecia fazer parte do pátio. Parecia não haver hora do dia em que não estivesse marchando entre o tanque e o varal, ora tapando a bôca com prendedores de roupa, ora abrindo os pulmões com gôsto. Júlia deitara-se de lado e parecia estar a ponto de adormecer. Êle apanhou o livro, que depusera no soalho, e acomodou-se, encostando na cabeceira da cama.

- Deves lê-lo - disse êle. - Tu também. Todos os membros da Fraternidade devem lê-lo.

- Tu lês - disse ela com os olhos fechados. - Lê alto. É o melhor. E assim vais explicando ao mesmo tempo.

os ponteiros do relógio marcavam seis, indicando as dezoito. Ainda tinham três ou quatro horas pela frente. Êle apoiou o livro nos joelhos e pôs-se a ler:

Capítulo I

Ignorância é Fôrça

Desde que se começou a escrever a história, e provàvelmente desde o fim do Período Neolítico, tem havido três classes no mundo, Alta, Média e Baixa. Têm-se subdividido de muitas maneiras, receberam inúmeros nomes diferentes, e sua relação quantitativa, assim como sua atitude em relação às outras, variaram segundo as épocas; mas nunca se alterou a estrutura essencial da sociedade. Mesmo depois de enormes comoções e transformações aparentemente irrevogáveis, o mesmo diagrama sempre se restabeleceu, da mesma forma que um giroscópio em movimento sempre volta ao equilíbrio, por mais que seja empurrado dêste ou daquele lado.

- Júlia, estás acordada? - indagou Winston.

- Estou, meu amor. Estou escutando. Vai lendo. É maravilhoso.

Êle continuou a ler: Os objetivos dêsses três grupos são inteiramente irreconciliáveis. O objetivo da Alta é ficar onde está. O da Média é trocar de lugar com a Alta. E o objetivo da Baixa, quando tem objetivo - pois é característica constante da Baixa viver tão esmagada pela monotonia do trabalho cotidiano que só intermitentemente tem consciência do que existe fóra de sua vida - é abolir tôdas as distinções e criar uma sociedade em que todos sejam iguais. Assim, por tôda a história, trava-se repetidamente uma luta que é a mesma em seus traços gerais. Por longos períodos a Alta parece firme no poder, porém mais cedo ou mais tarde chega um momento em que, ou perde a fé em si própria ou sua capacidade de governar com eficiência, ou ambas. É então derrubada pela Média, que atrai a Baixa ao seu lado, fingindo lutar pela

liberdade e a justiça. Assim que alcança sua meta, a Média joga a Baixa na sua velha posição servil e transforma-se em Alta. Dentro em breve, uma nova classe Média se separa dos outros grupos, de um dêles ou de ambos, e a luta recomeça. Das três classes, só a Baixa nunca consegue nem êxito temporário na obtenção dos seus ideais. Seria exagêro dizer que não se registra na história progresso material. Mesmo hoje, neste período de declínio, o ser humano comum é fisicamente melhor do que há alguns séculos. Mas nenhum progresso em riqueza, nenhuma suavização de maneiras, nenhuma reforma ou revolução jamais aproximou um milímetro a igualdade humana. Do ponto de vista da Baixa, nenhuma modificação hístórica significou mais do que uma mudança do nome dos amos.

Por volta dos fins do século dezenove, a recorrência do ciclo se tornára óbvia- a muitos observadores. Surgiram então escolas filosóficas que interpretavam a história como um processo cíclico e protestavam que a desigualdade era a lei inalterável da vida humana. Essa doutrina, naturalmente, sempre teve seus adeptos, mas na maneira pela qual foi então exposta havia uma transformação significativa. No passado, fôra uma doutrina especificamente da Alta a necessidade de uma forma hierárquica de sociedade. Fôra pregada por reis, aristocratas e sacerdotes, advogados, etc., que a parasitavam, e fôra geralmente amaciada por promessas de recompensa num mundo imaginário de além-túmulo. A Média, enquanto lutou pelo poder, sempre fez uso de termos tais como liberdade, justiça e fraternidade. Agora, todavia, o conceito de fraternidade humana começou a ser atacado pelos que não se encontravam em posição de mando, porém esperavam conquistá-las dentro em breve. No passado a Média fizera revoluções sob a bandeira da igualdade, estabelecendo nova tirania assim que derrubava a antiga. Com efeito, os novos grupos Médios proclamavam antecipadamente sua tirania. O socialismo, teoria aparecida no ínício do século dezenove é o último élo duma cadeia de pensamento que se iniciava nas rebeliões dos escravos antigos, ainda estava profundamente infeccionado pelo Utopismo do passado. Mas em cada variante de Socialismo que apareceu de 1900 para cá, o propósito de estabelecer a liberdade e a igualdade ia sendo abandonado cada vez mais abertamente. Os novos movimentos, que apareceram em meados do século, o Ingsoc na Oceania, o Neo-bolchevismo na Eurásia, a Adoração da Morte, como é comumente chamado, na Lestásia, tinham o propósito consciente de perpetuar a desliberdade e a desigualdade. Êsses novos movimentos, naturalmente, surgiram dos mais antigos e tenderam a conservar o nome e a render tributo à sua ideologia. Mas o propósito de todos era deter o progresso e congelar a história num dado momento. O movimento familiar do pêndulo deveria ter lugar mais uma vez, e então parar. Como de hábito, a Alta devia ser posta abaixo pela Média, que então se tornaria a Alta; desta vez porém a Alta, por meio de uma estratégia consciente, conseguiria manter permanentemente sua posição.

As novas doutrinas nasceram em parte por causa do acúmulo de conhecimento histórico, e o crescimento do sentido histórico, que mal existira antes do século dezenove. O movimento cíclico da história era agora inteligível ou parecia ser; e, sendo inteligível, era alterável. Mas a causa principal, subexistente, era que, desde o comêço do século vinte, a igualdade humana se tornara tècnicamente possível. Verdade ainda que os homens não eram iguais nos seus talentos inatos e que as funções tinham de ser especializadas de maneira que favoreciam uns indivíduos contra outros; porém não havia mais nenhuma necessidade real de distinção de classe nem de grandes diferenças de fortuna. Em épocas anteriores, as distinções não tinham sido apenas inevitáveis como desejáveis. A desigualdade era o preço da civilização. Todavia, com o desenvolvimento da produção à máquina, alterou-se o caso. Mesmo que ainda fosse necessário aos seres humanos desempenhar diferentes tipos de profissão, já não era preciso que vivessem em díferentes níveis sociais ou econômicos. Portanto, do ponto de vista dos novos grupos que estavam a pique de tomar o poder, a igualdade humana não era mais um ideal a atingir, era um perigo a evitar. Em épocas mais primitivas, quando de fato não era possível uma sociedade justa e pacífica, fôra bem fácil acreditar nela. A idéia de um paraíso terreno em que os homens vivessem juntos num estado de fraternidade, sem leis nem trabalho brutal, incendiara durante milhares de anos a imaginação humana. E essa visão tinha certo fascínio mesmo sôbre os grupos que realmente se beneficiaram de cada mudança histórica.  Os herdeiros das revoluções inglêsas, francesa e americana haviam parcialmente acreditado nas suas próprias frases a respeito dos direitos do homem, liberdade de palavra, igualdade perante a lei, e quejandas, e até haviam permitido

que sua conduta fosse por elas influenciadas, dentro de certos limites. Mas ao advir a quarta década do século vinte, eram autoritárias tôdas as principais correntes de pensamento político. O paraíso terreno se desacreditara no momento exato em que se tornára realizável. Cada nova teoria política, fosse qual fosse o seu rótulo, conduzia de novo à hierarquia e à regimentação. E no endurecimento geral de atitudes verificado por volta de 1930, práticas havia longo tempo abandonadas, em alguns casos durante séculos - prisão sem julgamento, uso de prisioneiros de guerra como escravos, execuções públicas, tortura para arrancar confissões, o uso de reféns e deportação de populações inteiras - não só voltaram a ser comuns como eram toleradas e até defendidas por pessoas que se consideravam esclarecidas e progressistas.

Só depois de uma década de guerras nacionais, guerras civis, revoluções e contra-revoluções em tôda parte do mundo é, que o Ingsoc e seus rivais emergiram como teorias políticas completas. Haviam porém sido antecipados por vários sistemas, geralmente chamados totalitários, aparecidos no mesmo século, sendo evidentes, havia muito tempo, as linhas principais do mundo que nasceria do caos existente. Fôra também bastante evidente que tipo de pessoas controlaria êste mundo. A nova aristocracia era composta, na sua maioria, de burocratas, cientistas, técnicos, organizadores sindicais, peritos em publicidade, sociólogos, professores, jornalistas e políticos profissionais. Esta gente, cuja origem estava na classe média assalariada e nos escalões superiores da classe operária, fôra moldada e criada pelo mundo estéril da indústria monopolista e do govêrno centralizado. Comparada com os seus antecessores, era menos avarenta, menos tentada pelo luxo, mais faminta de poder puro e, acima de tudo, mais consciente do que fazia e mais decidida a esmagar a oposição. Esta última diferença era cardeal. Comparadas com as que existem hoje, tôdas as tiranias do passado foram frouxas e ineficientes. Os grupos governantes foram sempre infestados, até certo ponto, de idéias liberais, e se contentavam de deixar pontas soltas por tôda parte, considerando apenas o ato patente e se desinteressando pelo raciocínio dos seus súditos. Até a igreja católica da Idade Média era tolerante, pelos padrões atuais. Em parte a razão dêste fato residia na impossibilidade dos governos do passado manterem sob constante vigilância os seus cidadãos. A invenção da imprensa, contudo, tornou mais fácil manipular a opinião pública, processo que o filme e o rádio levaram além. Com o desenvolvimento da televisão, e o progresso técnico que tornou possível receber e transmitir simultâneamente pelo mesmo instrumento, a vida particular acabou. Cada cidadão, ou pelo menos cada cidadão suficientemente importante para merecer espionagem, passou a poder ser mantido vinte e quatro horas por dia sob os olhos da polícia e ao alcance da propaganda oficial, fechados todos os outros canais de comunicação. Existia pela primeira vez a possibilidade de fazer impôr não apenas completa obediência à vontade do Estado como também completa uniformidade de opinião em todos os súditos.

Depois do período revolucionário de 1950 a 1970, a sociedade reagrupou-se, como sempre, em Alta, Média e Baixa. Mas a nova Alta, ao contrário das antecessoras, não agia por instinto: sabia o que era preciso para garantir sua posição. Havia muito tempo se percebera que a única base segura da oligarquia é o coletivismo. A riqueza e o privilégio são mais fáceis de defender quando possuidos em conjunto. A chamada "abolição da propriedade privada", que se verificou em meados do século, significou, com efeito a concentração da propriedade em número muito menor de mãos, mas com a diferença de que os novos donos eram um grupo em vez de uma massa de indivíduos. Individualmente, nenhum membro do Partido possui coisa alguma, excepto ninharias pessoais. Coletivamente, o Partido é dono de tudo na Oceania, porque tudo controla, e dispõe dos seus produtos como bem lhe parece. Nos anos que se seguiram à Revolução, conseguiu galgar quase sem oposição êsse posto de comando, porque todo o processo foi apresentado como ato de coletivização. Sempre se imaginara que se a classe capitalista fosse expropriada, o Socialismo adviria: e inquestionàvelmente os capitalistas tinham sido expropriados. Fábricas, minas, terras, casas, transporte - tudo lhes fôra tomado: e dado que -não mais eram propriedade particular, evidentemente deviam ser propriedade pública. O Ingsoc, que brotou do movimento socialista anterior e dêle herdou a fraseologia, com efeito executara o principal do programa socialista. E o resultado, previsto e pretendido antecipadamente, fôra tornar permanente a desigualdade econômica.

Mas vão mais fundo os problemas de perpetúá'r a soci'edade hierárquica. Só há quatro modos de um grupo governante abandonar o poder. Ou é vencido de fora, ou governa tão ineficientemente que as massas são levadas à revolta, ou

permite o aparecimento de um grupo médio forte e descontente, ou perde a confiança em si e a disposição de governar. Essas causas não funcionam de per si, e via de regra as quatro se apresentam em diferentes proporções. Uma classe dominante que possa se guardar contra as quatro permaneceria eternamente no poder. No fim de contas, o fator determinante é a atitude mental da própria classe dominante.

Depois de meados dêste século, desapareceu o primeiro perigo. As três potências em que o mundo se dividiu são de fato invencíveis, e só poderiam se tornar vulneráveis por meio de lentas mutações demográficas que um govêrno com amplos poderes consegue evitar fàcilmente. O segundo perigo, também é apenas teórico. As massas nunca se revoltarão espontâneamente, e nunca se revoltarão apenas por ser oprimidas. Com efeito, se não se lhes permite ter padrões de comparação -nem ao menos se darão conta de que são oprimidas. As crises econômicas decorrentes do passado eram totalmente desnecessárias e hoje já não podem se verificar, mas podem suceder outros deslocamentos igualmente grandes, sem que haja resultados políticos, por não existir maneira de articular o descontentamento e dar-lhe vasão. No que tange ao problema da superprodução, latente em nossa sociedade desde o desenvolvimento da técnica da máquina, é resolvido por meio do método da guerra cõntínua (vide Capítulo 3), também útil para manter o moral público no diapasão desejado. Do ponto de vista dos nossos atuais governantes, portanto, os únicos perigos genuinos são a formação de um novo grupo de gente capaz, sem muito trabalho, e faminta de poder, e o crescimento do liberalismo e do ceticismo nas suas fileiras governamentais. Isto é, o problema é educacional. É um problema de moldar continuamente a consciência tanto do grupo dirigente como do grupo executivo, mais amplo, que fica logo abaixo dêle. - A consciência das massas precisa ser influenciada apenas de modo negativo.

Dados estes esclarecimentos, poder-se-ia inferir, se já não se conhecesse, a estrutura geral da sociedade oceânica.

No alto da pirâmide está o Grande Irmão. O Grande Irmão é onipotente. Cada sucesso, realização, vitória, descobrimento científico, tôda sabedoria, sapiência, virtude, felicidade, são atribuídos diretamente à sua liderança e inspiração. Ninguém nunca viu o Grande Irmão. É uma cara nos tapumes, uma voz das teletelas. Podemos ter râzoável certeza de que nunca morrerá, e já existe considerável incerteza da data em que nasceu. O Grande Irmão é a forma em que o Partido resolveu se apresentar ao mundo. Sua função é a de ponte focal para o amor, medo, reverência, emoções que podem mais fàcilmente ser sentidas em relação a um indivíduo do que a uma organização. Abaixo do Grande Irmão vem o Partido Interno, com seus seis milhões de membros, ou seja, menos de dois por cento da população da Oceania. Abaixo do Partido Interno vem o Externo, que pode ser chamado de mãos do Estado, se ao primeiro se atribuir o papel de cérebro. Abaixo dêle vem a massa muda a que nos referimos habitualmente por "proles" e que talvez constitua oitenta e cinco por cento da população. Nos termos da nossa classificação anterior, os proles são a Baixa, pois a população escrava das terras equatoriais, que constantemente trocam de mãos, não é parte permanente nem necessária da estrutura.

Em princípio, não é hereditária a participação em qualquer dos três grupos. Filho de pais do Partido Interno não é, em teoria, a êle filiado. A admissão a qualquer das esferas do Partido se faz por exame, prestado aos dezesseis anos. Não há nenhuma discriminação racial, nem qualquer pronunciado domínio de uma província      sôbre outra. Encontram-se judeus, negros, sul-americanos    de puro sangue índio nos postos mais elevados do Partido,     e os administradores regionais' são sempre convocados dentre os naturais da área. Em nenhuma parte da Oceania têm os        habitantes a impressão de ser colonia administrada de uma longínqua capital. A Oceania não tem capital, e o seu chefe titular é uma pessoa cujo paradeiro todos ignoram. Não é centralizada de modo algum, à exceção da língua franca, que é o inglês, e da Novilíngua, que é o idioma oficial. Seus governantes não são ligados por laços de consangüinidade mas pela obediência a uma doutrina comum. É verdade que a nossa sociedade é estratificada, e muito rigidamente, segundo o que - à primeira vista - parecem ser linhas hereditárias. Há muitíssimo menos movimento de vai e vem entre os grupos diferentes do que acontecia no capitalismo ou mesmo nos períodos pré-industriais. Entre os dois ramos do Partido existe certa dose de intercâmbio, cujo único propósito, porém, é permitir a exclusão dos fracos do Partido Interno e a neutralização dos mais ambiciosos militantes do Partido Externo, guindados a uma esfera mais elevada. Na prática, os proletários não têm direito de entrar para o Partido. Os mais

bem dotados, que poderiam se tornar núcleos de descontentamento, são simplesmente assinalados pela Polícia do Pensamento e eliminados. Mas êsse estado de coisas não é necessàriamente permanente, nem é questão de princípio. O Partido não é uma classe no antigo sentido da palavra. Não tem por objetivo transmitir o poder aos próprios filhos; e se não houvesse outro meio de conservar os mais capazes nos postos de comando, estaria perfeitamente disposto a recrutar tôda uma geração nova das fileiras do proletariado. Nos anos cruciais, muito contribuiu para neutralizar a oposição o fato de o Partido não ser um organismo hereditário. O antigo tipo de socialista, treinado a lutar contra o que às vezes se chamava "privilégio de classe," supunha que o que não fosse hereditário não podia ser permanente. Não percebia que a continuidade de uma oligarquia não precisava ser física, nem fazia pausa para refletir que as aristocracias hereditárias sempre tiveram vida curta, enquanto que organizações auto-renovantes, como a Igreja Católica, às vezes duram centenas e mesmo milhares de anos. A essência do jugo oligárquico não é a herança de pai a filho, mas a persistência de certo ponto de vista em face do mundo e de certa maneira de viver, imposta aos vivos pelos mortos. Um grupo dominante só continua mandando enquanto consegue nomear seus sucessores. O Partido não se interessa pela perpetuação do seu sangue, mas pela perpetuação da entidade. O que importa não é quem maneja o poder, contanto que permaneça sempre a mesma a estrutura hierárquica.

Tôdas as crenças, hábitos, gostos, emoções e atitudes mentais que caracterizam a nossa época são realmente destinados a sustentar a mística do Partido e impedir que se perceba a verdadeira natureza da sociedade atual. A rebelião física não é possível no momento, nem qualquer preliminar de   rebelião. Dos proletários nada há a temer. Entregues a si mesmos, continuarão, de geração em geração e de século  a século, trabalhando, procriando e morrendo, não apenas sem qualquer impulso de rebeldia, como sem capacidade de descobrir que o mundo poderia ser diferente do que é. Só poderiam ficar mais perigosos se o progresso    da técnica industrial tornasse necessário educá-los mais; porém, como a rivalidade militar e comercial não tem mais importância, declina o nível da educação popular. As opiniões das massas, ou a ausência dessas opiniões, são alvo da máxima indiferença. Não é possível dar-lhes liberdade intelectual porque não possuem intelecto. Num membro do Partido, por outro lado, não se pode tolerar nem o menor desvio de opinião a respeito do assunto menos importante.

O membro do Partido vive, do berço à cova, sob os olhos da Polícia do Pensamento. Mesmo quando está sózinho jamais pode ter certeza do seu isolamento. Onde quer que esteja, dormindo ou acordado, trabalhando ou descansando, no banho ou na cama, pode ser examinado sem aviso e sem saber que o examinam. Nada do que êle faz é indiferente. Suas amizades, seus divertimentos, sua conduta em relação a esposa e aos filhos, a expressão de seu rosto quando está só, as palavras que murmura no sono, e até os movimentos característicos do seu corpo, é tudo ciosamente analisado. É certo que descobrem não apenas as mais minúsculas infrações, como qualquer excentricidade, por pequena que seja, qualquer modificação de hábitos, qualquer maneirismo nervoso que possa ser o sintoma duma luta íntima. Não tem liberdade de escôlha em direção alguma. Por outro lado, seus atos não são regulados pela lei nem por nenhum código legal, claramente formulado. Na Oceania não existe lei. Pensamentos e atos que, descobertos, resultariam em morte certa, não são formalmente proibidos, e os intermináveis expurgos, prisões, torturas, detenções e vaporizações não são infligidos como castigo por crimes realmente cometidos, mas são apenas a liquidação de pessoas que poderiam talvez cometer um crime no futuro. O membro do Partido não só deve ter as opiniões certas, como os instintos certos. Muitas das crenças e atitudes dêle exigidas não são nunca declaradas abertamente, e não poderiam ser esmiuçadas sem pôr a nú as contradições inerentes do Ingsoc. Se for uma pessoa naturalmente ortodoxa (em Novilíngua bempensante), saberá, em tôdas as circunstâncias, sem precisar raciocinar, qual é a verdadeira crença e a emoção desejável. Mas, de qualquer maneira, um trabalhoso treino mental, a que se submeteu na infância, e que gira em tôrno das palavras novilinguísticas crimedeter, negrobranco e duplipensar, faz com que êle não tenha nem disposição nem capacidade para pensar a fundo em coisa alguma.

Espera-se que o membro do Partido não tenha emoções pessoais nem lapsos de entusiasmo. Supõe-se que viva num frenesi contínuo de ódio aos inimigos estrangeiros e aos traidores internos, de gôzo ante as vitórias e de autodegradação perante o poderio e a sabedoria do Partido. Os desconten-

tamentos produzidos por essa vida nua e insatisfatória são deliberadamente purgados e dissipados por estratagemas tais como os Dois Minutos de ódio, e as especulações que poderiam vir a induzir uma atitude de cepticismo ou de rebeldia são antecipadamente suprimidas pela disciplina aprendida na infância. O primeiro e mais simples estágio dessa disciplina, e pelo qual passam até as crianças de tenra idade, chama-se, em Novilíngua, crimedeter. Crimedeter é a faculdade de deter, de paralisar, como por instinto, no limiar, qualquer pensamento perigoso. Inclui o poder de não perceber analogias, de não conseguir observar erros de lógica, de não compreender os argumentos mais simples e hostis ao Ingsoc, e de se aborrecer ou enojar por qualquer trem de pensamentos que possa tomar rumo herético. Crimedeter, em suma, significa estupidez protetora. Mas estupidez não basta. Pelo contrário, a ortodoxia, na sua expressão lata, exige sôbre o processo mental do indivíduo controle tão completo quanto o de um contorcionista sôbre seu corpo. Em última análise, a sociedade oceânica repousa na crença de que o Grande Irmão é onipotente e o Partido infalível. Mas como na realidade nem o Grande Irmão é onipotente nem o Partido infalível, é preciso haver uma incansável flexibilidade, de momento a momento, na interpretação dos fatos. Aqui, a palavra chave é negrobranco. Como tantas outras palavras da Novilíngua, esta tem dois sentidos mútuamente contraditórios. Aplicada a um adversário, caracteriza o hábito de afirmar impudentemente que o negro é branco, em contradição aos fatos evidentes. Aplicada a um membro do Partido, significa leal disposição de dizer que o preto é branco quando o Partido o exige. Significa, também, a capacidade de acreditar que o preto é branco, e mais ainda, de saber que o preto é branco, e de acreditar que jamais se imaginou o contrário. Isto exige contínua alteração do passado, possibilitada pelo sistema de raciocínio que na verdade abrange tudo o mais, e que em Novilíngua se chama duplipensar.

A alteração do passado é necessária por duas razões, uma das quais é subsidiária e, por assim dizer, precautória. A razão subsidiária é de que o membro do Partido, como o proletário, tolera as condições atuais em parte por não possuir padrões da comparação. Deve ser isolado do passado, da mesma forma que deve ser isolado do estrangeiro, porque lhe é necessário crer que vive melhor que os ancestrais e que o nível médio de confôrto material sobe constantemente.

Todavia, a razão mais importante para o reajuste do passado é a necessidade de salvaguardar a infalibilidade do Partido. Não significa apenas que se modifiquem discursos, estatísticas e registros de todo gênero para demonstrar que as predições do Partido são sempre certas. É que não se pode admitir, jamais, nenhuma modificação de doutrina ou de agrupamento político. Mudar de idéia, ou de política, é confessar fraqueza. Se, por exemplo, a Eurásia ou a Lestásia (qualquer das duas) for a inimiga de hoje, então aquele país deve ter sido sempre o inimigo. E se os fatos dizem coisas diferentes, então é preciso alterá-los.  Assim se reescreve continuamente a história. Essa falsificação cotidiana do passado, realizada pelo Ministério da Verdade, é tão necessária à estabilidade do regime como o trabalho de repressão e espionagem levado a cabo pelo Ministério do Amor.

A mutabilidade do passado é o dogma central do Ingsoc. Argúe-se que os acontecimentos passados não têm existência objetiva, porém só sobrevivem    em registros escritos e na memória humana. O passado é o que dizem os registros e as memórias. E como o Partido tem pleno controle de todos os registros, e igualmente do cérebro dos seus membros, segue-se que o passado é o que o Partido deseja que seja. Segue-se também que embora o passado seja alterável, jamais foi alterado num caso específico. Pois quando é re-escrito na forma conveniente, a nova versão passa a ser o passado, e nada diferente pode ter existido. Isto se aplica mesmo quando, como acontece com frequência, o mesmo sucesso tem de ser alterado várias vezes no decurso de um ano. TÔdas as vezes o Partido é detentor da verdade absoluta, e claramente o absoluto não pode nunca ser diferente do que é agora, Ver-se-á que o controle do passado depende, acima de tudo, do treino da memória. Não passa de ato mecânico certificarse de que todos os registros escritos concordam com a ortodoxia do momento. Mas também é necessário recordar que os acontecimentos se deram da maneira desejada. E se for necessário rearranjar as lembranças de cada um, ou alterar os registros escritos, então é necessário esquecer que assim se procedeu. Êsse é um truque que pode ser aprendido como se aprende qualquer outra técnica mental. É aprendido pela maioria dos membros do Partido e certamente por todos que são tão inteligentes quanto ortodoxos. Em Anticlíngua chama-se, com tôda a franqueza, "controle da realidade." Em

Novilíngua, chama-se duplipensar, conquanto duplipensar abranja muita coisa mais.

Duplipensar quer dizer a capacidade de guardar simultâneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas. O intelectual do Partido sabe em que direção suas lembranças devem ser alteradas; portanto sabe que está aplicando um truque na realidade; mas pelo exercício do duplipensar êle se convence também de que a realidade não está sendo violada. O processo tem de ser consciente, ou não seria realizado com a precisão suficiente, mas também deve ser inconsciente, ou provocaria uma sensação de falsidade e, portanto, de culpa. O duplipensar é a pedra basilar do Ingsoc, já que a ação essencial do Partido é usar a fraude conscienté ao mesmo tempo que conserva a firmeza de propósito que acompanha a honestidade completa. Dizer mentiras deliberadas e nelas acreditar piamente, esquecer qualquer fato que se haja tornado inconveniente, e depois, quando de novo se tornar preciso, arrancá-lo do olvido o tempo suficiente à sua utilidade, negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo perceber a realidade que se nega - tudo isso é indispensável. Mesmo no emprêgo da palavra duplipensar é necessário duplipensar. Pois, usando-se a palavra admite-se que se está mexendo na realidade; é preciso um novo ato de duplipensar para apagar essa percepção e assim por diante, indefinidamente, a mentira sempre um passo além da realidade. Em última análise, foi por meio do duplipensar que o Partido conseguiu - e, tanto quanto sabemos, continuará, milhares de anos - deter o curso da história.

No passado, as oligarquias cairam do poder por se ossificarem ou se amolecerem. Ou se tornaram estúpidas e arrogantes, deixando de se ajustar às novas circunstâncias, e foram derribadas; ou se tornaram liberais e covardes, fizeram concessões quando deviam ter usado fôrça, e por isso foram apeadas do poder. Em outras palavras, cairam pela consciência ou a inconsciencia. A grande obra do Partido é ter produzido um sistema de pensamento no qual ambas as condições podem co-existir. Não poderia ser permanente o dominio do Partido em nenhuma outra base intelectual. Para se dominar, e continuar dominando, é preciso deslocar o sentido de realidade. Pois o segredo do mando é combinar a crença na própria infalibilidade com a capacidade de aprender com os erros anteriores.

Não há quase necessidade de dizer que os mais sutis praticantes do duplipensar são os que o inventaram e sabem que é um vasto sistema de fraude mental. Em nossa sociedade, os que têm o melhor conhecimento do que sucede são também os que estão mais longe de ver o mundo tal qual é. Em geral, quanto maior a compreensão, maior a ilusão: quanto mais inteligente, menos ajuizado. Nítida ilustração desta afirmativa é o fato da histeria de guerra aumentar de intensidade à medida que se sobe na escala social. Aqueles cuja atitude em face da guerra é mais próxima da sensatez são povos submissos dos territórios disputados. Para êles a guerra não passa de uma calamidade contínua que se diverte a jogá-los de um lado para outro como um maremoto. É-Ihes completamente indiferente saber quem está ganhando. Percebem que a mudança de donos significa apenas que farão o mesmo trabalho que antes para os novos amos, que os tratarão como os tratavam os antigos. Os operários ligeiramente mais favorecidos a que chamamos "proles" têm consciencia intermitente da guerra. Quando é necessário, são instigados e levados a frenesís de ódio e medo, mas, entregues a si próprios, são capazes de esquecer, por longos períodos, que a guerra está acontecendo. É nas fileiras do Partido, e acima de tudo do Partido Interno, que se encontra o verdadeiro entusiasmo de guerra. Acreditam na conquista do mundo, com maior firmeza, aqueles que a sabem impossível. Êsse particularíssimo amálgama de opostos - sabedoria e ignorância, cinismo e fanatismo - é um dos sinais que distínguem a sociedade oceânica. A ideologia oficial abunda em contradições mesmo onde não há para elas qualquer razão prática. Assim, o Partido rejeita e vilifica qualquer princípio originalmente defendido pelo movimento socialista, e no entanto o faz em nome do socialismo. Prega um desdém pela classe operária de que não há exemplo há muitos séculos, e todavia veste os militantes num uniforme que foi característico dos trabalhadores manuais e adotado por essa razão. Mina sistemàticamente a solidariedade da família, ao passado que dá ao seu chefe um nome que é um apelo direto ao sentimento de lealdade familiar. Até os nomes dos quatro Ministérios por que somos governados ostentam uma espécie de impudência na sua deliberada subversão dos fatos. O Ministério da Paz ocupa-se da guerra, o da Verdade com as mentiras, o do Amor com a tortura e o da Fartura com a fome. Essas contradições não são acidentais,

nem resultam de hipocrisia ordinária: são exercícios conscientes de duplipensar. Pois é só reconcíliando contradições que se pode reter indefinidamente o poder. De nenhuma outra maneira seria possível quebrar o antigo ciclo. Se é preciso impedir para sempre a igualdade humana - se, como a chamamos, a Alta deve conservar permanentemente sua posição - então a condição mental deve ser a de insânia controlada.

Mas há outra questão que, até êste momento, não consideramos. E é esta: por que se deve impedir a igualdade humana? Suponhamos que tenha sido bem descrita a mecânica do processo: qual é o motivo dêsse vasto e bem calculado esfôrço para congelar a história num determinado instante?

Aqui chegamos ao segrêdo central. Como vimos, a mística do Partido e, acima de tudo, do Partido Interno, depende do duplipensar. Mais fundo do que isto, porém, há o motivo original, o instinto jamais posto em dúvida, que primeiro levou à conquista do poder e gerou o duplipensar, a Polícia do Pensamento, a guerra contínua e todo o restante equipamento necessário. Êsse motivo realmente consiste. ..

Winston dera-se conta do silêncio, como quem percebe um novo som. Parecia-lhe que Júlia estava muito quieta havia bastante tempo. Estava deitada de lado, nua da cintura para cima, com a face apoiada na mão e um cacho de cabelo castanho caido sôbre os olhos. O peito subia e descia com regularidade.

- Júlia? Nenhuma resposta.

- Júlia,  estás acordada? Nenhuma resposta. Estava dormindo. Êle fechou o livro, pousou-o cuidadosamente no soalho, deitou-se e puxou a colcha sôbre ambos.

Refletiu que ainda não aprendera o segrêdo final. Compreendia como; ainda não entendia por que. O Capítulo I, como o III, não lhe dissera nada que já não soubesse; apenas sistematizara o conhecimento que já possuía. Mas depois de lê-lo tinha maior certeza de não estar louco. Estar em minoria, mesmo em minoria de um, não era sintoma de loucura. Havia verdade e havia mentira, e não se está louco porque se insiste em se agarrar à verdade mesmo contra o mundo todo. Um raio amarelo do sol poente penetrou em oblíqua pela janela e iluminou o travesseiro. Êle fechou os olhos.

O sol no rosto e o corpo macio da moça, encostado ao seu, davam-lhe um forte sentimento de sonolência e confiança. Estava em segurança, e tudo ia bem. Adormeceu murmurando "A sanidade mental não é questão de estatística", e com a impressão de que essas palavras continham profunda sabedoria.

Quando acordou, teve a sensação de ter dormido longo tempo, porém uma consulta ao antigo relógio mostrou-lhe que eram apenas vinte e trinta. Deixou-se ficar na cama alguns instantes. Depois, a cantoria costumeira, forte e rija, subiu do quintal:

"Foi apenas uma fantasia desesperada,

Que passou como um dia de abril,

Mas um olhar, uma palavra, e os sonhos provocados,

Roubaram o meu coração gentil!"

A cantiga pueril parecia ter conservado a popularidade. Ainda se fazia ouvir por tôda parte. Sobrevivera a Canção do ódio. Júlia acordou com o barulho, espreguiçou-se como uma gata e pulou da cama.

- Estou com fome! - anunciou. - Vamos fazer um café. Bolas! O fogareiro apagou e a água esfriou! - Apanhou o fogareiro e sacudiu-o. - Está vazio.

- Creio que o velho Charrington pode arranjar um pouco de óleo.

- O engraçado é que eu verifiquei que estava cheio. Vou me vestir - acrescentou ela. - Parece que esfriou um pouco.

Winston também se levantou e vestiu-se. A voz infatigável -cantou:

"Dizem que o tempo tudo cura,

Dizem que sempre se pode esquecer,

Mas os sorrisos e lágrimas anos a fio,

Ainda fazem meu coração sofrer."

Prendendo o cinto, êle foi até a janela. O sol devia ter-se escondido atrás das casas. Já não brilhava no quintal. Os paralelepípedos estavam molhados, como se tivessem sido lavados, e êle teve a impressão de que o céu também fôra lavado, tão fresco e pálido era o azul entre as coifas das chaminés. Incansável, a mulher marchava daqui para acolá, arrolhando e desarrolhando a bôca com os prendedores, cantando e emudecendo, estendendo mais fraldas, e mais e mais. Êle se indagou se a mulher era lavadeira profissional ou apenas a escrava de vinte ou trinta netos. Júlia viera juntar-se

a êle; juntos contemplavam, com um certo fascínio, a figura reforçada da prole. Fitando a mulher na sua atitude característica, os braços grossos alcançando o varal, as ancas      muito salientes, fortes, como as de uma égua, êle achou, pela primeira vez, que ela era bonita. Antes, nunca lhe havia ocorrido que pudesse ser belo o corpo de uma mulher de cinqüenta anos, ampliado a monstruosas dimensões pelos partos sucessivos, depois enrijada, calejada pelo trabalho até ficar grosseira como um nabo muito maduro. Mas era, e afinal, pensou êle, por que não? O corpo sólido, sem contornos, como um bloco de granito, e a pele vermelha arrepiada, representavam o mesmo, em relação ao corpo de Júlia, que o fruto de uma rosa brava junto à rosa de jardim. Por que seria o fruto considerado inferior à flor?

-   Ela é bonita! - murmurou êle.

-   Tem um metro de diâmetro, nas cadeiras - disse Júlia.

-   É o seu estilo de beleza - respondeu Winston. Êle passou o braço em tôrno da cintura fina de Júlia. Do quadril ao joelho, o flanco da moça colava-se ao dêle. Dos seus corpos não sairia filho algum. Era a única coisa que nunca poderiam fazer. Só pela palavra oral, e pela comunicação mental podiam transmitir       o segredo. A mulher do quintal não tinha mente, só tinha      braços fortes, coração quente, ventre fértil. Êle gostaría de saber quantos filhos ela tivera. Talvez quinze, fàcilmente. Tivera o seu floramento momentâneo, um ano talvez, de beleza de rosa brava, e depois, inchara de repente, como um      fruto fertilizado, tornando-se dura, vermelha e rústica, e a sua vida fôra apenas lavar, esfregar, remendar, cozinhar, varrer, polir, consertar, esfregar, lavar, primeiro para os fílhos, depois para os netos, durante trinta anos sem interrupção. E no fim ainda cantava. A reverência mística que Winston por ela sentia misturava-se, de certo modo, com o aspecto do céu pálido e sem nuvens, dilatando-se, por trás das chaminés, e atingindo distâncias intermináveis. Era curioso pensar que o céu era o mesmo para todos, na Eurásia como na Lestásia, como na Oceania. E o povo que vivia sob o céu era também muito parecido - por tÔda parte, em todo o mundo, centenas ou milhares de milhões de pessoas exatamente assim, ignorantes da existência dos outros, separadas por muralhas de ódios e mentiras, e no'entanto quase exatamente iguais - gente que nunca aprendera a pensar mas guardava no coração, no ventre e nos músculos a força que um dia revolucionaria o mundo. Se esperança havia, estava nos proles! Sem ler o livro até o fim, sabia que devia ser essa a mensagem final de Goldstein. O futuro pertencia aos proles. E poderia ter a certeza

de que, quando chegasse o momento, o mundo que construiriam não lhe seria tão alheio, a êle, a Winston Smith, quanto o mundo do Partido? Sim, porque ao menos seria um mundo de sanidade mental. Onde há igualdade, há sanidade. Mais cedo ou mais tarde aconteceria: a força se transformaria em consciência. Os proles eram imortais; não era possível duvidar-se, fitando a valente figura da mulher no pátio. Por fim chegaria o seu despertar. E até que isso acontecesse, nem que levasse mil anos para acontecer, agüentariam vivos contra tudo, como os pássaros, transmitindo de corpo a corpo a vitalidade que o Partido não possuía e que não podia matar.

- Lembras-te do tordo - perguntou êle - que cantou para nós, o primeiro dia, na borda do bosque?

- Não estava cantando para nós, - disse Júlia. - Estava cantando para se distrair. Nem isso. Apenas cantava.

Os pássaros cantavam, os proles cantavam, o Partido não cantava. No mundo inteiro, em Londres e em Nova York, na África e no Brasil e nas terras misteriosas e proibidas de além-fronteiras, nas ruas de Paris e Berlim, nas aldeias da infindável planície russa, nos bazares da China e do Japão

- em toda parte a mesma figura sólida, invencível, que o trabalho e os partos sucessivos haviam tornado monstruosa- trabalhando desde nascer até morrer, e sempre cantando. Daqueles corpos robustos viria um dia uma raça de seres conscientes. O futuro era dêles. Mas era possível participar dêsse futuro mantendo o espírito vivo como êles mantinham o corpo, e passar adiante a doutrina secreta de que dois e dois são quatro.

- Nós somos os mortos - disse êle.

- Nós somos os mortos - repetiu Júlia, lealmente.

- Vós sois os mortos - ecoou uma voz de ferro, por trás dêles.

Separaram-se num pulo. As entranhas de Winston pareciam ter gelado. Podia ver todo o branco dos olhos de Júlia. cuja face adquirira um tom amarelo leitoso. A mancha de ruge, ainda nas faces, destacava-se vivamente, como se não tocasse a pele que tinha por baixo.

Sois os mortos - repetiu a voz de ferro. Foi atrás do quadro - sussurrou Júlia.

- Foi atrás do quadro - confirmou a voz. - Ficai exatamente onde estais. Não vos mexais enquanto não receberdes ordem.

Começava, por fim começava! Nada podiam fazer, excepto olhos entrefitar nos olhos.     Correr, fugir da casa antes que fosse tarde demais - essa idéia não lhes ocorreu. Incrível desobedecer à voz de ferro   da parede. Houve um estalido, como se tivesse corrido um  ferrolho, e um tilintar de vidro quebrado. O quadro caira ao chão, revelando uma teletela.

- Agora, podem enxergar a gente - disse Júlia.

- Agora podemos vos enxergar - disse a voz. - Ficai no meio do quarto, um de costas para o outro. Juntai as mãos na nuca. Não vos toqueis.

Não se tocavam, e no entanto pareceu a Winston que podia sentir o tremor do corpo de Júlia. Ou talvez fosse o seu próprio. Mal podia impedir os dentes de chocalharem, mas os joelhos não obedeciam ao seu controle. Ouviram-se botas ferradas marchando lá baixo, dentro e fora da casa.

O pátio parecia cheio de homens. Algo parecia estar rolando sôbre o lagedo. O cântico da mulher parara abruptamente. Houve um barulho metálico, prolongado, arrastado, como se a tina de roupa tivesse sido jogada de um lado a outro do quintal. Depois uma confusão de gritos furiosos que acabaram num uivo de dor.

- A casa está cercada - disse Winston.

- A casa está cercada - repetiu a voz. Ouviu Júlia trincar os dentes.

Creio que é melhor a gente se despedir      disse éla. É melhor vos despedirdes - disse a voz. E depois üma voz completamente diferente, fina, culta, e que deu a Wínston a impressão de já a haver ouvido nalguma parte:

- E por   falar nisso, já que falamos do assunto, Aí vem uma luz para te levar para a cama, Aí vem um machado para te cortar a cabeça!'

Algo caíra na cama, por trás de Winston. A ponta de uma escada fôra metida pela vidraça e quebrara o caixilho. Alguém entrava pela janela. Ouviu-se um tropel de botas que subiam por dentro da casa. O quarto encheu-se de homens robustos, de uniformes negros, botas ferradas nos pés e bastões nas mãos.

Winston já não tremia. Mal mexia os olhos. Só uma coisa lhe importava: ficar muito quieto, ficar imóvel, para não lhes dar pretexto para espancá-lo! Um homem de cara lisa, de pugilista, em que a boca não passava de uma frincha, parou diante dêle, brandindo o bastão com ar pensativo. Winston fitou-o nos olhos. Era quase insuportável a impressão de nudez, as mãos na nuca, o rosto e o corpo expostos.

O homem mostrou a ponta da língua branca, umedeceu o lugar onde deveriam estar os lábios, e passou adiante. Houve outro estrondo. Alguém apanhara o peso de papel da mesa e o arrebentara de encontro à lareira.

O fragmento de coral, uma partícula crespa de rosa, como um enfeite de bolo, rolou pelo capacho. Que pequenino, pensou Winston, como sempre fôra     pequenino! Houve uma exclamação e um baque, atrás dêle, e levou um pontapé no tornozelo que quase o fez perder o   equilíbrio. Um dos homens desferira um murro no plexo     de Júlia, fazendo-a dobrar-se em dois como um canivete. Rolava pelo chão, ofegante. Winston não ousava virar a cabeça nem um milímetro, mas de vez em quando o rosto lívido da moça entrava no seu campo de visão. Em meio ao seu terror, tinha a impressão de poder sentir a dor no seu próprio corpo, a dor fatal que no entanto era menos ansiosa que a luta de Júlia para recobrar o fôlego. Êle sabia como era: a dor terrível, agoniante, presente o tempo todo mas que não podia ainda ser sofrida porque, antes de tudo, era necessário respirar. Então dois homens a suspenderam pelos ombros e joelhos e a levaram para fora do quarto, como um saco. Winston viu-a de relance, cabeça para baixo, amarela e contorcida, olhos fechados, e ainda com uma mancha de ruge em cada face; foi a última vez que viu Júlia.

Continuou imóvel. Ainda ninguém o esbordoara. Pensamentos que surgiam por si mesmos, mas que pareciam totalmente desinteressantes, começaram a revolutear na sua cabeça. Teriam apanhado também o sr. Charrington? Que teriam feito com a lavadeira do quintal? Reparou que tinha urgente vontade de urinar, e sentiu-se ligeiramente surpreso, porque se aliviara havia apenas duas ou três horas. Observou que o velho relógio da lareira marcava nove, significando vinte e uma horas. Mas a luz lhe parecia forte demais. Já não deveria estar esmorecendo às vinte e uma, em agosto? Seria possível que êle e Júlia se tivessem enganado - dormido mais de 10 horas e acreditado que fossem vinte e trinta quando na verdade eram oito e trinta da manhã seguinte? Não prosseguiu no raciocínio. Não interessava.

Outro passo, mais ligeiro, se fez ouvir no corredor. O sr. Charrington entrou no quarto. De repente, tornou-se mais cortês a conduta dos homens de uniforme negro. Na aparência do sr. Charrington algo também se modificara. Seu olhar tombou sôbre os fragmentos do peso de papéis.

- Recolhe êsses pedaços - disse, imperiosamente.

O homem abaixou-se e obedeceu. O sotaque londrino desaparecera; Winston repentinamente percebeu de quem era a voz que ouvira, não havia muito, pela teletela. O sr. Charrington ainda usava o paletó de veludo velho; mas o cabelo, antes quase todo grisalho, enegrecera de novo. Não usava mais óculos. Lançou a Winston um olhar único, percuciente, como se lhe verificasse a identidade, e não tornou a lhe dar atenção. Ainda era reconhecível, mas não era mais a mesma pessoa.  O corpo se endireitara e êle parecia maior, mais alto. A face sofrera apenas modificações minúsculas que, no entanto, haviam operado completa transformação. As sobrancelhas negras eram menos bastas, as rugas tinham sumido, e tôda a fisionomia parecera se alterar; até o nariz parecia mais curto. Era o rosto alerta e frio de um homem de seus trinta e cinco anos. E a Winston ocorreu que pela primeira vez na vida punha os olhos num componente da Polícia do Pensamento.

18

NÃO SABIA ONDE ESTAVA.     PRESUMIVELMENTE NO Ministério do Amor; mas não havia jeito de o verificar.

Encontrava-se numa cela de alto pé-direito, sem janelas, de paredes de porcelana branca e brilhante. Lâmpadas ocultas inundavam-na de luz fria, e havia um zumbido baixo, constante, que êle supôs ter relação com o sistema de ar. Um banco, ou prateleira, de largura apenas suficiente para se sentar, circundava tôda a parede, interrompendo-se apenas na porta e, em frente à porta, um vaso de privada, sem tampo. Havia quatro teletelas, uma em cada parede.

Sentia uma dor surda na barriga. Sofria desde que o haviam metido no caminhão fechado e levado embora. Mas também sentia fome, uma fome horrível, devoradora. Vinte e quatro horas talvez se haviam passado desde que comera por último, quem sabe, trinta e seis. Ainda não sabia, provàvelmente jamais saberia, se fôra preso de manhã ou de noite. E desde que fôra preso não lhe haviam dado de comer.

Estava sentado, tão imóvel quanto possível, no banco estreito, as mãos pousadas nos joelhos. Já aprendera a sentar quieto. Se fizesse movimentos inesperados, gritavam-lhe da teletela. Mas a fome crescia. O que mais ambicionava era um pedaço de pão. Teve a idéia de que sobravam umas migalhas nos bolsos da roupa. Era possível até - pensava nisso porque de vez em quando algo lhe parecia fazer cócegas na perna - que tivesse um bom pedaço de côdea. Por fim, a tentação venceu o medo. Meteu a mão no bolsão.

Smith! - berrou uma voz da teletela. - 6079 Smith W! Tira a mão do bolso!

Tornou a ficar imóvel, mãos cruzadas no joelho. Antes de ter sido levado para ali, haviam-no conduzido a outro lugar, que devia ser uma prisão comum, ou um depósito

temporário utilizado pela patrulha. Não sabia quanto tempo lá ficara; algumas horas, ao menos; sem relógio e sem luz do sol era difícil calcular o tempo. Era um lugar barulhento, mal cheiroso. Tinham-no trancafiado numa cela semelhante à que estava agora, mas imunda, e às vezes cheia, com dez ou quinze pessoas. A maioria era de criminosos comuns, porém havia alguns presos políticos. Êle sentara-se em silêncio junto à parede, roçado pelos corpos sujos, muito cheio de medo e de dor de- barriga para se interessar pelo ambiente, mas ainda notando a tremenda diferença de comportamento entre os presos do Partido e os outros. Os presos do Partido estavam sempre calados e aterrorizados, porém os criminosos comuns pareciam não ligar a mínima a ninguém. Insultavam os guardas aos gritos, resistiam desesperadamente quando os seus bens eram arrolados, escreviam palavras obscenas no chão, comiam alimento contrabandeado que tiravam de misteriosos esconderijos das roupas, e até faziam as teletelas calar, gritando em uníssono, quando o aparelho tentava restaurar a ordem. Por outro lado, alguns pareciam ter boas relações com os guardas, a quem chamavam por apelidos, e tentavam passar cigarros pela vigia da porta. Os guardas, também, tratavam os criminosos comuns com certo respeito, mesmo quando lhes davam uns safanões. Falava-se muito dos campos de trabalhos forçados, aos quais a maioria dos prisioneiros esperava ser enviada. "Tudo azul" nos campos, afirmaram-lhe, contanto que tivesse bons contactos e conhecesse os truques. Havia suborno, favoritismo e roubalheira de todo gênero, havia homossexualidade e prostituição, havia até álcool ilícito, distilado de batatas. Os cargos de confiança eram dados apenas aos criminosos comuns, especialmente gangsters e os assassinos, que formavam uma espécie de aristocracia. Todo trabalho sujo era feito pelos políticos.

Havia um contínuo fluxo e refluxo de presos de todo gênero: vendedores de entorpecentes, ladrões, bandidos, mercadonegristas, bêbados, prostitutas. Alguns bêbados eram tão violentos que os companheiros de cela tinham de juntar forças para dominá-los. Uma mulheraça de uns sessenta anos, de enormes seios como pêndulos, e grossas melenas de cabelo branco esgrouviado, foi levada para a cela, gritando e dando pontapés, por quatro guardas que a seguravam pelos braços e pernas. Arrancaram as botinas com que ela tentara atingi-los e jogaram-na no colo de Winston, quase quebrando seus fêmures. @A mulher ergueu-se e cumprimentou-lhes a saída com um grito de "Filhos da p... !" Depois, percebendo que estava sentada nalguma coisa incômoda, escorreu dos joelhos de Winston para o banco.

- Desculpe, queridinho. Eu não sentaria em cima de você, foram os sacanas que me botaram aí. Não sabem nem tratar uma senhora, sabem? - Fez uma pausa, bateu no peito, e arrotou. - Perdão, não estou me sentindo muito bem.

Curvou-se para frente e vomitou copiosamente no chão.

- Tá melhor, assim - disse, tornando a endireitar-se, fechando os olhos. - Nunca segurar a vontade, é o que eu digo. Soltar tudo enquanto está fresco no estômago.

Retemperou-se, tornou a olhar para Winston e ímediatamente pareceu ter simpatizado com êle. Passou por seus ombros um braço enorme e puxou-o para perto, fungando cerveja e vômito na cara dêle.

Como é seu nome, queridinho? Smith. Smith? Engraçado! Meu nome também é Smith! -

E acrescentou, sentimental: - Eu podia ser sua mãe!

Podia, pensou Winston. Tinha mais ou menos a idade e o físico, e era provável que as pessoas mudassem muito em vinte e cinco anos de trabalhos forçados.

Ninguém mais lhe falara. Surpreendentemente, os criminosos comuns nem tomavam conhecimento dos políticos, a quem chamavam de "politiqueiros," com uma espécie de desprezo desinteressado. Os prisioneiros do Partido pareciam amedrontados demais para falar a quem quer que fosse, principalmente aos companheiros de infortúnio. Só uma vez, quando duas militantes foram apertadas de encontro ao banco é que êle entreouviu, em meio ao vozerio geral, umas palavras sussurradas à pressa; e em particular uma referência, que não compreendeu, à sala "um-zero-um".

Havia talvez duas ou três horas que o tinham levado para ali. Não o largava a dor surda da barriga, que no entanto ora melhorava, ora piorava, e os seus pensamentos se expandiam ou contraíam. Quando piorava, só pensava na dor, e no seu desêjo de comer. Quando melhorava, dominava-o um medo pânico. Havia momentos em que com tamanha clareza previa o que lhe ia acontecer, que o coração galopava e parava de respirar. Sentia o golpe dos bastões nos cotovelos e das botas ferradas nas canelas; via-se rojando no chão, pedindo misericórdia aos gritos, por entre os dentes

partidos. Mal pensava em Júlia. Não podia fixar a mente em Júlia. Amava-a e não a trairia; mas era apenas um fato, sabido como as leis da matemática. Não sentia amor por ela, e quase não tinha vontade de saber o que lhe estava acontecendo. Com muito maior frequência pensava em O'Brien, com um raio de esperança. O'Brien devia saber que êle fôra preso. A Fraternidade, dissera êle, nunca procurava salvar seus membros. Mas havia a lâmina de barba; mandariam uma lâmina, se pudessem. Cinco segundos talvez se passassem antes dos guardas poderem levá-lo para a cela. A lâmina haveria de mordê-lo com uma espécie de frieza de queimar, e os dedos que a segurassem seriam lanhados até o osso. Tudo voltava ao corpo doente, que se encolhia, trêmulo, ante a menor dor. Não tinha certeza de usar lâmina, mesmo  que tivesse tempo. Seria mais natural existir de momento a momento, aceitar mais dez minutos de vida mesmo com a certeza de mais tortura.

Às vezes, tentava calcular o número de tijolos de porcelana nas paredes da céla. Não seria difícil, porém sempre perdia a conta num ponto ou noutro. O mais das vezes perguntava a si mesmo onde estaria, e que horas seriam. Ora tinha a certeza de ser dia claro lá fora, ora sentia igual certeza de ser noite fechada. Sabia instintivamente que naquele lugar as luzes jamais apagariam. Era o lugar sem treva: agora via porque O'Brien parecera reconhecer a alusão. No Ministério do Amor não havia janelas. Sua cela podia ser no meio do edifício, ou junto a uma parede externa; podia ser dez andares abaixo do solo, ou trinta acima. Deslocava-se mentalmente de um lugar para outro, tentando determinar sensoriamente se estava num andar alto ou enterrado num subsolo.

De fóra se ouviu o ruido de botas marchando. A porta de aço abriu-se com estrépito. Um jovem oficial, uma figura esbelta, de uniforme negro que brilhava nos couros polidos, e cujo rosto magro parecia uma máscara de cera, cruzou o limiar. Fez um gesto aos guardas, mandando que trouxessem o preso. O poeta Ampleforth foi atirado dentro da cela. A porta tornou a fechar-se com ruido.

Ampleforth fez um ou dois movimentos incertos, de um lado para outro, como se imaginasse haver outra porta de saída; depois começou a vaguear pela cela. Ainda não percebera a presença de Winston. Seu olhar perturbado examinava a parede, a um metro acima da cabeça de Winston.

Não tinha sapatos e os artelhos grandes e sujos escapavam pelos buracos das meias. Também fazia vários dias que não se barbeava. Uma barba rala cobria-lhe as faces, dando-lhe um ar de rufião que destoava do corpanzil balofo e dos seus movimentos nervosos.

Winston sacudiu um pouco da sua letargia. Devia falar com Ampleforth, e arriscar-se a um grito da teletela. Era até concebível que Ampleforth lhe trouxesse a lâmina.

- Ampleforth - chamou. Não houve berro da teletela. Ampleforth parou, um tanto assustado. Lentamente, focalizou os olhos em Winston.

- Ah, Smith! Tu também?

- Por que te prenderam?

- Para te dizer a verdade. . . - sentou-se desajeitado no banco diante de Winston. - Só há um delito, não é?

- E o cometeste?

- Aparentemente. Levou a mão à testa e apertou as têmporas por um momento, como se tentasse recordar de algo.

- Essas coisas acontecem, - começou, vagamente. -

Consegui recordar um caso... um caso possível. Foi uma indiscrição, sem dúvida. Estávamos produzindo uma edição definitiva dos poemas de Kipling. Deixei que a palavra "Deus" ficasse no fim de um verso. Não pude evitá-lo! -acrescentou, quase indignado, levantando o olhar para Winston. - Era impossível modificar o verso. A rima era "seus." Durante dias e dias quebrei a cabeça. Não havia outra rima possível.

Modificou-se a expressão de seu rosto.      Sumira-se o desgosto, e por um momento êle pareceu quase satisfeito. Uma espécie de calor intelectual, a alegria do pedante que descobriu um fato inútil, brilhava por entre os pelos sujos e crescidos.

- Já te ocorreu que tôda a história da poesia inglêsa foi determinada pelo fato de escassearem as rimas?

Não, aquilo jamais ocorrera a Winston. E, na circunstância em que se encontrava, não lhe pareceu muito importante nem interessante.

- Sabes que horas são? - indagou. Ampleforth tornou a olhá-lo espantado.

- Nem pensei nisso. Prenderam-me... há uns dois ou três dias. - Seus olhos rodearam as paredes, como se esperasse encontrar uma janela nalguma parte. - Neste

lugar não há diferença entre noite e dia. Não sei como se pode calcular o tempo.

Conversaram sem propósito alguns minutos e então, sem razão aparente, um grito da teletela mandou que se calassem. Winston sentou-se quieto, braços cruzados. Ampleforth, muito grande para sentar-se cômodamente no banco estreito, a todo momento mudava de posição, segurando com as mãos ossudas ora um joelho ora outro. A teletela bradoulhe que ficasse quieto. Passou-se o tempo. Vinte minutos, uma hora - era difícil julgar. De novo se ouviu o barulho de botas lá fora. As entranhas de Winston se contraíram. Breve, muito breve, talvez dali a cinco minutos, talvez naquele instante, o barulho das botas traria a notícia de que chegara sua vez.

A porta abriu-se. O oficial de cara fria entrou na cela. Com a mão indicou Ampleforth.

- Sala 101 - ordenou. Ampleforth saiu marchando desàjeitado entre os guardas, fisionomia vagamente perturbada, mas sem compreender.

Passou-se um período que pareceu longo. Voltara a dor na barriga de Winston. Seu pensamento insistia em cair nos mesmos sulcos, como uma bola que repetidas vezes cai nos mesmos buracos. Tinha apenas seis idéias. A dor na barriga; um pedaço de pão; sangue e grito; O'Brien; Júlia; a lâmina de barba. Houve novo espasmo nas entranhas. As botas ferradas aproximavam-se. Quando a porta se abriu, a corrente que fez trouxe uma onda de cheiro penetrante de suor frio. Parsons entrou na cela. Estava de shorts caqui e camisa esporte.

Desta vez Winston ficou tão assombrado que esqueceu suas mazelas.

- Tu aqui! - exclamou. Parsons lançou a Winston um olhar em que não havía nem interêsse nem surpresa, mas apenas aflição. Pôs-se a andar nervoso para um lado e outro, evidentemente incapaz de ficar imóvel. Cada vez que endireitava os joelhos gorduchos via-se que tremiam. Tinha os olhos arregalados, como se não conseguisse desviar a vista de alguma coisa à distância.

- Por que te trouxeram? - perguntou Winston.

- Crimidéia! - respondeu Parsons, quase soluçando.

O tom de sua voz implicava ao mesmo tempo completa admissão de culpa e uma espécie de horror incrédulo de que tal palavra pudesse aplicar-se a êle. Parou diante de Winston e pôs-se a apelar para êle, ansioso: - Achas que me fusilam, hein, velhinho? Não fusilam a gente que não fez nada mal, hein... só pensou, e quem segura o pensamento? Sei que fazem justiça. Oh, eu tenho confiança na justiça! Conhecem a minha ficha, não conhecem? Tu sabes quem eu era. Não era mau sujeito. Não tinha muita inteligência, mas tinha boa vontade. Fazia o que podia pelo Partido, não fazia? Será que me livro com cinco anos? Ou dez? Um sujeito como eu podia ser muito útil num campo de trabalhos. Achas que me fusilam por ter descarrilado uma vez só?

- És culpado?

- Naturalmente sou! - gritou Parsons, com uma olhadela servil à placa de metal. - Não crês que o Partido prenda inocentes? - A cara de rã acalmou-se um pouco, chegou a tomar uma expressão sentimonial. - Crimidéia é uma coisa horrível, velho - afirmou, sentencioso. - É insidiosa. Pode te pegar sem que te dês conta. Sabes como foi que me pegou? No sono. Sim, é fato. Lá estava eu, trabalhando duro, procurando fazer meu dever, sem nunca saber que tivesse nada de 'mau na cabeça. E daí comecei a falar dormindo. Sabes o que me ouviram dizendo?

Baixou a voz, como alguém que se vê obrigado a pronunciar uma obscenidade, por ordem do médico ou do juiz.

- Abaixo o Grande Irmão! Sim, foi o que eu disse. E disse muitas vezes, ao que parece. Cá entre nós, meu velho, ainda bem que me pegaram antes que fosse além. Sabes o que vou dizer a êles quando comparecer no tribunal? "Obrigado," direi, "obrigado por me salvarem antes que fosse tarde demais."

- Quem te denunciou? - perguntou Winston.

- Mnha filhinha - respondeu Parsons, com uma espécie de melancólico orgulho. - Escutou pelo buraco da fechadura. Ouviu o que eu disse e contou às patrulhas no dia seguinte. Sabidinha aquela guria de sete anos, hein? Não me queixo dela. Com efeito, tenho orgulho dela. Mostra, afinal, que lhe ensinei o que devia.

Deu mais algumas passadas para um lado e outro, olhando várias vezes a privada, de soslaio. De repente, arriou os calções.

-   Desculpe, velho. Não posso mais. É a espera. Pousou o volumoso trazeiro no vaso da privada. Winston cobriu o rosto com as mãos.

- Smith! - gritou a voz da teletela. - 6079 Smith W! Descobre o rosto! Nada de esconder o rosto!

Winston descobriu o rosto. Parsons usou o lavatório, ruidosa e abundantemente. Verificou-se depois que a descarga es 'tava defeituosa, e a cela fedeu abominàvelmente durante muitas horas.

Parsons foi removido. Outros presos chegaram e partiram misteriosamente. Uma presa foi destinada à "Sala 101" e pareceu encolher-se e mudar de côr quando ouviu a ordem. Chegou um momento em que, se o tivessem levado ali de manhã, seria de tarde; se o tivessem levado de tarde seria meia-noite. Havia na cela seis presos, entre homens e mulheres. Todos sentados, calados e imóveis. Diante de Winston estava um homem sem queixo e sem dentes que parecia exatamente um grande roedor inofensivo.           Suas bochechas gordas e flácidas pareciam guardar comida, e os olhos cinza pálido saltavam timidamente de rosto em rosto, fugindo à pressa quando encontravam os de outrem.

A porta abriu-se e apareceu outro prisioneiro cujo aspecto deu um arrepio em Winston. Era um homem comum, de aparência medíocre, que poderia ser engenheiro ou técnico dalguma coisa. O que espantava.era a magreza do seu rosto. Parecia uma caveira. Por causa da magreza, a boca e os olhos tinham ficado desproporcionais, e os olhos pareciam cheios de ódio homicida, incontrolável, a' alguém ou alguma coisa.

O homem sentou-se no banco a pequena distância de Winston. Êle não tornou a olhá-lo, porém enxergava a cabeça atormentada, escaveirada, como se a tivesse diante de si. De repente descobriu do que se tratava. O homem estava morrendo de fome. A mesma idéia deve ter ocorrido quase simultâneamente a todos na cela. Houve um ligeiro movimento no banco inteiro. Os olhos do homem sem queixo pousavam a medo no escaveirádo e logo fugiam, como envergonhados; mas a atração 'era irresistível. Dali a pouco, começou a remexer-se no banco. Por fim levantou-se, atravessou a cela desajeitado, meteu a mão no bolso do macacão e, com ar émbaraçado, estendeu um pedaço de pão sujo ao homem-caveira.

Houve um rugido furioso, ensurdecedor, da teletela. O sem queixo recuou num pulo. O homem-caveira escondera as mãos nas costas, como se a demonstrar ao mundo que recusava o presente.

- Bumstead! rugiu a voz. - 2713 Bumstead J! Solta êsse pedaço de pão!

O homem sem queixo derrubou o pão.

- Fica de pé onde estás - comandou a voz. - Olha para a porta. Não te mexas.

O homem obedeceu. As grandes bochechas flácidas tremiam  sem controle. A porta abriu-se com estrépito. O jovem oficial entrou e afastou-se para o lado, dando passagem a um guarda baixo e atarracado,'com enormes braços e ombros. Postou-se diante do homem e então, a um sinal do oficial, vibrou tremendo murro na boca sem queixo. A força foi tamanha que a vítima pareceu voar. O corpo foi lançado do outro lado da cela, chocando-se na base da privada. Por um momento, ali ficou, o sangue escuro escorrendo da boca e do nariz. Um gemido muito débil, que parecia inconsciente, se fez ouvir. Depois rolou e levantou-se hesitante, apoiando-se nas mãos e joelhos. Numa torrente de sangue e saliva, cairam-lhe da boca as duas metades da dentadura.

Os presos deixaram-se ficar, imóveis, mãos postas nos joelhos. O homem sem queixo voltou para o seu lugar. De um lado, a carne do rosto estava escurecendo. A boca inchara, transformando-se numa massa informe, côr de cereja, com um orifício negro no meio. De vez em quando um pouco de sangue pingava no peito do macacão. Seus olhos cinzentos continuavam a saltar de face em face, mais culpados que nunca, como se tentasse descobrir até onde o desprezavam os outros, pela sua humilhação.

A porta abriu-se. Com um pequeno gesto o oficial indicou o homem de cara de caveira.

- Sala 101. Ao lado de Winston houve uma exclamação e um movimento brusco. O homem atirara-se de joelhos ao chão, e erguia as mãos postas.

- Camarada! Oficial! - exclamou. - Não tens que me levar para aquele lugar. Já não te disse tudo? Que mais queres saber? Confessei tudo, não sobrou nada. Dize-me o que queres que eu confesso. Escreve e eu assino... qualquer coisa! Mas não a sala 101!

- Sala 101 - repetiu o oficial. A cara do homem, já muito pálido, ficou duma côr que Winston não acreditava possível. Era um tom verde, positivo, inconfundível.

- Faze comigo o que quiseres! - urrou. - Há semanas que venho passando fome. Deixa-me morrer de fome. Fusila-me, enforca-me. Condena-me a vinte e cinco anos. Alguém mais que queres que eu denuncie? Dize o nome e eu confesso imediatamente. Não me importa quem seja, nem o que faças com êle. Tenho mulher e três filhos. O mais velho ainda não tem seis anos. Podes pegar todos êles e degolá-los na minha frente, que eu olho sem virar a cabeça. Mas a sala 101, não!

- Sala 101.

O homem, frenético, olhou em torno, examinando os outros presos, como se acreditasse poder oferecer outra vitima no seu lugar. Seus olhos pousaram na face ensanguentada do homem sem queixo. Estendeu o braço esquelético. É aquele que deves levar, e não eu! - gritou. - Não ouviste o que êle disse depois que o esmurraram. Dá-me uma oportunidade e eu te contarei tudo, palavra por palavra. É êle que é contra o Partido, eu não! - Os guardas deram um passo à frente. A voz do homem elevou-se a um urro.

- Não ouviste o que êle disse! - repetiu. - A teletela não estava funcionando direito. É êle que queres. Leva-o, não a mim!

Os dois guardas robustos iam tomá-lo pelos braços, mas nesse momento exato êle se atirou ao chão da cela e agarrouse a uma das pernas de ferro que amparava o banco. Pôs-se a uivar, como um animal. Os guardas seguraram-no, para puxá-lo dali, mas êle resistiu com força espantosa. Durante uns vinte segundos, talvez, os dois atletas forcejaram. Os presos continuavam sentados, imóveis, olhando para frente. Os uivos pararam; o homem não tinha fôlego para outra coisa, além de segurar-se. Ouviu-se então um brado diferente. Um pontapé de um dos guardas partira-lhe os dedos da mão. Obrigaram-no a levantar-se.

- Sala 101 - repetiu o oficial.

O homem foi levado embora, cambaleando, cabisbaixo e alisando a mão esmagada.

Passou-se muito tempo. Se o homem caveira tivesse sido levado à meia-noite, era de manhã; se o fosse de manhã, era de tarde. Winston estava só, e assim tinha permanecido algumas horas. A dor de sentar-se no banco estreito era tanta que por fim êle se levantou e passeou um pouco, sem que a teletela o censurasse. O pedacinho de pão estava ainda onde o outro a derrubara. A princípio, foi preciso um grande esfôrço para não o olhar mas depois a fome deu lugar à sêde. Sentia um gosto ruim na boca pastosa. O zumbido constante e a luz branca tinham provocado uma espécie de fraqueza, uma sensação de vazio na cabeça. Levantava-se porque não podia mais agüentar a dor nos ossos, e então tornava a sentar-se, quase imediatamente, porque se sentia tonto demais para ficar de pé. O terror voltava sempre que conseguia controlar um pouco suas sensações físicas. Às vezes, com diminuida esperança, pensava em O'Brien e na lâmina de barba. Era imaginável que viesse escondida na comida, se é que lhe iam dar de comer. Pensou vagamente em Júlia. Devia estar sofrendo nalguma parte, talvez mais do que êle. Talvez estivesse gritando de dor, naquele instante. Imaginou: "Se eu pudesse salvar Júlia dobrando a minha dor, seria capaz? Sim, seria." Mas não passava de uma decisão intelectual, tomada por saber que devia tomá-la. Não a sentia. Naquele lugar não era possível sentir nada, excepto dor e presciência da dor. Além disso, era possível desejar, por qualquer motivo, que a dor aumentasse, quando já a sofria bastante? Era uma pergunta que ainda não podia responder.

As botas fizeram-se ouvir de novo. A porta abriu-se. O'Brien entrou.

Winston levantou-se num pulo. O choque baniu todas suas precauções. Pela primeira vez, em muitos anos, esqueceu-se da presença da teletela.

- Também te pegaram! - exclamou.

- Pegaram-me há muito tempo - disse O'Brien, com leve ironia, quase arrependida. Deu um passo para o lado e por trás dêle apareceu um guarda- de peito largo, com um longo bastão negro na mão.

- Sabias disto - disse O'Brien. - Não te iludas, Winston. Sabias... sempre soubeste.

Sim, êle agora via que sempre o soubera. Mas não houve tempo para pensar. Só tinha olhos para o bastão do guarda. Podia cair em qualquer parte: no alto da cabeça, na ponta da orelha, no braço, no cotovelo...

O cotovelo! Caira de joelhos, quase paralisado, protegendo com a mão o cotovelo atingido. Tudo explodira numa luz amarela. Inconcebível, inconcebível que um só golpe produzisse tamanha dor! O amarelo se foí e êle pôde enxer-

gár os dois a contemplá-lo. O guarda ria-se das suas contorções. Ao menos uma dúvida fôra esclarecida. Nunca, por nenhuma razão, se poderia desejar que a dor aumentasse. Da dor, só se podia desejar uma coisa, que parasse. Nada no mundo era tão horrível como a dor física. Em face da dor não há heróis, não há heróis, êle pensou e tornou a pensar, torcendo-se no chão, segurando à toa o braço esquerdo invalidado.

19

Estava deitado nalguma coisa que parecia uma cama de campanha, mais alta porém e sobre a qual estava fixado de maneira a não poder se mexer. Caía-lhe no rosto uma luz que parecia mais forte que a habitual. O'Brien estava de pé junto dêle, fitando-o atentamente. Do outro lado havia um homem de avental branco, segurando uma seringa de injeção.

Mesmo depois de abrir os olhos só aos poucos foi compreendendo a forma das coisas. Tinha a impressão de ter chegado ali a nado, vindo de um mundo muito diferente, um distante mundo subaquático. Quanto tempo estaria ali, não sabia. Desde o momento da prisão não vira nem trevas nem a luz do dia. Além disso, sua memória não era contínua. Havia momentos em que a consciencia, mesmo a consciência que se tem durante o sono, se interrompera de todo, recomeçando depois de um intervalo em branco. E não havia meio de saber se êsses intervalos eram de dias, semanas ou apenas segundos.

O pesadelo começara por aquele primeiro golpe no cotovelo. Mais tarde, verificaria que aquilo tudo não passava de preliminar, de interrogatório rotineiro, a que todos os presos eram submetidos. Havia uma longa série de crimes- espionagem, sabotagem, etcétera - que todo mundo devia confessar, por praxe. A confissão era uma formalidade, embora a tortura fosse real. Quantas vezes fôra espancado, e durante quanto tempo, não conseguia se lembrar. Havia sempre cinco ou seis homens de uniforme negro ocupados com êle, simultâneamente. Às vezes eram os punhos, outras os bastões, ou varas de aço, ou botas. Ocasiões havia em que rolava pelo chão, desavergonhadamente, como um animal,

encolhendo o corpo daqui e dali, num esforço infindo, inútil, de fugir aos pontapés, e com isso apenas atraindo mais e mais coices, nas costelas, na barriga, nos cotovelos, nas canelas, nas vírilhas, nos testículos, no cócix. Havia ocasiões em que a pancadaria continuava longamente, até o cruel, perverso, imperdoável, não ser mais a brutalidade dos guardas, mas o fato de não poder perder os sentidos à vontade. Doutras, a coragem de tal modo lhe fugia que começava a implorar miserícórdia antes dos golpes começarem, e quando a simples vista de um punho fechado era suficiente para levá-lo a confessar  um chorrilho de crimes reais e imaginários. Havia vezes em que começava com a decisão de nada confessar, em que cada   palavra lhe tinha de ser arrancada entre gemidos de dor, e outras em que tentava débilmente resistir mais um pouco, dizendo: "Confessarei, mas ainda não. Devo agüentar até que a dor se torne insuportável. Mais três pontapés, mais dois, e então direi o    que querem." Freqüentemente, era espancado até não poder mais se suster em pé, sendo então atirado como um saco de batatas ao chão de pedra duma cela; depois de recobrar-se algumas horas, levavam-no de novo e tornavam a bater-lhe. Havia também períodos mais longos de repouso. Lembrava-se vagamente dêles, porque os passava dormindo ou numa espécie de estupor. Lembrava-se duma cela como uma cama de tábua, uma espécie de prateleira embutida na parede, uma bacia de folha, e refeições de sopa quente, pão e às vezes café. Lembrava-se de um barbeiro carrancudo que lhe cortou o cabelo e escanhoou o queixo, e homens antipáticos, muito ativos nos seus aventais brancos, a tomar-lhe o pulso, anotar-lhe os reflexos, revirar-lhe as pálpebras, apalpar-lhe o corpo todo à cata de fraturas, e a enterrar-lhe agulhas no braço para fazê-lo dormir.

Os espancamentos diminuiram, e tornaram-se mais uma ameaça, um horror a que poderia ser recambiado a qualquer momento se suas respostas não satisfizessem. Agora, os inquisidores 'não eram os monstros de uniforme negro, mas intelectuais do Partido, homenzinhos rotundos de movimentos rápidos e óculos brilhantes, que se ocupavam dêle em rodizio durante períodos que duravam - êle calculou, sem certeza - dez e doze horas, sem interrupção. Êsses interrogadores providenciavam para êle que sentisse uma dor constante, embora ligeira; mas não era a dor a sua maior arma. Davam-lhe tapas na cara, torciam-lhe as orelhas, puxavam-lhe o cabelo, obrigavam-no a ficar de pé numa só perna, recusavam-se a dar licença para urinar, focavam lâmpadas fortes nos seus olhos, até lacrimejarem; porém o propósito disto tudo era apenas humilhá-lo e destruir-lhe o poder de raciocínio e argumentação. Sua verdadeira arma era o interrogatório impiedoso que continuava, hora após hora, arquitetando armadilhas, fazendo-o tropeçar aqui e ali, torcendo tudo quanto dissesse, condenando-o a cada passo pelas suas mentiras e contradições, até êle começar a chorar, tanto de vergonha como de fadiga nervosa. Freqüentemente, faziam-no chorar até meia-dúzia de vezes numa única sessão. A maior parte do tempo insultavam-no aos brados e, a cada hesitação, o ameaçavam de devolução aos guardas; havia também momentos em que de repente mudavam de tom, chamavam-no camarada, apelavam para êle em nome do Ingsoc e do Grande Irmão, e lhe perguntavam patèticamente se não tinha suficiente lealdade ao Partido para desejar desfazer o mal que fizera. Quando tinha os nervos em frangalhos, depois de horas e horas de interrogatório, até êsse apelo podia reduzi-lo a um chôro fungado. Por fim, as vozes insistentes o venciam mais completamente do que as botas e os punhos dos guardas. Tornou-se apenas uma bôca que dizia, uma mão que assinava, tudo quanto lhe fosse exigido. Sua única preocupação era descobrir o que desejavam que confessasse e confessar depressa, antes que a tortura recomeçasse. Confessou o assassinio de eminentes membros do Partido, a distribuição de panfletos sediciosos, desfalque de fundos públicos, venda de segredos militares, sabotagem de todo gênero. Confessou ter sido espião a soldo do govêrno lestasiático desde 1968. Confessou-se crente religioso, admirador do capitalismo e pervertido sexual. Confessou haver assassinado a espôsa, embora soubesse, como certamente deviam saber também os interrogadores, que ela ainda vivia. Confessou ter-se mantido em contacto pessoal com Goldstein, havia muitos anos, e ter sido membro duma organização clandestina que incluía quase todos os seres humanos que jamais conhecera. Era mais fácil confessar tudo e implicar todos. Além disso, de certo modo, era tudo verdade. Era verdade que fôra inimigo do Partido, e aos olhos do Partido não havia distinção entre o pensamento e o ato.

Havia também recordações de outro gênero. Destacavam-se, desligadas, no seu espírito, como quadros rodeados de preto.

Estava numa cela que tanto podia ser clara como escura, porque não enxergava mais que um par de olhos. Perto dêle, um instrumento qualquer tiquetaqueava lentamente, com regularidade. Os olhos aumentavam de tamanho e luminosidade. De repente, êle se desprendeu donde estava, mergulhou nos olhos e foi engulido.

Estava amarrado numa cadeira, cercado de mostradores, sob luzes ofuscantes. Um homem de branco consultava os mostradores. Lá fora ouviu-se o barulho de botas ferradas. A porta abriu-se com estrépito. O oficial de máscara de cera entrou, seguido por dois guardas.

Sala 101 - disse o oficial.

O homem de avental branco não se voltou. Nem olhou para Winston; só lhe interessavam os mostradores.

Estava rolando por um enorme corredor,        de um quilômetro de extensão, inundado de gloriosa luz dourada, rindo às gargalhadas e gritando confissões a plenos pulmões. Confessava tudo, até mesmo o que conseguira prender durante a tortura. Estava contando tôda a história da sua vida a um público que já a conhecia. Com êle estavam os guardas, os outros interrogadores, os homens de avental branco, O'Brien, Júlia, o sr. Charrington, todos rolando juntos pelo corredor e gargalhando. Uma coisa horrível, que jazera no futuro, passara em branca nuvem e não acontecera. Estava tudo ótimo, não havia mais dor, e o último detalhe da sua vida se desnudou, compreendido, perdoado.

Estava-se levantando da cama de tábua, na meia-certeza de ter ouvido a voz de O'Brien. Durante todo o interrogatório, embora não o pudesse ver, tivera a impressão de ter O'Brien ao lado. Era O'Brien quem tudo dirigia. Mandara os guardas atacarem Winston e os impedira de o matarem. Era quem decidia quando Winston devia gritar de dor, quando devia se aliviar, quando comer, quando dormir, quando levar injeção no braço. Era quem fazia as perguntas e sugeria as respostas. Era o atormentador, o protetor, o inquisidor, o amigo. E uma vez - Winston não podia se lembrar se fôra durante o sono natural, ou dopado, ou mesmo num momento de lucidez - uma voz murmurou no seu ouvido: "Não te preocupes, Winston; estás sob minha guarda. Há sete anos que te vigio. Agora chegou o grande momento. Eu te salvarei, eu te farei perfeito." Não estava seguro de que fosse a voz de O'Brien. Mas era a mesma voz que lhe dissera "Tornaremos a nos encontrar onde não há treva," naquele outro sonho, sete anos atrás.

Não se lembrava do fim do interrogatório. Houve um período de escuridão e depois a cela, ou sala, onde estava, materializou-se lentamente em torno dêle. Estava deitado de costas, e impedido de mexer-se. Tinha o corpo preso em todos os ' pontos essenciais. Até a cabeça estava ligada. O'Brien fitava-o com gravidade e alguma tristeza. Visto de baixo, seu rosto parecia tosco e gasto, olhos empapuçados, rugas cansadas do nariz ao queixo. Era mais velho do que Winston supusera; devia ter entre quarenta e oito e cinquenta anos. Tinha na mão um mostrador com uma alavanca em cima e números em volta.

- Eu te disse que se     tornássemos a nos encontrar seria aqui.

Sim. Sem qualquer aviso, além de um ligeiro movimento da mão de O'Brien, uma onda de dor percorreu o corpo de Winston. Era uma dor assustadora, porque não podia ver o que acontecia, e tinha a sensação de que lhe infligiam um ferimento mortal. Não sabia se de fato estava acontecendo, ou se apenas o efeito era elètricamente provocado; mas sentia o corpo se deformando, as juntas dos ossos separadas, devagar. Embora a dor o fizesse suar na testa, o pior de tudo era o medo de que a espinha se rompesse. Trincou os dentes e respirou fundo, pelo nariz, procurando manter silêncio o mais possível.

- Estás com medo - disse O'Brien, observando-lhe a face - de que algo arrebente, daqui a um momento. Teu medo é que seja a espinha. Tens uma nítida imagem mental das vértebras se separando e do líquido raquiano escorrendo. Não é nisso que pensas, Winston?

Winston não respondeu. O'Brien puxou a alavanca do mostrador. A onda de dor refluiu com a mesma rapidez com que viera. Quarenta - disse O'Brien. - Como vês, os números dêste mostrador vão até cem. Lembra-te, durante tôda nossa conversa, que está em meu poder infligir-te dor a qualquer momento, no grau que eu quiser. Se me mentires, ou tentares prevaricar de qualquer modo, ou caires em

nível de ínteligência, gritarás de dor, instantâneamente. Compreendes?

- Compreendo. Os modos de O'Brien abrandaram-se. Arrumou os óculos, pensativo, e deu algumas passadas. Quando falou, foi com voz gentil e paciente. Tinha o ar de um médico, professor, ou sacerdote, ansioso de explicar e persuadir, e não de punir.

Dou-me a esta trabalheira contigo, Winston, porque vales a pena. Sabes perfeitamente qual é o teu mal. E sabes há muitos anos, embora lutasses contra o conhecimento. És mentalmente desequilibrado. Sofres de memória defeituosa. És incapaz de recordar acontecimentos reais e pensas que te lembras de outros, que nunca tiveram lugar. Felizmente, é curável. Não te curaste, porque preferiste não te curar. Não te dispuseste a fazer um esforcinho. Neste mesmo instante, sei que te agarras à tua doença, sob a impressão de que é uma virtude. Consideremos um exemplo. Neste momento, com que potência a Oceania está em guerra?

- Quando fui preso, a Oceania estava em guerra com a Lestásia.

- Com a Lestásia. Bom. E a Oceania sempre esteve em guerra com a Lestásia, não esteve?

Winston respirou fundo. Abriu a boca para falar mas calou-se. Não podia tirar os olhos do mostrador.

- A verdade, Winston, por favor. Tua verdade. Dize-me o que pensas lembrar.

- Lembro-me de que há apenas uma semana antes de ser preso, não estávamos em guerra com a Lestásia. Era nossa aliada. A guerra era contra a Eurásia, e já durava havia quatro anos. Antes...

O'Brien deteve-o com um gesto.

- Outro exemplo, - disse êle. - Há alguns anos tiveste uma alucinação muito séria. Acreditavas que três homens, três antigos membros do Partido, de nomes Jones, Aaronson e Rutherford - executados por traição e sabotagem, após uma confissão integral - não tinham cometido os crimes imputados. Acreditavas ter visto prova documental inconfundível de que as confissões dos três eram falsas. Houve uma certa fotografia em torno da qual construiste uma alucinação. Acreditavas tê-la tomado nas mãos. A fotografia era mais ou menos assim.

Um recorte retangular de jornal aparecera entre os dedos de O'Brien. Durante cinco segundos talvez ficou ao alcance da visão de Winston. Era uma fotografia, e não havia dúvidas quanto à sua identidade. Era a fotografia. Era outro exemplar da foto de Jones, Aaronson e Rutherford numa função do Partido em Nova York, a mesma que por acaso tivera em mãos, onze anos atrás, e destruira quase imediatamente. Por um instante apenas teve-a diante dos olhos, depois tornou a sumir. Mas vira-a, não havia dúvida de que a vira! Fez um esforço desesperado, agoniado, de libertar o tórax e a cabeça. Era impossível mexer-se em qualquer direção, um centímetro que fosse. Por um momento, chegara a esquecer-se do mostrador. Tudo que queria era segurar de novo a fotografia, ou pelo menos vê-la.

- Existe! - exclamou.

- Não, - disse O'Brien. Atravessou a sala. Na parede oposta havia um buraco da memória. Êle levantou a grade. Sem que o vissem, o frágil pedaço de papel foi sugado pela corrente de ar quente; desapareceria numa labareda. O'Brien voltou-se.

- Cinza - disse. - Nem mesmo cinza identificável. Pó. Não existe. Nunca existiu.

- Mas existiu! Existe! Existe na memória. Eu me lembro. Tu te lembras.

- Não me lembro - afirmou O'Brien.

O coração de Winston sossobrou. Era o duplipensar. Teve uma sensação mortal de impotência. Se ao menos pudesse ter certeza de que O'Brien mentia, não teria tanta importância. Mas era perfeitamente possível que O'Brien se tivesse esquecido da foto. E se assim fosse, já teria certamente esquecido sua negativa de se lembrar, e esquecido o esquecimento. Como era possível ter a certeza de que tudo não passava de estratagema? Esmagava-o o pensamento de que talvez pudesse de fato ocorrer aquele deslocamento lunàtico da mente.

O'Brien fitava-o com curiosidade nos olhos. Mais do que nunca tinha o ar dum mestre, dedicado a um aluno peralta mas promissor.

- Há um ditado do Partido que se refere ao controle do passado - disse êle. - Repete-o, por favor.

- "Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente controla o passado" - repetiu Winston obediente.

- "Quem controla o presente controla o passado, -disse O'Brien sacudindo a cabeça devagar. - Na tua opinião, Winston, o passado tem existência real?

De novo a sensação de impotência dominou Winston. Seus olhos contemplavam o mostrador. Não sabia qual a resposta salvadora; "sim", ou "não"? Nem ao menos sabia que resposta acreditava verdadeira.

O'Brien sorriu levemente.

- Não és metafísico, Winston. Até êste momento, não havias considerado o que significa existência. Farei uma frase mais precisa. O passado existe concretamente, no espaço? Existe em alguma parte um mundo de objetos sólidos, onde o passado ainda acontece?

-   Não.

-   Então onde é que existe o passado, se é que existe?

-   Nos registros. Está escrito.

-   Nos registros. E em-que mais?

- Na memória. Na memória dos homens.

-   Na memória. Muito bem. Nós, o Partido, controlamos todos os registros, e controlamos      todas as memórias, Nesse caso controlamos passado, não é  verdade?

- Mas como podes impedir que a gente se lembre das coisas? - exclamou Winston, de novo se esquecendo do mostrador. - É involuntário. . Está fóra do indivíduo. Como podes controlar a memória? Não controlaste a minha!

Os modos de O'Brien tornaram-se rispidos de novo. Poúsou a mão no mostrador.

- Ao contrário - disse êle. - Foste tu que não a controlaste. Por isso estás aqui. Estás aqui porque fracassaste em humildade, em disciplina. Não queres fazer o ato de submissão que é o preço da sanidade. Preferiste ser lunático, minoria de um. Só a mente disciplinada pode enxergar a realidade, Winston. Crês que a realidade é algo objetivo, externo, que existe de per si. Acreditas também que é evidente a natureza da realidade. Quando te iludes, e pensas enxergar algo, julgas que todo mundo vê a mesma coisa. Mas eu te digo, Winston, a realidade não é externa. A realidade só existe no espírito, e em nenhuma outra parte. Não na mente do indivíduo, que pode se enganar, e que logo perece. Só na mente do Partido, que é coletivo e imortal.

O que quer que o Partido afirme que é verdade é verdade. É impossível ver a realidade exceto pelos olhos do Partido. É êsse o fato que deves reaprender, Winston. Exige um ato de auto-destruição, um esforço da vontade. Deves te humilhar antes de recobrar o juizo.

Fez uma pausa de alguns momentos, como se para permitir que suas palavras calassem fundo.

- Lembras-te de escrevér no teu diário: "liberdade é a liberdade de escrever que dois e dois são quatro?"

- Lembro. O'Brien mostrou a mão esquerda, de dorso para Winston, com o polegar oculto e mostrando quatro dedos.

- Quantos dedos tenho aqui, Winston?

- Quatro.

- E se o Partido disser que não são quatro, mas cinco... quantos?

- Quatro. A palavra acabou numa exclamação de dor. O ponteiro do mostrador fôra até cinqüenta e cinco. O suor brotara em todo o corpo de Winston. O ar rasgava-lhe os pulmões e saia de novo em profundos gemidos que nem mesmo trincando os dentes êle conseguia calar. O'Brien observava-o, com os quatro dedos ainda estendidos. Puxou a alavanca. Desta vez a dor apenas diminuiu um pouco.

- Quantos    dedos, Winston?

- Quatro.

O ponteiro   subiu a sessenta.

- Quantos    dedos, Winston?

- Quatro!     Quatro!     Não  posso dizer outra coisa! Quatro!

O ponteiro   deve ter-se adiantado mais, porém êle não olhou. O rosto   largo e severo, e os quatro dedos, tomavam-lhe tôda a visão. Os dedos estavam na sua frente como colunas, enormes, e pareciam vibrar, mas não havia dúvida de que eram quatro.

- Quantos dedos, Winston?

- Quatro! Pára, pára! Como podes continuar? Quatro! Quatro!

- Quantos dedos, Winston?

- Cinco! Cinco! Cinco!

- Não, Winston. Assim não adianta. Estás mentindo. Ainda achas que são quatro. Quantos dedos, por      favor?

- Quatro! Cinco! Quatro! O que quiseres. Mas pára, pára a dor!

Abruptamente, achou-se sentado na cama, com o braço de O'Brien passado por seus ombros. Talvez tivesse perdido os sentidos por alguns segundos. Tinham-se afrouxado os laços que amarravam o seu corpo. Sentia muito frio, e tremia descontroladamente. Os dentes chocalhavam, e as lágrimas'rolavam pelas faces. Por um momento, agarrou-se a O'Brien como um nenê, curiosamente consolado pelo braço musculoso passado por seus ombros. Tinha a impressão de ser O'Brien seu protetor, de que a dor era algo que vinha de fóra, de outra fonte, e que O'Brien o salvava dela.

- Aprendes devagar, Winston, disse O'Brien, gentilmente.

- Que Posso fazer? - choramingou. - Como posso deixar de ver o que está diante dos meus olhos? Dois e dois são quatro.

- Às vezes, Winston. Às vezes são cinco. Às vezes são três. As vezes são as três coisas ao mesmo tempo. Deves fazer maior esforço. Não é fácil recobrar a razão.

Tornou a deitar Winston na cama. Apertou-se de novo a prisão nos membros, porém a dor se fôra e o tremor parara, deixando-o apenas fraco e com frio. O'Brien fez um movimento com a cabeça, dirigindo-se ao homem do avental branco, que durante tôda a cena estivera imóvel. O homem inclinou-se e examinou de perto os olhos de Winston, tateoulhe o pulso, encostou-lhe a orelha ao peito, deu tapinhas ali e aqui; depois sacudiu a cabeça positivamente.

- Outra vez - disse O'Brien. A dor percorreu o corpo de Winston. A agulha devia ter atingido setenta, ou setenta e cinco. Desta vez êle fechara os olhos. Sabia que os dedos ainda estavam ali e que ainda eram quatro. A única coisa que importava era continuar vivo até passar o espasmo. Deixou de perceber se chorava ou não. A dor tornou a diminuir. Êle abriu os olhos. O'Brien puxara a alavanca.

- Quantos dedos, Winston?

- Quatro. Imagino que sejam quatro. Veria cinco, se pudesse. Estou tentando ver cinco.

- Que desejas? Convencer-me de que vês cinco, ou de fato vê-los?

- Vê-los de fato.

- Outra vez.

O ponteiro devia ter ido a oitenta. .. noventa talvez. Winston só intermitentemente podia se lembrar porque a dor acontecia. Atrás das pálpebras cerradas, uma floresta de dedos parecia movimentar-se numa espécie de dança, entrando e saindo, desaparecendo atrás dos outros e tornando a aparecer. Tentava contá-los, mas não se lembrava porque. Só sabia ser impossível contá-los, e que isto se devia à misteriosa identidade entre o quatro e o cinco. A dor diminuiu de novo. Quando abriu os olhos foi verificar que ainda via o mesmo. Inúmeros dedos, como árvores movediças, corriam em todas as direções, cruzando e recruzando seu campo de visão. Tornou a fechar os olhos.

-   Quantos dedos estou mostrando, Winston?

- Não sei. Não sei. Me matas, se me deres dor outra vez. Cinco, quatro, seis... sinceramente, não sei.    Está melhor.

Uma agulha penetrou o braço de Winston. Quase no mesmo instante, um delicioso calor balsâmico se espalhou por todo o seu corpo. A dor já estava meio-esquecida. Abriu os olhos e fitou O'Brien com gratidão. O coração pareceu virar, à vista daquele rosto grande e enrugado, tão feio e tão inteligente. Se pudesse mexer-se, teria esticado a mão e segurado o braço de O'Brien. Nunca o estimara tão profundamente como naquele momento, e não apenas por ter parado a dor. Voltara a velha sensação, de que no fundo não tinha importância que O'Brien fosse amigo ou inimigo. Era uma pessoa com quem se podia conversar. Talvez não quisesse ser tão estimado quanto compreendido. O'Brien o torturara, levara-o à beira da loucura e, dentro em breve, certamente o mandaria à morte. Não fazia diferença. Num sentido qualquer, que ia mais fundo que a amizade, eram íntimos; nalguma parte, embora as palavras jamais fossem ditas, havia um lugar onde poderiam encontrar-se e falar. O'Brien fitava-o com uma expressão que levava a suspeitar que pensasse o mesmo. Quando falou, foi num tom fácil, de palestra.

-   Sabes onde estás, Winston?

- Não sei. Mas adivinho. No Ministério do Amor.

-   Sabes há quanto tempo estás aqui?

-   Não sei. Dias, semanas, meses. .. creio que há meses.

-   E por que imaginas que trazemos gente aqui?

-   Para obrigá-la 'a confessar.

-   Não, a razão não é essa. Tenta outra.

-   Para puni-la.

- Não! - exclamou O'Brien, cuja voz mudara extraordinàriamente. Sua face se tornara ao mesmo tempo severa e animada. - Não! Não apenas para te extrair uma confissão, nem para te punir. Queres que diga porque foste trazido aqui? Para te curar! Para te salvar da loucura! Compreenderás, Winston, que ninguém, dos que trazemos a êste lugar, sai de nossas mãos sem estar curado? Não estamos interessados nos estúpidos crimes que cometeste. O Partido não se interessa pelo ato físico; é com os pensamentos que nos preocupamos. Não apenas destruimos nossos inimigos; nós os modificamos. Compreendes o que quero dizer?

Estava inclinado sôbre Winston. Seu rosto parecia enorme por causa da proximidade, e horrivelmente feio por ser visto de baixo. Além disso, estava cheio de uma espécie de exaltação, de lunática intensidade. O coração de Winston tornou a apequenar-se no peito. Se fosse possível, êle se enterraria mais na cama. Tinha'a certeza de que o outro estava a ponto de acionar a alavanca, por pura perversidade. Nesse momento, porém, O'Brien se voltou. Pôs-se a passear de um lado para outro. Depois continuou, com menos veemencia: - A primeira coisa que deves entender é que neste lugar não há martírios. Lêste a história das perseguições religiosas na Idade Média, quando havia a inquisição. Foi um fracasso. Tinha por intúito erradicar a heresia, e por fim só conseguiu perpetuá-la. Para cada hereje queimado na fogueira, surgiram milhares de outros. Por que? Porque a inquisição matava os inimigos abertamente, e os matava quando ainda não se haviam arrependido; com efeito, matava-os porque não se arrependiam. Os homens morriam por se recusarem a abandonar as suas verdadeiras crenças. Naturalmente, tÔda a glória pertencia à vítima e a vergonha ao Inquisidor que a queimava. Mais tarde, no século vinte, houve os chamados totalitários. Os nazistas alemães, e os comunistas russos. Os russos perseguiram a heresia mais cruelmente que a inquisição. Imaginavam ter aprendido com os erros do passado; sabiam, ao menos, que era preciso não fazer mártires. - Antes de exporem suas vítimas ao julgamento público, procuravam destruir-lhes deliberadamente a dignidade. Abatiam-nos pela tortura e a solidão, até se transformarem em desprezíveis réprobos, confessando o que lhes fosse posto na boca, cobrindo-se de infâmia, acusando-se e abrígando-se atrás dos outros, choramingando misericórdia. E no entanto, apenas alguns anos mais tarde, a mesma coisa acontecia de novo. Os mortos se haviam transformado em mártires, e fôra esquecida sua degradação. Máis uma vez, por que? Em primeiro lugar, porque as confissões que haviam feito eram óbviamente extorquidas e falsas. Nós não cometemos erros dêsse gênero. Tôdas as confissões feitas aqui são verdadeiras. Nós as tornamos verdadeiras. E, acima de tudo, não permitimos que os mortos se levantem contra nós. Deves deixar de pensar que a posteridade te vindicará, Winston. A posteridade jamais ouvirá falar de ti. Serás totalmente eliminado da história. Havemos de te transformar em gás e te soltar na estratosfera. Nada restará de ti: nem um nome num registro, nenhuma lembrança na mente. Serás aniquilado no passado como no futuro. Não terás existido nunca.

Então por que se dar ao trabalho de me torturar? pensou Winston, num momento de amargura. O'Brien deteve-se em meio a um passo, como se Winston tivesse pensado alto. A carantonha aproximou-se, olhos apertados.

- Estás pensando: já que pretendemos te destruir tão completamente, de maneira que não faça a mínima diferença o que disseres ou fizeres, - nesse caso, porque nos damos ao trabalho de primeiro te interrogar, não é? Foi o que pensaste, não foi?

Foi - admitiu Winston. O'Brien sorriu ligeiramente.

- És uma falha na urdidura, Winston. És uma nódoa que precisa ser limpa. Não acabo de te dizer que somos diferentes dos promotores do passado? Não nos contentamos com a obediência negativa, nem mesmo com a mais abjeta submissão. Quando finalmente te renderes a nós, deverá ser por tua livre e espontânea vontade. Não destruimos o hereje porque nos resista; enquanto nos resiste, nunca o destruimos. Convertemo-lo, capturamos-lhe a mente, damoslhe nova forma. Nele queimamos todo o mal e tôda alucinação; trazemo-lo para o nosso lado, não em aparência, mas genuinamente, de corpo e alma. Tornamo-lo um dos nossos antes de matá-lo. É-nos intolerável que exista no mundo um pensamento errôneo, por mais secreto e inerme que seja. Nem mesmo no instante da morte podemos admitir um desvio. No passado, o hereje caminhava para a fogueira ainda herético, proclamando sua heresia, nela se gloriando. Até a vítima dos expurgos russos conseguia levar a rebelião se-

lada no crânio, enquanto ia pelo corredor à espera do tiro. Mas nós tornamos perfeito o cérebro do individuo antes de matá-lo. A ordem dos antigos despotismos era "tu não farás." Os totalitários -mudaram para "tu farás".  Nossa ordem é "tu és." Ninguém, dos que trazemos a êste lugar, se volta contra nós. Todo mundo é levado. Até mesmo aqueles miseráveis traidores, em cuja inocência um dia acreditastes -

Jone, Aaronson e Rutherford - por fim cederam. Eu mesmo tomei parte no interrogatório. E os vi se entregando aos poucos, gemendo, choramingando, rojando ao chão... e no fim não era de dor ou medo, mas de pura penitência. Quando acabamos com êles, eram apenas invólucros de homens. Neles nada restava, além da mágua pelo que haviam cometido, e amor ao Grande Irmão. Era tocante ver como o amavam. Imploravam o fusilamento sem espera, para que pudessem morrer enquanto tinham ainda o pensamento limpo.

Sua voz tornara-se quase sonhadora. A exaltação, o entusiasmo lunático, ainda estavam no seu rosto. Não está fingindo, pensou Winston. Não é hipócrita: acredita em tudo que diz. O que mais o oprimia era ter consciência da sua própria inferioridade inteletual. Observou o corpanzil, forte mas gracioso, deslocar-se de um lado para outro, fugindo ao seu campo de visão. De tôdas as maneiras, O'Brien era maior do que êle. Não havia idéia que tivesse, ou pudesse ter tido, que O'Brien, muito antes, já não tivesse conhecido, examinado e repelido. Sua mente continha a mente de Winston. Mas nesse caso, como poderia ser que fosse louco? O louco devia ser êle, Winston. O'Brien parou e tornou a olhar para êle. A voz de novo adquirira um tom ríspido:

- Não imagines que te salvarás, Winston, por mais completamente que te rendas. Quem se desvia uma vez não é nunca poupado. E mesmo que resolvamos permitir que vivas até o fim normal da tua vida, não nos escaparás. O que acontece aquí dura para sempre. Compreende isso, antecipadamente. Havemos de te esmagar até o ponto de onde não se volta. Vão te acontecer coisas das quais não poderias te recuperar nem que vivesses mil anos. Nunca mais poderás sentir sensações humanas comuns. Tudo estará morto dentro de ti. Nunca mais serás capaz de amor, ou amizade, ou alegria de viver, riso, curiosidade, coragem, ou integridade. Serás oco. Havemos de te expremer, te deixar vazio, e então saberemos como te encher. Fez uma pausa e indicou qualquer coisa ao homem do avental branco. Winston percebeu que algum aparelho pesado estava sendo colocado debaixo da sua cabeça. O'Brien sentou-se ao lado da cama, de modo a ficar com a cabeça quase no nível de Winston.

- Três mil - disse êle, dirigindo-se ao homem de branco.

Duas almofadinhas, que pareciam um tanto úmidas, foram aplicadas às fontes de Winston. Êle desacorçoou. Ia sentir dor, uma nova espécie de dor. O'Brien pousou a mão sôbre a dêle, num gesto tranquilizador, quase bondoso.

- Desta vez não dói - afirmou. - Fixa-me bem nos olhos.

Naquele momento houve uma tremenda explosão, ou o que parecia uma formidável explosão, embora Winston não tivesse certeza de ouvir barulho algum. Sem dúvida, porém, houvera um clarão ofuscante. Winston não se sentiu dorido, apenas prostrado.   Embora já estivesse deitado de costas quando sucedeu a coisa, teve a curiosa sensação de que fôra a explosão que o jogara assim. Um golpe terrível, sem dor, lançara-o abaixo. Dentro da sua cabeça, também acontecera algo. Quando seus olhos recobraram o foco, êle se lembrou quem era, onde estava, e reconheceu o rosto que o fitava de perto; mas nalgum lugar havia uma vasta área de vazio, como se lhe tivessem tirado um pedaço do miolo.

- Não dura muito - disse O'Brien. - Fita-me nos olhos. Com que país a Oceania está em guerra?

Winston pensou. Sabia o que queria dizer Oceania, e que era cidadão da Oceania. Lembrava-se também da Lestásia e da Eurásia; mas não sabia quem estava em guerra. Com efeito, não tinha ciência de nenhuma guerra.

- Não me lembro.

- A Oceania está em guerra com a Lestásia. Lembras disso?

- Lembro.

-  A Oceania sempre esteve em guerra com a Lestásia. Desde  o comêço da tua vida, desde o comêço do Partido, desde o comêço da história, a guerra continua sem interrupção, sempre a mesma guerra. Lembras disso?

- Lembro.

- Há onze anos, criaste uma lenda em tôrno de três homens que foram condenados à morte por traição. Pretendias ter visto um pedaço de papel que os provava ino-

centes. Êsse pedaço de papel nunca existiu. Tu o inventaste, e mais tarde vieste a acreditar nele. Lembras agora o momento exato em que o inventaste?

- Lembro.

- Mostrei os dedos de minha mão. Viste cinco dedos. Lembras disso?

Lembro. O'Brien levantou os dedos da mão esquerda, escondendo o polegar.

Aqui há cinco dedos. Vês cinco dedos? Vejo. E viu mesmo, por um instante fugidio, antes de mudar a cena, no seu espírito. Viu cinco dedos, sem deformidade. Depois tudo voltou ao normal, e o velho medo, o ódio e o espanto regressaram de tropel. Mas um momento houvera

- não se lembrava da súa duração, trinta segundos, talvez

- de certeza luminosa, em que cada nova sugestão de O'Brien enchera uma área de vazio e se transformara em verdade absoluta, e durante o qual dois e dois podiam perfeitamente ser cinco, se fosse necessário. Desvanecera-se antes de O'Brien ter baixado a mão. Embora não pudesse recapturá-llo, podia recordá-lo, como quem recorda uma vívida experiência num período remoto da vida, em que se foi, na verdade, uma pessoa diferente.

- Agora percebes que é possível - disse O'Brien.

- Sím. O'Brien ergueu-se com ar satisfeito. À sua esquerda, Winston viu o homem de branco quebrar o pescoço duma ampola e puxar o êmbolo duma seringa hipodérmica. O'Brien voltou-se para Winston com úm sorriso. Com o gesto familiar, rearranjou os óculos no nariz.

- Lembras-te de ter escrito no teu diário que não importava que eu fosse amigo ou inimigo, pois era ao menos uma pessoa que te compreendia e com quem se podia conversar? Tinhas razão. Gosto de conversar contigo. Tua mente me atrai. Parece-se com a minha, com a diferença -de que és louco. Antes de encerrarmos a sessão, podes me fazer algumas perguntas, se quiseres.

- Qualquer Pergunta?

- Qualquer. - Viu que os olhos de Winston estavam -no mostrador. - Está desligado. Qual é a tua primeira pergunta?

- Que foi feito de Júlia? O'Brien tornou a sorrir.

- Ela te traiu, Winston. Imediatamente... sem reservas. Raramente tenho visto uma pessoa vir a nós tão depressa. Mal a reconhecerias, se a visses. Tôda sua rebeldia, seu fingimento, sua loucura, sua sujeira mental - tudo foi queimado. Foi uma conversão perfeita, um caso de cartilha.

- Tu a torturaste. O'Brien não respondeu. Outra -pergunta.

- Existe o Grande Irmão?

- Naturalmente existe. O Partido existe. O Grande Irmão é a corporificação do Partido.

Mas existe da mesma maneira que eu existo? Tu não existes. De novo a sensação de impotência o assaltou. Sabia, ou podia imaginar, os argumentos que provavam sua não-existência; mas eram insensatos, não passavam de jôgo de palavras. Não continha a afirmativa "Tu não existes" um absurdo em lógica? Mas de que adiantava dizê-lo? Sua mente encolhia-se só de pensar nos argumentos loucos, irrespondíveis, com que O'Brien o demoliria.

- Creio que existo - respondeu. - Tenho consciencia de minha própria identidade. Nasci, e morrerei. Tenho braços e pernas. Ocupo um determinado ponto no espaço. Ao mesmo tempo, nenhum outro sólido pode ocupar o mesmo ponto. Nesse sentido, existe o Grande Irmão?

- Não tem importância. Existe.

- O Grande Irmão morrerá?

- Lógico que não. Como poderia morrer?  Outra pergunta.

- Existe a Fraternidade?

- Isso nunca saberás, Winston. Se resolvermos te pôr em liberdade quando acabarmos a tarefa, e mesmo que vivas até os noventa, nunca saberás se a resposta a essa pergunta é Sim ou Não. Enquanto viveres será um enigma insolvível na tua cabeça.

Winston guardou silêncio. Seu peito ofegou um pouco mais depressa. Ainda não fizera a pergunta que lhe viera em primeiro lugar à mente. Tinha de fazê-la, e no entanto era como se a língua se recusasse. Havia uma sombra de jocosidade no rosto de O'Brien. Até os seus óculos pareciam despedir lampejos irônicos. Êle sabe, pensou Winston de

repente, êle sabe o que vou perguntar! E a isso as palavras lhe brotaram dos lábios:

- O que é a Sala 101? Não mudou a expressão do rosto de O'Brien. Respondeu secamente:

- Sabes o que há na Sala 101, Winston. Todo mundo sabe o que há na Sala 101.

Apontou com o dedo o homem de branco. Evidentemente., encerrara-se a sessão. A agulha mergulhou no braço de Winston. Quase imediatamente êle mergulhou no sono profundo.

20

- Há três estágios na tua re-integração - disse O'Brien.

- Aprender, compreender e aceitar. É hora de iniciares o segundo.

Como sempre, Winston jazia em decúbito dorsal. Mas já não se sentia tão fortemente ligado. Ainda estava amarrado à cama, porém podia mexer um pouco os joelhos, mover a cabeça de um lado para outro e levantar os braços, dobrando os cotovelos. O mostrador, também, já não o aterrorizava tanto. Podia fugir às suas picadas se fosse bastante alerta: em geral era quando demonstrava estupidez que O'Brien acionava a alavanca. Às vezes, atravessavam uma sessão inteira sem que o aparelho fosse usado. Não podia lembrar-se de quantas sessões sofrera. Todo o processo parecia prolongar-se por um período enorme, indefinido - semanas, possívelmente - e o intervalo entre as sessões às vezes era de alguns dias, outras de apenas uma hora ou duas.

- Enquanto estás aí deitado - disse O'Brien - muitas vezes perguntas a ti mesmo... e até a mim... por que é que o Ministério do Amor gasta tanto tempo e tanto esfôrço contigo. E quando eras livre também te admirava essencialmente a mesma pergunta. Podias perceber a mecânica da sociedade em que vivias, mas não os motivos orientadores. Lembras-te de que escreveste no teu diário "Compreendo como; não compreendo por que?" Era quando pensavas no por que" que duvidavas do teu estado mental. Leste o livro, o livro de Goldstein, ou trechos dêle, pelo menos. Reveloute alguma coisa que já não soubesses?

- Leste o livro?

- Eu oescrevi. Isto é, colaborei na sua autoria. Nenhum livro é produzido individualmente, como sabes.

- E é verdade o que diz o livro?

- Como descrição   é. O programa que estabelece é insensato. O entesouramento secreto da sabedoria... a propagação gradual do esclarecimento... por fim uma rebelião proletária... a derribada do Partido. Tu mesmo previste o que êle diria. É tudo bobagem. Os proletários nunca se revoltarão, em mil anos, ou num milhão de anos., Não podem. Não preciso dizer-te a razão: já a conheces. Se algum dia acariciaste sonhos de insurreição violenta, deves abandoná-los. Não há maneira de se deitar o Partido abaixo.

O domínio do Partido é eterno. Isso deve ser o ponto de partida dos teus pensamentos.

Aproximou-se mais da cama.

- Eterno! - repetiu. - E agora, voltemos à        questão do como e do por que. Compreendes bem como o          Partido se mantém no poder. Agora, dize-me, porque nos agarramos ao poder. Qual é o nosso motivo? Por que devemos querer o poder? Vamos, fala - acrescentou, vendo que Winston calava.

Não obstante, Winston continuou calado por mais alguns instantes. Dominara-o uma profunda sensação de cansaço. Voltara ao rosto de O'Brien o débil e dôido lampejo de entusiasmo. Êle sabia de antemão o que diria Ó'Brien. Que o Partido não buscava o poder em seu próprio benefício, mas pelo bem da maioria. Que procurava o poder porque os homens da massa eram criaturas débeis e covardes que não podiam suportar a liberdade nem enfrentar a verdade, e que deviam ser dominados e sistemàticamente defraudados por outros, mais fortes que êles. Que para o gênero humano a alternativa era liberdade ou felicidade e que, para a grande maioria, era preferível a felicidade. Que o Partido era o eterno guardião dos fracos, uma seita dedicada fazendo o mal para que o bem pudesse reinar, sacrificando sua própria felicidade à felicidade alheia. O terrível, raciocinou Winston, o terrível era que, dizendo isso, O'Brien estaria sendo sincero. Via-se-lhe na fisiononiia. O'Brien sabia tudo. Mil vezes melhor que Winston, sabia como o mundo era, na realidade, em que degradação vivia a massa dos seres humanos e por ráeio de que mentiras e barbaridades o Partido os mantinha nesse nível. Compreendia tudo, pesava-o, e não fazia diferença: era tudo justificado pelo intuito derradeiro.

Que podes fazer, pensou Winston, contra o lunático que é mais inteligente que tu, que ouve equânime os teus argumentos e simplesmente persiste na sua loucura?

- Vós nos governais em nosso próprio benefício -

disse, com um fio de voz. - Acreditais que os seres humanos não têm capacidade para se governar e    porisso...

Deu um estremeção e quase gritou. Uma descarga dolorosa lhe percorrera o corpo. O'Brien levara ao trinta e cinco o ponteiro do aparelho.

- Isso foi cretino, Winston, cretino! Bem sabes que não devias dizer uma coisa dessas.

Levou a alavanca à posição neutra e continuou:

- Eu responderei minha pergunta. O Partido procura o poder por amor ao poder. Não estamos interessados no bem-estar alheio; só estamos interessados no poder. Nem na riqueza, nem no luxo, nem em longa vida de prazeres: apenas no poder, poder puro. O que significa poder puro já compreenderás, daqui a pouco. Somos diferentes de tÔdas as oligarquias do passado, porque sabemos o que estamos fazendo. Tôdas as outras, até mesmo as que se assemelhavam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos muito se aproximaram de nós nos métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer os próprios motivos. Fingiam, talvez até acreditassem, ter tomado o poder sem querer, e por tempo limitado, e que bastava dobrar a esquina para entrar num paraíso onde os seres humanos seriam iguais e livres.  Nós não somos assim. Sabemos que ninguém jamais toma o      poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio,    é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura com o fito de salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura.

O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora começas a me compreender?

Winston ficou admirado, como já ficara antes, pelo cansaço do rosto de O'Brien. Era forte, carnudo e brutal, cheio de inteligência e de uma espécie de paixão controlada diante da qual êle se sentia inerme; mas estava cansado. Tinha olheiras fundas, e as bochechas estavam flácidas. O'Brien inclinou-se sôbre êle, aproximando de propósito a cara gasta.

- Estás pensando que meu rosto está velho e cansado. Estás pensando que falo do poder, e no entanto não consigo deter a deterioração do meu próprio corpo. Não podes com-

preender, Winston, que o indivíduo é apenas uma célula?

O cansaço da célula é o vigor do organismo. Acaso morres quando aparas as unhas?

Afastando-se da cama e pôs-se a passear de um lado para outro, com a mão na algibeira.

- Somos os sacerdotes do poder - disse. - Deus é poder. Mas no momento, para ti, poder é apenas uma palavra. É tempo de teres uma idéia do que significa poder. A primeira coisa que deves entender é que o poder é coletivo. O indivíduo só tem poder na medida em que cessa de ser indivíduo. Conheces o lema do Partido: "Liberdade é Escravidão." Já te ocorreu que é reversível? Escravidão é liberdade. Sózinho, livre, o ser humano é sempre derrotado. Assim deve ser, porque todo ser humano está condenado a morrer, que é o maior dos fracassos. Mas se puder realizar uma submissão completa, total, se puder fugir à sua identidade, se puder fundir-se no Partido então êle é o Partido, e é onipotente e imortal. A segunda coisa que deves entender é que poder é o poder sôbre todos os entes humanos. Sôbre o corpo mas, acima de tudo, sôbre a mente. O poder sôbre a matéria - realidade externa, como a chamarias -não é importante. E o nosso poder sôbre a matéria já é absoluto.

Por um momento, Winston ignorou o mostrador. Fez um violento esfôrço para se sentar, e só conseguiu torcer o corpo dolorosamente.

- Mas como podes controlar a matéria? - explodiu.

- Não consegues nem dominar o clima nem a lei da gravidade. E há a doença, a morte, a dor...

O'Brien calou-o com um gesto.

- Controlamos a matéria porque controlamos a mente. A realidade está dentro da cabeça. Aprenderás aos poucos, Winston. Não há nada que não possamos fazer. Invisibilidade, levitação. .. tudo. Eu poderia flutuar no ar, como uma bolha de sabão, se quisesse. Mas não quero, porque o Partido não o deseja. Deves abandonar essas idéias século dezenove a respeito das leis da Natureza. Nós fazemos as leis da natureza! Não fazeis! Não sois donos do planeta. E a Eurásia e a Lestásia?  Ainda não as vencestes.

-Não importa. Haveremos de dominá-las quando nos convir. E se não, que diferença faz? Podemos bani-las da exístencia. A Oceania é o mundo.

- Mas se o mundo não passa dum grão de pó! E o homem é minúsculo - inerme! Há quanto tempo existe? Durante milhões de anos a terra foi desabitada.

- Tolice. A terra é tão velha quanto o homem, e nada mais. Como poderia ser mais velha? Nada existe excepto pela via da consciência humana.

- Mas as rochas estão cheias de ossos de animais extintos - mamutes, mastodontes, e répteis enormes que viveram aqui muito antes do homem aparecer.

- Já viste êsses ossos, Winston?     Naturalmente não. Os biólogos do século dezenove os inventaram. Antes do homem, não havia nada. Depois do homem, se por acaso acabasse, nada haveria. Fóra do homem não há nada.

- Mas o universo inteiro está fora de nós. Considera as estrelas. Algumas estão a um milhão de anos-luz de distância. Estão para sempre fóra de nosso alcance.

- Que são estrelas? - indagou O'Brien, indiferente.

- São pedacinhos de fogo a alguns quilômetros de distância. Poderíamos alcançá-las, se quiséssemos. Ou poderíamos apagá-las. A terra é o centro do universo. O sol e as estrêlas giram em tôrno dela.

Winston fez outro movimento convulso. Desta vez porém não disse nada. O'Brien continuou, como se respondesse a uma objeção falada:

- Naturalmente, isso não é verdade, para certos propósitos. Quando navegamos no oceano, ou quando predizemos um eclipse, muita vez nos convém supor que a terra rode em tôrno do sol e que as estrêlas estão a milhões e milhões de quilômetros de distância. E daí? Imaginas que não podemos produzir um sistema dual de astronomia? As estrêlas podem estar longe ou perto, conforme precisarmos. Supões que os nossos matemáticos não dão conta do recado? esqueceste do duplipensar?

Winston encolheu-se na cama. Dissesse o que dissesse, a pronta resposta esmagava-o como uma paulada. E no entanto sabia, sabia que tinha razão. A teoria de que nada existe fóra da mente humana - com certeza havia um meio de demonstrá-la falsa? Não fôra denunciada e provada falsa, havia muito tempo? Isso até tinha um nome, que êle esquecera. Um vago sorriso animou as comissuras dos lábios de O'Brien, que voltara a fitá-lo:

- Eu te disse, Winston, que a metafísica não era o teu forte. A palavra que estás procurando encontrar é "solip-

sismo". Mas estás enganado. Não é solipsismo. Solipsismo coletivo, se quiseres. Mas é diferente: na verdade, é o oposto. Tudo isto não passa de digressão - acrescentou, em tom mudado. - O verdadeiro poder, o poder pelo qual temos de lutar dia e noite, não é o poder sôbre as coisas, mas sôbre os homens. - Fez uma pausa e por um momento tornou a assumir o ar de mestre-escola interrogando o aluno esperto:

- Como é que um homem afirma o seu poder sôbre outro, Winston?

Winston refletiu.

- Fazendo-o sofrer.

- Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que êle obedece tua vontade e não a dêle? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender. Começas a distinguir que tipo de mundo estamos criando? É exatamente o contrário das estúpidas utopias hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o progresso no sentido de maior dor. As velhas civilizações proclamavam-se fundadas no amor ou na justiça. A nossa funda-se no ódio. Em nosso mundo não haverá outras emoções além do medo, fúria, triunfo e auto-degradação. Destruiremos tudo mais - tudo. Já estamos liquidando os hábitos de pensamento que sobreviveram de antes da Revolução. Cortamos os laços entre filho e pai, entre homem e homem, entre mulher e homem. Ninguém mais ousa confiar na espôsa, no filho ou no amigo. Mas no futuro não haverá espôsas nem amigos. As crianças serão tomadas das mães ao nascer, como se tiram os ovos da galinha. O instinto sexual será extirpado. A procreação será uma formalidade anual como a renovação de um talão de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas estão trabalhando nisso. Não haverá lealdade, excepto lealdade ao Partido. Não haverá amor, excepto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, excepto o riso de vitória sôbre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, não teremos mais necessidade de ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiura. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida.   Todos os prazeres concorrentes serão destruidos. Mas sempre... não te esqueças, Winston... sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gôzo da vitória, a sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano - para sempre.

Fez uma pausa, como esperando que Winston falasse. Winston de novo tentara se encolher sôbre a cama. Não podia dizer nada.     Seu coração parecia gelado. O'Brien continuou:

- E lembra-te de que é para sempre. O rosto estará sempre ali para ser pisado. O herege, o inimigo da sociedade, ali estará sempre, para ser sempre derrotado e humilhado. Tudo que sofreste desde que estás em nossas mãos

- tudo continuará, e pior. A espionagem, as traições, as prisões, as torturas, as execuções, os desaparecimentos jamais cessarão. Será tanto um mundo de terror quanto de triunfo. Quanto mais poderoso o Partido, menos tolerante: mais débil a oposição ,mais rígido o despotismo. Goldstein e suas heresias viverão sempre. Todo dia, a todo momento, serão derrotados, desacreditados, ridicularizados, cuspidos - e no entanto sempre sobreviverão. Éste drama que representei contigo durante sete anos será representado inúmeras vezes, geração após geração, sempre em formas mais sutis. Sempre teremos aqui o herege à nossa mercê, gritando de dor, quebrado, desprezível - e no fim completamente arrependido, salvo de si próprio, rastejando aos nossos pés por sua própria vontade. É êsse o mundo que estamos preparando, Winston, um mundo de vitória após vitória, de triunfo sôbre triunfo sÔbre triunfo: infinda pressão, pressão, pressão sôbre o nervo do poder. Vejo que começas a perceber o que será o mundo. Mas no fim farás mais do que compreender. Tu o aceitarás, aplaudirás, farás parte dêle.

Winston recobrara-se o suficiente para falar.

- Não podes! - disse, dèbilmente.

- Que queres dizer com isso?

- Não podes criar um mundo como o que descreveste. É um sonho. É impossível.

- Por que?

- É impossível fundar uma civilização sôbre medo, ódio e crueldade. Nunca poderia durar.

- Por que não?

- Não teria vitalidade.     Desintegrar-se-ia.    Suicidarse-ia. Tolice. 'Tens a impressão de que o ódio cansa mais que o amor. Por que cansaria mais? E se cansasse, que diferença faria?    Suponhamos que resolvemos nos gastar mais depressa. Suponhamos que aceleramos o ritmo da vida humana, de modo que estamos senis aos trinta anos. Que diferença faria? Não podes compreender que a morte do indivíduo não é morte? O Partido é imortal.

Como de praxe, a voz martelara Winston, mostrando sua impotência. Além disso, temia que, se persistisse em discordar, O'Brien tornasse a virar o ponteiro. E no entanto não podia se calar. - Dèbilmente, sem argumentos, sem nada que o apoiasse além do seu horror inarticulado ao que dissera O'Brien, voltou ao ataque.

- Não sei... não me importa. De algum modo, haverá de falhar. Algo vos derrotará. A vida vos derrotará.

Nós controlamos a vida, Winston, em todos os seus níveis. Imaginas que existe uma coisa às vezes chamada natureza humana, que se enfurece como o que fazemos e que se voltará contra nós. Mas nós criamos a natureza humana. Os homens são infinitamente maleáveis. Ou talvez tenhas voltado à velha idéia de que os proletários ou os escravos se levantarão e nos derrubarão. Perde a esperança. São inermes, como os animais. A humanidade é o Partido. Os outros estão de fora. .. não contam.

- Não me importa. No fim haverão de vos derrotar. Mais cedo ou mais tarde verão o que sois, e então vos estraçalharão.

- Vês algum sinal de que isso aconteça? Alguma razão para que aconteça?

- Não. É o que acredito. Sei que falhareis. Há algo no universo - não sei o que, um espírito, um princípio -

que  nunca podereis vencer.

Acreditas em Deus, Winston? Não. Então o que é êsse princípio que nos derrotará? Não sei. O espírito do Homem. E tu te consideras homem? Sim. Se és homem, Winston, és o último homem. Tua raça está extinta. Nós somos os herdeiros. Entendes que estás sózinho? Estás fóra da história, tu és não-existente. - Seus modos mudaram e êle disse, mais brusco: - E te consideras moralmente superior a nós, com nossas mentiras e nossa crueldade?

- Sim, eu me considero superior. O'Brien não falou. Duas outras vozes falavam. Dali a um momento, Winston reconheceu como sua uma delas. Era uma gravação da conversa que tivera com O'Brien, na noite em que se ligara à Fraternidade. Ouviu-se prometendo mentir, roubar, forjar, assassinar, incentivar a toxicomania e a prostituição, a disseminação de doenças venéreas, atirar vitríolo no rosto duma criança. O'Brien teve um pequeno gesto de impaciência, como se dissesse que mal valia a pena fazer a demonstração. Êle apertou um botão e as vozes calaram-se.

- Levanta-te dessa cama - ordenou. Os laços se haviam afrouxado. Winston alcançou o chão com os pés e levantou-se titubeando.

- És o último homem - disse O'Brien. - És o guardião do espirito humano. Já verás que aspecto tens. Despe-te.

Winston desamarrou o barbante que servia de cinto ao macacão. Havia muito tempo que se fôra o zip, violentamente arrancado. Não podia se recordar de nenhuma ocasião, desde que fôra preso. em que se despira totalmente. Por baixo do macacão, tinha o corpo enrolado em imundos trapos amarelados, mal reconhecíveis como restos de roupa de baixo. Ao largá-las no chão, viu que havia no extrêmo do aposento um jôgo de três espelhos. Aproximou-se dêle e parou de repente. Um grito involuntário lhe rompeu dos lábios.

- Anda - disse O'Brien. - Cola-te entre os espelhos. Poderás te ver de lado, como de frente.

Êle se detivera porque estava com medo. Caminhava ao seu encontro um espantalho esquelético, curvado e cinzento.  Era a sua aparência que dava medo, e não apenas o fato de saber que se tratava dêle mesmo. Aproximou-se do cristal. A cara da criatura parecia se projetar, por causa do corpo arcado. Uma cara triste de presidiário, com a testa ossuda se prolongando pelo crânio calvo, um nariz adunco e zigomas salientes, acima dos quais os olhos apareciam vigilantes e ferozes.   As faces estavam cobertas de sulcos, a boca chupada para dentro. Com certeza, era o seu rosto, mas lhe parecia ter mudado mais do que mudara por dentro. As emoções que revelava seriam diferentes das que sentia.

Ficara parcialmente calvo. A princípio, pensoU que o cabelo agrisalhara também, mas apenas o couro cabeludo se tornara cinzento. Com exceção das mãos e um círculo no rosto, o corpo todo estava coberto de gafeira antiga, entranhada. Aqui e ali, sob a sujeira, viam-se cicatrizes vermelhas de ferimentos, e perto do tornozelo a variz ulcerada era uma só massa inflamada, soltando cascas de pele. O que mais aterrorizava porém era o aspecto geral do corpo. O tórax, com as costelas de fora, ficara estreito como o de um esqueleto; as pernas tinham emagrecido tanto que os joelhos eram mais grossos que as coxas. Agora percebia o que O'Brien tivera em mente ao lhe sugerir que se visse de lado. Era espantosa a curvatura da espinha. Os ombros magros arcavam-se para a frente, formando uma cavidade no peito, e o pescoço fininho parecia formar um U sob o peso da cabeça. Se lhe perguntassem, poderia dizer que se tratava do corpo dum homem de sessenta anos, vítima duma doença maligna.

- Pensaste às vezes - disse O'Brien - que minha cara... a cara dum membro do Partido Interno... parece velha e cansada. Que achas agora da tua?

Agarrou Winston pelos ombros e fê-lo dar meia volta, de maneira a fitá-lo de frente.

- Olha o estado em que estás! Olha a imundície que recobre o teu corpo. Olha a sujeira entre      teus artelhos. Olha essa nojenta ferida na tua perna. Sabes que fedes como um bode? Provàvelmente já não consegues mais sentí-lo. Olha a tua magreza. Vês? Com o polegar e o indicador dou volta ao teu biceps. Poderia quebrar teu pescoço como se fosse uma cenoura. Sabes que perdeste vinte e cinco quilos desde que caíste em nossas mãos? Até o teu cabelo está caindo aos punhados. Olha! - Puxou o cabelo de Winston e arrancou um maço de cabelo. - Abre a boca. Nove, dez, onze dentes restam. Quantos tinhas quando vieste a nós? E os poucos que te sobram estão caindo atoa. Olha só!

Agarrou um dos incisivos restantes de Winston com o polegar e o indicador. Um arrepio de dor percorreu o maxilar de Winston. O'Brien arrancara-lhe o dente pela raiz. Atirou-o ao chão.

- Estás apodrecendo. Estás caindo aos pedaços. Que és tu? Um saco de lixo. Agora, volta-te e olha-te de novo no espelho. Vês aquela coisa te olhando? É o último homem.

Se és humano, a humanidade é aquilo. Agora, torna a vestir-te.

Winston pôs-se a vestir-se com gestos lentos e rigidos. Até ali não havia notado como estava magro e fraco. Só um pensamento lhe agitava a mente: devia ter estado preso mais tempo do que imaginára. De repente, fixando os trapos miseráveis que o vestiam, dominou-o um fundo sentimento de pena do seu corpo arruinado. Sem saber o que fazia, deixou-se cair num mocho que havia junto à cama, e rompeu em pranto. Sabia da sua feiura, da sua falta de graça, do feixe de ossos em imunda roupa de baixo, chorando, sentado sob a luz violenta; mas não era possível parar. O'Brien pousou no seu ombro a mão quase bondosa.

-  Não durará sempre. Podes fugir disto quando quiseres. Tudo depende de ti.

-  Tu o fizeste! - soluçou Winston. - Tu me reduziste a êste estado.

-  Não, Winston. Foste tu mesmo. Foi o que aceitaste quando te voltaste contra o Partido. Continha-se tudo no primeiro ato. Não aconteceu nada que não previsses.

Calou-se por um instante. Depois continuou:

- Nós te batemos, Winston. Nós te vencemos a resistência. Viste que aspecto tem teu corpo. Tua mente está no mesmo estado. Não creio que possa restar muito orgulho em ti. Foste escoiceado, chibateado e insultado, gritaste de dor, rolaste no chão, melando-te no teu sangue e teu vômito. Choramingaste pedindo misericórdia, traiste todo mundo e tudo. Podes imaginar alguma degradação que não te haja acontecido?

Winston parára de chorar, embora as lágrimas ainda brotassem nos seus olhos. Ergueu a vista para O'Brien.

- Não traí Júlia. O'Brien fitou-o contemplativo.

- Não - concordou. - Não. É verdade. Não traiste Júlia.

Inundou de novo o coração de Winston aquela reverência particular pelo seu torturador, que nada parecia conseguir extirpar. Como era inteligente, pensou êle, como era inteligente! O'Brien nunca deixava de compreender o que se lhe dissesse. Qualquer outro no mundo responderia prontamente que êle traira Júlia. Pois havia algo que não lhe houvessem arrancado na tortura?       Contara-lhes tudo que sabia a respeito da moça, seus hábitos, seu caráter, sua vida

passada; confessara até os detalhes mais insignificantes, tudo quanto acontecera nos seus encontros, tudo que lhe havia dito e tudo quanto ela lhe dissera; seus víveres do mercado negro, seus adultérios, suas vagas conspiratas contra o Partido... tudo. E no entanto, no sentido a que se referia, não a havia traído. Não deixara de amá-la; seus sentimentos em relação a ela continuavam na mesma. O'Brien percebera o significado de suas palavras sem precisar explicar.

- Dize-me - perguntou - quando me matarão?

- Ainda pode demorar muito - respondeu O'Brien.

- És um caso difícil. Mas não te desesperes. Mais cedo ou mais tarde todos se curam. No fim te daremos um tiro.

21

Estava muito melhor. Engordava e ficava mais forte cada dia, se é que podia falar de dias.

A luz branca e o zumbido eram os mesmos de sempre, porém a cela era um pouco mais confortável que as outras em que estivera. Havia um travesseiro e um colchão na cama de tábua, e lhe permitiam lavar-se com certa frequência na bacia de folha. Até lhe davam água morna para se lavar. Haviam fornecido roupa de baixo nova e um macacão limpo. Tinham pensado a úlcera com uma pomada. Haviam tirado os restos dos dentes e lhe dado um jôgo de dentaduras.

Deviam ter passado semanas ou meses. Agora seria possível marcar a passagem do tempo, se tivesse interêsse em o fazer, pois o alimentavam a intervalos aparentemente regulares. Acreditava que lhe davam     três refeições cada vinte e quatro horas; às vezes, raciocinava vagamente se as recebia de dia ou de noite. A comida era surpreendentemente boa, com carne de três em três refeições. Certa vez veio até um maço de cigarros. Não tinha fósforos, porém o guarda mudo que lhe trazia a comida lhe dava fogo. Da primeira vez que tentou fumar enjoou muito, porém perseverou, e fez o maço durar muito tempo, fumando meio-cigarro após a refeição.

Haviam-lhe dado uma ardósia branca, com um toco de lapis amarrado à moldura. A princípio não a usou. Mesmo quando deSperto sentia-se completamente entorpecido. Muitas vezes deixava-se ficar na cama de uma refeição à outra, quase sem se mexer, ora dormindo, ora mergulhado em vagas elocubrações durante as quais não valia a pena abrir os olhos. Havia muito que se acostumara a dormir com a luz forte no rosto. Parecia não fazer diferença. à exceção dos sonhos, que se tornavam mais coerentes. Sonhava muito, e eram

sempre sonhos alegres. Estava na Terra Dourada, ou então sentado entre enormes ruinas, gloriosas, banhadas de sol, em companhia de sua mãe, Júlia, O'Brien - sem fazer nada, apenas sentados ao sol, conversando de coisas pacíficas. Os pensamentos que tinha quando desperto eram principalmente relativos aos sonhos. Parecia ter perdido o poder do esfôrço intelectual, agora que terminara o estímulo da dor. Não estava aborrecido; não tinha o menor desejo de palestra ou distração. Bastava-lhe estar só, não apanhar nem ser interrogado, ter bastante que comer e sentir-se limpo de corpo inteiro.

Aos poucos, ia dormindo menos, porém ainda não sentia ânimo de se levantar da cama. Tudo que lhe apetecia era ficar quieto, deitado, sentindo a fôrça regressar ao corpo. Apalpava-se aqui e ali, procurando certificar-se de que não era ilusão o engrossamento dos seus músculos, o esticamento da pele. Por fim, constatou sem dúvida que estava engordando; as coxas estavam positivamente mais grossas que os joelhos. Depois disso, com relutância a princípio, começou a fazer exercícios regulares.    Dentro em breve conseguia caminhar três quilômetros, calculados pelo tamanho da cela, e os ombros arcados estavam-se endireitando. Tentou exercícios mais complicados, e ficou parvo e humilhado de descobrir o que não podia fazer. O único movimento que podia fazer era andar; não podia segurar o mocho com o braço esticado, não podia ficar numa perna só sem cair. Punha-se de cócoras, e com dores horríveis na coxa e na barriga da perna conseguia levantar-se de novo. Deitava de barriga e tentava erguer-se do chão, usando as mãos. Inútil; não podia levantar-se um centímetro que fosse. Mas depois de alguns dias - mais algumas refeições - até essa façanha foi possível. Chegou a ocasião em que o lograva seis vezes seguidas. Começou a ficar verdadeiramente orgulhoso do seu corpo, e a acariciar a crença intermitente de que o rosto também devia estar voltando ao normal. Só quando por acaso punha a mão na calva é que se lembrava da face enrugada, arruinada, que o fitara do espelho.

Sua mente tornou-se mais ativa. Sentava-se na cama, de costas para a parede e ardósia nos joelhos, e punha-se a trabalhar, deliberadamente, na tarefa de se reeducar.

Capitulara; não havia dúvida. Na realidade, percebia agora que estivera pronto a capitular muito antes de tomar essa decisão. Desde o momento em que se encontrara no Ministério do Amor - e mesmo durante aqueles minutos em que êle e Júlia haviam esperado, inermes, as ordens da vóz férrea da teletela - percebera a frivolidade, a inutilidade da sua tentativa de levantar-se contra o poder do Partido. Sabia agora que havia sete anos a Polícia do Pensamento o vigiara como quem examina um besouro sob a lupa. Não havia ato físico, nenhuma palavra em voz alta, que não tivesse observado, nenhuma associação de idéias que não tivessem podido inferir. Até mesmo o grão de poeira esbranquiçada fôra reposto na capa do diário. Tinham tocado gravações, mostrando fotografias. Algumas eram fotos de Júlia e dêle. Sim, até de...      Não podia mais lutar contra o Partido. Além disso, o Partido tinha razão. Devia ter: como poderia enganar-se o cérebro imortal coletivo? Por que padrão extra-sensório poderia medir seus raciocínios? A sanidade era estatística.   Era apenas questão de aprender a pensar como o Partido. Se ao menos... !

O lápis pareceu-lhe grosso e desajeitado entre os dedos. Começou a grafar os pensamentos que lhe vinham à cabeça. Primeiro escreveu em grandes letras trêmulas:

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO

Depois, quase sem pausa, escreveu por baixo:

DOIS E DOIS SÃO CINCO

Houve então uma espécie de pausa. Sua mente, como se fugisse de alguma coisa, parecia incapaz de se concentrar. Sabia que sabia o que vinha depois, mas no momento não podia se lembrar. Quando se recordou, foi apenas através do raciocínio consciente do que deveria ser; não veio espontâneamente. Escreveu:

DEUS É PODER

Aceitava tudo.   O passado era alterável.     O passado nunca fôra alterado. A Oceania estava em guerra com a Lestásia. A Oceania sempre estivera em guerra com a Lestásia. Jones, Aaronson e Rutherford eram réus dos crimes imputados. Nunca vira a fotografia que provava sua inocência. Nunca existira: êle a inventara. Lembrou-se de que recordara coisas contraditórias, mas eram apenas falsas lembranças, produtos de alucinação. Como tudo era fácil! Bas-

tava render-se e tudo o mais sobrevinha. Era como nadar contra uma corrente -que o levasse para trás, por mais esfôrço que fizesse, e resolveu de repente dar meia-volta e nadar a favor, em vez de opôr-se ao fluxo da água. Nada mudara, excepto sua atitude; e a coisa predestinada acontecera sempre. Mal sabia porque se havia revoltado. Tudo era fácil, excepto... !

Qualquer coisa podia ser verdade. Eram tolice as chamadas leis naturais. Era bobagem a lei da gravidade. "Se eu quisesse," dissera O'Brien, "eu poderia flutuar no ar como uma bolha de sabão." Winston raciocinara. "Se êle pensa que flutua no ar, e se eu simultâneamente pensar que o vejo flutuando, então a coisa de fato acontece." De repente, como um destroço submerso que aflora à tona, um pensamento rompeu-lhe no cérebro: "Não acontece de fato. Nós é que imaginamos. É uma alucinação." Fez o pensamento afundar instantâneamente. Era óbvia sua falácia. Pressupunha a existência, nalguma parte, fóra do indivíduo, de um mundo "real" onde coisas "reais" acontecessem. Mas como poderia existir êsse mundo? Que sabemos das coisas, excepto através de nossa mente? Tudo que acontece acontece na cabeça. E o que acontece em tôdas as mentes, de fato acontece.

Não teve dificuldade em eliminar a falácia, e não corria risco de sucumbir. Não obstante, percebia que não lhe devia ter ocorrido. O cérebro devia formar um ponto cego sempre que se apresentasse um pensamento perigoso. O processo devia ser automático, instintivo. Crimedeter, era o seu nome em Novilíngua.

Pôs-se a exercitar-se em crimedeter. Apresentava a si próprio proposições - "o Partido diz que a terra é plana," "o Partido diz que o gêlo é mais pesado que a água," - e treinava para não ver ou não compreender os argumentos que as contradiziam. Não era fácil. Necessitava grandes recursos de raciocínio e improvisação. Os problemas aritméticos provocados por uma afirmativa como por exemplo "dois e dois são cinco", estavam fóra da sua compreensão intelectual. Precisava também de uma espécie de atletismo da mente, da habilidade de num momento fazer o uso mais delicado da lógica e, no momento seguinte, ser inconsciente dos mais brutais ilogismos. A estupidez era tão necessária quanto a inteligência, e igualmente difícil de se conquistar.

Durante todo tempo, uma parte do seu espírito se indagava quando o matariam. "Tudo depende de ti" dissera O'Brien; mas sabia não haver ato consciente pelo qual aproximasse o fim. Poderia ser dali a dez minutos, ou dez anos. Poderiam metê-lo numa solitária, poderiam mandá-lo a um acampamento de trabalhos forçados, poderiam soltá-lo algum tempo como às vezes faziam. Era perfeitamente possível que antes de ser morto todo o drama da prisão e do interrogatório fosse representado de novo. A única coisa certa era que a morte nunca ocorria no momento esperado. A tradição - a tradição tácita: sabia-se, sem nunca se ter ouvido falar dela - era ser atirado pelas costas: sempre na nuca, sem aviso, quando o preso ia pelo corredor, de uma cela a outra.

Um dia - mas "um dia" não era a expressão correta,com tôda a probabilidade era no meio da noite - uma vez mergulhou num sonho estranho, feliz. Ia andando pelo corredor, à espera da bala. Sabia que viria dali a um momento. Tudo estava resolvido, esclarecido,   reconciliado. Não havia mais dúvidas, nem discussões, nem dor, nem medo. Sentia o corpo sadio e forte. Andava com     facilidade, com uma alegria de movimentos, com a sensação de caminhar ao sol. Não estava mais nos estreitos corredores  brancos do Ministério do Amor, estava na enorme passagem ensolarada, de um quilômetro de extensão, em que estivera    no seu delírio intoxicado. Estava na Terra Dourada, seguindo a senda que cortava o pasto roído de coelhos. Podia sentir o relvado curto e novo sob os pés e o sol suave no rosto. Na orla do campo via os ulmeiros, mexendo-se gentilmente, e mais além o riacho onde nadavam os mugens em espraiados verdes sob os chorões.

De repente, levantou-se com um choque de horror. O suor escorria-lhe pela espinha.    Ouvira a sua própria voz gritando:

- Júlia! Júlia! Júlia, meu amor! Júlia! Por um momento, teve uma        alucinação esmagadora da sua presença. Ela parecia estar     não apenas com êle, mas dentro dêle. Era como se tivesse     penetrado dentro da pele. Naquele momento, amou-a muito       mais do que quando estavam livres e juntos. Soube também que ainda estava viva, e precisava de auxílio.

Deitou-se de novo e tentou compor-se. Que fizera? Quantos anos mais de servidão acrescentara à sua pena, por aquele momento de fraqueza?

Dali a um momento ouviria o barulho das botas lá fora. Não era Possível que deixassem de punir uma explosão da-

quelas. Saberiam agora, se já não o soubessem, que estava rompendo o acôrdo feito. Obedecia ao Partido, mas ainda o odiava. No passado, ocultara a mente herética sob a aparência de conformidade. Agora, recuara mais um passo: na mente recuara, mas tivera esperança de manter inviolado o imo do coração. Sabia estar errado, mas preferia estar errado. Êles compreenderiam isso - O'Brien o compreenderia. Confessara tudo naquele grito tolo.

Teria de começar tudo do comêço. Poderia levar anos. Passou a mão pelo rosto, procurando se familiarizar com a nova fisionomia. Havia sulcos profundos nas faces, os zigomas eram salientes, o nariz se achatara. Além disso, depois de se olhar no espêlho, lhe haviam dado dentadu'ras novas. Não era fácil preservar a inescrutabilidade se nem sabia que feições tinha. De qualquer modo, não bastava o mero controle fisionômico. Pela primeira vez viu que para guardar segredo é preciso escondê-lo também da própria consciência. Deve-se saber todo o tempo que o segredo está ali mas, até o momento de usá-lo, é preciso não permitir que venha a furo sob nenhuma forma a que se possa dar nome. Dali por diante, não devia apenas pensar direito; devia sentir direito, sonhar direito. E todo o tempo devia guardar o seu ódio trancado dentro de si, como um corpo estranho que fosse parte dêle e no entanto desligado do resto do corpo, como uma espécie de quisto.

Um dia resolveriam matá-lo. Não era possível dizer quando aconteceria, mas uns segundos antes seria possível adivinhá-lo. Era sempre por trás, andando pelo corredor. Dez segundos bastariam. E então, de repente, sem que se pronunciasse uma palavra, sem uma interrupção no passo, sem que se alterasse uma linha do rosto - a camuflagem cairia de repente e bum! ribombariam as baterias do seu ódio.

O ódio o inundaria como uma enorme labareda, a roncar. E quase no mesmo instante bum! viria o tiro, tarde demais, ou cedo demais. Teriam destruido seu cérebro antes de recuperá-lo. O pensamento herético ficaria impune, sem arrependimento, fora do alcance do seu poder. Teriam esburacado a própria perfeição. Morrer a odiá-los, eis a liberdade.

Fechou os olhos. Era mais difícil    do que aceitar uma disciplina intelectual. Era questão de se degradar, de se mutilar. Tinha de mergulhar na maior     imundície. Que era o mais horrível e nauseante de tudo? Pensou no Grande Irmão. A face enorme (por vê-la constantemente nos cartazes, sempre pensava nela como se tivesse um metro de largura), com o espesso bigode negro e os olhos que o seguiam por tôda parte, pareceu penetrar-lhe no cérebro, por si mesma. Quais eram os seus verdadeiros sentimentos em relação ao Grande Irmão?

Houve um ruido de botas ferradas no corredor. A porta de aço abriu-se com estrépito. O'Brien entrou na cela. Atrás dêle estavam o oficial de cara de cera e os guardas de uniforme negro.

- Levanta. Vem aqui. Winston postou-se diante dêle. O'Brien pousou as mãos nos ombros de Winston e fitou-o de perto.

- Tiveste idéia de me enganar - disse êle. - Foi uma cretinice. Endireita-te mais. Olha-me no rosto.

Fez uma pausa e continuou, com tom mais sereno:

- Estás melhorando. Intelectualmente, não há quase nada errado em ti. Só emocionalmente é que não progrides. Dize-me, Winston - e lembra-te, nada de mentir; bem sabes que sempre descubro as mentiras - dize-me, quais são teus verdadeiros sentimentos em relação ao Grande Irmão?

- Eu o odeio.

- Odeias. Bom. Então chegou a hora de dares o último passo. É preciso que ames o Grande Irmão. Não basta obedecê-lo: é preciso amá-lo.

Soltou Winston com um pequeno empurrão na direção dos guardas.

- Sala 101 - ordenou.

22

A cada estágio da prisão êle soubera, ou parecera saber, em que ponto do edificio se encontrava. Era possível que houvesse ligeira diferença na pressão do ar. Ficavam no sub-solo as celas onde os guardas o tinham espancado. O quarto onde O'Brien o interrogara era bem no alto, perto do telhado. O lugar onde estava ficava muitos metros abaixo do nível do chão, tão profundo quanto era possível ir.

Era maior do que qualquer das celas em que estivera. Êle porém mal observou o ambiente. Tudo que notou foi a existência de duas pequenas mesas, bem na sua frente, ambas cobertas de feltro verde. Uma ficava a apenas um metro ou dois, e a outra mais longe, perto da porta. Estava amarrado, muito teso numa cadeira, tão fortemente ligado que não podia mexer nem a cabeça. Uma espécie de almofada comprimia-lhe a nuca, forçando-o a olhar para a frente.

Por um momento ficou só. Depois a porta se abriu e O'Brien entrou.

- Uma vez me perguntaste - disse O'Brien - o que havia na Sala 101. E eu te disse que sabias a resposta. Todos sabem. O que há na Sala 101 é a piorcoisa do mundo.

A porta tornou a abrir-se. Um guarda entrou, trazendo algo feito de arame, uma caixa, ou cesta. Colocou-o na mesa distante. Por causa da posição ocupada por O'Brien, Winston não pôde enxergar bem o que era.

- A pior coisa do mundo - disse O'Brien - varia de indivíduo para indivíduo. Pode ser o sepultamento vivo, a

morte pelo fogo, afogamento, empalamento, ou cinquenta outras mortes. Casos há em que é algo trivial, nem ao menos mortífero.

Afastou-se um pouco para o lado, de modo que Winston pudesse ver melhor o que estava sôbre a mesa. Era uma gaiola de arame, retangular, com uma alça em cima. Fixado na frente havia um objeto que parecia uma máscara de esgrima, com o lado côncavo para fóra. Embora estivesse a três ou quatro metros de distância, Winston pôde ver que a gaiola era dividida longitudinalmente em dois compartimentos, e que em cada um havia um animal. Eram ratazanas.

- No teu caso - disse O'Brien - a pior coisa do mundo são ratos.

Uma espécie de tremor de premonição, um medo de que não tinha certeza, passara por Winston assim que entrevira a gaiola. Mas naquele momento, a utilidade do objeto côncavo de repente se esclareceu. Suas entranhas pareceram liquefazer-se.

Não podes fazer isso! - exclamou num tom de falsete.    Não podes, não podes! É impossível.

Lembras-te - perguntou OBrien - dos momentos de pânico que ocorriam nos teus sonhos? Havia uma muralha de treva na tua frente, um ronco nos teus ouvidos. Havia algo terrível do outro lado da parede. Sabias que sabias o que era, mas não ousavas trazê-lo à luz. Eram ratos que estavam do outro lado da muralha.

- O'Brien!      disse Winston, fazendo um esfôrço para controlar a voz.     Sabes que isto não é necessário. Que queres que eu faça?

O'Brien não deu resposta. Quando falou, foi com os modos de mestre-escola que às vezes ostentava.         Pareceu pensativo, olhos perdidos na distância, como se se dirigisse a uma platéia colocada atrás de Winston.

- Em si - disse êle - a dor nunca é suficiente. Há ocasiões em que o ser humano resiste à dor, mesmo sob risco de morte. Mas para todos há algo insuportável - algo que não pode ser contemplado. A coragem e a covardia nada têm com isso. Se estás caindo dum lugar alto, não é covardia agarrar-te a uma corda. Se vens de águas profundas, não é covardia encher os pulmões de ar. É apenas um instinto que não pode ser desobedecido. É o mesmo com as ratazanas. Para ti, são insuportáveis. São uma forma de pressão que não podes aguentar, nem que queiras. Farás o que se te exige.

- Mas o que é, o que é? Como fazê-lo se não sei o que é?

O'Brien apanhou a gaiola e trouxe-a para a mesa mais próxima. Colocou-a cuidadosamente sôbre o feltro verde. Winston podia ouvir o sangue tinindo nas orelhas. Tinha a impressão de estar na mais absoluta solitude. Encontrava-se no meio de uma vasta planície erma, um deZerto plano banhado de sol, e os sons lhe chegavam de grandes distâncias. No entanto, a gaiola dos ratos não estava senão a dois metros dêle. Eram ratazanas enormes. Tinham a idade em que ficam com o focinho rombudo e o pelo pardo, em vez de cinzento.

- O rato - disse O'Brien, ainda se dirigindo à platéia invisível - embora roedor, é carnívoro. Bem o sabes. Ouviste falar das coisas que acontecem nos bairros pobres desta cidade. Em algumas ruas, uma mulher não ousa deixar o filhinho em casa, por cinco minutos que seja. É seguro que os ratos o ataquem. Dentro de muitíssimo pouco tempo devoram tudo, só deixam ossos. Também atacam pessoas doentes, e moribundos. Demonstram espantosa inteligência, descobrindo quando um ser humano está indefeso.

Houve uns guinchos na gaiola. Pareceram a Winston vír de muito longe. Os ratos est   avam brigando; tentavam atacar-se através da divisão de arame. Ouviu também um fundo gemido de desespêro, que também pareceu vir de fóra.

O'Brien ergueu a gaiola e, ao fazê-lo, comprimiu algo. Ouviu-se um estalido. Winston fez um esforço frenético para se livrar da cadeira. Inútil, pois todo o seu corpo, inclusive a cabeça, estavam firmemente presos, imobilizados. O'Brien aproximou a gaiola. Estava a menos de um metro do rosto de Winston.

- Apertei a primeira alavanca - disse O'Brien. -

Compreendes a construção desta gaiola. A máscara adapta-se à tua cabeça, sem deixar saída. Quando eu apertar esta outra alavanca, a porta da gaiola correrá. Os monstros famintos saltarão por ela como balas. Já viste um rato pular no ar? Pularão sôbre teu rosto e começarão a devorá-lo. Às vezes, atacam primeiro os olhos. As vezes abrem caminho pelas bochechas e devoram a língua.

A gaiola estava mais próxima; cada vez mais. Winston ouviu uma série de guinchos agudos que pareciam vir de cima, de sôbre sua cabeça. Mas lutou furiosamente contra o pânico. Pensar, pensar, mesmo que lhe restasse uma fração de segundo - pensar para a única esperança. De repente o fedor mofado dos brutos atingiu-lhe as narinas.

Dentro dêle houve uma violenta convulsão de náusea, e quase perdeu os sentidos. Tudo enegrecera. Por um instante, sentiu-se louco, um animal a gritar. Entretanto, saiu das trevas trazendo uma idéia. Só havia um, um único meio de se salvar. Precisava colocar outro ser humano, interpor o corpo de outro ser humano diante da gaiola.

O círculo da máscara era suficientemente grande para tapar a visão de tudo mais. A porta de arame estava a alguns palmos do seu rosto. Os ratos sabiam o que ia acontecer. Um dêles dava pulos no ar, e o outro, um escamoso veterano dos esgotos, se levantou, com as patas rosadas nas grades, fungando ferozmente. Winston pôde ver os bigodes e os dentes amarelos. De novo o pânico negro o possuiu. Estava cego, indefeso, insano.

- Um castigo comum na China imperial - disse O'Brien, mais pedagógicamente do que nunca.

A máscara se aproximava. O arame tocou-lhe o rosto. E então... não, não era alívio, apenas esperança, um minúsculo fragmento de esperança. Tarde demais, tarde demais talvez. Mas compreendera de repente que no mundo inteiro só havia uma pessoa a quem transferir seu castigo

- um corpo que podia colocar diante dos ratos. E pôs-se a berrar frenéticamente, repetidamente:

- Faze isso com Júlia! Faze com Júlia! Comigo não! Júlia! Não me importa o que faças a ela. Arranca-lhe a cara, desnuda-lhe os ossos. Não comigo! Com Júlia! Comigo não!

Estava caindo para trás, vertiginosamente, afastando-se dos ratos. Ainda estava amarrado à cadeira, mas caira através do soalho, através das paredes do edifício, através da terra, dos oceanos, da atmosfera, do espaço exterior, no vácuo entre as estrêlas - sempre longe, longe, longe dos ratos. Estava a uma distância de anos-luz, porém O'Brien continuava de pé ao seu lado. Sentia ainda na face o toque frio do arame. Mas dentro da escuridão que o envolvera ouviu outro estalido metálico, e soube que a porta da gaiola se fechara, não se abrira.

23

O Café Castanheira estava quase vazio. Um raio de sol, entrando em oblíqua pela janela, caia amarelo sôbre as mesas poeirentas. Era a solitária hora das quinze. Das teletelas escorria uma música metálica.

Winston sentou-se no seu recanto habitual, fitando o copo vazio. De vez em quando contemplava um rosto enorme que o olhava da parede oposta. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda. Sem que o chamasse, o garçon veiu e encheu-lhe o copo de Gin Vitória, pingando algumas gotas de outra garrafa com um canudinho atravessando a rolha. Era sacarina com essência de cravo, a especialidade do café.

Winston escutava a teletela. No momento, dela apenas saía música, mas havia a possibilidade de a qualquer momento divulgar um boletim do Ministério da Paz. As notícias da frente africana eram extremamente inquietadoras. O dia todo sentira-se intermitentemente preocupado com elas. Um exército eurasiano (a Oceania estava em guerra com a Eurásia: sempre estivera em guerra com a Eurásia) progredia para o sul com terrível velocidade. O boletim do meio-dia não mencionara nenhuma área definida, mas era provável que a foz do Congo já fosse um campo de batalha. Brazzaville e Leopoldville estavam em perigo. Não era preciso olhar o mapa para saber o que significava. Não era apenas questão de perder a África Central: pela primeira vez em tôda a guerra, o território da Oceania estava ameaçado.

Uma violenta emoção, que não era bem medo, mas uma espécie de excitação amorfa, se acendeu dentro dêle, e tornou a apagar-se. Deixou de pensar na guerra. Não podia fixar o pensamento em assunto algum por mais de uns momentos. Ergueu o copo e tragou o conteúdo de um gole.

Como sempre, produziu-lhe um arrepio e até lhe deu engulhos. A bebida era horrível. Os cravos e a sacarina, em si já bastante repugnantes, não conseguiam disfarçar o cheiro oleoso do álcool; e o pior de tudo era que o bafio de gin, que não o abandonava dia e noite, misturava-se indissolúvelmente, no seu espírito, com o cheiro dos. ..

Nunca lhes dizia o nome, nem mesmo em pensamento, e tanto quanto possível, nunca os visualizava. Eram algo de que êle só em parte se dava conta, mexendo-se perto do seu

rosto, com aquele fedor que se prendia às narinas. Um arroto de gin lhe entreabriu os lábios escuros. Engordara mais depois de ser posto em liberdade, e recobrara sua côr antiga - na verdade, tinha mais côr que antes. Suas feições haviam engrossado, a pele do nariz e das faces tornara-se áspera e vermelha, e até a calva tinha um tom rosa escuro. Um garçon, sem que ninguém o chamasse, trouxe um tabuleiro de xadrez e um exemplar do dia do Times, na página do problema de xadrez. Daí, vendo vazio o copo de Winston, trouxe a garrafa de gin e encheu-o. Não havia necessidade de pedír nada. Conheciam seus hábitos. O tabuleiro de xadrez estava sempre à sua espera, sua mesa de canto sempre reservada; mesmo quando o café estava cheio ali se sentava a sós, pois ninguém gostava de ser visto em sua companhia. Nem mesmo se preocupava de contar quanto bebia. A intervalos irregulares apresentavam-lhe um pedacinho de papel sujo, que passava por conta, mas tinha a impressão de que sempre lhe cobravam de menos. Não faria a mínima diferença se fosse o contr'ário. Agora sempre tinha bastante dinheiro. Tinha até um emprego, uma sinecura, mais bem paga do que fôra o seu trabalho anterior.

Parára a música da teletela, e uma voz a substituira. Winston levantou a cabeça para escutar. Não era um boletim da frente, todavia. Apenas um breve comunicado do Ministério da Fartura. Aparentemente, no trimestre anterior, fôra superada de noventa e oito por cento a cota de atacadores para sapatos do Décimo Plano Trienal.

Examinou o problema de xadrez e arrumou as pedras. Era um final complicado, com dois bispos. "As brancas jogam. Mate em dois lances." Winston ergueu os olhos para o retrato do Grande Irmão. As brancas sempre matam, pensou, numa espécie de nebuloso misticismo. Sempre, sem exceção, é o que acontece. Em nenhum problema de xadrez, desde o comêço do mundo, as pretas jamais venceram. Não

seria um símbolo do triunfo eterno, invariável, do Bem sôbre o Mal? A carantonha fitava-o, cheia de calmo poder. As brancas sempre matam.

A voz da teletela fez uma pausa e acrescentou, num tom diferente, muito mais grave:

- Avisamos que deveis    todos aguardar uma comunicação importante às quinze e trinta. Quinze e trinta! Notícias da mais alta importância! Não percais! Quinze e trinta! E a música metálica recomeçou.

Winston ofegou. Devia ser    o boletim da frente de batalha; o instinto dizia-lhe que vinham más notícias. O dia inteiro, com pequenas fases de  excitação, pensara numa esmagadora  derrota na África. Parecia-lhe ver o exército eurasiano formigando, cruzando a fronteira inviolada e invadindo a ponta da África como uma coluna de saúvas. Por que não fôra possível franqueá-lo de algum modo? A silhueta da costa ocidental da África destacou-se vividamente na sua mente. Apanhou o bispo branco e colocou-o num dos quadros. Ali estava a casa certa. Ao mesmo tempo que enxergava a horda negra disparando para o sul, via outra fôrça, misteriosamente reunida, súbitamente plantada na sua retaguarda, cortando-lhe as comunicações por terra e mar. Sentiu que, pensando nela, estava dando existência àquela outra fôrça. Mas era necessário agir ràpidamente. Se pudessem assumir o controle da África inteira, se tivessem campos de pouso e bases de submarinos no Cabo, cortariam a Oceania em duas. Poderia significar qualquer coisa: derrota, debacle, redivisão do mundo, destruição do Partido! Êle respirou fundo. Lutava dentro dêle uma extraordinária miscelânea de sentimentos - mas não era uma miscelânea, própriamente; mais uma sucessão de camadas de sentimento, e era impossível dizer qual ficava por baixo.

Passou o espasmo. Tornou a recolocar o bispo no lugar anterior, mas por um instante não pôde  dedicar-se ao estudo sério do problema de xadrez. Seus pensamentos tornaram a vaguear. Quase inconsciente, pôs-se a rabiscar com o dedo na poeira da mesa: 2+2-5

- Não podem ver dentro de ti - dissera ela. Mas, podíam entrar na pessoa. - O que te acontecer aqui será para sempre - dissera O'Brien. E era verdade. Havia coisas, atos do indivíduo, dos quais era impossível se recuperar. Algo estava morto em seu peito; queimado, cauterizado.

Êle a vira; chegara até a falar-lhe. Não havia perigo nisso. Sabia, quase instintivamente, que agora não se interessavam mais pelo que fizesse. Poderiam ter combinado novos encontros, se algum dos dois o tivesse desejado. Na verdade, haviam-se encontrado por acaso. Foi no parque, num dia feio e hostil de março, quando a terra era como ferro, tôda a relva parecia morta e não havia flor em parte alguma, excepto alguns crocus que se haviam arriscado a ser despetalados pelo vento. Êle ia andando depressa, as     mãos geladas, olhos lacrimejantes, quando a viu a menos de dez metros de distância. Imediatamente percebeu que ela mudara, de modo mal definido. Quase se cruzaram sem um gesto; mas êle voltou-se e seguiu-a, sem grande interêsse. Sabia não haver perigo, já ninguém se ocupava dêle. Ela não falou. Caminhara obliquamente, pela grama, como se tentasse se desvencilhar dêle; depois parecera resignar-se a tê-lo ao lado. Dali a pouco estavam no meio duma touceira de arbustos desfolhados e escalavrados, que não serviam nem como esconderijo nem como abrigo contra o vento. Pararam. Fazia um frio nefando. O vento assobiava por entre os galhos secos, e sacudia os pobres crocus sujos. Êle passou o braço pela cintura da moça.

Não havia teletela, mas devia haver microfones escondidos; além disso, podiam ser vistos. Não importava, nada importava. Poderiam deitar no chão e fazer aquilo se quisessem. Sua carne gelou de horror, só de pensá-lo. Ela não reagiu de modo algum ao toque do braço de Winston; nem ao menos tentou se livrar. Êle soube então o que havia mudado nela. Tinha o rosto macilento, e havia uma longa cicatriz, parcialmente oculta pelo cabelo, rasgando a testa e a fonte; mas não era essa a mudança. Sua cintura engrossara e, de modo surpreendente, enrijara também. Êle lembrou-se de um  a vez em que, após a explosão de uma bombafoguete, ajudara a puxar um cadáver debaixo dos escombros, e como se assustara não apenas com o peso incrível do corpo como também com a rigidez e a dificuldade de segurálo, que davam mais a impressão de pedra do que de carne.

O corpo dela dava aquela impressão. Ocorreu-lhe que a textura de sua pele também era muito diferente do que fôra.

Não tentou beijá-la, nem falaram. Enquanto atravessavam o portão, de volta, ela olhou-o de frente pela primeira vez. Foi apenas um olhar momentâneo, cheio de desprezo e repugnância. Êle indagou de si mesmo se se tratava de uma repugnancia oriunda do passado ou se inspirada também pelo seu rosto inchado e a água que o vento persistia em fazerlhe brotar dos olhos. Tinham sentado em duas cadeiras de ferro, de lado mas não muito juntas. Viu que Júlia estava a pique de falar. Ela esticou alguns centímetros o pé no sapato deselegante e deliberadamente quebrou um graveto. Êle observou que os pés da moça pareciam ter-se alargado.

- Eu te traí - disse ela, sem rodeios.

- Eu te traí - disse êle também. Júlia lançou-lhe outro olhar de repugnância.

- As vezes, - disse ela - ameaçam a gente com uma coisa... com coisas que não se pode aguentar, não se pode nem pensar. E então a gente diz "Não faças isso comigo, faze com outra pessoa, faze com Fulano e Sicrano." Mais tarde, talvez finjas que se tratava apenas de um estratagema, mandar que o fizessem a outro, e que não era a sério. Mas não é verdade. Na hora que acontece a gente fala sério. Pensa que não há outro jeito de se salvar; e se dispõe a salvar-se daquele modo. A gente quer que a coisa aconteça ao outro. Não se importa que sofra. Só importa a gente. Só nós temos importância.

- Só nós temos importância - repetiu êle.

- E depois disso, já não se sente o mesmo pela outra pessoa.

- Não - concordou êle - já não se sente o mesmo. Não parecia haver nada mais a dizer. O vento colava-lhes à pele os macacões delgados. Quase imediatamente, tornou-se incômodo ficar ali, calados: além disso, estava frio demais para continuarem sem se mexer. Ela disse qualquer coisa a respeito do trem subterrâneo e levantou-se.. .

- Precisamos nos encontrar outra vez - disse êle.

- Sim, precisamos nos encontrar. Seguiu-a irresoluto por alguma distância, meio passo atrás. Não tornaram a falar. Ela não procurou se desvencilhar dêle, porém andava com passo bastante rápido, de maneira a evitar que a alcançasse. Êle resolvera acompanhá-la até a estação do subterrâneo, mas de repente essa coisa de seguir uma pessoa lhe pareceu insuportável e inútil. Dominou-o o desejo não tanto de se afastar de Júlia como de voltar ao Castanheira, que nunca lhe parecera tão atraente como naquele instante. Teve uma visão saudosa da sua mesinha no canto, com o jornal, o tabuleiro de xadrez e o copo sempre cheio de gin. Sobretudo, não faria frio. No instante seguinte, e não por acaso, êle permitiu que um grupo de pessoas o separasse dela. Fez uma tentativa desanimada de alcançá-la, depois reduziu o passo, voltou-se e saiu na direção oposta. Depois de ter caminhado uns cinquenta metros, voltou-se e olhou para trás. A rua não estava cheia, mas quase não a podia distinguir. Podia ser qualquer daquelas figuras apressadas. Talvez o corpo engrossado e enrijado não fôsse mais reconhecível por trás. "Na hora que acontece a gente fala sério", dissera ela. Êle falara sério. Não apenas o dissera: desejara-o. Desejara que ela e não êle sofresse os...

Algo se modificou na música que escorria da teletela. Doniinava-a, partida e zombeteira, uma nota amarela. E então - talvez não estivesse acontecendo, talvez fosse apenas uma lembrança tomando forma de som - uma voz cantou: "Sob a frondosa castanheira Eu te vendi e tu me vendeste. . . Os olhos de Winston ficaram rasos dágua. Um garçon que passava observou o copo vazio e voltou com a garrafa de gin.

Êle ergueu o copo e cheirou-o. Quanto mais bebia, mais horrível se tornava a tisana. Mas tornara-se o elemento em que nadava. Era sua vida, sua morte, sua ressurreição. Era o gin que o mergulhava no estupor tôdas as noites, e o gin que o revigorava tôdas as manhãs. Ao despertar, rara vez antes das onze, as pálpebras coladas, a bôca ardente e as costas moídas, seria impossível abandonar a horizontal se não fossem a garrafa e a xícara no criado-mudo. Passava um par de horas sentado, olhos vazios e vidrados, garrafa à mão, escutando a teletela. Das quinze à hora de fechar estava sempre no Castanheira. Ninguém mais se importava com o que êle fizesse, nenhum apito o acordava, nenhuma teletela o admoestava. Ocasionalmente, duas vezes por semana talvez, ia a um empoeirado e esquecido escritório do Ministério da Verdade e trabalhava um pouco. Fôra nomeado para o sub-comitê de um sub-comitê que surgira de um dos inúmeros comitês que tratavam das dificuldades menores aparecidas durante a compilação da Décima Primeira Edição do Dicionário de Novilíngua. Cabia-lhes redigir um

chamado Relatório provisório, porém êle nunca descobrira a respeito do que deveriam es'crever. Parecia ligar-se à questão da colocação das vírgulas antes ou depois das aspas. Havia outros quatro no comité, todos pessoas em semelhantes condições. Havia dias em que se reuniam e logo debandavam de novo, admitindo francamente que na verdade nada tinham que fazer. Mas noutras ocasiões, atiravam-se ao trabalho quase com ânsia, fazendo uma fita enorme de minutar seus relatórios pessoais e redigir longos memorandos que nunca terminavam - quando a discussão sôbre o que deveriam discutir se tornava extraordinàriamente complicada e abstrusa, com sutis divergências sôbre definições, enormes digressões, brigas e até ameaças de recurso a autoridade superior. E então de repente o entusiasmo se apagava e êles ficavam em tôrno da mesa, entrefitando-se, com olhos defuntos, como duendes que se desvanecem ao cocoricar do galo.

A teletela calou-se um instante. Winston tornou a levantar a cabeça. O boletim! Mas não, apenas mudavam de música. Tinha o mapa da África na retina. O movimento dos exércitos era um diagrama: uma flecha negra avançando para o sul, na vertical, e uma seta branca rasgando para leste, na horizontal, cortando a haste da primeira. Como para se tranquilizar, contemplou o rosto imperturbável do cartaz. Seria concebível que a segunda flecha nem ao menos existisse?

Seu interêsse caiu de novo. Bebeu novo gole de gin, apanhou o bispo branco e deu um lance experimental. Cheque. Evidentemente, porém, não era o lance certo porque...

Sem que a chamasse, uma lembrança lhe voltou à mente. Viu um quarto iluminado a vela, com uma vasta cama, coberta por uma colcha branca, e êle próprio, com nove ou dez anos, sentado no chão, sacudindo um copo de dados e rindo-se nervosamente. Sua mãe estava sentada à sua frente e também ria.

Devia ter sido um mês antes dela desaparecer. Fôra um momento de reconciliação, em que esquecera a fome atenazante no ventre, e ressuscitara parcialmente a antiga afeição, Lembrava-se lúcidamente do dia, de chuva forte, em que a água escorría pelas vidraças e dentro da casa estava escuro demais para ler. Tornara-se insuportável o tédio das duas crianças presas num quarto escuro e apertado. Winston queixava-se e resmungava, fazia fúteis pedidos de comida, perambulava nervoso pelo quarto tirando tudo do seu lugar e dando pontapés nas paredes até os vizinhos reclamarem, dando murros do outro lado; enquanto isso, a menina gemia intermitentemente. No fim, sua mãe dissera

Fica bonzinho que eu te compro um brinquedo. Um lindo brinquedo... hás de gostar muito dêle." E saíra para a chuva, indo a uma lojinha próxima que ainda abria esporàdicamente, e voltara com uma caixa de papelão contendo um jôgo de obstáculos. Podia ainda lembrar-se do cheiro da cartolina molhada. Era um jôgo paupérrimo. A prancha da corrida de obstáculos estava rachada, e os dados de madeira eram tão toscos que mal caíam de lado. Winston fitara o brinquedo, emburrado, sem interêsse. Mas então sua mãe acendera um coto de vela e sentara no chão para jogar. Dali a pouco êle estava entusiasmado, gritando e dando gargalhadas quando as pedras subiam cheias de esperança e caíam nas arapucas, voltando quase ao ponto de partida. Tinham jogado oito partidas, ganhando quatro cada um. A irmãzinha, muito pequena para compreender o jôgo, fôra instalada entre travesseiros na cama, e ria porque via os outros rindo. Durante a tarde tôda tinham sido felizes os três, como na primeira infância.

Êle expulsou a cena da memória. Era uma lembrança falsa. De vez em quando era perturbado por essas falsas recordações. Não tinha importância, contanto que soubesse do que se tratava. Algumas coisas tinham acontecido, outras não. Concentrou-se de novo no tabuleiro e tornou a apanhar o bispo branco. Quase no mesmo instante largou-o com ruido sôbre o tabuleiro. E estremeceu como se lhe tivessem dado uma alfinetada.

Um agudo toque de clarim cortara o ar. Era o boletim! Vitória! O toque de clarim antes do noticiário sempre significava vitória. Uma espécie de arrepio elétrico percorreu o café. Até os garçons pararam prestando atenção.

O clarim provocara uma onda de barulho. Já uma voz excitada tagarelava na teletela, mas antes de começar fôra quase abafada pelos vivas e hurras na rua. A notícia se propagara como por arte de magia. Podia-se ouvir apenas o suficiente do que saía da teletela, para perceber que tudo acontecera como previra: um vasto exército transportado pelo mar, secretamente concentrado, um golpe repentino na retaguarda do inimigo, a flecha branca cortando a haste da negra. Fragmentos de frases triunfantes se faziam ouvir por entre o berreiro geral: "Vasta manobra estratégica... per-

feita coordenação...   derrota integral... meio milhão de Prisioneiros... completa desmoralização... controle de tôda a África ... leva a guerra a uma distância visível do fim... vitória ... a maior vitória da história humana... vitória, vitória, vitória! "

Sob a mesa, os pés de Winston fizeram movimentos convulsos. Não se movera do lugar, porém mentalmente estava correndo à pressa, misturando-se com a multidão, vivando até ensurdecer. Tornou a olhar o retrato do Grande Irmão.

O colosso que dominava o mundo! A rocha contra a qual as hordas da Ásia debalde se haviam arremessado! Pensou que havia apenas dez minutos - sim, dez minutos - havia dúvida em seu coração quanto ao caráter das notícias da frente de batalha: vitória ou derrota. Ah, perecera mais que um exército eurasiano! Muita coisa havia mudado nele, desde aquele primeiro dia no Ministério do Amor, porém a transformação final, salvadora, não se registrara até aquele momento.

A voz da teletela estava ainda falando de prisioneiros, presa e matança, mas lá fóra a gritaria diminuira um pouco. Os garçons tinham voltado ao trabalho. Um dêles aproximou-se com a garrafa de gin. Winston, imerso num sonho bem aventurado, não reparou quando lhe encheram o copo, Já não corria nem dava vivas. Estava de volta ao Ministério do Amor, tudo perdoado, a alma branca de neve. Estava na tribuna dos réus, confessando tudo, implicando todos. Ia andando pelo corredor de ladrilhos brancos, com a impressão de andar ao sol, acompanhado por um guarda armado. Por fim penetrava-lhe o crânio a bala tão esperada.

Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh mal-entendido cruel e desnecessário! Oh teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gin escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograda a vitória sôbre si mesmo. Amava o Grande Irmão.

 

FIM

Ter, 09 de Agosto de 2011 21:58

O LIVRO DE MELQUISEDEQUE

Publicado em Livros Escrito pelo Robespierre Cardoso da Cunha

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(Uma Parábola)

 

“Escutai, povo meu, a minha lei; prestai ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei os lábios

em parábolas e publicarei enigmas dos tempos antigos”Sl.78:1,2.

 

Os Rolos do Mar Morto

 

No deserto da Judéia, no litoral do Mar Morto, próximo a Jerico, acampava-se uma tribo semibeduína conhecida como Taamireh. Era o início da primavera de 1947, quando um dos filhos daquela tribo, Muhammad edh-Dhib, um jovem de apenas 15 anos de idade, pastoreava o rebanho de seu pai. Ao retornar para casa, descobriu que estava faltando uma cabra. Deixando o rebanho seguro no curral, retornou sem demora à procura da que havia se transviado.

Depois de caminhar por muitas partes em busca da cabra perdida, o beduíno sentou-se junto à uma gruta, vencido pelo cansaço. Não sabia que os seus passos errantes o conduziram naquele entardecer para próximo de um tesouro de inestimável valor. Ele encontrava-se naquele momento na região noroeste do Mar Morto.

Ao arremessar uma pedra para dentro da caverna, o beduíno ouviu um ruído surdo que pareceu-lhe o som de um vaso de barro quando cai. Achou muito estranho aquilo e, movido por um misto de curiosidade e medo, aproximou-se da abertura para ver o que se encontrava lá dentro. A princípio, somente conseguiu ver a escuridão que reinava dentro da caverna que voltara a ficar silente. Depois de alguns instantes, seus olhos começaram a avistar contornos que lhe pareceram grandes jarros.

Vieram-lhe então à lembrança histórias que ouvira desde mui pequeno, sobre Sheitan, o espírito mau que vive nas cavernas. Não seria aquela gruta a sua morada? Este pensamento o fez fugir dali apressadamente, em direção de sua tenda. Tão grande era o medo, que se esqueceu inteiramente da cabra que se perdera.

Ahmed, o seu irmão mais velho ,ao ouvir sua história, riu de sua falta de coragem. Ahmed, contudo, não conseguia esquecer-se daqueles vasos que seu irmão afirmara ter visto no interior da caverna; E se existisse dentro deles tesouros? Esse pensamento fez com que perdesse o sono naquela noite. Assim que o dia raiou, pediu que seu irmão o levasse àquele lugar de onde fugira.

Cheios de esperança e coragem rumaram naquela manhã em direção ao possível tesouro.

Olhando atentamente para o interior da caverna, Ahmed constatou que, realmente, havia jarros ali.

Cheio de euforia, passou a remover os pedregulhos que estreitavam aquela abertura, até que conseguiu resvalar-se para dentro da gruta. Estava muito escuro a princípio, mas suas vistas foram-se acostumando e, dentro de instantes, viu-se cercado pelos vasos de barro. Com muito cuidado, evitando que se quebrassem, foi tomando-os, um por um, e passando-os para o irmão, que ficara do lado de fora.

Curioso para ver o que havia naqueles vasos, Ahmed saltou para fora da Gruta. Ao introduzir a mão num daqueles vasos, tirou um embrulho feito de panos de linho. Abriram-no na expectativa de encontrar ouro ou pedras preciosas, mas os irmãos ficaram decepcionados ao descobrirem apenas um rolo, feito de coro de cabras. Em todo o rolo, havia uma escrita que não puderam decifrar. Os demais jarros traziam igualmente grandes rolos de couro.

Os beduínos ficaram, inicialmente, sem saber o que fazer com aqueles rolos. A primeira idéia foi a de devolvê-los à caverna; Mas, pensando melhor, decidiram vendê-los para algum sapateiro ou colecionador de coisas antigas.

Khalil Iskander Shahin, conhecido como Kando, tinha uma sapataria em Belém. Remendava uma bolsa quando dois beduínos entraram em sua sapataria, arrastando consigo sete grandes rolos.

Colocando-os sobre o balcão, perguntaram o quanto ele poderia pagar por todo aquele couro.

Analisando os rolos, viu que estavam muito envelhecidos e, com certeza, não lhe seriam úteis.

Khalil estava para despedir os moços quando, atraído por aquelas escritas, resolveu adquiri-los, pensando em revendê-los para algum colecionador de antigüidades. Pagou então uma ninharia por eles, e os rapazes, ainda que cansados por todo esforço, saíram felizes.

Durante alguns dias, os rolos permaneceram esquecidos em um canto da sapataria, enquanto Khalil, procurava em vão despertar o interesse de seus clientes por eles.

Athanasius Y. Samuel, arcebispo metropolitano do Mosteiro São Marcos, em Jerusalém, tomou conhecimento sobre os rolos através de um membro de sua paróquia que os vira na sapataria de Khalil. Dirigiu-se até lá e, como não conseguia carregar todos, adquiriu quatro deles. Alguns dias depois, Khalil vendeu os outros três para o professor Eleazer Lipa Sukenik da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Ao analisar os quatro rolos, Athanasios conscientizou-se de haver adquirido uma preciosidade.

Decidido a fazer fortuna com sua venda, levou-os clandestinamente para os Estados Unidos, onde passou a oferecê-los para pessoas e instituições que acreditava poderem se interessar por eles.

Ninguém, contudo, aceitou sua proposta, pois o preço exigido era muito alto.

Desanimado, Athanasios decidiu, numa última tentativa, colocar um anúncio no Wall Street Journal.

Preço Multiplicado

Era início de 1954, quando o General Yigael Yadin, Chefe do Estado-Maior do Exército Israelense, ao ler o Wall Street Journal, foi atraído para o pequeno artigo que falava daqueles quatro rolos encontrados no Mar Morto, contendo manuscritos bíblicos datados entre 100 a 200 anos a.C.;

Sua aquisição poderia ser ideal para instituições educacionais ou religiosas.

Yigael era filho do professor Eleazer, que comprara os três últimos rolos. Desde então, eles estavam desesperados à procura dos outros quatro.

Depois de recortar o anúncio, Yigael ligou imediatamente para o aeroporto, exigindo uma passagem no próximo vôo para os Estados Unidos. Jamais fizera uma viagem sentindo-se tão ansioso; Aquelas horas de vôo pareciam-lhe uma eternidade.

Ao desembarcar, dirigiu-se imediatamente ao endereço indicado no anúncio. Chegando ao local, viu que várias pessoas, atraídas pelo anúncio, faziam uma grande fila para conhecerem os tais rolos. Seria uma loucura permitir que elas entrassem antes dele, por isso, encaminhando-se para junto da porta, colocou-se como o primeiro da fila. Alguns começaram a reclamar, mas ele, tocando na porta, desculpou-se, afirmando ser amigo de Athanasius.

Ao ouvir os toques na porta, Athanasios, que mostrava a um possível comprador os pergaminhos, foi ver quem era. Sem saber que tinha diante de si o General do Exército Israelense, Athanasios foi rude, mandando-o esperar pela sua vez. Isto o fez passar vergonha diante das pessoas, a quem havia afirmado há pouco ser amigo daquele homem. Começaram então fortes protestos e, alguns se adiantaram querendo tirá-lo a força de seu primeiro lugar na fila. Nesse momento, Yigael, que não queria revelar sua identidade, vociferou com fúria, mostrando sua alta patente confirmada por uma credencial que ergueu aos olhos de todos. Esse gesto fez com que o sentimento de humilhação e vergonha se transferisse para aqueles que o afrontaram.

Ao chegar a sua vez, Yigael, sem se identificar, perguntou para Athanasios o valor que ele esperava receber pelos rolos. Não querendo ainda lhe dar o preço, convidou-o a ver os pergaminhos.

Yigael, ressentido pelo tratamento que havia recebido, disse secamente que não estava ali movido pela curiosidade, querendo simplesmente admirar-se ante aqueles rolos; Estava ali para comprá-los.

Assim, para não perderem tempo, gostaria de saber o quanto pagaria por eles.

Athanasios que, dominado pelo desânimo, estava a ponto de vendê-los por qualquer preço que cobrisse suas despesas de viagem, abaixou, a cabeça e meditou: Se conseguisse vendê-los por $ 5.000 já estaria bom; Mas não lhe custaria pedir mais: quem sabe dez vezes mais, $ 50.000; Ou mesmo cinqüenta vezes cinco. Seus lábios então pronunciaram o preço de $ 250.000.

Prontamente, Yigael tomou seu talão e preencheu um cheque de 250.000 dólares. Ele o faria com a mesma determinação, ainda que o processo multiplicador continuasse na mente do ancião em dezenas de outras operações.

Ao conferir no cheque o valor daquela fortuna, Athanasios ficou possuído por um sentimento misto de alegria e vergonha, pois o mesmo continha a assinatura do Chefe do Estado-Maior do Exército Israelense, a quem pouco antes tratara com estupidez.

Quando a porta novamente se abriu, a fila de curiosos foi aniquilada pelos passos daquele que já havia sido herói de muitas batalhas, e que conduzia, sob os poderosos braços, os rolos da Gruta 1, a sua maior conquista. Agora, os sete rolos eram propriedade do Estado de Israel, que desfrutava seus primeiros anos de independência, depois de um desterro de milênios.

Ao serem os sete rolos cuidadosamente analisados por eruditos em Israel, comprovou-se que se tratavam dos mais antigos manuscritos já descobertos pelo homem, datados de tempos anteriores aos dias de Cristo. Um dos rolos, o mais conservado dos sete, apresentava uma cópia do livro de Isaías que, ao ser comparado com as cópias modernas, trouxe a certeza de que não houve nesses dois milênios nenhuma alteração de sua mensagem profética.

Os demais manuscritos, também de grande importância, são: O Manuscrito de Lameque, conhecido como O Apócrifo de Gênesis, que apresenta um relato ampliado do Gênesis; A Regra da Guerra, que descreve a grande batalha final entre os filhos da luz e os filhos das trevas, sendo os descendentes das tribos de Levi, Judá e Benjamim retratados como os filhos da luz, e os edomitas, moabitas, amonitas, filisteus e gregos representados como os filhos das trevas. Há também um pergaminho com Os Hinos de Ação de Graças (Hodayot), uma seqüência de 33 salmos que eram cantados, em cultos de adoração ao Criador, o grande Adonai.

 

O que os Eruditos Encontraram

Dois anos depois da experiência daqueles jovens beduínos, dois arqueólogos, G. L. Harding e R. De Vaux, auxiliados por quinze habitantes daquela região do Mar Morto, começaram novas buscas nas proximidades daquela caverna que viria a ser conhecida como Gruta 1. Em dois anos de incansáveis pesquisas, descobriram as ruínas do Mosteiro de Khirbet Qumran, uma propriedade dos essênios. Dentre os muitos objetos ali descobertos, encontraram uma sala onde os manuscritos eram preparados, ao qual deram o nome de scriptorium. Foram encontrados naquela sala dois tinteiros, ambos contendo restos de tinta de carvão do tipo usado nos pergaminhos. Encontraram também uma escrivaninha, ao lado da qual havia concavidades que, possivelmente, eram usadas para armazenar água limpa, com a qual o piedoso escriba purificava as suas mãos, ao iniciar as cópias das Sagradas Escrituras, ou mesmo antes de escrever o nome Eterno.

Um grande terremoto, ocorrido no ano de 31 a.C., trouxe muitos danos ao Mosteiro de Khirbet Qumran, exigindo a reconstrução de alguns de seus compartimentos. Em 68 AD, com o avanço da Décima Legião Romana, comandada por Vespasiano, o Mosteiro foi completamente destruído, e a maior parte de seus ocupantes mortos ou levados cativos. Existem muitos indícios de que tenha sido por esta ocasião que os essênios, no intuito de preservar seus preciosos rolos, esconderam-nos nas cavernas.

 

As Grutas 2 a 10

Enquanto os arqueólogos prosseguiam as escavações das ruínas do Mosteiro Essênio, alguns beduínos, incentivados pelas descobertas da Gruta 1, empreenderam-se em incansáveis buscas, vasculhando toda aquela região montanhosa do Mar Morto em busca de novos vasos.

No mês de fevereiro de 1952, descobriram finalmente, ao sul da Gruta 1, a Gruta 2, na qual encontraram partes de dezessete manuscritos bíblicos e uma porção maior de manuscritos nãobíblicos.

 

Ao todo, eram 187 fragmentos.

Com a descoberta da Gruta 2, a atenção dos arqueólogos e de todos aqueles pesquisadores do Mar Morto, voltou-se para as cavernas. Deixando as escavações daquele Mosteiro, iniciaram uma exploração sistemática em toda a área de Qumran. Um mês depois, no dia 14 de março, encontraram a Gruta 3. Além de centenas de fragmentos de outros manuscritos, encontraram nesta caverna um documento muito especial: eram três folhas de cobre muito fino, cada qual medindo 0,30 m por 0,80 m. Examinando aquelas lâminas de cobre, descobriram que compunham originalmente um único rolo, pois suas extremidades traziam as marcas de seu ligamento. O estudo posterior deste documento revelou-se de grande importância, pois trazia detalhadas informações sobre as demais grutas que continham documentos e tesouros.

À medida que novas grutas eram descobertas, novos documentos vinham à luz, fazendo crescer o interesse pelo assunto que passou a ser amplamente divulgado pelos jornais e revistas, criando um clima de grande expectativa. Tudo era tão fantástico que até mesmo pessoas incrédulas começaram a pressentir naquelas descobertas algo miraculoso, como se um poder sobrenatural houvesse reservado, nas entranhas daquelas rochas, uma mensagem para um mundo que, somente naquela metade de século, havia experimentado os horrores de duas grandes guerras, que pareciam prenunciar o fim do mundo, como retratado em muitos daqueles manuscritos.

Depois da descoberta da Gruta 6, em setembro de 1952, as buscas foram intensificadas, não trazendo, contudo, nenhuma nova descoberta por um período de quase três anos. Na manhã do dia 2 de fevereiro de 1955, quando, vencidos pelo desânimo, estavam a ponto de suspenderem as buscas, foram agraciados pela descoberta da Gruta 7. Ainda que os documentos encontrados nessa caverna se mostrassem muito danificados, os arqueólogos sentiram-se renovados em seu ânimo de prosseguirem com as procuras, certos de que teriam novas recompensas. Esta perspectiva não foi frustrada, pois entre os dias 2 de fevereiro e 6 de abril de 1955, haviam sido agraciados com os tesouros das Grutas 7, 8, 9 e 10. Com todo esse sucesso, intensificaram ainda mais as buscas, porém sem nenhum resultado.

 

O Presente de um Rei

(Uma Parábola Baseada em Fatos Reais)

Dez grutas já haviam lançado de suas escuras entranhas centenas de documentos de incalculável valor,

enriquecendo toda a humanidade com um patrimônio jamais sonhado. Muitos arqueólogos, satisfeitos com o que fora encontrado até então, empreendiam, ao lado de peritos, a organização de todos aqueles documentos, muitos até então mantidos empilhados em seus acampamentos. Nem sequer passava-lhes pela cabeça o pensamento de que a maior de todas as descobertas ainda estava para vir.

Num dia ensolarado de janeiro de 1956, quatro beduínos irmãos caminhavam errantes por entre as rochas que se elevam ao norte do Mar Morto. Não haviam saído naquele dia com a intenção de procurar cavernas; Contudo, num gesto involuntário, seus olhos detinham-se em cada fenda de rocha, pois, no decorrer daqueles anos, procurar buracos nas rochas tornara-se um hábito na vida daqueles beduínos. Quando os encontravam, imediatamente enfiavam neles a cabeça à procura de vasos.

Muitos deles já haviam conseguido, por causa desse costume, elevadas somas de dinheiro que, dificilmente ganhariam em todo um ano.

Foi assim que o mais velho deles, ao descobrir numa das rochas uma pequena abertura, correu para lá para observar. Tudo o que conseguiu ver a princípio foi a escuridão que reinava no silêncio da caverna. Contudo, pondo em prática um dos segredos que somente os beduínos caçadores de vasos conheciam, permaneceu encarando as trevas, esperando vê-las fugir. Unicamente aqueles que eram suficientemente corajosos para encararem as trevas por alguns minutos, sem se moverem, poderiam ser agraciados com os tesouros das cavernas.

Pouco a pouco, o interior da gruta foi clareando aos seus olhos, e a figura nítida de um jarro começou a revelar-se. Feliz, o beduíno correu para os seus irmãos, contando-lhes sobre sua descoberta.

Aquele, abaixo do mais velho, correu para certificar-se, e encontrou um segundo vaso ao lado do primeiro. Cheio de alegria, correu para anunciar aos irmãos.

Veio então o terceiro beduíno que, sem nenhuma pressa, passou a encarar a escuridão, até vê-la desfazer-se quase por completo. Aos seus olhos revelaram-se três vasos, sendo o terceiro um pouco maior que os dois primeiros. Estava muito contente com esta descoberta, mas não tinha pressa em revelá-la aos irmãos, por isso, permaneceu por longo tempo observando-os.

Os beduínos, imaginavam, agora, a forma como poderiam retirar aqueles jarros. Ficaram a princípio desanimados, ao perceberem que a boca da caverna era muito estreita. Concluíram que, para apossarem-se daquele tesouro, teriam de quebrar e remover muitas pedras, até que a boca da caverna pudesse engolir um deles.

Estavam ao ponto de desanimarem, quando aquele que descobriu o terceiro vaso teve uma idéia: apontando para o irmão mais novo, que era ainda uma criança, disse aos irmãos:

- Se jogarmos o garoto dentro da caverna, ele poderá nos passar os vasos.

A idéia, comemorada com risos, foi ouvida com angústia pelo menino. Ele começou a chorar, implorando que seus irmãos não o lançassem naquele lugar escuro, de onde não saberia sair.

Rindo da agonia do garoto, os três beduínos agarraram-no com força, lançando-o de cabeça para baixo.

 

-------****-------

 

A caverna, por milênios adormecida, tinha agora o seu silêncio quebrado por gritos de agonia e dor. Ao cair no fundo daquela gruta escura e fria, o garoto ficou ferido, e, em seu desamparo, passou a clamar em vão por socorro. Em meio àquelas profundas trevas, o menino temia ser devorado por Sheitan, o espírito mau das cavernas.

Pouco a pouco, os gritos de desespero do pequeno beduíno começaram a cessar, à medida que

as trevas iam fugindo de seus olhos. Contudo, a dor dos ferimentos era intensa, e somava-se a ela o

desamparo de seus irmãos. Foi em meio a esse sofrimento que o menino começou a descobrir, um

por um, aqueles três vasos anunciados por seus irmãos.

Observando-os de perto, o menino conseguia ver neles belezas as quais seus irmãos não conseguiam perceber, por

estarem do lado de fora da caverna.

O primeiro jarro tinha dentro de si dois rolos muito conservados: o Livro de Levítico e o Livro de Ezequiel.

Assentando-se sob a abertura da caverna, onde havia claridade, o beduíno abriu o Livro de

Levítico, encontrando um texto que o consolou, pois falava de livramento:

"Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos, isto é, o tempo de sete semanas de anos,

quarenta e nove anos. No sétimo mês, no décimo dia do mês, farás vibrar o toque da trombeta em

todo o país. Declarareis santo o qüinquagésimo ano e proclamareis a libertação de todos os

moradores da terra. Será para vós um jubileu: cada um de vós retornará ao seu patrimônio, e cada

um de vós voltará ao seu clã"(1)

A leitura sobre o ano jubileu, devolveu-lhe ao coração ferido a certeza de que seria liberto

daquela gruta em que seus irmãos o lançaram.

Depois de reler várias vezes o texto sobre o jubileu da libertação, o garoto começou a entender

que ele falava de um tempo determinado para o livramento.

------*****-------

Com o coração renovado pela certeza de que seria finalmente liberto, o beduíno tomou o

segundo rolo, o Livro de Ezequiel. Naquele livro, encontrou uma história muito parecida com a sua: a

história de Israel.

Quando era menino, Israel vivia feliz em sua tenda, gozando dos favores de seu pai. Muitas

vezes, por cometer pecados, sofria terríveis conseqüências que afetavam não somente a sua honra,

como também a de Seu Criador. Por causa de suas transgressões, Israel foi levado para um longo e

doloroso cativeiro entre as nações. Nos últimos dias, contudo, retornaria para a sua terra, tornando-se

novamente uma nação independente. Chegaria então o dia em que numerosos exércitos, comandados

por Gog, o chefe de Meseque, procurariam destruí-lo. Quando esse tempo chegasse, haveria uma

terrível batalha como nunca houve, ficando Israel retido sob um grande cerco. Sem possibilidades

humanas de escaparem, clamariam pelo socorro Eterno, e seriam acudidos no momento de maior

aperto, através de um grande livramento. Esse acontecimento marcará o início de uma semana de

anos que será decisiva para toda a humanidade. Naquele tempo os filhos de Belial se aliarão contra os

filhos da Luz, mas serão finalmente eliminados com a manifestação do Messias(2).

O livramento prometido nos livros de Levítico e Ezequiel, para um dia determinado no calendário bíblico, trouxe

alegria ao coração daquele beduíno. Consolado por esta esperança, tomou o segundo jarro que continha um rolo

igualmente conservado do Livro de Salmos e, abrindo-o, passou a ler as seguintes palavras:

"Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que obram iniquidade.

Porque cedo serão ceifados como a erva, e murcharão como a verdura.

Confia no Senhor e faz o bem; habitarás na terra, e verdadeiramente serás alimentado;

Deleita-te também no Senhor, e ele te concederá o que deseja o teu coração.

Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele e ele tudo fará. E ele fará sobressair a tua

justiça como a luz, e o teu juízo como o meio-dia.

Descansa no Senhor, e espera nele; não te indignes por causa daquele que prospera em seu

caminho, por causa do homem que executa astutos intentos. Deixa a ira e abandona o furor; não te

indignes para fazer o mal. Porque os malfeitores serão desarraigados, mas aqueles que esperam no

Senhor herdarão a terra. Pois ainda um pouco, e o ímpio não existirá; olhará para o seu lugar, e

não aparecerá. Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundância de paz.(3)

Enquanto meditava nas palavras de consolo do Livro de Salmos, o pequeno beduíno ouvia os

gritos irados de seus irmãos exigindo-lhe os jarros. Depois de retirar deles todos os rolos, entregou-os

aos irmãos que, silenciando-se, prosseguiram em seu caminho.

-------*****---------

Aproveitando a luminosidade que descia pela abertura da caverna, o beduíno abriu o quarto

rolo que falava sobre a Nova Jerusalém. A leitura daquele livro pareceu transportá-lo para distante

daquela caverna, para as Kevod(glória)s de um reino de eterna paz. Revelou-se aos seus olhos um novo céu e

uma nova Terra, nos quais habitará a justiça e o amor. Naquele reino de perfeição, incontáveis

galáxias, repletas de mundos de luz girarão harmoniosamente em torno de uma nova Terra, povoada

por um povo santo e feliz. Ocupando todo o Oriente Médio, encontrar-se-á a Nova Jerusalém, cujas

muralhas serão de pedras preciosas e os portais de pérolas. As avenidas da cidade serão de ouro puro,

e suas mansões de finos cristais. Dentro dos murais da cidade, ao norte, estará para sempre o jardim

do Éden no meio do qual eleva-se o monte Sião, o lugar do trono Eterno. Do trono jorra o rio da vida,

brilhante como cristal, fluindo lentamente pelo meio da cidade rumo ao Sul (4).

Enquanto aguardava uma possível salvação vinda da parte de seus irmãos, o beduíno abriu o

quinto rolo que trazia lindos salmos que descreviam a felicidade e a paz que os remidos desfrutarão

na Cidade de Elohim, onde não haverá mais morte, nem pranto, nem dor.

Com o coração repleto das alegrias expressas pelos salmos do quinto rolo, o menino tomou o

sexto rolo. Ao abri-lo, encontrou o Livro de Jó. Relatava a história de um homem muito rico,

possuidor de muitas fazendas, servos e gado. Ele tinha uma linda esposa, três filhas e sete filhos. Jó

era temente e íntegro, e desviava-se sempre do mal. Todos os dias, oferecia sacrifícios em prol de

seus filhos, e orava pela sua proteção.

Certo dia, Satanás fez um desafio ao Criador, afirmando-lhe que a fidelidade de Jó era

resultado de seu egoísmo, pois era homem próspero. Aceitando o desafio, Elohim permitiu que seu

servo fosse severamente provado. E aconteceu que, num único dia, Jó perdeu tudo: suas três filhas,

seus sete filhos, seus servos, suas fazendas e seu gado. Mesmo assim, Jó louvou ao Criador,

recusando blasfemar de Seu nome.

Ao ler sobre a desgraça que se abateu sobre Jó, o menino começou a temer que tudo aquilo

viesse a se cumprir em sua vida. Há poucos instantes, haviam-lhe tirado os três vasos, será que

haveria de perder também seus rolos?

Com esta preocupação, envolveu-os em seus braços, evitando que escapassem. Mas ao olhar

para eles, ficou consolado com a certeza de que suas promessas finalmente se cumpririam, e viveria

liberto e feliz no Reino da Luz.

Enquanto meditava, esperando por um possível livramento, viu apagar pouco a pouco a

luminosidade do entardecer que chegava a ele através da pequena abertura. À medida que as trevas

iam aumentando, crescia-lhe no coração o medo de estar sozinho. Agarrando-se aos rolos, procurava

não se desesperar, lembrando-se das promessas de que seria liberto.

O pequeno beduíno, com a alma dilacerada, começou a gritar por socorro, mas ninguém

estendia-lhe a mão. Lembrando-se do jubileu, passou a clamar desesperadamente pelo socorro do

Senhor, mas foi massacrado pelo Seu silêncio. Começaram a sobrevir-lhe então terríveis tentações,

induzindo-o a pensar que o Criador fora injusto com ele, abandonando-o naquelas trevas. Mesmo

assim, o pequeno beduíno continuava abraçado aos pergaminhos, esperando pela salvação prometida.

Uma voz rouca, cheia de ira, bradou-lhe do fundo da caverna:

- Você ainda mantém-se apegado a esses rolos que o enganaram? Lança-os por terra, pois

são manuscritos falsos, sem nenhum valor.

Aflito, o menino respondeu:

- Ainda que eu morra nesta escuridão, eu jamais deixarei estes rolos, pois eles me dão

esperança.

-------****--------

Naqueles momentos difíceis, o menino começou a pensar em seus irmãos. Imaginou-os

carregando aqueles jarros vazios e teve por eles compaixão. Eles não sabiam que, ao excluírem-no de

seu meio, deixaram de receber importantíssimas revelações contidas naqueles rolos que, ainda que

envoltos em trevas, traziam a certeza de um alvorecer.

Enquanto pensava em seus irmãos, o medo de estar sozinho foi diminuindo, dando lugar a um

sentimento de paz, como se houvesse ao seu lado a presença de um amigo. Subitamente toda a

caverna iluminou-se, como se fosse dia. Ao olhar para a cavidade de onde emanava a luz, viu um

lindo vaso. Ao aproximar-se dele, prostrou-se agradecido ao ver nele o desenho de um rei que sorria,

tendo nas mãos um alaúde. Aos pés do rei,

est sedeque e de Abraão com sua oferta figurados no jarro, e a

declaração de que se comemorava um grande livramento, devolveu ao menino a paz e a certeza da

salvação. Abraçando o vaso numa tentativa de abraçar seus dois amigos, passou a amá-los

profundamente.

Com muito cuidado, para não danificar o vaso, o beduíno conduziu-o para debaixo da boca da

caverna, onde deixara os demais rolos. Ao olhar para o seu interior, sua alma ficou inundada por uma

indizível paz, e pareceu ouvir acordes cheios de ternura vindos do alaúde do rei.

------*****------

Dentro do jarro o beduíno encontrou um grande rolo: O Livro de Melquisedeque. O rolo era composto por dois

manuscritos, costurados um ao outro. Eles traziam caligrafias distintas, com assinaturas de Abraão no primeiro e de

Melquisedeque no segundo.

Em seu manuscrito, o patriarca conta a fascinante história do livramento de Ló e de muitos

habitantes de Sodoma, levados cativos por um poderoso exército. Acompanhado por apenas 300

pastores armados com tochas, bordões e chifres de carneiro, ele obteve completa vitória sobre os

numerosos inimigos. Abraão continua contando a história de Salém, conforme ouviu dos lábios de

Melquisedeque por ocasião de um banquete que seguiu ao livramento, quando entregou-lhe o dízimo

de suas riquezas e alegraram-se comendo pão e vinho.

Abraão termina contando sobre outro encontro que teve com o rei de Salém sete anos depois, quando o presenteou

com um lindo jarro que continha o seu manuscrito.

Melquisedeque que no decorrer daqueles anos registrara em um rolo revelações detalhadas

sobre a história do Universo, num gesto de humildade e gratidão, uniu os dois manuscritos formando

um único rolo, no qual os seus escritos vieram a ocupar o segundo lugar. Depois de selado, aquele

tesouro foi colocado no jarro, sendo levado pouco tempo depois para um esconderijo seguro: uma

caverna situada ao norte do Mar Morto. O grande rolo permaneceria em silentes trevas até chegar o

momento de sua revelação ao mundo, por ocasião do último jubileu

-------***** ------

Tendo em mãos um tesouro tão precioso, o beduíno esqueceu-se de toda a agonia vivida

naquela caverna. Sua atenção voltava-se agora para a última parte do rolo, onde Melquisedeque

descrevia a Nova Jerusalém. O relato era muito parecido com as revelações do quarto manuscrito.

Sua linguagem tinha igualmente o poder de transportar o leitor para aquele reino de amor e paz,

dando-lhe uma visão nítida das Kevod(glória)s da Cidade de Elohim: seus murais de pedras preciosas; seus

portais de pérolas; suas avenidas de ouro puro; suas mansões de refulgentes cristais; o rio da vida que

nasce do trono; o jardim do Éden. Podia-se até mesmo ouvir o cântico dos anjos e das multidões de

remidos reunidos diante do trono.

Cheio de alegria, o menino uniu a voz ao coro angelical, louvando ao Eterno, cuja bondade é

infinita. Enquanto cantava, notou um brilho que saía de dentro do jarro, inundando toda a caverna.

Ao olhar, descobriu no fundo do jarro uma caixinha de ouro com adornos de pedras preciosas. Na

tampa da caixa havia uma inscrição em hebraico que dizia: Um presente do Rei de Salém para aquele

que encontrar o jarro com o rolo, revelando-o ao mundo.

Sentindo-se indigno de estender a mão para tomar para si aquele presente, o menino ficou ali

encurvado por algum tempo. Finalmente, ganhou forças e coragem, tomando a caixinha de ouro, a

qual abriu cuidadosamente.

Havia nela lindas pérolas de tamanhos variados. O brilho dessas jóias espalhou-se por toda a

caverna, criando um ambiente de muita alegria e paz.

Tomando uma das pérolas, o menino sentiu que dela emanava energia que dava-lhe forças e

paciência para aguardar pelo livramento. Ao observá-la, descobriu nela três inscrições em hebraico:

Melquisedeque que significa Rei da Justiça, Jerusalém e o seu nome.

Depois de contemplar demoradamente a pérola que trazia o seu nome, ele olhou para dentro da

caixinha e viu muitas outras; Eram ao todo 144 pérolas. Depois de contá-las, lembrou-se de sua

missão: deveria, o quanto antes, sair daquela caverna com o tesouro, compartilhando-o com o

mundo.

--------*****----------

Consciente da urgência de sua missão, começou a procurar alguma maneira de sair dali.

Pareceu-lhe inicialmente impossível sair, pois a boca da caverna ficava muito acima de sua cabeça,

não podendo alcançá-la.

Depois de raciocinar em busca de uma alternativa, concluiu que, se subisse no vaso, alcançaria

o buraco. Na primeira tentativa, obteve vitória, saindo da caverna. Estava agora livre, sob o sol de

uma linda manhã, respirando, depois de muitas horas, o ar fresco.

Depois de saltar de alegria pela liberdade alcançada, o pequeno beduíno lembrou-se dos rolos e

do vaso que o salvara daquele abismo. Sabia que, depois de toda aquela experiência, não conseguiria

jamais viver longe daquele tesouro. Lembrou-se também de sua missão de tirar da caverna o vaso

com o seu tesouro, revelando-o ao mundo.

Decidido, saltou novamente para dentro da caverna, evitando, na queda, tombar sobre o vaso.

Feriu-se novamente, mas estava consolado pela certeza de que muito em breve todo aquele

sofrimento passaria, e veria muitas pessoas alegrando-se com sua mensagem

Imaginava agora o que poderia fazer para levar o vaso para fora. Teve inicialmente a idéia de

colocar o jarro sobre a cabeça, empurrando-o para fora. Essa solução, contudo, o deixaria retido na

gruta, pois não teria depois em que subir para alcançar a abertura da caverna. Mesmo assim, se não

descobrisse uma outra maneira de sair juntamente com o vaso, ele daria a ele preferência, para que o

mundo conhecesse a mensagem dos rolos. O pensamento de ficar retido naquela prisão, contudo, o

entristecia, pois ficaria impossibilitado de testemunhar o engrandecimento do vaso perante as nações.

Não encontrando nenhuma outra solução para libertar o vaso com os rolos, levantou-os

cuidadosamente rumo à passagem, mas a mesma revelou-se por demais estreita para contê-los.

Desesperava-se por não encontrar uma solução, quando uma voz soou-lhe aos ouvidos,

dizendo:

- Leia a última parte do rolo, onde a sua história é contada.

Imediatamente abriu o rolo, e procurou pela sua história. Ao encontrá-la, saltou tudo o que já

sabia, até chegar àquele momento em que estava com o Livro nas mãos. Passou a ler as seguintes

palavras:

"Na hora de sua maior angústia, o beduíno lembrou-se do meu Rolo, e, ao lê-lo, ficou sabendo

sobre uma machadinha e sobre os restos de tecidos deixados junto ao vaso: Com a machadinha ele

ampliou a boca da caverna, e com os tecidos fez uma corda com a qual puxou o vaso para fora".

Depois de ler esta declaração do Rei de Salém, o pequeno beduíno começou a procurar, até que

viu a machadinha descrita, como também os restos de tecidos, com os quais preparou a corda.

Começou logo em seguida a executar sua tarefa: com a machadinha nas mãos, subiu no jarro e,

depois de jogá-la para fora, saltou atrás. Sob um sol escaldante, passou a escavar a rocha, removendo

muitos pedregulhos que entulhavam a boca da gruta. Era um trabalho muito cansativo, tendo muitas

vezes de parar para descansar. Ao chegar à noite, saltou novamente para junto do vaso, retornando na

manhã seguinte ao trabalho.

Ao ver que a fenda fora ampliada o suficiente, o menino pulou para dentro da cova a fim de

concluir os últimos preparativos. Depois de colocar os sete rolos dentro do jarro, amarrou-o

firmemente com a corda de pano, retornando ao exterior da caverna, pronto para realizar a parte mais

emocionante de todo aquele trabalho.

Ao puxar com todas as forças da alma e dos músculos aquele jarro para fora, ele sentia pela

primeira vez a emoção de um pai que, depois de ansiosa espera, vê sair do ventre de sua esposa o

primeiro filho.

Quando os sete rolos, protegidos por aquele lindo jarro, chegaram à superfície a salvo, o

beduíno chorou de alegria. Todo aquele passado de lutas e sacrifícios ficaria agora no esquecimento.

Lembrando-se de seus três irmãos, passou a sentir um grande amor por eles. Tinha vontade de saltarlhes

ao pescoço, para agradecer todo o bem que haviam lhe feito, lançando-o naquela escura gruta.

Foi com esse espírito de alegria, amor e perdão, que o pequeno beduíno, tomando sobre si o pesado fardo,

começou uma longa e penosa caminhada em direção ao acampamento de sua tribo Taamireh, junto ao Mar Morto.

Referências: (1)Levítico 25:8-10) (2)Ezequiel 38,39;(3).Salmo 37;(3)Salmo 46:4;48:1,2;(4)Apocalipse 21 e 22.

A História de um Jarro

( Manuscrito de Abraão)

 

 

 

PRIMEIRA PARTE

Eu estava descansando sob a sombra do Carvalho de Mambré, junto à tenda, quando vi chegar apressadamente um

dos servos de meu sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia: houvera no dia anterior uma

batalha entre as cidades da planície, envolvendo quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e

muitos de seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo

tempo em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me frágil, sem nenhuma possibilidade de me sair vitorioso.

Sempre fui um homem pacífico e detesto aqueles que derramam sangue. Tenho muitos servos,

mas poucos sabem manejar espadas e lanças, pois desde a infância são treinados como pastores. Em

lugar de espadas, eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos. Em lugar de escudos,

carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca para matarem sua sede e refrigerarem

as ovelhas cansadas. Em lugar de vinho para se embebedarem, carregam presos em seus cintos

pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com os quais untam as feridas do rebanho. Em lugar de

ressonantes trombetas eles sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o

curral.

Imaginando como seria um combate entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis

vitoriosos, comecei a rir. Enquanto gargalhava, a voz d’Aquele que sempre me guia, soou aos meus

ouvidos, dizendo:

- Abraão, Abraão! Não menosprezes os instrumentos dos pastores, pois santificados pelo fogo

do sacrifício, haverão de conquistar o grande livramento.

O Eterno passou a dar-me ordens, fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento

haveria de realizar-se.

O primeiro passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos, dirigiram-se

ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao todo 600 pastores.

Ordenei que eles esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija.

Depois de cumprirem esta ordem, pedi que tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeite dos

jarros.

Depois de transmitir todas as ordens aos pastores, o Eterno falou-me:

- Toma agora o teu vaso, o teu único vaso, e traga-no a mim para que eu te mostre o que

deves fazer”.

Tínhamos na tenda três jarros adquiridos na cidade de Harã; Nos dois menores, guardávamos o azeite para as

lâmpadas, e no terceiro que era o maior e mais bonito, guardávamos pérolas e pedras preciosas, jóias reunidas por Sara ao

longo de nossas peregrinações. Julgando ser o terceiro jarro o escolhido, estendi as mãos para tomá-lo, mas o Senhor

impediu-me de fazê-lo, afirmando que, ainda que ele fosse portado de riquezas que seriam essenciais para o livramento,

Ele escolhera um jarro especial – aquele que fora rejeitado e esquecido.

Lembrei-me do grande jarro de barro que nos fora presenteado por um humilde oleiro, quando estávamos

próximos de Canaã. Nós o pusemos inicialmente ao lado dos três, e nele colocamos os primeiros frutos colhidos na terra

prometida. Não havendo, contudo, nenhuma beleza nele, Sara o rejeitou, lançando-o para fora da tenda. Sete anos depois,

o oleiro visitou-nos e, ao encontrá-lo abandonado junto à tenda, mostrou-nos uma maneira em que ele poderia ser útil.

Amarrando-o firmemente com uma corda de linho, lançou-o ao fundo do poço; Por meio dele, os pastores passaram a

tirar água para os rebanhos.

Seguindo as orientações do Eterno, dirigi-me ao poço, fazendo emergir de suas profundezas o jarro esquecido; Ao

vê-lo repleto de água, lembrei-me do momento em que ele fora lançado ali, vazio e seco.

Depois de esvaziá-lo, o Eterno ordenou-me transferir para ele o azeite dos dois jarros menores bem como as jóias

do terceiro. Como sobrara muito espaço vazio no jarro, o Eterno ordenou completá-lo com azeite novo de oliva.

Ao concluir essa tarefa, o Senhor mandou-me fazer um longo pavio de lã, devendo ficar uma de suas pontas

mergulhada no azeite e a outra suspensa sobre o vaso.

Depois destas coisas, o Eterno ordenou-me a acender o pavio com o fogo do altar.

Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia sobre o sacrifício da manhã, uma pequena

fagulha saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se alimentando do azeite, até tornar-se numa

labareda que podia ser vista de longe.

--------***** ---------

Com o vaso nos ombros, comecei uma longa caminhada rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos

pastores. Logo começaram a surgir escarnecedores que, ao verem-me com aquele vaso incandescente em pleno dia,

passaram a dizer que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro, aconselhando-me a

retornar para a tenda, abandonando aquele jarro que seria capaz de destruir a boa reputação que eu havia conquistado

entre eles.

Quando eu lhes falei sobre os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles

concluíram que de fato eu ficara louco. Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas, agarrando-me a

ele, impedi que o tirassem de mim.

12

12

Envergonhados diante de tudo aquilo, muitos pastores começaram a afastar-se: alguns

retornaram para suas tendas, enquanto outros, uniram-se àqueles que riam de meu comportamento

estranho.

Sentindo-me sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me.

Ansiava encontrar alguém com quem pudesse compartilhar minha experiência, mas todos lançava-me

olhares de reprovação.

Lembrei-me de Sara, minha amada esposa. Em obediência à voz do Eterno, havíamos trilhado

por muitos caminhos, estando ela sempre ao meu lado, animando-me a prosseguir mesmo nos

momentos mais difíceis. Com certeza Sara me traria consolo e forças para continuar firme,

conduzindo o jarro da salvação.

Enquanto avançava pelo caminho pensando em Sara, ela surgiu no meio da multidão. Ao

dirigir-me a ela, fiquei surpreso e desalentado ao notar em seus olhos o mesmo menosprezo daqueles

que zombavam de mim.

-------*****-------

Lembrando-me da ordem do Criador de que teria de libertar meu sobrinho Ló, fui andando

sozinho pelo caminho. Ao colocar-me no lugar daqueles que me achavam louco, eu dava-lhes razão,

pois, em condições normais, nenhuma pessoa sai de casa, sem rumo definido, levando em pleno dia

um vaso com uma labareda, afirmando estar marchando contra o exércitos de cinco reis. Realmente

parecia se tratar de uma grande loucura. Mesmo assim, a despeito de todas as humilhações e palavras

contra mim, eu avançava rumo ao vale.

Toda aquela zombaria foi finalmente diminuindo à medida em que me distanciava do Carvalho

de Mambré.

Começaram a sobrevir ao meu coração muitas dúvidas quanto ao meu futuro. Ficava às vezes

aflito com o pensamento de que toda a minha experiência, desde a convocação dos pastores até

aquele momento, poderia ser, de fato, demonstração de insanidade.

Cheio de dúvidas, comecei a pensar na possibilidade de abandonar à beira do caminho o jarro,

retornando para a tenda. Esses eram os conselhos de alguns pastores e amigos que, condoídos de

minha solidão, ainda vinham ao meu encontro, aconselhando-me a retornar. Ali, diziam, eu poderia

conquistar novamente a confiança dos pastores, voltando a ser, quem sabe, até mesmo um sacerdote

honrado como antes. Sobre o altar, diziam, havia um fogo muito maior do que aquele que eu

carregava sobre os ombros.

Estava a ponto de retornar, quando Sara veio ao meu encontro, contando-me sobre o desprezo

que muitos pastores lançavam contra mim. Ela estava consternada, pois toda aquela desonra recaía

também sobre ela, ao ponto de não sentir mais desejo de permanecer junto ao altar.

Depois de alertar-me, Sara passou a falar-me de um plano: poderíamos, quem sabe, nos mudar

para uma cidade distante, onde esqueceríamos todo aquele vexame.

Esquecendo-me da voz que me mandara seguir rumo à planície, respondi que eu estaria

disposto a acompanhá-la para qualquer lugar, se ela permitisse que eu levasse aquele jarro; Ele seria

o nosso altar, aquecendo e iluminando nossas noites com sua chama.

Ao ouvir sobre o vaso, Sara ficou novamente irada, afirmando não entender minha teimosia em

continuar levando sobre os ombros aquele símbolo de vergonha e desprezo. Depois de dizer-me tais

palavras, voltou-me as costas, retornando para a tenda.

-----****------

Angustiado por não poder agradar Sara, prossegui rumo ao futuro incerto, sendo orientado

unicamente pela chama, cujo brilho aumentava à medida em que as trevas adensavam-se. Comecei a

meditar sobre aquele fogo que me acompanhava com seu brilho e calor.

Eu estava acostumado a ver o Fogo Sagrado entronizado sobre o altar de pedras, em meio aos

louvores de muitos pastores, entre os quais me destacava como mestre e sacerdote. Naqueles

momentos de adoração, eu me vestia com os melhores mantos, e fazia questão de realizar o sacrifício

somente quando todos os meus servos estivessem reunidos ao meu redor, para que ouvissem meus

conselhos e advertências. Na hora do sacrifício, eu erguia minha espada desembainhada e, com

palavras amedrontadoras, proclamava a grandeza do Senhor dos Exércitos, o Elohim Todo Poderoso

que domina sobre os Céus e a Terra. Vibrando a espada num movimento ameaçador, eu representava

diante de meus pastores a imagem de um Elohim severo, que está sempre pronto a revidar qualquer

afronta. Depois dessa demonstração de soberania e poder, eu tomava uma ovelha das mãos de um

pastor, e a amarrava sobre o altar. Para que ficasse patente a ira divina, eu pisava sobre o seu

pescoço, golpeando-a severamente, até vê-la perecer. Depois eu descia do altar e ficava esperando

pelo Fogo Sagrado que jamais deixou de manifestar-se sobre o sacrifício.

Eu aprendera desde a infância a reverenciar o Fogo Sagrado, crendo ser ele uma revelação

visível do Eterno, o Grande Elohim Invisível. Até então, eu o vira como um Fogo Único e Indivisível.

Agora, ao transportar em humilde jarro a chama que se desprendera do Altar, meus pensamentos

agitavam-se com o surgimento de um novo conceito sobre o Criador: o conceito de um Elohim

Sofredor que é capaz de desprender-se do grande Ser representado pelo Fogo, para acompanhar o

pecador em sua jornada.

Arrependido, prostrei-me diante do jarro e chorei amargamente. Estava consciente de que todo

o zelo demonstrado junto ao Altar, tinha por finalidade a exaltação de meu orgulho, e não do amor

daquele que me acompanhava pelo caminho.

Subitamente, gravou-se-me na mente a convicção de que aquela pequena chama que se

desprendera do Fogo Sagrado, era uma representação do Messias prometido, que Se desprenderia do

Eterno para ser Elohim Conosco, companheiro em todas as nossas jornadas. Ao sobrevir-me esta

convicção, a chama alegrou-se, tornando-se mais brilhante e calorosa.

Com o coração transformado, prossegui pelo caminho rumo ao vale, levando sobre os ombros o

jarro que me trouxera depois de tanto desprezo, a alegria de uma nova compreensão sobre o caráter

do Criador.

-------****-------

Momentos difíceis começaram a surgir em minha caminhada, quando ventos frios vindos do

Mar Morto começaram a arremeter-se contra a pequena chama, procurando apagá-la. Eu a amparava

com o meu corpo, andando muitas vezes de lado e mesmo de costas, mas sempre avançando rumo ao

vale.

Ao romper a luz do dia, achei-me a um passo da planície. Comecei então a encontrar pelo

caminho muitos rebanhos que eram conduzidos por rudes pastores. À medida em que avançava entre

eles, ocorriam tumultos e confusões, pois muitas ovelhas e cabras assustavam-se com a chama de

meu jarro, debandando-se por todas as partes. Isto fez com que a maioria dos pastores ficassem

irritados com a minha presença em seu meio.

Sabendo que não poderia ficar retido naquele vale, prossegui rumo a Sodoma. Enquanto

avançava, começou a acontecer algo interessante: muitas ovelhas, meigas e submissas, começaram a

acompanhar-me. Eram poucas a princípio, mas pouco a pouco seu número foi aumentando, até que

passei a andar com dificuldade, devido ao grande número de ovelhas que me seguiam. Ao longe eu

podia ver os pastores, enfurecidos, pela perda de suas ovelhas mais bonitas.

Ao chegar à cidade de Sodoma, encontrei-a vazia e devastada. Seguindo os rastros deixados

pelos exércitos e pela multidão de cativos, fui aproximando-me cada vez mais do alvo de minha

missão. Ao chegar à campina de Dã, pude avistar ao longe o grande acampamento dos soldados, ao

pé de um outeiro. Sem pressa, encaminhei-me para lá, conduzindo o meu novo rebanho.

Do alto do monte, pude observar o acampamento em toda a sua extensão. Havia ali milhares de

soldados comemorando a vitória. Enquanto isso, centenas de cativos jaziam amontoados no meio do

arraial, humilhados e sem esperança. Diante desse quadro, fiquei imaginando como poderia se dar o

livramento.

Minha presença despertou curiosidade em alguns soldados que, ao ver-me com o vaso

fumegante, aproximaram-se. Quando me perguntaram sobre o motivo de minha presença naquele

lugar, eu disse-lhes que viera libertar meu sobrinho Ló. Minhas palavras tornaram-se motivo de

muitos gracejos em todo o acampamento. Depois disso, passaram a escarnecer de Ló.

Em pouco tempo, toda aquela zombaria transformou-se em gritos de vingança, e proclamaram

que, na manhã seguinte, todos os cativos seriam exterminados, começando pelo meu sobrinho.

--------*****---------

Enquanto eu tentava imaginar o que o Eterno poderia fazer para alcançar o livramento, vi surgir

ao longe o vulto de pastores que se encaminhavam em minha direção, vindos de Sodoma. Pensei a

princípio que fossem os pastores inimigos que vinham arrancar-me o rebanho conquistado com amor.

Tal receio logo desapareceu dando lugar a um sentimento de muita alegria, quando descobri que

eram os meus pastores fiéis. Ele foram aproximando-se em pequenos grupos de doze, até alcançarem

o total de 300 pastores. Ao olhar para eles, pude notar em seus semblantes os sinais de uma grande

luta espiritual que tiveram de enfrentar, para estarem do meu lado. Contaram-me da experiência de

muitos companheiros que, desanimados, haviam lançado fora o azeite e a lã de seus vasos,

retornando para as suas tendas. Falaram-me de como, na noite anterior, haviam aprendido a amar a

luz de meu jarro, que para eles tornara-se como uma estrela que os guiava na escuridão.

Alegrava-me com a presença de meus humildes pastores, quando vieram em nossa direção

Aner, Escol e Manre, acompanhados por 15 homens armados; Eram eles fiéis amigos que,

conhecendo os perigos que enfrentaríamos naquele vale, vieram socorrer-nos. Para que não

atrapalhassem o plano Eterno, pedi-lhes que permanecessem escondidos até o alvorecer, quando

receberiam orientações sobre como participar da missão.

Comecei a orientar os pastores, seguindo as instruções da voz divina que soava de dentro da

chama: A primeira tarefa dos pastores seria cuidar do rebanho até o anoitecer.

Ao retornarem, ordenei que amarrassem os novelos de lã embebidos em azeite na ponta de seus

bordões, colocando-os dentro dos jarros que deveriam ser mantidos suspensos de boca para baixo.

Passei a incendiá-los com o fogo de minha labareda, até que as trezentas tochas ficaram

ardendo, mas, ocultas no interior daqueles vasos.

Ordenei a quarenta de meus corajosos pastores que, no momento indicado por um sinal,

deveriam avançar silentes para o meio do acampamento, circundando todos os cativos que jaziam

amontoados no meio do arraial. Ao mesmo tempo, os 260 pastores restantes deveriam circundar todo

o acampamento, aguardando pelo sinal de quebrarem os vasos com os chifres.

Orientado pela voz da chama, indiquei-lhes os sinais: quando a última tocha se apagasse no

acampamento, deveriam ficar atentos, pois uma pequena lamparina seria acesa por um dos cativos.

Assim que a lamparina começasse a arder, deveriam correr cada um para o seu lugar, evitando

qualquer ruído para que não fossem notados.

O sinal para quebrarem os vasos com os chifres, erguendo bem alto a tocha, era o apagar da

lamparina.

-------*****--------

Depois dessas orientações, os 260 pastores, ocultos pelas sombras da noite, espalharam-se pelo

vale, e ficaram esperando pelo momento de se posicionarem ao redor do acampamento. Enquanto

isso, os 40 se posicionaram próximos a uma passagem vulnerável, através da qual haveriam de

alcançar os cativos.

Já era alta noite quando a tocha do último soldado apagou-se, sobrevindo completa escuridão e

silêncio sobre o arraial.

Entre os cativos, havia um homem que naquela noite vivia a maior angústia de sua vida. Era o

meu sobrinho que, depois de tornar-se alvo de tantos abusos e humilhações, tomara conhecimento do

castigo que os aguardava pelo alvorecer.

Naquela noite, Ló tinha seus pensamentos voltados para o seu tio. Lembrava-se com

arrependimento do momento em que me deixara, mudando-se para as campinas de Sodoma. Em seu

desespero, sentiu desejo de rever minha face e pedir-me perdão por ter-se afastado de mim.

Justamente naquele momento, Ló foi atraído pelo brilho de uma tocha que ardia sobre o outeiro. Ao

fitar o brilho, imaginou estar tendo uma visão, pois o mesmo revelava-lhe a face de seu querido tio.

Querendo mostrar-me o seu rosto, Ló apalpou em meio às trevas, até encontrar uma pequena

lamparina que trouxera em seu alforje. Frustrado, percebeu que não havia nela nenhum azeite.

Concluiu que a lâmpada apagada e seca era um símbolo de sua vida vazia e sem fé.

Sem desviar os olhos de meu rosto iluminado pela chama do jarro, num desesperado gesto de

fé, Ló apalpou o pavio de sua lamparina, descobrindo nele um resto de azeite. Curvando-se, passou a

ferir as pedras do fogo, até que uma faísca saltou para o pavio. Sem que soubesse, Ló estava

comandando, com seus gestos, os passos para um grande livramento.

Os trezentos pastores ao verem o tênue brilho da lamparina, encaminharam-se rapidamente

para os seus postos e ficaram aguardando o apagar da pequena chama.

Desde o momento em que Ló erguera-se com sua diminuta chama, fiquei olhando para os seus

olhos que fitavam os meus. Vi que sua face trazia sinais de indizível angústia e maus tratos. Mesmo

assim pude ler em seus olhos que a esperança e a fé ainda não o haviam abandonado.O foguinho de

sua lamparina, contudo, não resistiria por muito tempo. Era necessário que se apagasse, para sinalizar

a grande vitória.

Quando a escuridão voltou a cobrir a face de Ló, meus trezentos pastores arremeteram os

chifres contra os vasos que mantinham ocultas as tochas ardentes. Um forte ruído, como de cavalaria

em combate, ecoou por todas as partes, enquanto as tochas eram suspensas pelos bordões. Os

trezentos chifres, usados até então para conduzir o rebanho, soavam agora como trombetas de

conquistadores.

Todo o acampamento despertou num único salto e, sem saberem como escapar de tão terrível

investida que partia de fora e de dentro, os soldados começaram a lutar entre si, enquanto meus

pastores permaneciam em seus lugares, fazendo soar os chifres.

Os cativos ficaram muito espantados a princípio, mas pouco a pouco foram tomando

consciência do grande livramento que estava se operando em seu favor.

Quando amanheceu, revelou-se aos nossos olhos um cenário de completa destruição. Todo o

arraial estava coberto por milhares de corpos rasgados pelas próprias espadas e lanças. Somente uns

poucos conseguiram fugir daquele acampamento de morte, mas foram perseguidos pelos meus 18

aliados que estavam armados, sendo alcançados em Hobá, situada à esquerda de Damasco. Enquanto

isso, os cativos, agora libertos, recuperavam todas as riquezas que haviam sido saqueadas pelos

inimigos.

------****-------

Do cimo do outeiro, enquanto eu vibrava com a alegria dos cativos naquela manhã de

liberdade, ouvi a voz do Eterno falando-me do meio da chama:

- Este livramento que hoje se concretiza, representa o livramento que hei de operar nos

últimos dias, salvando os remanescentes de teus filhos, do cerco de numerosas nações que se

aliarão a Gog com o propósito de destruí-los. Naquele dia em que triunfarem sobre o meu povo, a

minha indignação será mui grande, e contenderei com ele por meio da peste, do fogo e do sangue;

chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre as suas tropas

e sobre os muitos povos que estiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha

santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor. E sobre

a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de Graça e de Súplicas;

olharão para Mim a quem traspassaram, prantear-me-ão como quem pranteia por um unigênito e

chorarão por mim como se chora amargamente pelo primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte

aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a

impureza.(1)

--------*****--------

A chama que para mim tornara-se uma representação do Messias prometido, apagou-se no

momento em que desci ao encontro dos pastores e dos muitos cativos agora libertos. Cheios de

alegria e de admiração, todos queriam saber como tornara possível tão grande livramento, somente

com a utilização daquelas tochas e chifres. Falei-lhes da importância daquele fogo que se desprendera

do Altar, para libertá-los naquele vale, identificando-o com o Messias Salvador.

Ao ver que todos carregavam em seus corpos e mantos a sujeira da escravidão, convidei-os a

seguirem-me até o rio Jordão, onde poderiam banhar-se para purificação de seus pecados, pois aquele

era o Yom Kipur, o dia do perdão.

Somente três pessoas atenderam ao convite: Ló e suas duas filhas mais novas. Os demais

retornaram contaminados para suas casas.

Antes de partir, o rei de Sodoma veio ao meu encontro, prometendo dar-me todas as riquezas

recuperadas naquela manhã. Eu recusei sua oferta, para que jamais alguém possa dizer que eu me

enriqueci com aquele saque.

Permanecemos acampados às margens do rio Jordão, nas proximidades de Jerico por quatro

dias. Naqueles dias de descanso, todos ficaram livres das impurezas, deixando-as nas águas do

 

Jordão. Esse era um preparo especial para nossa subida a Salém, onde comemoraríamos a vitória nos

dias de Sukot.

-------****-------

Cheios de alegria, iniciamos uma caminhada ascendente rumo à cidade de Salém, inconscientes

da feliz surpresa que nos aguardava. Eu seguia à frente tendo ao meu lado Ló e suas duas filhas, e

atrás vinham os 300 pastores, conduzindo o grande rebanho.

À medida em que avançávamos, comecei a notar que o meu jarro tornara-se muito pesado. Ao

baixá-lo, fiquei surpreso ao descobrir que estava repleto de pérolas e pedras preciosas de variados

tamanhos e brilhos.

Ao avistarmos ao longe a alva cidade, começamos a ouvir sons de uma grande festa. Acordes

harmoniosos repercutiam pelos montes, enquanto avançávamos pelo caminho.

Minha curiosidade em conhecer aquela cidade e o seu jovem rei era imensa, pois muito já

ouvira sobre sua grandeza e fama. Tratava-se de um reino diferente, onde os súditos eram treinados

não no manejo de arcos e flechas, mas no domínio de instrumentos musicais. Melquisedeque, o seu

jovem rei, regia a todos com um cetro muito especial: um alaúde, pelo qual pagara um preço elevado.

Enquanto crescia em mim a alegria por estar nos aproximando da cidade do grande Rei, vimos

uma multidão vestida de linho fino, puro e resplandecente, saindo ao nosso encontro. Todos tangiam

instrumentos musicais e cantavam um hino de vitória. À frente da multidão vinha um jovem tocando

um alaúde, trazendo na fronte uma coroa repleta de pedras preciosas, que brilhavam sob a claridade

do sol poente. Eu tive a certeza de que aquele era o tão aclamado rei de Salém.

Ao nos encontrarmos, ficamos surpresos com a saudação que nos fizeram. Inclinando-se diante

de mim, Melquisedeque afirmou:

- Bendito és tu Abraão, servo do Elohim Altíssimo, que possui os Céus e a Terra; e bendito seja o

Elohim Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos .(2)

---------*****---------

Surpresos pela festiva recepção, fomos introduzidos na cidade, onde a beleza das mansões e

jardins nos causou muita admiração. Tudo ali era puro e cheio de paz. Salém estava em festa, pois

teria início naquele entardecer a festa de Sukot.

Fomos recebidos no palácio real, edificado sobre o monte Sião. Ali, uma nova surpresa nos

aguardava: a grande sala do trono estava toda adornada com representações de nossa vitória sobre os

inimigos. Havia no centro uma mesa muito comprida, coberta por toalhas de linho fino adornadas

com fios de ouro e pedras preciosas. Sobre a mesa estavam 304 coroas, cada uma trazendo a

inscrição do nome de um vencedor. Num gesto que novamente nos surpreendeu, Melquisedeque,

tomando as coroas, começou a colocá-las na cabeça de cada um de nós, começando por Ló e suas

filhas. Estávamos todos admirados pelo fato do rei de Salém conhecer-nos individualmente, e por ter

preparado aquelas coroas muito antes de sermos vencedores.

Eu observava a alegria de meus companheiros coroados quando, tomando uma coroa

semelhante à sua, o rei de Salém dirigiu-se a mim com um sorriso. Ao levantá-la sobre minha cabeça,

notei algo que até então não havia percebido: suas mãos traziam cicatrizes de profundos ferimentos.

Vencido por um sentimento de gratidão, prostrei-me aos seus pés e, comovido, beijei suas bondosas

mãos, banhando-as com minhas lágrimas.

Ao levantar-me, perguntei-lhe o significado daquelas cicatrizes. Com um meigo sorriso, ele

prometeu contar-me a história daquele próspero reino, e do quanto lhe custara a sua paz.

--------*****---------

Depois de coroar-nos, Melquisedeque nos fez assentar ao redor da grande mesa, e passou a

servir-nos pão e vinho. A partir daquele momento, passamos a honrá-lo como sacerdote do Elohim

Altíssimo.

Num gesto de gratidão, tomei o jarro que se enchera de pérolas e o coloquei aos pés do rei.

Tomando-o nos braços, ele passou a acariciá-lo sem atentar para o brilho das jóias. Expressando

gratidão por aquela oferta, ele disse-me que aceitaria o jarro; Quanto às pérolas e pedras preciosas,

ele aceitaria somente o dízimo delas.

Imediatamente passei a contar as jóias, separando as mais belas para o rei. Havia um total de

1440, das quais lhe entreguei 144. Ele as guardou cuidadosamente em uma caixinha de ouro puro, em

cuja tampa havia lindos adornos marchetados de pedras preciosas.

Depois de receber o dízimo que simbolizava o grande livramento operado por Elohim na planície,

Melquisedeque chamou para junto de si um de seus súditos que era mestre em adornos e pinturas,

ordenando-lhe embelezar o jarro com uma linda gravura que retratasse o momento em que eu o

ofertei.

Enquanto o jarro era pintado, Melquisedeque passou a contar-me a história de seu reino, desde

sua fundação até aquele momento em que estávamos comemorando a grande vitória sobre os

inimigos.

Ao devolver-me o jarro, agora honrado pela mais bela gravura e inscrições que exaltavam a

justiça e o amor, o rei de Salém ordenou-me levá-lo com aquelas jóias. Durante seis anos eu e meus

pastores deveríamos contar para todos a história daquele jarro que transportara a chama vitoriosa do

altar. A todos aqueles que, com arrependimento, aceitassem a salvação representada por sua história,

deveríamos oferecer uma pedra preciosa ou pérola. Ao fim dos seis anos, as jóias acabariam. Já não

haveria oportunidade de salvação. Sobreviria então o sétimo ano, no qual haveria um tempo de

grande angústia e destruição, quando somente existiria proteção para aqueles que possuíssem as jóias.

Por essa ocasião, as cidades da planície seriam totalmente destruídas pelo fogo do juízo, e os demais

povos impenitentes, seriam dizimados por terríveis pragas.

--------******----------

Depois de revelar-nos sobre os sete anos que ainda restavam, dentro dos quais teríamos uma

missão importante a cumprir, Melquisedeque nos afirmou que nossa experiência consistia numa

parábola que representa a história universal, com ênfase no livramento dos filhos de Israel nos

últimos dias. Ele o previu com as seguintes palavras:

Ao chegar a plenitude dos tempos, todos os esforços humanos em busca da paz se frustrarão.

Naquele tempo, numerosas nações se aliarão contra o reino de Jerusalém, e sobrevirá um tempo de

angústia qual nunca houve para os filhos de Israel. Depois de um terrível conflito, verão numerosos

exércitos invadindo sua terra, numa aparente vitória. No momento mais difícil, quando as suas

forças estiverem esgotadas, o Eterno intervirá em Seu favor, lançando por terra os numerosos

inimigos.(3)

Toda a humanidade testemunhará, com espanto as cenas de livramento. Naquele dia, muitos

povos e poderosas nações se posicionarão ao lado do Senhor dos Exércitos. Naquele dia acabará a

cegueira dos filhos de Jacó, e olharão para Aquele a quem traspassaram, e chorarão amargamente

por ele como se chora por um filho unigênito.

Naquele dia os eleitos de Elohim compreenderão as palavras do Livro:

Ouvi-me, vós, que estais à procura da justiça, vós que buscais o Eterno. Olhai para a rocha da

qual fostes cavados, para a caverna da qual fostes tirados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para

Sara, aquela que vos deu a luz. Ele estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei.

O Senhor consolou a Sião, consolou todas as suas ruínas; ele transformará o seu deserto em um

Éden e as suas estepes em um jardim. Nela encontrarão gozo e alegria, cânticos de ações de graças

e som de música.(4)

Naquele dia os habitantes de Jerusalém trocarão suas armas por instrumentos musicais e os

remidos, consolados pela grandiosa revelação de Elohim, com alegria cantarão:

“Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama

boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: O teu Elohim reina! Porque o Eterno consolou o

seu povo, ele redimiu Jerusalém. O Senhor descobriu o seu braço santo aos olhos de todas as

nações, e todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Elohim.(5)

O grande livramento se cumprirá no início de uma nova semana de anos, ao fim de um ciclo

determinado envolvendo dez jubileus. Durante seis anos, toda a humanidade, iluminada pela maior

revelação do amor e da justiça de Elohim, terá oportunidade de romper com o império do pecado,

unindo-se aos filhos de Israel em sua marcha de purificação e restauração do reino da luz.

Então acontecerá que todos os sobreviventes das nações que marcharam contra Jerusalém,

subirão, ano após ano, para prostrar-se diante do Rei e Senhor dos Exércitos, e para celebrar a festa

de Sukot. E acontecerá que aquele das famílias da Terra que não subir e não vier, haverá contra ele

a praga com que o Eterno ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa de Sukot.(6)

Naqueles anos de oportunidade, soará por todas as partes do mundo o último convite de

misericórdia, num apelo para que todos os pecadores se arrependam e se unam ao Criador numa

eterna aliança .Por todas as partes se ouvirá o brado Eterno:

Observai o direito e praticai a justiça, porque a minha salvação está prestes a chegar e a

minha justiça a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que assim procede, o filho do homem que

nisto se firma, que guarda o sábado e não o profana e que guarda sua mão de praticar o mal. Não

diga o estrangeiro que se entregou ao Senhor: - Naturalmente Elohim vai excluir-me do seu povo, nem

diga o eunuco: - Não há dúvida, eu não passo de uma árvore seca. Pois assim diz o Senhor aos

eunucos que guardam os meus sábados e optam por aquilo que é a minha vontade, permanecendo

fiéis à minha aliança: Hei de dar-lhes, na minha casa e dentro dos meus muros, um monumento e um

nome mais precioso do que teriam com filhos e filhas; hei de dar-lhes um eterno nome, que não será

extirpado. E, quanto aos estrangeiros que se entregarem ao Senhor para servi-lo, sim, para amar o

nome do Eterno e tornarem-se servos seus, a saber, todos os que se abstêm de profanar o sábado e

que se mantêm fiéis à minha aliança, trá-los-ei ao meu santo monte e os cobrirei de alegria na minha

casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão bem aceitos no meu altar. Com

efeito, a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.(7)

Na última semana de anos, os filhos de Belial se aliarão contra os filhos da Luz, e os acusarão

como causadores de toda a desarmonia no mundo. Em oposição à santificação do sábado que é o

sinal da aliança entre Elohim e seus escolhidos, muitas nações imporão outro dia para o culto, não

podendo comprar nem vender todos aqueles que se mantiverem fiéis à aliança do Eterno.(8)

Ao fim dos seis anos, o rolo se fechará e não haverá mais oportunidade de salvação.

Desprotegidos, os ímpios sofrerão os juízos Eternos que se manifestarão nas sete últimas pragas.

Desesperados, muitos correrão de um lado para o outro em busca da mensagem do rolo, mas não a

encontrarão. Durante o sétimo ano, os escolhidos de Elohim passarão por grandes provas, pois serão

condenados pelas nações como os causadores de todo o caos que sobrevirá ao mundo em

conseqüência dos juízos.(9)

Ao consumarem-se os sete anos, o Messias se manifestará nas nuvens do céu, acompanhado

por todas as hostes celestes, para salvação de seu povo. Ao tocar Sua trombeta, os fiéis falecidos

ressuscitarão revestidos de Kevod(Kevod(glória)); os vivos vitoriosos serão transformados num abrir e fechar de

olhos, recebendo corpos perfeitos. Juntos, todos os remidos serão arrebatados para a Nova e Eterna

Jerusalém, numa viagem inesquecível que começará no primeiro dia da festa de Sukot. Depois de

sete dias de feliz ascensão, chegarão à Cidade Santa para comemorarem, diante do trono ,no oitavo

dia da festa, a grande vitória. Como que a sonhar, os resgatados do Senhor entrarão na Cidade

Santa, encontrando ali o jardim do Éden, no meio do qual eleva-se o monte Sião, o lugar do trono

de Elohim. Coroados pelo Messias, os remidos entoarão o cântico da vitória, fazendo vibrar por todo o

espaço os acordes de incontáveis instrumentos musicais. (10)

---------*****--------

Depois de proferir todas essas predições, Melquisedeque disse-nos novamente que toda a

experiência que estávamos vivendo era prefigurativa, e teríamos de cumprir ainda importantes tarefas

nos próximos sete anos: Durante seis anos a história do jarro deveria ser contada aos pecadores,

dando-lhes a oportunidade de arrependerem-se, apossando-se das jóias que simbolizam salvação; Ao

fim dos seis anos, na véspera de Rosh Hashanah as pérolas acabariam, ficando fora do abrigo todos

aqueles que não a receberam.

Ao ouvir tais palavras do rei de Salém, sobreveio-me grande angústia, por lembrar-me dos

últimos passos de Sara. Eu temia que ela, em sua incredulidade, não aceitasse uma pérola. Se isto

acontecesse, os meus lindos sonhos cairiam por terra, pois não conseguiria ser feliz em sua ausência.

Lendo nos meus olhos a angústia, Melquisedeque consolou-me com uma promessa:

- Abraão, daqui a seis anos o Eterno visitará sua tenda, e sua esposa será curada de sua

aridez. Ela se converterá e lhe dará um filho que se chamará Isaque.

--------*****---------

Ao findar a festa de Sukot, retornamos às nossas tendas junto ao Carvalho de Mambré. À

medida que íamos avançando pelo caminho, muitas pessoas nos cercavam, admirados pela beleza do

vaso repleto de pérolas. A todos contávamos a história de sua chama redentora, e dávamos as jóias

àqueles que aceitavam a salvação.

Quando chegamos ao Carvalho de Mambré, uma multidão de pessoas nos esperava. Muitos

tinham ouvido falar do miraculoso livramento operado através daquele jarro que fora alvo de tanto

menosprezo. Agora, estavam todos emudecidos ao vê-lo glorificado.

Juntamente com os meus pastores, continuamos a proclamar o infinito amor de Elohim revelado

pela chama. O número daqueles que procuravam pelas pérolas ia aumentando, dia após dia, e todos

éramos felizes.

Melquisedeque enviou-nos muitos de seus súditos que eram mestres em música, para

realizarem uma missão importante. Eles apresentavam a história de seu reino de paz por meio de

lindos cânticos que exaltavam o poder da humildade e do amor. Sua música tinha o poder de

transformar corações infelizes, dando-lhes esperança e alegria em viver. Para que se propagasse a

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influência restauradora da música de Salém, eles ensinavam a muitos a cantarem tocarem flautas e

alaúdes, enviando-os depois de certo tempo como mensageiros de sua missão de paz.

--------******--------

Os dias, os meses e anos foram-se passando, e as pérolas e pedras preciosas foram diminuindo

dentro do jarro. Estávamos vivendo agora os últimos meses do sexto ano, que era o último da

oportunidade. À medida em que os dias se passavam, aumentava em meu coração uma preocupação e

uma angústia, pois Sara até então não tomara interesse em apossar-se de sua pérola, apesar de meus

constantes rogos.

Naqueles momentos de aflição em que clamava a Elohim pela salvação de Sara, meu único

consolo eram as últimas palavras do rei de Salém, de que ao fim dos seis anos ela seria transformada.

Vivíamos agora os últimos dias do sexto ano. A consciência de que o tempo estava se

esgotando, fazia com que muitas pessoas nos procurassem de manhã até à noite, para apossarem-se

das jóias da salvação. Com o coração ferido por uma indizível aflição, eu insistia com Sara,

procurando convencê-la de sua necessidade em tomar, o quanto antes, uma pérola, pois as mesmas

estavam ficando escassas. Sem atentar para a minha angústia, Sara desdenhava de meus apelos,

afirmando que aquelas pérolas não tinham nenhum valor para ela.

-------****-------

Depois de uma noite de vigília em que, desesperadamente, procurei em vão convencer minha

amada a apossar-se uma pérola, aceitando a salvação representada por aquele jarro, vi o sol surgir

trazendo a luz do último dia, véspera de Rosh Hashaná. Ao olhar para dentro do vaso naquela manhã,

vi que restavam apenas três pérolas. Ao admirar-lhes o brilho, comecei a imaginar que a maior seria

para o meu filho prometido, a de tamanho intermediário seria a de Sara, e a menor seria a minha.

Esse pensamento trouxe-me alívio e esperança. Mas, ao mesmo tempo, comecei a preocupar-me com

a possibilidade de chegarem pessoas procurando por elas. Se viessem, eu não poderia negá-las.

Tomado por essa preocupação, permaneci sentado sob o Carvalho de Mambré. Na viração do dia, sobreveio-me

um grande estremecimento quando vi ao longe três peregrinos que caminhavam rumo à nossa tenda. Comecei a clamar ao

Eterno para que eles mudassem de rumo, mas meus clamores não foram atendidos. Dominado por uma indizível

amargura, corri até eles e, depois de prostrar-me, convidei-os para a sombra.

Tomando uma bacia com água, passei a lavar-lhes os pés, limpando-os da poeira do caminho.

Ao ver os pés feridos e calejados daqueles homens, senti compaixão por eles. Compreendi que

haviam vindo de muito longe, enfrentado perigos e desafios, com o propósito de pegarem em tempo

as pérolas. Vi que eles eram mais merecedores que eu, Sara e nosso filho prometido.

Ao lavar os pés do terceiro, meu coração que, até então estava aflito, encheu-se de paz e

alegria. Imaginava naquele momento, quão terrível seria se aquele terceiro peregrino não houvesse

se unido aos dois primeiros naquela caminhada. Nesse caso eu seria obrigado a tomar da última

pérola, subindo sem minha amada para Salém. Se eu tivesse de passar por essa experiência, a pérola

que simboliza a alegria da salvação, se tornaria num símbolo de minha solidão e tristeza, pois a vida

longe do carinho de Sara, seria para mim o maior castigo, como a própria morte.

Depois de lavar-lhes os pés, comecei a servir-lhes o alimento que foi especialmente preparado

para eles. Enquanto os servia em silêncio, fiquei esperando pelo momento em que eles perguntariam

pelas pérolas. Mas, sem revelar nenhuma pressa, eles falavam sobre a longa caminhada que fizeram,

e sobre as cidades por onde haviam passado. Eu perguntei-lhes se conheciam Salém. Eles

responderam-me afirmativamente, acrescentando que naqueles seis anos, muitas obras haviam sido

realizadas naquela cidade, em preparação para uma grande festa que estava para realizar-se dentro de

mais um ano, por ocasião da festa de Sukot.

As palavras daquele terceiro peregrino, o mais falante deles, começaram a trazer-me,

misteriosamente, um sentimento de esperança. Ao olhar para os seus olhos, vi que ele se parecia com

Melquisedeque.

Lembrava-me da última promessa feita pelo rei de Salém, quando o terceiro peregrino

perguntou-me com um sorriso:

- Abraão, onde está Sara sua mulher?!

Atônito, perguntei-lhe:

- Como você sabe o meu nome e o nome de minha esposa?

O peregrino respondeu-me:

- Não somente sei o nome de vocês, como também sei que daqui a um ano vocês terão um filho

que será chamado Isaque.

Ao ouvir as palavras do visitante, corri para dentro da tenda a fim de chamar minha esposa,

para que ouvisse as palavras daquele peregrino.

Ao vê-la, o peregrino perguntou-lhe:

- Sara, por que você riu de minhas palavras?

Assustada, Sara, respondeu:

- Eu não ri, meu Senhor!

- Não diga que não riu, pois eu a vi rindo dentro da tenda. Afirmou o peregrino.

Consciente de estar diante de alguém que conhecia o seu íntimo, Sara perguntou-lhe:

- Quem és tu Senhor?!

- Eu sou a Chama que se desprendeu do fogo do Altar para estar no jarro que você rejeitou!

Eu sou o Messias, o Elohim que sofre humilhações e desprezo por amor ao seu povo!

Tendo feito esta revelação, o peregrino estendeu suas mãos sobre a cabeça de Sara para

abençoá-la. Somente então vi que elas estavam marcadas por cicatrizes semelhantes às do rei de

Salém.

O peregrino, com muita ternura, começou a falar ao coração de minha amada, resgatando-a de

sua incredulidade:

- Sara, você é preciosa aos meus olhos! Todo o seu passado de descrença e infertilidade está

perdoado! Tenho para você um futuro glorioso, pois você se tornará mãe de muitos povos e nações!

Depois de dizer estas palavras, o nobre visitante encaminhou-se para o jarro e, inclinando-se,

tomou dele as três pérolas restantes. Dirigindo-se a Sara, entregou-lhe duas pérolas, e disse-lhe:

- Uma é para você e a outra é para o seu filho Isaque.

Com a vida transformada pelo amor do Eterno, Sara prostrou-se agradecida aos pés daquele

peregrino que a salvara no último momento. Quando a vi prostrar-se submissa, meu coração por

tantos anos aflito, rompeu-se em lágrimas de alegria e gratidão, e caí aos pés de meu Redentor e Rei.

Depois de consolar-nos com a certeza de nossa eterna salvação, o peregrino entregou-me a

última pérola. Quando apertei-a em minhas mãos, senti grande luz e paz inundar-me todo o ser, e

passei a louvar ao Eterno pela certeza de que teria para sempre ao meu lado minha querida Sara e o

filho que, segundo a promessa, dentro de um ano nasceria.

------****-------

Depois destas coisas, o Eterno despediu-se de Sara e dos pastores que ali se encontravam, e

convidou-me a acompanhá-los até o outeiro que fica defronte do vale. Ao chegarmos àquele lugar, o

Eterno despediu-se de seus dois companheiros, enviando-os para uma missão especial em Sodoma.

Do cimo do monte contemplávamos os férteis vales e florestas que, como um paraíso,

estendiam-se em ambas as margens do rio Jordão, circundando as prósperas cidades, dentre as quais

destacavam-se Sodoma e Gomorra.

Fora sobre aquela colina que, depois da contenda entre os meus pastores e os pastores de Ló,

dei-lhe a oportunidade de escolher o rumo a seguir, pois não poderíamos permanecer juntos. Atraído

pelas riquezas da campina, ele decidiu mudar-se para lá.

Ao olhar para o meu companheiro que ficara silente desde o momento em que avistamos a

campina, fiquei surpreso ao vê-lo chorando. Perguntei-lhe o motivo de sua tristeza, e Ele, soluçando,

respondeu:

- Este é para mim um dia de muita tristeza, pois pela última vez meus olhos podem pousar

sobre este vale fértil. Choro pelos habitantes dessas cidades que não sabem que os seus dias

acabaram!

A declaração do Messias trouxe-me à lembrança todos aqueles cativos que haviam sido libertos

seis anos antes. Infelizmente, quase todos rejeitaram o banho da purificação, retornando imundos

para suas casas. Unicamente Ló e suas filhas aceitaram a salvação, tomando posse de suas pérolas.

Pensando numa possibilidade de livramento para aquele povo, perguntei ao Eterno:

- E se por acaso existir, naquelas cidades, cinqüenta pessoas justas; mesmo assim elas serão

destruídas?

O Senhor disse-me que se houvesse cinqüenta justos, toda a planície seria poupada.

- E se houver 45 justos?

- Se houvesse ali 45 justos, todas aquelas cidades seriam poupadas.(11)

Continuei com minhas indagações até chegar ao número dez. O Eterno disse-me que, se

houvesse dez justos naquelas cidades, toda a planície seria poupada.

Torturado por uma indizível agonia de espírito, o Senhor voltou a chorar amargamente,

enquanto com voz embargada, pronunciava um triste lamento:

- Sodoma e Gomorra, quantas vezes quis Eu ajuntar os seus filhos, como a galinha ajunta os

seus pintainhos debaixo das asas, mas você não aceitou minha proteção. Por que você trocou a luz

da minha salvação pelas trevas deste reino de morte?! Meus ouvidos estão atentos em busca de pelo

menos uma prece, mas tudo é silêncio! Minhas mãos estão estendidas, prontas a impedir o fogo do

juízo, mas vocês recusam o meu socorro!

Curvando-me ao lado de meu companheiro sofredor, uni-me a Ele na lamentação. Naquele

momento de dor, tive a certeza de que Melquisedeque também sofria por todos aqueles que haviam

trocado o amor e a paz de Salém pelas ilusões daquele vale de destruição.

Depois de um longo pranto, o Messias consolou-me com a revelação de que os seus dois

companheiros encontravam-se naquele momento em Sodoma, com a missão de salvar Ló e suas

filhas, livrando-os da morte. Suas palavras trouxeram-me alívio, e prostrei-me agradecido aos seus

pés.

---------***----------

Antes de partir, o Eterno encarregou-me de uma missão, dizendo:

- Tome um rolo vazio e registre nele a história do vaso e a história de Salém, conforme ouviu

dos lábios de Melquisedeque. Dentro de um ano, você e todos aqueles que aceitaram a salvação,

deverão subir à Salém para a festa de Sukot. Naquele dia, entregará ao rei de Salém o jarro,

oferecendo dentro dele, como presente, o rolo.

Naquela mesma tarde, em obediência às ordens do Senhor, comecei a registrar a história vivida

por mim e por meus pastores, desde o momento em que parti rumo ao vale, levando sobre as costas o

vaso com sua labareda.

No dia seguinte, o sol já ia alto, quando, ao mencionar a cidade de Sodoma no manuscrito,

lembrei-me que aquele era o dia de sua destruição. Com o coração acelerado, corri para lá e fiquei

espantado com o cenário que se estendeu diante de meus olhos: em lugar daquele vale fértil,

semelhante a um paraíso, havia um deserto fumegante, sem nenhuma vida. No lugar das cidades de

Sodoma e Gomorra, havia uma cratera, para onde as águas do mar salgado escorriam.

Abalado ante essa visão de destruição, retornei à tenda com o coração entristecido. A

lembrança de tantas pessoas que, por rejeitarem o perdão Eterno, haviam sido consumidas pelo fogo,

deixou-me profundamente abalado. Nos dias seguintes, não encontrei forças para escrever. Retornei

outras vezes ao outeiro, com a esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas em lugar do vale

fértil eu somente conseguia enxergar aquele caos.

Demorou vários dias para que eu voltasse a ter ânimo para prosseguir com os escritos do rolo.

Referências: (1)(Ezequiel 38; Zacarias 12: 10; (2) Genesis 14:18-24; (3)Jeremias 30:7-8; (4)

Isaias 51:1-3;(5)Isaias 52:7; (6)Zacarias 14:16-19; (7)Isaias 56:1-8;(8) Apocalipse13: 15-18;

(9)Apocalipse 15; Sonfonias 1:13-18; (10)S.Mateus 24:30,31; Apocalipse 14:1-5; 21:1-5; (11)

Gênesis

A História de Salém

- SEGUNDA PARTE -

Esta é a história de Salém, segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por ocasião da festa de

Sukot, cinco dias depois do livramento de Ló e suas filhas.

Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias. Ele possuía muitas

riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a paz que nascem da sabedoria e do amor.

Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã, Adonias resolveu

edificar um reino que fosse regido por leis de amor e de justiça. O nome da capital desse reino seria

Salém, a Cidade da Paz.

Os súditos de Salém não empunhariam arcos nem flechas, mas seriam treinados na arte

musical. Cada habitante de Salém teria sempre ao alcance de suas mãos um instrumento musical,

para expressar por meio dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos formariam uma poderosa

orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do egoísmo.

O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi elaborar as leis do novo

reino, as quais ele escreveu em um pergaminho. Os súditos de Salém não poderiam mentir, furtar,

odiar, nem matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa de todo o

mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz.

As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade, da amizade, e, acima

de tudo, do amor, que é a maior de todas as virtudes.

Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino, Adonias passou a

arquitetar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena, com habitações para mil e duzentas pessoas.

Como lugar de sua edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte das

Oliveiras.

Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de todas as partes que, de

perto e de longe, vinham para conhecer os palácios e as mansões que estavam sendo edificados.

Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem seriam os

seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que Salém destinava-se aos limpos de

coração - aqueles que estivessem dispostos a obedecerem suas leis.

--------*****-------

A edificação da cidade foi finalmente concluída, e Salém revelou-se formosa como uma noiva

adornada, à espera de seu esposo.

Assentado em seu trono, Adonias examinava os numerosos pretendentes que chegavam de

todas as partes, desejosos em ser súditos daquele reino. Aqueles que, prometendo fidelidade às leis

eram aprovados, recebiam três dotes do rei: o direito a uma mansão, vestes de linho fino e um

instrumento musical no qual deveriam praticar.

A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias convocou a todos

para a festa de inauguração de Salém, no decorrer da qual proclamou um decreto que determinaria o

futuro daquele reino, dizendo:

- A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados, nos quais todos os

moradores serão provados. Somente aqueles que permanecerem leais, progredindo na prática das

leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz. Aqueles que forem

enlaçados por culpas e transgressões serão banidos pelo juízo.

As palavras do rei levaram todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se com a

certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são as raízes de todos os

males.

--------******--------

Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque. A beleza, ternura e

sabedoria desse filho amado haviam sido sua inspiração para a edificação de seu reino.

Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada. Era plano de Adonias

coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos. Este plano, ele o manteria em segredo

até o momento devido.

O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito querido de todos em Salém. Ele

tinha sempre nos lábios um sorriso e uma palavra de carinho. Apreciava estar junto aos súditos em

seus lares, recitando-lhes as leis do pergaminho em forma de lindas canções que vivia a compor. Sua

presença trazia ao ambiente uma atmosfera de felicidade e paz. Esse amado príncipe possuía, de fato,

todas as virtudes necessárias para ser rei de uma Salém vitoriosa.

---------******---------

Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de ofertá-la ao súdito

cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho. Diariamente ele observava os

moradores, procurando entre eles essa pessoa a quem desejava honrar.

Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros, Adonias ouviu uma

voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era, encontrou um belo jovem que

cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias

alegrou-se por haver encontrado aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia

fiel do príncipe, chamava-se Samael.

Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde foi recebido por

Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre os quais o direito de estar sempre ao seu

lado.

Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o qual todos foram

convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o aclamaram com alegria, acreditando ser ele

o próprio príncipe.

Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se Melquisedeque,

posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai.

No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de residir na mansão do

monte, pois havia nele um perfeito reflexo das virtudes que coroavam o amado príncipe.

---------*****--------

Salém crescia em felicidade e paz. Com alegria, os súditos reuniam-se a cada dia ao amanhecer

para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes composições de Melquisedeque, que inspiravam atos

de bondade e paz.

Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa, sobressaía aquela

que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão do monte, Samael tornara-se seu

companheiro constante. Passavam longas horas juntos, meditando sobre as leis do pergaminho. Com

admiração, o súdito honrado via o filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções. As

doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor.

Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe,

além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o

alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de

seu íntimo.

--------******--------

Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali todos os

habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no pergaminho, convocou-os

para um banquete, no qual faria importantes revelações.

Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes entoando

os cânticos da paz, sendo regidos por Samael.

Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos

aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém eram em grande

medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o autor daquelas doces canções.

Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos mantidos até

então em segredo. Com voz pausada, disse-lhes:

- Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse dia vossas

faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras, como quando as recebestes

de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e instrumentos hoje são maiores.

Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:

- Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo fiéis como

até aqui, sereis honrados, confirmados como súditos deste reino de paz. Contudo, se alguém for

achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos traga muita tristeza e sofrimento.

As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se,

indagavam reverentes: - Estaremos aprovados?!

Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes num cântico

expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes seu grande segredo:

- Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o meu filho, a

quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.

A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes

revelara todo o seu plano, por isso, pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:

- O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio. Seu

cetro, simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.

Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe, prostrando-se aos pés de seu pai,

chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando ver o

raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa.

Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:

- No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro depois de

Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o guardião da honra desse

reino triunfante.

--------******---------

Samael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia.

Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de Kevod(Kevod(glória)). Considerando

as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser dominado por um sentimento de

exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do pergaminho, vivera uma vida de humildade,

começava a orgulhar-se de sua posição. Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de

Salém a seus pés, aclamando com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse

sentimento, não dava por conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O

orgulho que o seduzira estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça.

--------***** --------

Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em homenagem a

Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos louvores, Samael teve o coração

tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o

pensamento de ser deixado em segundo plano. Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?!

Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade.

Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe,

recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções. Agora, tais

momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam os seus ideais. Decidiu,

contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria o antiquado pergaminho até que, com

sua autoridade, pudesse bani-lo do novo reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião

daquelas leis? Essa “vitória” procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria.

Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael

aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das Kevod(glória)s do reino vindouro, onde os dois,

cobertos de honras, desfrutariam os louvores de uma Salém vitoriosa. Seriam eles os heróis do mais

perfeito reino estabelecido entre os homens.

As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao coração do jovem

príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e humildade do pergaminho.

Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais revelada,

conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler compassadamente os

seguintes parágrafos:

- O reino de Salém será firmado sobre a humildade, pois esta virtude é a base de toda

verdadeira grandeza.

A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma criatura presa

ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações, iludindo-a como se as mesmas fossem de infinito

valor.

A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço aos

semelhantes.

Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que para ele

era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo:

- Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito acima deste

pergaminho, cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses anos de prova. A plena liberdade

não será a Kevod(glória) de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não coexistirá com estas leis, cujo

objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós dois coroarmos Salém com a honra de uma

total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim. Tal liberdade é impossível existir sob as

limitações do pergaminho.

O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura.

Como libertá-lo desse caminho de morte?!

------******------

Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com

paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis não podiam

jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz.

Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas

palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso.

Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de

Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo.

Os dias que seguiram-se à libertação foram cheios de realizações. O príncipe revelava-se ainda

mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir triunfante no

caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de conhecer o cetro que estava

sendo moldado.

Num momento de descuido, Samael, que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que seu

coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez desencadear nova

tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça lhe sobreveio no momento em que

o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde, no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.

--------******--------

De sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a, qual noiva

adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a formular planos de conquista. Já

podia sentir-se exaltado sobre o seu trono, tendo nas mãos o cetro precioso. Todos o aclamariam

como o libertador da opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer.

Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista.

Samael decidiu agir subtilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho um

empecilho à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade, revelando

interesse pelo crescimento da felicidade de todos.

Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das

Kevod(glória)s do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade.

Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o como

um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que, em meio àquela atmosfera

de júbilo e gratidão, uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras da qual muitos poderiam

cair por descuido.

Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver

exercido naqueles seis anos, prestes a findarem, uma missão de prova. Em sua lógica, contudo,

procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima

daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar

abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho seria um entrave à concretização da

verdadeira liberdade.

--------*****--------

As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de muitos

em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos seria selado. Um

terço dos habitantes, seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora, em completo desprezo às leis e

ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados.

Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos para uma

reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições.

Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande

importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a

prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e Kevod(glória) se extinguiriam, dando lugar

ao caos.

Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo de salvar

aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz cheia de bondade,

ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no caminho da paz. Suas palavras a todos

emocionou. Até mesmo Samael ficou a princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo

arrependimento. Desta maneira, o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o

pergaminho, endureceu-se em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não

a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano.

----------******----------

Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para uma reunião

secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom, que fica fora dos muros

de Salém.

Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, começou a falar-lhes de seus

planos de vingança e traição:

- Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir de hoje, vinte

e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como rei em lugar de

Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.

Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações sobre a

maneira de agirem a partir daquela data:

- Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que chegue

o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação. À meia-noite,

furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, juntos, fugiremos para o

profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. Ali nos armaremos, e marcharemos

contra Salém, subjugando nossos inimigos. Acabaremos então com o pergaminho e com todos

aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo.

-------*****--------

Sobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz. Samael, fingindo fidelidade, estava sempre

ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas composições que exaltavam as leis do

pergaminho. Os seguidores de Samael, da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que

expressavam a grandeza dos princípios aos quais repugnavam.

Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação, ensaiava com os

súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente para aquela ocasião. Com

felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar Salém cada vez mais honrada por sua beleza e

harmonia.

Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria o golpe da

traição.

Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que o cetro

ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe todo o segredo: a

sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro. Contemplando-o, o astuto Samael

animou-se ao ver estampado em seu bojo o selo do domínio. Compreendeu que aquele que o

possuísse teria nas mãos o reino de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele

instrumento precioso.

-------******--------

O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota.

Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do príncipe,

ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação. Dirigindo-se para sua mansão, saudou as

trevas com um sorriso maldoso. Como ansiara por aquela noite!

Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória, revisavam sob a luz de candeias os

adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se que seriam aprovados na manhã

seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus últimos preparativos para desferirem o golpe.

À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores abandonaram

silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom, onde esperariam pelo seu

novo rei.

Samael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem ser notado,

indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal, dirigindo-se silentemente à sala

que guardava o precioso cetro.

Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo,

dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo:

- Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.

Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:

- Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o

alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.

O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono de lindos

sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os momentos festivos da

coroação. Enquanto isso, o rebelde, com as mãos trêmulas, apossava-se do cetro. Naquele momento,

teve a idéia de levar somente o alaúde, deixando o estojo em seu devido lugar. Com um sorriso cheio

de maldade, imaginou o momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio.

Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus seguidores o

aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando:

- Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a terra e o

mar. A minha força está nas trevas, pois através delas o conquistei.

Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às

cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.

--------*****-------

O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur). Despertando de seu

sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação. Vestes

especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas, foram-lhe preparadas. Depois

de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro de seus súditos, na extremidade sul de

Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte

Sião.

Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento.

Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul, levando

consigo seus instrumentos musicais.

Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos. Esse

mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava a face mais querida de seu amigo Samael.

Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca

infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael. Sua voz, contudo,

não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.

Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à mente

todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em sua Kevod(glória), através de

conselhos sábios. Recordou aqueles dias que seguiram à sua recuperação. Como se alegrara com a

certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! Levando-o a pressentir a tragédia, vieram-lhe à

lembrança as indagações de Samael sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade. A

memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite, deu-lhe a

certeza de que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de traição, prostrou-se em

pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem dedicara tanto amor.

Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo.

Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver a Salém sua

Kevod(glória) e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos do rebelde.

Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis.

Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe guiou-os em

marcha triunfal rumo ao palácio.

--------*****----------

Ao aproximarem-se do monte Sião, galgaram os alvíssimos degraus da escadaria, sendo

seguidos pela multidão exultante. Doía-lhe na alma a expectativa de ver morrer nos lábios dos fiéis,

naquela manhã, o seu alegre canto, devido ao golpe da traição.

Encontravam-se agora no interior do palácio, diante do magnífico trono que esperava pelo

jovem rei. Na base do trono, jazia aberto, em meio a um arranjo de flores, o pergaminho das leis.

Junto dele podia-se ver a linda coroa, feita de ouro e pedras preciosas, bem como o estojo daquele

cetro que simbolizava toda a harmonia de Salém.

Os súditos estavam felizes, pois sabiam que seriam considerados dignos de herdar aquele reino

de paz. Aguardavam agora o momento da coroação, quando o seu novo rei os regeria de seu trono

com seu cetro precioso, num cântico triunfal.

Em meio aos aplausos das hostes vitoriosas, Melquisedeque dirigiu-se a seu pai, que o recebeu

com um carinhoso abraço. O momento era deveras solene. As hostes silenciaram-se na expectativa da

coroação. O estojo seria aberto e todos testemunhariam a exaltação do querido príncipe.

Com o coração pulsando forte pela alegria, Adonias curvou-se sobre o estojo, abrindo-o

cuidadosamente. Ao encontrá-lo vazio, a alegria de seu semblante deu lugar a uma expressão de

indizível preocupação e tristeza, pois naquele cetro selara o destino daquele reino de paz.

Ao ver seu pai e todos os súditos aflitos pela ausência do cetro e de tantos amigos que deveriam

estar com eles naquele momento, Melquisedeque consolou-os com a promessa de que buscaria o

cetro. Inconscientes dos riscos e perigos que aguardavam o príncipe em seu caminho, os súditos

despediram-se dele, vendo-o partir apressadamente.

--------*****--------

O alvorecer daquele dia que seria o da coroação alcançou os rebeldes distantes de Salém, a

caminho das cidades da planície. Naquele manhã, Samael encheu-se de fúria ao ver que o precioso

alaúde estava adornado com inscrições das leis contidas no pergaminho. Tomando uma pedra

pontuda, passou a danificar o cetro, raspando-lhe todas as palavras de amor e justiça. Suas

harmoniosas cordas estavam agora desafinadas sobre o seu bojo ferido, mas continuava sendo

precioso, pois sobre ele jazia selado o domínio de Salém. Possuí-lo, significava ser dono de todo o

poder.

Ao chegarem à altura em que o caminho bifurcava-se, Samael ordenou a seus seguidores que

prosseguissem rumo a Gomorra, enquanto ele iria até Sodoma, onde permaneceria por dois dias,

juntando-se depois a eles.

Esperou pela noite para entrar em Sodoma. Quando ali entrou, caminhou pelas ruas estreitas

sem ser notado, até encontrar uma casa isolada sobre uma elevação. Fazendo do cetro sua arma,

invadiu a casa matando seus moradores, enquanto dormiam. Apossou-se dessa maneira daquela

residência onde, solitário, maquinaria seus planos para a tomada de Salém.

--------*****---------

O entardecer daquele dia que seria o da coroação alcançou o filho de Adonias a caminhar pelo

pedregoso caminho rumo ao vale. Seus olhos carregados de tristeza e anseio voltam-se para o solo,

em busca dos rastros dos rebeldes. A lembrança da ingratidão daqueles a quem tanto amava o fez

chorar. Suas lágrimas, refletindo os últimos lampejos daquele sol poente, assemelham-se a gotas de

sangue jorrando de um coração ferido. Ele chorava não por causa dos perigos que lhe sobreviriam

naquela fria noite, mas pela infeliz sorte daqueles que haviam trocado a paz de Salém pela violência

daquelas cidades da planície.

O seu único consolo era a lembrança daqueles que, apesar de todas as tentações, haviam

permanecido fiéis. A eles prometera devolver o cetro, e isto o faria apesar de qualquer sacrifício.

--------*****-------

Depois de uma longa noite de insônia em que o príncipe ficou recostado ao lado do caminho,

raiou a luz de um dia que seria decisivo.

Ao aproximar-se de Sodoma naquela manhã, o pensamento de estar tão próximo do cetro de

sua amada Salém fez com que se esquecesse de toda a fadiga, abreviando seus passos rumo ao

desafio.

Ao abeirar-se do grande portão da cidade, ficou tomado por um temor, ao ouvir ruídos

espantosos de desarmonia, que traduziam o orgulho, o egoísmo e a cobiça que ali dominavam todos

os corações, fazendo-os explodir na orgia de uma maldade sem fim.

Seria um grande risco expor-se à violência gratuita daquela cidade. Esse pensamento o fez

deter-se a um passo do portal, onde estremecido curvou a fronte em indizível luta íntima. Era tentado

a recuar, mas lutava com todas as forças de sua alma contra esse pensamento de fracasso.

Pensando na triste sorte de Salém, cujo domínio estava sendo pisado no interior daquela cruel

Sodoma, Melquisedeque tomou uma firme decisão: como um destemido guerreiro haveria de

avançar, e, mesmo que tivesse de enfrentar o acúmulo de todos os perigos, prosseguiria, até erguer

em suas mãos vitoriosas o cetro amado.

Resoluto e esperançoso, transpôs o portão de Sodoma, mergulhando naquele mundo estranho.

Tudo ali era o oposto de Salém, começando pelas pedras ásperas e sujas de suas construções. Sodoma

era um reino de trevas.

A presença contrastante do príncipe foi logo notada por muitos que, em tumulto, o cercaram. A

pureza de caráter expressa em sua meiga face e o esplendor de suas vestes encheram-nos de espanto,

e recuaram como que vencidos por uma força invisível. Dominados pela fúria, passaram a perseguilo

à distância, decididos a fazê-lo recuar. Jogavam-lhe pedras e lama tentando macular-lhe as vestes,

mas não o atingiam, enquanto ele avançava em sua ansiosa busca. Desistiram finalmente de persegui-lo,

ao entardecer.

-------*****-------

O filho de Adonias percorrera todas as ruas e becos à procura do precioso cetro, mas em vão.

Ao ver tombar no horizonte o sol, anunciando a chegada de mais uma escura e fria noite, seu coração

ficou opresso por uma grande agonia. Ali, naquele último beco, quase vencido pela exaustão e pelo

desespero, inclinou a fronte, desfazendo-se em pranto. Seus lábios pronunciaram em meio aos

soluços as seguintes palavras:

- Salém, Salém, você não pode perecer! O seu cetro precisa ser redimido das garras da

rebeldia! Mas quando e onde vou encontrá-lo?! Já não restam forças em mim e a esperança de

redimi-lo antes da noite me abandona!

O príncipe, em sua suprema angústia, não percebia que outro gemido de dor, procedente de

cordas arrebentadas de um alaúde humilhado, fazia-se ouvir naquele entardecer.

Subitamente, o fraco gemido penetrou seus ouvidos, reanimando-o com a certeza de que o

grande momento da redenção havia chegado. Enxugando as lágrimas, reuniu as últimas forças

correndo em direção a uma pequena casa situada sobre um monte, de onde parecia vir o som.

Ao dirigir-se à porta entreaberta, deteve-se ao contemplar uma cena chocante, de humilhante

escravidão: Samael, envolvido por um manto sujo, castigava o cetro de Salém. Tanto o rapaz quanto

o cetro achavam-se tão desfigurados, que não restavam neles quase nenhum traço da Kevod(glória) perdida.

Aquele cetro, contudo, mesmo arrasado como estava, era muito precioso, pois nele jazia o selo do

domínio de Salém.

A contemplação daquele que fora seu maior amigo e daquele cetro idealizado como símbolo de

toda a harmonia, em tão trágica condição, comoveu profundamente o príncipe, fazendo-o chorar em

alta voz. Somente então o súdito rebelde percebeu sua presença indesejada. Estremecido, levantou-se,

e, cheio de ira perguntou-lhe:

- O que o trouxe a Sodoma?

Apontando para o cetro danificado, Melquisedeque exclamou:

- A Kevod(glória) de Salém está destruída!!!

Com uma gargalhada, Samael zombou de sua tristeza, dizendo:

- Agora eu sou o rei de Salém. Vocês que são fiéis ao pergaminho, tornar-se-ão meus escravos.

Sem se importar com as palavras de afronta de Samael, o príncipe, movido por uma infinita

angústia, disse-lhe:

- Samael, Salém está ferida por sua traição. Por que você trocou o seu lar de justiça e amor

por esse vale de injustiça, ódio e morte?! Agora, se não deseja retornar à Salém arrependido,

devolva-lhe o cetro. Foi para redimi-lo que, a despeito de todos os perigos, desci a esse vale hostil.

Conhecendo o propósito do príncipe, o rebelde encheu-se de raiva e, cerrando os punhos, disse-lhe

:

-Eu o odeio Melquisedeque!

Tendo dito isto, arremessou o cetro ao chão, e pisando-o acrescentou:

- Tenho vontade de fazer o mesmo com você.

Diante dessa afronta, o príncipe não sentiu nenhum temor, mas compaixão. Transportando-se

ao feliz passado, lembrava-se dos momentos felizes em que tinha sempre ao seu lado a Samael. Ele

era um jovem puro e humilde de coração. Por que permitira ser escravizado pela ilusão do orgulho e

do egoísmo?! Quão doloroso era ver aquele jovem que, por sua beleza e simpatia, havia sido honrado

acima de todos os súditos, agora arruinado pela cobiça! Não fora o sonho do príncipe ter junto ao seu

trono glorificado, aquele que lhe era o mais precioso amigo?! Essa tragédia feria-lhe a alma.

Contudo, a triste condição do cetro o atingia ainda mais, pois ele fora feito como o símbolo de toda a

harmonia, e estava sendo desfeito sob os pés da ingratidão.

Surpreso por não ver nos olhos de Melquisedeque nenhuma expressão de temor, porém de

piedade, Samael sentiu-se frustrado em suas afrontas que visavam amedrontá-lo, levando-o desistir

de sua missão.

Diante da postura digna do príncipe, que em silente dor o contemplava, sentiu-se

envergonhado. Essa fraqueza, contudo, foi banida pelo orgulho que dominava o seu coração.

Começou então a planejar algo terrível, para humilhar e ferir o príncipe, fazendo-o sofrer ainda mais.

Com escárnio disse-lhe:

- O cetro de Salém poderá ser seu, se você conseguir pagar-me o preço de seu resgate.

Com um brilho nos olhos, o príncipe perguntou-lhe:

- Qual é o preço?

Samael, com um sorriso maldoso, respondeu-lhe pausadamente:

- O preço não é ouro nem prata, mas dor e sangue. Você deverá despir-se completamente de

suas vestes, deitando-se ao chão. Deverá suportar nessa condição, espancamentos, até que o sol se

ponha. Se você estiver disposto a submeter-me, sem reagir, o cetro será inteiramente seu.

Estremecido ante tão cruel proposta, o filho de Adonias olhou para o sol que pairava distante

sobre uma nuvem. Passou a travar em seu coração uma luta intensa. A princípio, o horror do

sacrifício quase o dominou, levando-o recuar, mas o pensamento de ver Salém escravizada pela

rebeldia, levou-o finalmente à decisão de pagar o preço do resgate, entregando-se ao humilhante

sofrimento.

--------******---------

Tendo tomado a firme decisão de resgatar o cetro, o príncipe tirou as vestes, colocando-as

sobre uma pedra. Deitou-se em seguida naquele solo frio, com a fronte voltada para o poente.

Impiedosamente, Samael começou a espancá-lo, fazendo uso do próprio cetro como

instrumento de tortura. Gemendo pela dor dos golpes que o faziam sangrar, o príncipe mantinha o

olhar fixo no sol que parecia deter-se sobre a nuvem. Atordoado pela dor, contemplou finalmente o

sol prestes a se pôr. Alentado pela vitória que se aproximava, murmurou baixinho:

- Salém, Salém, daqui a pouco terei em meus braços o teu cetro precioso que, em minhas mãos,

tornar-se-á num instrumento de justiça e paz.

Ouvindo a promessa do príncipe feita por entre gemidos, Samael bradou-lhe com fúria:

- O seu sofrimento não trará nenhum alvorecer para Salém, pois suas mãos jamais serão

capazes de tocar no cetro.

Depois de fazer essa afronta, Samael apossou-se de uma pedra pontuda, preparando-se para

desferir os últimos golpes.

Enquanto pensava sobre a feliz vitória de Salém, Melquisedeque sentiu seu braço direito ser

comprimido pelos pés de Samael. Seguiu a esse rude gesto um golpe que o fez contorcer-se em

agonia. Sua mão fora vazada cruelmente, passando a jorrar abundante sangue da ferida aberta. Essa

mesma violência foi descarregada logo depois sobre sua mão esquerda.

Não suportando a agonia causada por esses derradeiros golpes, o filho de Adonias,

ensangüentado, mergulhou nas trevas de um profundo desmaio.

-------*****-------

Ao cessar de golpear o príncipe, o súdito rebelde ficou possuído por um estranho horror, ao

contemplar na face daquele que somente lhe fizera o bem, o torpor da morte. Procurava não recordar

o passado, mas, irresistente, sentia ser arrastado aos dias de sua feliz inocência em Salém. Revestido

de ricas vestes estava sempre ao lado do príncipe que, com dedicação, ensinava-lhe a cada dia suas

canções falando de paz.

Nas indesejadas lembranças pelas quais era arrastado, reviveu seus primeiros passos no

caminho do orgulho e do egoísmo. Lembrou-se dos incessantes conselhos e rogos daquele que fora

seu melhor amigo, para que desistisse daquele caminho que poderia conduzi-lo à infelicidade.

Depois de ser arrastado em lembranças por todo aquele passado de felicidade destruída por sua

culpa, Samael teve consciência de sua ingratidão. Horrorizado pelo que fizera, curvou-se sobre o

corpo ensangüentado de Melquisedeque, e desesperou-se ao vê-lo sem vida. Não suportando o peso

da grande culpa, deixou às pressas aquele lugar, desejando ocultar-se distante, sob as trevas da fria

noite.

------*****------

Depois de um profundo desmaio, o príncipe começou a voltar à consciência. Em delírios que o

transportavam ao seio de sua amada Salém, ele revivia momentos vividos e sonhados. Com alegria

contemplava a face de seu maior amigo, para quem estendeu a mão com um sorriso. Mas seu gesto

foi frustrado por uma profunda dor. Em meio aos aplausos dos súditos vitoriosos, recebe de seu pai o

cetro, mas, ao tocá-lo, sente uma irresistível dor em suas mãos.

Com esses sonhos frustrados pela dor, Melquisedeque despertou para a realidade. Estava nu,

ferido e solitário, em um lugar perigoso, longe do abrigo e carinho de Salém. Mais doloroso era

pensar que tudo aquilo era a retribuição de alguém que fora o alvo principal de todas as dádivas de

seu amor.

O príncipe, sem poder mover-se, considerando a grande traição, passou a chorar sem consolo.

Lamentava não por sua dor, mas pela perdição daqueles que haviam trocado o carinho e a justiça de

Salém pelo desprezo e ódio que os reduziriam finalmente a cinzas sobre aquele vale condenado.

Através das lágrimas, o príncipe contemplava o céu que, semelhante a um manto tinto de

sangue, estendia-se banhado na luz do sol poente. Lembrou-se então do alaúde pelo qual pagara tão

alto preço. Onde estaria ele?

Em sua desesperada fuga, Samael deixara o cetro abandonado junto ao corpo ferido de

Melquisedeque. Quando ele o viu, esqueceu-se de toda a dor, e alcançou-o com suas mãos feridas.

Acariciando-lhe o bojo arruinado, disse-lhe com um sorriso:

- Você é meu novamente. Eu o comprei com o meu sangue.

--------******---------

Samael que, dominado pelo estranho horror, fugira após cometer o horrível crime, deteve-se a

um passo do portão de Sodoma. Ali impulsionado pelo orgulho, arrependeu-se com indignação de

sua fraqueza. Por que fugira depois de conquistar tão grande vitória? Não era seu plano destruir o

reino de Salém, para estabelecer seu próprio reino? Lembrando-se do cetro, decidiu retornar para

tomá-lo. Por que o deixara abandonado junto ao cadáver daquele odiado príncipe?

Reunindo suas poucas forças, Melquisedeque dirigiu-se tropegamente ao lugar em que deixara

suas vestes.

Depois de vestir-se, tendo junto ao peito o cetro amado, o filho de Adonias, com profunda

emoção, fez um juramento antes de deixar aquele lugar de seu sofrimento. Acariciando o cetro, disselhe:

- Meu querido cetro, você foi criado como um emblema da harmonia que procede da justiça e

do amor. Toda a Kevod(glória) de Salém repousava sobre você quando a rebeldia em sua ingratidão

escravizou-o, arrastando-o para este vale hostil. Aqui você foi ferido e humilhado, vindo a tornar-se

um instrumento de impiedade nas mãos do tirano. Eu, porém, o redimi com o meu sangue. Agora

nossas feridas serão restauradas, e em breve seremos entronizados em meio aos louvores de uma

Salém vitoriosa. Quando esse sonho se concretizar, testemunharemos juntos o fim daqueles que se

levantaram contra nós para nos ferir. Samael e seus seguidores serão devorados pelo fogo que

reduzirá a cinzas Sodoma e Gomorra.

Concluindo seu solene juramento, o jovem príncipe, já oculto pelas trevas da noite, deixou

aquela colina, e sobre ela as marcas de seu sofrimento.

--------******--------

Desde que o filho do rei partira, prometendo retornar com o cetro, Salém vivia momentos de

indizível anseio. Em pranto, o rei e os súditos remanescentes lembravam-se de todo aquele feliz

passado desfeito pela ingratidão dos rebeldes. O que mais lhes torturava era a ausência do príncipe e

do cetro, sem os quais todo o brilho daquele reino de paz se ofuscaria.

Desejando consolar o coração de seus súditos, Melquisedeque avançava em meio à noite rumo

aos montes que cercavam Salém. Ainda que enfraquecido e ferido, prosseguia em sua marcha

ascendente, esperando alcançar sua pátria pela manhã.

Aquela longa e escura noite foi finalmente vencida pelos raios do alvorecer. Em Salém a

esperança em rever Melquisedeque com o seu cetro estava quase banida quando, ao olharem para o

Monte das Oliveiras, viram-no descendo pelo caminho do Getsêmani. Quando o encontraram no

profundo vale de Cedrom, ficaram assustados com sua aparência: sua face estava pálida e seu manto

encharcado de sangue. Mesmo assim, ele sorria expressando grande alegria.

Ao perguntarem-no sobre o porquê daquelas marcas de sangue, Melquisedeque retirou de sob o

manto suas mãos feridas, revelando-lhes entre elas o cetro redimido.

Depois de contar-lhes os passos que o levaram ao resgate do cetro, os súditos, emudecidos,

prostraram-se reverentes aos seus pés, aclamando-o como seu redentor e rei.

Em meio aos louvores das hostes redimidas, o príncipe foi introduzido no palácio real, onde,

sob os cuidados de seu amoroso pai, deveria restabelecer-se de seu sofrimento. O cetro desfigurado,

agora mais precioso, seria também restaurado, devendo tornar-se mais belo que antes.

O dia da coroação foi fixado para o próximo Yom Kipur. Naquele dia, Melquisedeque selaria

com o cetro restaurado o triunfo de todos os fiéis, bem como a condenação dos rebeldes.

--------*****-------

Poucos instantes após a saída de Melquisedeque, Samael chegara ao local onde o deixara

aparentemente sem vida, ao lado do alaúde. Sem entender aquele misterioso desaparecimento, ele

prosseguiu para Gomorra, onde seus seguidores o esperavam. Ao vê-los, proclamou sua “vitória”

sobre o odiado príncipe e sobre o cetro, os quais massacrara em Sodoma, não restando aos

seguidores do pergaminho nenhuma esperança.

Suas palavras agradaram a turba rebelde, que passou a comemorar a “conquista”, entregando-se

à orgia. Zombavam agora da justiça e do amor, exaltando a Samael como rei vitorioso.

Obteriam agora armas, com o propósito de avançarem sobre Salém, desferindo-lhe o último

golpe. Juntaram-se a eles, em seu maléfico propósito, muitos criminosos que foram recebidos como

mestres no manejo de arcos e flechas.

Em sua loucura, Samael ordenou o banimento de todo calendário, pois em seu reino de

“liberdade” não estariam sujeitos a nenhum cômputo de tempo. As leis da moralidade foram também

banidas, surgindo com isso um completo caos. Essa desordem revelou-se de maneira mais patente no

barulho estridente e cacofônico, ao qual proclamaram como a nova música.

Dominados pelo egoísmo, Samael e seus seguidores alimentavam-se de ilusões, inconscientes

de que seus dias estavam contados. Os frutos da rebelião não tardariam a atrair sobre eles o fogo da

destruição.

Dividindo seus seguidores em pequenos grupos, Samael passou a comandá-los em atos

violentos que aterrorizavam os moradores das planícies. Por esse tempo, eles escondiam-se nas

cavernas situadas próximas ao mar salgado.

O respeito e o medo dos guerrilheiros de Samael levaram finalmente os reis de quatro cidades a

procurarem-no, propondo alianças de paz. Eram eles: Bara, rei de Sodoma; Bersa, rei de Gomorra;

Senaab, rei de Adama; Semeber, rei de Seboim, e Segor, o rei de Bela. Por essa época, esses reis

pagavam tributos a Cordolaomor, rei de Elam, que, acompanhado pelos exércitos de quatro outras

cidades, os haviam subjugado no vale de Sidim junto ao mar salgado.

Fortalecido pelas alianças, Samael tornou-se mais ousado em suas investidas, levando o terror e

a destruição aos territórios de cidades distantes. Os exércitos de Cordolaomor e seus aliados que

retornavam nesses dias de outras conquistas, enfurecidos pelas provocações de Samael, marcharam

contra os quatro reis, vencendo-os novamente no vale de Sidim. Foi nessa ocasião que levaram

cativos os habitantes de Sodoma, entre os quais encontrava-se o meu sobrinho Ló.

Acovardados diante do furor dos cinco reis, Samael e seus seguidores esconderam-se em suas

cavernas, ao norte do mar salgado.

---------******---------

Os doze meses contados a partir do grande sacrifício estavam prestes a terminar. O cetro,

totalmente restaurado, resplandecia em seu estojo, enquanto o príncipe, igualmente restabelecido das

feridas causadas pela rebeldia, alegrava-se ao ver chegar o Yom Kipur de sua coroação. Enquanto

isso, ele compunha lindas canções que expressavam o seu amor por Salém.

Naqueles doze meses, a cidade da paz tornara-se mais bela, sendo adornada qual noiva para o

grandioso dia da coroação.

 

A uma semana para o Yom Kipur, Samael, totalmente inconsciente de que o dia de seu

julgamento se aproximava, reuniu os seus seguidores, anunciando-lhes que a próxima missão seria a

conquista de Salém. Antes de avançarem, contudo, ele subiria sozinho para verificar os pontos

vulneráveis da cidade.

Depois de ser aplaudido pela turba, Samael partiu em sua missão de reconhecimento. Enquanto

avançava sozinho, procurava não se lembrar daqueles momentos que lhe trouxeram terror pela culpa,

mas, dominado por uma força superior, foi arrastado em suas lembranças para aquele monte da cruel

tortura.

Todo o seu passado começou a vir-lhe à lembrança, como um peso esmagador.

Quando despertou de suas lembranças, das quais não conseguiu fugir, já era noite. A escuridão

que o envolvia pareceu-lhe o prenúncio de um triste fim. Esse desânimo, contudo, procurou bani-lo

com a lembrança do exército que o esperava, pronto para cumprir suas ordens, na conquista de

Salém, onde não haveria lembranças daquele pergaminho.

O alvorecer o alcançou próximo de Salém. Ao avistar o monte das Oliveiras, veio-lhe à

lembrança a última vez que o transpôs, deixando para trás a cidade vencida. Quantas noites haviam

passado desde então? Ele perdera a noção de tempo, não sabendo que justamente doze meses haviam

se passado. Não podia imaginar que raiava naquela manhã o Yom Kipur, o dia de seu julgamento.

Ao chegar ao topo do monte das Oliveiras naquela manhã, Samael surpreendeu-se ao ver que a

cidade tornara-se mais bonita que outrora. Toda ela estava adornada de ramos e flores, como uma

donzela à espera de seu noivo. Contudo, Salém estava abandonada, não havendo nenhum sinal de

vida em todas as suas mansões. Isto o fez concluir que os golpes, que haviam aniquilado o príncipe e

o cetro, trouxeram como conseqüência todo aquele abandono. Ele não sabia, contudo, que naquele

momento todos os remanescentes daquele reino, encontravam-se ocultos no grande salão do palácio,

aguardando pelo momento mais glorioso da coroação de Melquisedeque.

Imaginando-se exaltado sobre o trono abandonado, tendo a seus pés os exércitos vitoriosos, o

rebelde penetrou na cidade, dirigindo-se apressadamente ao palácio. Ao transpor o portal principal

que dava entrada ao salão principal, ficou surpreso ao ver ali reunida uma multidão de fiéis. Sobre

um áureo tablado, enfeitado de flores talhadas em pedras preciosas, encontra-se o trono vazio. Na

base do trono estava o pergaminho das leis, uma coroa de ouro cheia de pedras preciosas e o estojo

que deixara vazio naquela noite de traição. Sem entender o enigma, Samael escondeu-se por trás de

uma coluna, temendo ser reconhecido, e ficou observando.

Os súditos, com expressão de feliz expectativa, olhavam para o trono vazio. Onde encontravam

eles motivos para toda essa alegria, se haviam perdido o seu rei juntamente com o cetro? Samael

questionava sobre esse mistério, quando Adonias, aplaudido pelos súditos, encaminhou-se para junto

do trono. Com voz cheia de emoção pela vitória, o fundador de Salém anunciou que havia chegado o

momento tão sonhado da coroação. Um brado de triunfo ecoou pelos ares quando, anunciado pelo

seu pai, entrou o amado príncipe encaminhando-se em direção ao trono. Ao vê-lo coberto por um

manto de Kevod(glória), Samael ficou possuído por um terrível pavor, e procurou fugir. Descobriu, contudo,

que todos os portais do grande salão estavam fechados por fora.

Teve início a cerimônia da coroação. Era um momento deveras solene. Adonias, num gesto

reverente, tomou a rica coroa, colocando-a na fronte de seu filho. Prostrando-se depois sobre o estojo,

abriu-o cuidadosamente, tirando dele o alaúde restaurado, cuja beleza e brilho eram muito superiores

à sua primeira condição, ao sair das mãos de Adonias o seu luthier. Assentando-se no trono em meio

às aclamações dos súditos, Melquisedeque passou a dedilhar o cetro, tirando dele acordes de muita

 

harmonia e paz. Todos se aquietaram para ouvirem suas novas composições que expressavam o seu

profundo amor pelo cetro e por todo aquele reino de paz.

Grande emoção invadia o coração de todos naquele momento, levando-os às lágrimas. Samael,

sem forças para reagir, sentia-se torturado por aqueles acordes que faziam reviver em sua mente suas

oportunidades perdidas, numa terrível dor para sua consciência.

Melquisedeque compusera para aquele momento especial, canções que retratavam os

momentos marcantes da história de Salém; Quando passou a cantar sobre a amizade que tinha por

Samael, sua voz embargou-se pelas lágrimas que não conseguia conter. Triste para ele era cantar

sobre a queda daquele que foi-lhe o maior amigo! Cantou então sobre o alto preço que teve de pagar

pela reconquista do cetro, que representa a honra de Salém.

Ao contemplarem aquelas mãos marcadas pelas cicatrizes, tocando com tanta maestria e

carinho o cetro restaurado, os súditos tomados por forte emoção, prostraram-se em pranto.

Ao ver nas nãos de Melquisedeque aquele alaúde que, em suas mãos fora instrumento de

tortura, Samael compreendeu, tarde demais o quanto errara, desviando-se dos conselhos do príncipe;

Quantas vezes aquelas mãos sobre as quais descarregara toda aquela violência haviam sido

estendidas num esforço de salvá-lo, e ele as havia negligenciado. Agora, era tarde demais! Tarde

demais!!!

-------*****-------

Os súditos triunfantes que, reverentes, haviam sido conduzidos a todo aquele passado de

felicidade, traição, dor e triunfo, uniram finalmente as vozes numa jubilosa proclamação:

Verdadeiros e justos são os teus princípios, ó rei de Salém. Digno és de reinar em Kevod(glória) e

majestade entre os louvores de teus fiéis, porque em teu sacrifício nos livraste das ameaças das

trevas, fazendo renascer em nosso coração a alegria do alvorecer.

Esse cântico de exaltação foi seguido pela cerimônia de confirmação de todos os fiéis em sua

vitória. O filho de Adonias, com o seu cetro redimido, passou a selar com um toque especial do cetro,

a vitória de cada um. Formou-se para tanto uma longa fila de fiéis exultantes

Os súditos confirmados, à medida em que iam recebendo o toque de aprovação do rei,

posicionavam-se ao lado direito do trono, onde permaneciam aguardando pela confirmação dos

outros.

Os olhares que, iluminados de alegria, haviam acompanhado o selamento dos últimos justos,

pousaram sobre a figura estranha de Samael que, dominado por uma força irresistível, encaminhava-se

cabisbaixo em direção do trono. Seu aspecto era horrível: seu semblante havia sido deformado

pelo mal; suas vestes estavam sujas e mal cheirosas; tudo nele repugnava, ao ponto de ninguém

reconhecê-lo.

Em meio ao espanto dos súditos, Melquisedeque ergueu-se de seu trono como que ferido por uma grande dor; De

seus lábios os súditos ouviram uma dolorosa exclamação:

- Samael, Samael!!!

A figura deplorável daquele que fora tão belo, encheu a todos de tristeza, e começaram a

prantear. Eles lamentavam por saber que o destino de Samael e de todos aqueles que o seguiram,

poderia ter sido muito diferente, se eles houvessem atendido aos rogos de amor de Adonias e de seu

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filho. Não era o plano do rei e o sonho de Melquisedeque tê-lo como o guardião do pergaminho,

sendo o segundo em honra naquele reino?

--------*****--------

Samael que, reconhecendo sua desventura, aproximara-se cabisbaixo do trono, ao presenciar

toda aquela lamentação, foi novamente iludido pelo orgulho, julgando tratar-se de uma demonstração

de fraqueza de seus inimigos. A lembrança de seu exército que fortalecido o aguardava na planície,

iludiu-o com a certeza de que seria vitorioso sobre Salém. Com esse pensamento, ergueu a fronte

marcada pelo ódio e, fitando o rei, levantou o punho cerrado e o desafiou, desdenhando de sua

autoridade, com a ameaça de tomar-lhe o trono.

Ainda que condoídos por sua perdição, os súditos de Salém não suportaram a ousada afronta

daquele enlouquecido jovem que, depois de causar tanto sofrimento, ainda era capaz de erguer-se

com tamanho desafio.

O vitorioso rei que com tanto prazer selara com o seu cetro a conquista dos fiéis, ergueu-o

dolorosamente para o selamento da triste sorte dos rebeldes. Imobilizado por uma força estranha,

Samael, sem desviar os olhos do cetro, ouviu dos lábios do rei a proclamação de seu julgamento e de

todos os seguidores: Prisioneiros de uma força invisível, ficariam retidos em suas cavernas por seis

anos, sendo depois visitados pelo fogo do juízo que os destruiria juntamente com as cidades que a

eles se aliaram.

-------******-------

Ao ir para a cama depois daquele dia de tantas emoções, o jovem rei, imerso nas lembranças

daquele passado de felicidade e dor, rolava em sua cama insone. Quando finalmente adormeceu, teve

um sonho muito significativo.

No sonho, apareceu-lhe um anjo luminoso, que saudou-o com um sorriso, dizendo-lhe que todo

o Universo acompanhava com atenção todo aquele drama que estavam vivendo, e que o mesmo

tinha um sentido prefigurativo, retratando acontecimentos passados e futuros, que envolvia todo o

vasto universo.

As palavras do anjo despertaram em Melquisedeque um grande desejo de conhecer a história

desse drama cósmico.

Conhecendo o seu anseio, o anjo arrebatou-o no sonho revelando-lhe um distante futuro.

Diante de seus olhos manifestaram-se as Kevod(glória)s de uma nova e esplêndida Salém, cujas muralhas e

mansões eram de pedras preciosas; Os portais da cidade eram de pérolas. Suas amplas avenidas

eram de ouro puro. A cidade era quadrangular e se estendia por centenas de quilômetros. Estava

dividida em dois setores distintos: Norte e Sul. Ao Sul elevavam-se incontáveis mansões, habitações

eternas de anjos e de seres humanos redimidos; Ao Norte havia um lindo paraíso ao qual o anjo

revelou ser o jardim do Éden. Ali, em ambas as margens do rio da vida, havia campos repletos de

todo tipo de vegetação, com flores e frutos em abundância. Viviam ali em perfeita harmonia, todas as

espécies de aves e animais.

No meio do paraíso podia-se ver uma montanha fulgurante, a qual o anjo afirmou ser o monte

Sião, o lugar do trono de Elohim. Era daquele monte que emanava o rio da vida, fluindo por toda a

cidade.

Quando alcançaram o topo da montanha sagrada, o rei de Salém ficou deslumbrado com o

cenário visto ao seu redor. Encontrava-se na parte mais elevada de Sião a mais linda de todas as

edificações revelado pelo anjo como o palácio de Elohim. Aquela magnífica construção era sustentada

 

por sete colunas, todas de ouro transparente, engastadas de lindas pérolas. Ao redor do palácio,

floresciam a mais exuberante vegetação: havia ali o pinheiro, o cipreste, a oliveira, a murta, a

romãzeira e a figueira, curvada ao peso de seus figos maduros.

Enquanto admirava-se ante a beleza daquele lugar, o anjo disse-lhe que a nenhum ser humano

fora dado o privilégio de ver o interior daquele palácio de Elohim. A ele seria dada esta honra, pois fora

escolhido para ser o portador das mais amplas revelações sobre o reino da luz.

Ao transporem com reverência um dos portais de pérolas, prostraram-se em adoração, enquanto

ouviam o cântico de uma multidão de serafins, que circundavam o trono, em constante louvor

Àquele que Era, que É e que Sempre Será.

Ao olhar para Aquele que estava assentado sobre o trono, Melquisedeque ficou surpreso ao

descobrir a figura de um homem. Ele estava coberto por um manto de linho fino, de uma alvura sem

igual, e tinha sobre a cabeça uma coroa formada por sete coroas sobrepostas, repletas de pedras

preciosas.

Ao olhar para as mãos que sustentavam o cetro, o filho de Adonias ficou surpreso ao descobrir

nelas cicatrizes de ferimentos, semelhantes àquelas em suas mãos. O anjo afirmou-lhe ser o Messias,

o Grande Melquisedeque, a manifestação visível de Yahweh, o Elohim Invisível.

Atraído para o cetro resplandecente, com o qual o Messias governava sobre todo o Universo, o

rei de Salém viu nele o selo do domínio, e nele escrito o nome: Israel.

Tomado por profunda emoção, Melquisedeque prostrou-se ante o Rei daquela eterna Salém, e,

revivendo ali a história de sua pequena cidade, teve desejo de conhecer o grande drama da história

universal. Conhecendo o desejo de seu coração, o anjo disse-lhe:

- Agora lhe farei conhecer a história desta gloriosa Salém. Tudo o que lhe for mostrado na

visão, você deverá registrar fielmente em um rolo. Você terá seis anos para escrevê-los. Ao fim dos

sete anos, você receberá das mãos de um ancião um vaso contendo um rolo especial, com muitas

revelações importantes, entre as quais estará a história de Salém. Você tomará esse rolo, e o

costurará ao seu, formando um único rolo. Você o devolverá juntamente com o vaso ao patriarca

para que ele o leve ao lugar que lhe mostrarei, onde ficará oculto até o fim dos dias. As revelações

desse grande rolo, consistirão na luz e no consolo que enviarei aos escolhidos por ocasião da última

semana de anos da história.

Depois de falar ao rei de Salém estas palavras, o anjo conduziu-o em visão a um infinito

passado, quando o Universo ainda não existia.

Uma história muito parecida com a de Salém passou a desdobrar-se diante de seus olhos;

porém, numa dimensão infinitamente maior, começando pela criação do reino da luz. Com admiração

contemplou a formação de bilhões de mundos e estrelas, repletos de vida e felicidade que passaram a

girar em torno da Salém Celeste, o paraíso de Elohim.

Sua atenção voltou-se depois para o mais belo de todos os querubins que, honrado pelo

Criador, passou a residir com Ele em Seu palácio. Uma eternidade de felicidade e paz parecia

embalar aquele reino, quando a mesma experiência de egoísmo e rebeldia vivida por Samael,

começou a repetir-se na vida daquele anjo amado.

Cenas de uma grande rebelião começaram a ser mostradas a Melquisedeque, envolvendo todos

os habitantes do Universo. O querubim honrado, semelhante a Samael, seduzira um terço das hostes

que, passaram a reverenciá-lo como rei.

 

Em meio às cenas daquele grande conflito, o rei de Salém testemunhou a criação do planeta

Terra, sobre a qual surgiu o homem como cetro racional daquele reino disputado.

Com agonia viu o momento em que o chefe da rebelião aproximou-se subtilmente do paraíso,

apossando-se do ser humano, depois de seduzi-lo com tentações. Ouviu então o seu brado, numa

proclamação de vitória. A partir daquele momento, o inimigo de Elohim passou a arruinar o ser

humano, apagando nele todos os traços da Kevod(glória) divina, como Samael fizera com o cetro.

A sua própria experiência, ao declarar naquela manhã aos súditos de Salém sua decisão de ir

em busca do cetro perdido, começou a repetir-se diante de Seus olhos.

Reunindo as hostes que haviam permanecido fiéis ao Seu governo, o Criador passou a revelar

um plano de resgate: Ele haveria de ir em busca do homem, e o remiria, ainda que isto lhe custasse

infinito sacrifício. Diante desta revelação, o filho de Adonias prostrou-se comovido, ao descobrir que

em sua vida tivera a honra de retratara o próprio Messias.

Todo o drama vivido pelo filho de Adonias em sua angustiante busca, até o momento de seu

suplício pela redenção do cetro, foi ganhando amplitude naquela visão que abarcava toda uma

eternidade. Diante de seus olhos desfilavam cenas de uma grande batalha que, sem trégua se

estenderia até o dia do juízo final, quando o Messias, o Grande Melquisedeque, vitorioso,

empunharia o cetro redimido, selando com ele a condenação de todos os filhos de Belial..

--------*****-------

Através das revelações recebidas do anjo, Melquisedeque tomou conhecimento do livramento

alcançado por ocasião de sua coroação, quando diante de trezentos pastores com seus vasos

incendiados, exércitos de cinco reis tombaram, saindo livres os cativos.

Conhecendo nossa intenção de subir à Salém por ocasião de Sukot, o rei fez preparativos para

uma grande festa, na qual comemoraríamos juntos a vitória sobre toda a desarmonia gerada pelo

orgulho e pelo egoísmo.

Foi por isso que ao chegarmos a Salém, ficamos surpresos com toda aquela honrada recepção.

-------******--------

Ocupar-me com o relato de todos esses acontecimentos, fez-me passar por todo este sétimo

ano, quase sem notar os seus dias, que passaram velozes. Estamos hoje às portas de um novo Rosh

Hashanah, quando os 300 pastores tocarão os chifres, convocando todos aqueles que possuem as

pérolas, para a reunião solene de Yom Kipur. Cinco dias depois seremos recebidos em Salém para a

festa de Sukot.

A certeza de que acontecimentos importantes ainda deverão ser relatados neste rolo, fez-me

reservar um espaço, no qual registrarei, dia após dia, os fatos, até a consumação desta história que

estamos vivendo.

-------******--------

Rosh Hashaná! Esse foi o dia mais feliz de minha vida, pois meus braços puderam receber o

filho da promessa. A primeira coisa que fiz, foi colocar-lhe em sua mãozinha direita a segunda

pérola que o Messias deu a Sara no dia de sua conversão; Ele a segurou com firmeza, alegrando-nos

com a certeza de que viverá para sempre ao nosso lado.

Dois dias antes do Yom Kipur, Isaque foi circuncidado, conforme a ordem do Eterno.

 

Desde que os pastores começaram a tocar seus chifres em Rosh Hashanah, todos aqueles que

possuem pérolas do vaso, deixaram suas tendas, dirigindo-se em pequenos grupos, para junto do

Carvalho de Mambré.

Ao chegar o Yom Kipur, o dia da reunião solene, meus pastores informaram-me que todos

aqueles que haviam recebido as pérolas, haviam comparecido ao encontro, não faltando nenhuma

pessoa. É maravilhoso ver a alegria estampada no semblante de toda essa multidão que anseia pela

subida à Salém. Todos trazem uma história para contar, de como foram vitoriosos sobre tantos

desafios e provações. Todos estão felizes com a expectativa da subida à Salém para a festa de Sukot.

No primeiro dia da festa de Sukot, a multidão foi subdividida em pequenos grupos de doze

pessoas, para subirmos em ordem à Salém.

Tendo sobre os ombros o vaso com o rolo, posicionei-me à frente da multidão, sendo seguido

por Sara e Isaque que vinham montados num camelo; Logo atrás vinha Ló e suas filhas; um pouco

atrás, os trezentos pastores seguidos por todos os fiéis.

Iniciávamos nossa escalada quando, acompanhado por todos os seus súditos, surgiu

Melquisedeque vindo ao nosso encontro, fazendo vibrar pelos ares o som festivo de muitos

instrumentos musicais, comemorando a grande vitória.

Depois de saudar-nos, o filho de Adonias conduziu-nos numa marcha festiva até adentrarmos

os portais de Salém, que encontra-se agora mais bonita que outrora.

Antes de iniciar o banquete, Melquisedeque coroou todos os vencedores, enquanto as hostes de

Salém faziam soar seus instrumentos, comemorando a feliz vitória..

--------******--------

Grande foi a alegria do rei de Salém quando entreguei-lhe o jarro com o manuscrito. Ao

desenrolá-lo, fiquei surpreso ao ver sua atenção voltar-se para a última parte do rolo que ainda estava

vazia. Como se estivesse lendo algo ali, ele me disse:

-Abraão, de tudo o que você escreveu , nada me comove mais do que o relato que você

registrará na última parte de seu manuscrito.

Melquisedeque mostrou-me em seguida um rolo escrito por dentro e por fora, no qual escrevera

naqueles seis anos a história do Universo, conforme revelações feitas a ele por um anjo. Tomando o

meu manuscrito, ele o costurou ao seu formando um grande rolo. Tendo feito isto, enrolou-o

cuidadosamente, colocando-o dentro do jarro.

Ao chegar o oitavo dia da festa, num ato que surpreendeu a todos, o rei enalteceu o jarro,

colocando-o sobre o seu trono. Ao ver o vaso que fora tão humilhado e rejeitado, agora glorificado

em meio aos louvores de Salém, senti uma forte emoção e chorei; Era impossível olhar para ele, sem

pensar no seu significado: era um perfeito símbolo do Messias prometido. Por intermédio dele,

muitas vidas haviam sido libertas e transformadas, começando pela minha. Sem o dom daquele vaso,

eu não teria hoje em meus braços meu querido Isaque pelo qual Sara e eu esperamos por tanto tempo.

Depois de entronizar o jarro, o filho de Adonias, chamando-me para junto do trono, passou a

honrar-me perante todos os fiéis; Tomando a caixinha de ouro na qual colocara as 144 pérolas do

dízimo, ele colocou-a em minhas mãos, afirmando ser um presente seu para Isaque. Como se não

bastasse, ele tomou o vaso que continha o valioso rolo e, colocando-o aos meus pés, disse que ele

pertencia a mim e aos meus descendentes para sempre.

 

Com o coração repleto de alegria, prostrei-me diante do rei que me oferecia tão precioso dom,

estendendo-lhe as mãos com a caixinha das pérolas. Tomando-a de minhas mãos, ele a colocou

dentro do jarro sob o rolo, reafirmando sua doação.

Ao dirigir-me ao aposento naquela noite, tendo ao meu lado Sara, Isaque e o jarro com o seu

tesouro, experimentava uma felicidade jamais sentida em toda a minha vida. Como me era difícil

pegar-me ao sono, fiquei acordado por longo tempo, imaginando o futuro de Kevod(glória) de Isaque e do

jarro, cuja mensagem de amor, justiça e paz, levaria esperança aos meus descendentes por todas as

gerações, até a vinda do Messias. Imaginando esse futuro feliz adormeci e tive um sonho no qual

muito sofri. No sonho, o Eterno apareceu-me e disse:

-Abraão, toma agora o jarro o qual tanto amas, e leva-o ao Mar Salgado, onde lhe mostrarei

uma caverna na qual você o ocultará.

Depois de dar-me esta ordem, o Eterno entregou-me uma machadinha e um manto de linho,

com o qual envolvi o vaso. Comecei então uma dolorosa jornada, levando sobre os ombros aquele

que simbolizava a concretização de todos as minhas esperanças. Quando cheguei à região norte do

mar, fui conduzido para junto da caverna que deveria ocultar o jarro. Colocando-o sobre uma pedra,

num gesto de despedida, passei a acariciá-lo, enquanto contemplava os adornos e inscrições que o

embelezavam; O pensamento de que não mais o teria comigo, enchia-me de profunda tristeza. Meus

olhos voltaram-se para a figura de Melquisedeque que inclinava-se para receber recebê-lo repleto de

jóias. Derrepente a figura do rei começou a ganhar vida e movimento, e foi crescendo até que todo o

jarro transformou-se num belo jovem que me olhava com amor. Pensei a princípio que fosse o rei de

Salém, mas olhando para suas mãos, não encontrei as cicatrizes. Ao ver que seus olhos eram tão

parecidos com os de Sara, perguntei-lhe o nome. Ele respondeu-me com um sorriso que era Isaque, o

meu filho.

Alegrava-me na presença de Isaque, quando a voz divina novamente soou-me aos ouvidos

dizendo:

- Abraão, toma agora o teu filho a quem amas, e sacrifica-o com a machadinha que eu te

dei(1)

Aterrorizado ante a ordem divina, caí aos pés de Isaque, não encontrando forças nem coragem

para realizar o terrível ato. Contudo, ele consolou-me, afirmando estar disposto a cumprir a vontade

divina. Depois de terrível luta íntima, tomei a decisão de sacrificar meu filho.

Ao erguer-me, vi que Isaque contorcia-se em grande agonia, enquanto o seu corpo tornava-se

coberto de chagas que cheiravam mal. Sentia desejo de socorrê-lo, curando-lhe as chagas, mas a voz

insistia em sua ordem, para que eu o sacrificasse. Tomei então a machadinha e a ergui sobre o seu

pescoço. Quando meus braços moviam-se para o golpe, um forte clarão nos iluminou, e senti que a

machadinha não mais estava em minhas mãos.

Ao erguer a fronte, me deparei com o peregrino que anunciara o nascimento de Isaque. Ele

estava vestido com vestes brilhantes, de linho fino, branco e puro; Seu rosto brilhava como o sol,

enquanto olhava-me com infinito amor. Abraçando-me, ele enxugou minhas lágrimas e disse:

- Abraão, agora sei que você verdadeiramente me ama, porque não me negou nem o jarro nem

o seu filho a quem você ama. Por causa desse amor, eu transformarei você no pai da fé, e muitos

povos e nações se alegrarão na luz do rolo que lhe foi dado.

Tendo dito estas palavras, o Peregrino encaminhando-se para Isaque que contorcia-se em dor,

colocando as mãos sobre sua cabeça. Esse contato fez com que todas as impurezas que

manifestavam-se em chagas purulentas no corpo de meu filho, se transferissem para o Seu corpo,

enquanto a Sua Kevod(glória) era transferida para Isaque. Fiquei possuído por um misto de alívio e pesar -

alívio por ver Isaque restaurado, mas aflito por contemplar o Messias opresso por tantas culpas. Por

entre gemidos de dor ele afirmou:

- Eu morrerei, para que Isaque e sua descendência possa ser justificada, redimida e

glorificada perante Yahweh.

Ao voltar-me para o meu filho que fora liberto, vi que seu lugar fora ocupado por doze jovens

que se chamavam: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulon,José,Benjamim,Dã, Naftalí, Gad,

Aser. Quando lhes apresentei o Peregrino sofredor, eles o menosprezaram por não verem nele

nenhuma beleza que os atraíssem. Finalmente eles o conduziram como um cordeiro e o sacrificaram,

lançando o seu corpo dentro daquela caverna.(2)

Sobrevieram logo depois as trevas de uma longa noite, na qual fomos atacados por um grande

exército que, depois de ferir-nos, arrancou-nos de nossa terra, espalhando-nos por entre as nações.

Ali, todos os que nos encontravam nos humilhavam e perseguiam, acusando-nos da morte do

Peregrino, e assim sofremos por toda a noite. Quando o dia estava quase raiando, sobreveio-nos o

maior sofrimento, pois nossos inimigos, depois de uma pequena trégua, investiram sobre nós com a

intenção de nos destruir completamente. O Eterno, contudo, bendito seja o Seu nome, teve

compaixão de nós e nos libertou, reconduzindo-nos para a Terra Prometida. Mas mesmo ali não

encontramos descanso, pois tínhamos de estar sempre atentos, defendendo-nos de muitos inimigos

que procuravam nos destruir.

Cansados desses conflitos, nos aproximamos de nossos inimigos propondo uma aliança de paz;

Quando o acordo estava prestes a se concretizar, um desentendimento envolveu-nos num conflito

ainda maior. Enquanto ouvíamos gritos de todos os lados clamando contra nós, vimos baixar as

trevas de mais uma escura noite.

Angustiado, passamos a clamar ao Eterno, dizendo: - Até quando Senhor buscaremos a paz e

não a acharemos?! Ansiamos pelo descanso que nos prometestes, mas somente encontramos o furor

de nossos inimigos! Auxilia-nos Senhor! Até quando teremos de esperar?!

Enquanto clamava em minha angústia, o Senhor veio ao meu encontro e disse-me:

- Abraão, olha para o céu e conta o número das estrelas.

Ao olhar para o céu, vi que as estrelas moviam-se formando pequenos grupos de doze. Esses grupos por sua vez,

juntavam-se de doze em doze, em formações perfeitas de 144 estrelas. Finalmente todo o céu cobriu-se por esses

agrupamentos estelares: eram ao todo 40 grupos, somando um total de 5760 estrelas.

Enquanto imaginava o que poderia significar o número daquelas estrelas, vi surgir no meio delas outra especial

que foi aumentando em brilho e grandeza. A sua luz crescente, deu-me a certeza de que aquela noite seria finalmente

vencida, e alcançaríamos um alvorecer de paz.

A estrela de número 5761 continuou aumentando até que tornou-se do tamanho da Lua, e nela pude ler em letras

muito brilhantes a palavra: Sábado, e abaixo, o nome de Israel.

Quando os raios que emanavam das letras sagradas começaram a penetrar as trevas da noite, atraindo a atenção de

muitos sobre a Terra, ventos fortes vindos do Norte começaram a soprar, trazendo pesadas e negras nuvens em direção da

estrela. Formou-se um cerco de trevas, enquanto camadas sobre camadas de nuvens foram comprimindo a estrela que,

sem forças para resistir, foi-se apagando até que mergulhou em completa escuridão.

Com o coração aflito, continuei olhando na direção da estrela oculta, sem perder a esperança de que ela seria

liberta das garras daquelas nuvens ameaçadoras.

Em diferentes partes do céu escurecido pelas nuvens, começaram a surgir pontinhos de luz que foram se

agrupando de sete em sete, até alcançarem o total de 483 estrelas. Sem temerem as ameaças das nuvens escuras, elas

 

foram-se aproximando mais e mais até formarem um anel de luz em torno da estrela opressa. O brilho dessas pequenas

estrelas fez renascer a esperança de um livramento, e a estrela cativa emitiu por entre as nuvens um tênue raio de

confiança.

Ao estreitarem-se cada vez mais em torno da estrela escurecida, as 483 estrelas se fundiram finalmente a ela,

comunicando-lhe sua luz. Nesse momento, um grande clarão tomou conta do céu, e todas as nuvens foram desfeitas,

perdendo o seu domínio. A junção de todas essas estrelas, deu origem a uma estrela de incomensurável esplendor,

semelhante ao Sol. Em forma de uma coroa que pairava sobre ela, podia-se ler: Yom Kipur - É chegado o Último Jubileu.

Assim que surgiu no céu a estrela do Último Jubileu, veio ao nosso encontro um pequeno beduíno, carregando

sobre os ombros um pesado jarro. Sua face estava marcada por uma grande luta, mas refletia a luz da estrela que lhe dava

consolo e indizível alegria. Em seu jarro estava escrito em grandes letras o seguinte: “Caiu! Caiu a grande Babilônia! Sai

dela povo meu! (3)

Aproximando-se dos doze filhos de Israel, o pequeno beduíno saudou-os com um sorriso, e disse-lhes que viera de

muito longe, trazendo-lhes uma mensagem e um presente da parte do Rei de Salém. Curiosos, mas ao mesmo tempo

desconfiados, eles assentaram-se e ficaram esperando, enquanto o beduíno enfiava suas mãos no jarro. A primeira coisa

que ele tirou dali foi um pequeno manuscrito com uma mensagem intitulada: O Último Jubileu: Um Texto Sobre

Melquisedeque. Os doze olharam entre si surpresos, pois o título da carta estava relacionado com as palavras escritas na

última estrela. Ansiosos por conhecerem o conteúdo do manuscrito, eles o tomaram e passaram a ler as seguintes

palavras:

“Falarei sobre o Ano Jubileu, que encontra-se em Levítico 25:13. Nós lemos: Neste ano

jubileu, tornará cada um à sua possessão”. Esta é uma parte do mandamento que cumprir-se-á nos

últimos dias, no Período da Remissão, quando aqueles que estão em cativeiro serão libertos,

conforme as palavras de Isaias: “O Senhor enviou-me para proclamar libertação aos cativos.”(3)

O Libertador é o Messias, que foi prefigurado por Melquisedeque, rei de Salém. Ele era e

sacerdote do Elohim Altíssimo, e pronunciou uma benção sobre o nosso pai Abraão.

Como Sumo Sacerdote, o Messias que é nosso eterno Melquisedeque, receberá por herança o

domínio sobre todas as coisas, e Abraão tomará parte nesta herança. Não somente Abraão, como

também sua descendência terá esse privilégio, quando ela se unir a Elohim numa eterna aliança.

Naquele tempo, o próprio Senhor será a herança e patrimônio de Seu povo.

No último jubileu, Elohim restaurará o Seu povo, e eles retornarão, cada um, ao seu patrimônio.

A libertação referida na Lei do Jubileu deve ser entendida com o sentido de remissão de suas culpas

, e não haverá mais punição para aqueles que forem justificados. Isto ocorrerá na última semana de

uma série de setenta semanas de anos, envolvendo nove precedentes jubileus.(5)

Ao chegar o Dia do Juízo do Último Jubileu, todos aqueles que se colocam do lado da justiça,

terão suas culpas anuladas, ao passo que os injustos e maus colherão as conseqüências de tudo o

que semearam, e encontrarão o seu fim. (6)

Começará então o Ano do Favorável, do qual fala o profeta Isaias (61:2), que será marcado

pelo Favor de Elohim, pois o Rei da Justiça, Aquele que foi prefigurado por Melquisedeque, receberá

o Seu domínio. Ele assentar-se-á entre as hostes santas no Céu, e executará várias sentenças de

julgamentos, como foi predito por Davi: “Elohim assentou-se em concílio entre os seres celestes, para

realizar julgamento”.(7) Por meio desse julgamento, Israel será absolvido de suas culpas, e

retornará ao seu lugar de eminência em meio aos povos. Esse retorno ocorrerá em cumprimento da

Lei do Jubileu.

Ao mesmo tempo em que a palavra “Favor” indica o triunfo dos filhos de Elohim, ela aponta

também para a destruição dos ímpios. Salmos 7: 9 e 10 faz referência a esse julgamento, dizendo:

“Elohim é o juiz dos povos. Põe fim à maldade dos ímpios e confirma o justo”. Serão desarraigados

todos os filhos de Belial, aqueles que desafiam os estatutos de Elohim, e pervertem a justiça. O futuro

Rei da Justiça, que é Melquisedeque (o Messias) executará sobre eles a justiça de Elohim,

estabelecendo ao mesmo tempo os justos. Acompanhado pelos exércitos celestes, ele dará fim aos

intentos dos ímpios, fazendo com que os filhos de Elohim fiquem em eminência.

O julgamento em questão é o mesmo Dia da Retribuição do qual fala o profeta Isaias: “Como

são belos sobre os montes os pés daquele que proclama a paz (Shalom), o mensageiro que anuncia

coisas boas, que faz ouvir a salvação; que diz a Sião: O teu Elohim agora é aclamado Rei.”(8) A

palavra paz (shalom) pode também ser lida como (shillum) que significa “retribuição”.

O mensageiro prometido se manifestará no Último Jubileu, e proclamará a sua mensagem de

paz, dizendo: “ O Senhor enviou-me para confortar todos os que choram.” (9) O conforto que ele

trará, consistirá numa revelação das sucessivas eras da história do universo, desde o princípio da

criação até o fim. Naquele tempo, os filhos de Belial se aliarão com o propósito de perverter toda a

justiça, mas serão confundidos pelos julgamentos de Elohim.

O reino de Elohim em Sião, será estabelecido mediante a aliança que Melquisedeque ( o Rei da

Justiça) fará com todos os justos , destruindo ao mesmo tempo os filhos de Belial.

O mandamento do jubileu fala também de um forte som de trombeta que repercutirá por toda a

terra, no dia dez do sétimo mês.(10) Aplicando-se aos últimos dias, isto se refere à uma poderosa

manifestação divina que sacudirá o mundo, preparando-o para a Era Messiânica” (*)

(*) O texto em destaque é uma tradução livre do manuscrito original encontrado na Gruta

11 de Qunram, em janeiro de 1956, por beduínos da tribo de Taamireh.

Depois de lerem com atenção as promessas contidas no pergaminho, os doze voltaram-se para o beduíno que,

curvando-se sobre o jarro, tomou um grande rolo de pele de cordeiro, escrito por dentro e por fora. Antes de entregarlhes,

afirmou que a mensagem de consolo prometida no manuscrito que acabavam de ler, estava contida naquele rolo

especial. Ao abrirem-no, vi que era o Livro de Melquisedeque, composto pelo manuscrito do rei de Salém e pelo meu. A

leitura dos relatos ali contidos comoveu-os profundamente, levando-os a compreenderem que aquele a quem

menosprezaram e entregaram para a morte, era o Messias prometido, o grande Melquisedeque que, em virtude de seu

sacrifício, os libertara naquele Último Jubileu. Cheios de arrependimento, choraram amargamente, mas foram consolados

pelas revelações contidas no manuscrito do rei, onde as sucessivas eras da história eram contadas em ricos detalhes, desde

o princípio da criação até aquele tempo.

Ao terminarem a leitura do Livro de Melquisedeque, os doze prostraram-se reverentes, e louvaram ao Eterno pelo

consolo que lhes enviara, através de tão humilde mensageiro.

Curvando-se sobre o jarro, o menino tomou uma caixinha de ouro ornamentada com pedras preciosas, na qual

haviam 144 pérolas de variados tamanhos. Afirmando ser um presente de Melquisedeque para eles, o beduíno passou a

distribuí-las, doze para cada, começando por Rúben. Aquelas pérolas simbolizavam a vitória que haviam alcançado

mediante a concretização de uma nova e eterna aliança com o grande Melquisedeque, que é o Messias.

Depois de louvarem ao Eterno pelas pérolas que selavam a vitória alcançada, os doze, num gesto de

reconhecimento e gratidão, passaram a honrar o humilde beduíno que, por meio de lutas e sacrifícios, resgatara das trevas

todos aqueles tesouros, para ofertar-lhes naquele Jubileu. Representando os seus irmãos, Rúben, o primogênito, tomou

um de seus melhores mantos e cobriu o corpo desnudo do menino. Aquecido por aquele manto que simbolizava sua maior

conquista, o beduíno emocionou-se ao ver que ele trazia, do lado de seu coração, um distintivo precioso, com a gravura

de uma cruz vermelha da qual saiam raios dourados. Isto fez com que reconhecesse que toda aquela honra recebida,

pertencia ao Messias que resgatou-o das profundezas de uma caverna, conduzindo os seus passos através de caminhos

perigosos e solitários, até que pudesse entregar aos filhos de Israel os tesouros contidos no jarro. Ele devia também aquela

conquista aos seus três irmãos, sem os quais não teria encontrado aquele presente do rei de Salém. A lembrança de seus

irmãos o fez chorar de saudade, e desejou muito beijar suas faces, compartilhando com eles toda a honra recebida.

Num gesto surpreendente que consolou o coração do menino, Rúben tomou três de suas pérolas mais brilhantes e,

colocando-as numa caixinha vermelha, entregou-as ao menino e disse:

- Estas pérolas são para os seus irmãos.

Logo depois surgiram ao longe a figura de três beduínos que caminhavam ao nosso encontro, trazendo jarros em

seus ombros. Quando os viu, o menino alegrou-se ao descobrir que eram os seus irmãos. O mais velho tinha em seu jarro

uma inscrição que dizia: Temei a Elohim e dai-lhe Kevod(glória), pois é chegada a hora de seu juízo.(11) O segundo trazia no vaso

a mesma inscrição contida no jarro do menino, porém em letras menores e menos brilhantes: Caiu, caiu a Grande

Babilônia!(12) O terceiro carregava um vaso um pouco maior que os dois anteriores, e nele estava escrita uma

advertência: Se alguém adorar a besta ou a sua imagem, e receber o sinal na fronte, ou na mão, também o tal beberá do

vinho da ira de Elohim, que se acha preparado sem mistura, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre

diante dos santos anjos e diante do Cordeiro. Abaixo desta advertência, em grandes letras lia-se o seguinte: Aqui está a

perseverança dos santos, daqueles que guardam os mandamentos de Elohim e tem a fé do Messias.(13)

Quando eles viram o seu irmão mais novo em honra perante os filhos de Israel, correram ao seu encontro e

prostraram-se, depondo os seus jarros aos seus pés. Em grande pranto revelaram o seu arrependimento pelo desprezo e

sofrimentos pelos quais o fizeram passar. O pequeno beduíno inclinando-se para os seus irmãos com amor, beijou-lhes as

faces, e falou-lhes que tudo o que lhes acontecera, fora para o bem.

Depois de consolarem-se, os filhos de Israel prepararam um banquete em homenagem ao pequeno beduíno e aos

seus irmãos. No banquete o rolo foi mais uma vez aberto, e todos alegraram-se com sua mensagem. Quando estavam

quase ao fim da festa, o menino honrou os seus irmãos na presença de todos, dando-lhes as pérolas recebidas de Rúben. O

mais velho recebeu a pérola menor, o do meio a pérola de tamanho médio, e o mais novo a maior. Eles ficaram felizes ao

receberem aquelas jóias que simbolizavam sua vitória.

Todos tinham agora suas pérolas, menos o menino, cuja alegria consistia em ver os filhos de Israel e seus irmãos

enriquecidos pelos presentes do Rei. A maior e mais brilhante de todas as pérolas, contudo, Rúben separara para ele.

Quando a recebeu, seu coração transbordou de indizível alegria, vendo nela o símbolo de seu triúnfo. Na pérola havia três

inscrições: Melquisedeque, Eliahu Hanavi e Nova Jerusalém.

Depois da festa, o pequeno beduíno procurou pelo seu jarro, e ficou surpreso ao encontrá-lo repleto de

pérolas.Com muito esforço, tomou-o em seus braços, levando-o para junto de seus irmãos que tinham os seus jarros

vazios. Começando pelo primogênito, ele foi compartilhando o tesouro, até que todos os vasos se encheram com aquelas

lindas pérolas.

Renascidos pelo arrependimento e movidos pela gratidão, os três beduínos juntamente com os doze filhos de

Israel, seguiram os passos do menino na realização de uma importante obra sobre a Terra: Sua missão seria abrir perante

o mundo o Rolo de Melquisedeque, oferecendo a todos quantos aceitassem sua mensagem, aquelas pérolas que

simbolizam a vida.

Durante seis anos a humanidade teria a oportunidade de conhecer a mensagem do rolo, e as advertências escritas

naqueles jarros, apossando-se das pérolas da salvação. Ao fim dos seis anos, os jarros se esvaziariam e o rolo seria

fechado.

Enquanto os anos da oportunidade se escoavam, multidões acorriam de todas as partes em busca da mensagem do

rolo e das pérolas. Olhando para os céus, descobri que a cada novo ano que era representado por um dia da semana, uma

nova estrela surgia ao lado da estrela do jubileu, iluminando cada vez mais a Terra com a sua Kevod(glória).

Ao fim dos seis anos de oportunidade, o mundo achava-se dividido em duas classes de pessoas: os possuidores das

pérolas da salvação, que são chamados filhos de Elohim, e os que rebelaram-se contra a mensagem do rolo, os filhos de

Belial.

Ao expirar-se o tempo da oportunidade, no momento em que as seis estrelas do jubileu enchiam toda a Terra com

sua claridade, soou uma voz desde os céus, dizendo: Está Consumado! Quem é injusto , faça injustiça ainda; e quem está

sujo, suje-se ainda; quem é justo, faça justiça ainda, e quem é santo, santifique-se ainda. Eis que cedo venho, e esta

comigo a minha recompensa, para retribuir a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o

derradeiro, o princípio e o fim. Bem aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que

tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Ficarão de fora os feiticeiros, os adúlteros, os

homicidas, os idólatras e todo o que ama e pratica a mentira.(14)

Quando o Messias, que é Melquisedeque, proclamou o decreto, o rolo foi fechado, pois não havia mais pérolas

nos jarros. Subitamente as seis estrelas se apagaram, mergulhando o mundo em completa escuridão. Surgiu então no céu

uma estrela vermelha, cujos raios traziam luz e proteção para os filhos de Elohim, ao passo que para os ímpios traziam

trevas e sofrimento. Isto fez com que eles blasfemassem contra Elohim, levantando-se contra os Seus redimidos.

No momento mais difícil, quando as mãos dos ímpios pesavam sobre os justos prestes a destruí-los, a Terra foi

sacudida por um grande terremoto.(15) Em meio às nuvens negras, surgiu o brilho de uma estrela que foi crescendo

rapidamente, até cobrir todo o céu. Hozanas de vitória ecoaram por todas as partes, quando os remidos contemplaram a

face do Messias que vinha em seu socorro, acompanhado pelos exércitos dos céus.Diante de sua presença majestosa, os

ímpios fugiram, mas foram consumidos pelo fogo.(16)

O Messias fez soar sua trombeta, e todos os justos mortos ressurgiram com corpos perfeitos e imortais. Logo

depois, os justos vivos foram transformados, recebendo, igualmente, corpos incorruptíveis. Acompanhados pelos anjos,

fomos arrebatados para o encontro com nosso Rei e Redentor nos ares. Ele nos recebeu com indizível alegria, e nos

conduziu numa viagem inesquecível rumo à Nova e Eterna Jerusalém. (17)

Ao entrarmos na Cidade Santa, ficamos deslumbrados diante de tantas maravilhas. Fomos conduzidos ao paraíso,

onde fora preparado um grande banquete para nós Ali, diante do trono, em meio às hozanas angelicais, fomos coroados

pelo Messias, recebendo um reino de paz que jamais findará.

Enquanto desfrutava as delícias do Éden, acordei e vi que tudo fora um sonho. Levantando-me, tomei Isaque nos

braços e, sentando-me do lado do jarro, os acariciei até o alvorecer, enquanto relembrava as cenas marcantes de meu

sonho.

Ao encontrar-me com Melquisedeque naquela manhã, desejei contar-lhe o meu sonho. Mas

antes que eu lhe dissesse algo, ele fitou-me com um olhar muito parecido com o do Messias, e deu-me

uma ordem:

-Abraão, toma agora o jarro que você tanto ama e leve-o ao Mar Salgado, onde lhe mostrarei

uma caverna na qual você o esconderá.

Tomando uma machadinha e um manto de linho, o rei acompanhou-me até a caverna que eu

vira no sonho, onde assentei-me para registrar estas últimas palavras. O rolo será agora lacrado, e

será deixado no silêncio da caverna, e permanecerá oculto até que seja aberto perante as -nações, no

Último Jubileu.

Referências: (1) Gênesis 22: 1, 2; (2)Isaias 53; (3)Apocalipse 18: 2,4; (4)Isaias 61: 1; (5)

Levitico 25:10; Daniel 9: 24,25; (6) Levítico 25:9; (7)Salmo 82: 1; (8) Isaias 52:7; (9) Isaias 61: 3;

(10) Levítico 25: 9; (11) Apoc. 13:7; (12) Apoc. 13:9; (13)Apoc. 13:9 – 12; (14)Apoc. 22: 11-15;

(15) Apoc. 16: 17-21; (16) S. Mateus 24: 29-31; (17)I Coríntios 15: 50-55; Apoc. 21 e 22.

 

A História do Universo

Manuscrito de Melquisedeque

PRIMEIRA PARTE

Antes que existisse uma estrela a brilhar, antes que houvesse anjos a cantar, já havia um céu, o

lar de Yahweh, o único Elohim.

Perfeito em sabedoria, amor e Kevod(glória), vive Yahweh eternidade, antes de concretizar o Seu lindo

sonho, na criação do Universo.

Os incontáveis seres que compõem a criação foram todos idealizados com muito carinho.

Desde o íntimo átomo às gigantescas galáxias, tudo mereceu Sua suprema atenção.

Amante da música, Elohim idealizou o Universo como uma grande orquestra que, sob Sua

regência, deveria vibrar acordes harmoniosos de justiça e paz. Para cada criatura Ele compôs uma

canção de amor.

Elohim é Espírito, portanto, é invisível; Para relacionar-se com as criaturas, Ele assumiria uma

forma visível. Por meio dessa manifestação, Ele traria à existência o Universo, revelando-se a ele. A

forma visível do Eterno, manifestada antes da criação, é a pessoa do Messias, o grande

Melquisedeque da história a quem tive a infinita honra de representar em parábola.

-------******--------

O Eterno estava muito feliz, pois os Seus sonhos estavam para se realizar. Movendo-se com

majestade, iniciou Sua obra de criação. Suas mãos moldaram primeiramente um mundo de luz, e

sobre ele uma montanha fulgurante sobre a qual estaria para sempre firmado o trono do Universo. Ao

monte sagrado denominou: Sião.

Da base do trono, fez jorrar um rio cristalino, para representar a vida que dele fluiria para todas

as criaturas.

Como sala do trono, Yahweh criou um lindo paraíso que se estendia por centenas de

quilômetros ao redor do monte Sião. Ao paraíso denominou: Éden.

Ao sul do paraíso, em ambas as margens do rio da vida, foram edificadas numerosas mansões

adornadas de pedras preciosas, que destinavam-se aos anjos, os ministros do reino da luz.

 

Circundando o Éden e as mansões angelicais, construiu Elohim uma muralha de jaspe luzente, ao

longo da qual podiam ser vistos grandes portais de pérolas.

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Com alegria, Yahweh contemplou a Capital sonhada. A cidade em seu esplendor era como uma

noiva adornada, pronta para receber seu esposo. Carinhosamente, o grande Arquiteto a denominou:

Jerusalém, a Cidade da Paz.

Elohim estava para trazer à existência a primeira criatura racional. Seria um anjo glorioso, de

todos o mais honrado. Adornado pelo brilho das pedras preciosas, esse anjo viveria sobre o monte

Sião, como representante do Rei dos reis diante do Universo.

Com muito amor, o Criador passou a modelar o primogênito dos anjos. Toda sabedoria aplicou

ao formá-lo, fazendo-o perfeito. Com ternura concedeu-lhe a vida; O formoso anjo, como que

despertando de um profundo sono, abriu os olhos e contemplou a face de seu Autor.

Com alegria, Yahweh mostrou-lhe as belezas do paraíso, falando-lhe de Seus planos, que

começavam a se concretizar. Ao ser conduzido ao lugar de sua morada, junto ao trono, o príncipe dos

anjos ficou agradecido e, com voz melodiosa, entoou seu primeiro cântico de louvor.

Das alturas de Sião descortinava-se aos olhos do formoso anjo, Jerusalém em sua vastidão e

esplendor. O rio da vida, ao deslizar sereno em meio à Cidade, assemelhava-se a uma larga avenida,

espelhando as belezas do jardim do Éden e das mansões angelicais.

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Envolvendo o primogênito dos anjos com Seu manto de luz, Yahweh passou a falar-lhe dos

princípios que haveriam de reger o reino universal. Leis físicas e morais deveriam ser respeitadas em

toda a extensão do governo Eterno.

As leis morais resumiam-se em dois princípios básicos: amar a Elohim sobre todas as coisas e ao

próximo corno a Si mesmo. Cada criatura racional deveria ser um canal por meio do qual o Eterno

pudesse jorrar aos outros vida e luz. Dessa forma, o Universo cresceria em harmonia, felicidade e

paz.

No reino de Elohim, as leis não seriam impostas com tirania; Os súditos seriam livres. A

obediência deveria surgir espontânea, num gesto de reconhecimento e gratidão. Nesse reino de

liberdade, a desobediência também seria possível. O resultado de tal comportamento seria o

esvaziamento das forcas vitais.

Depois de revelar ao formoso anjo as leis de Seu governo, Yahweh confiou-lhe uma missão de

muita responsabilidade: seria o protetor daquelas leis, devendo honrá-las e revelá-las ao Universo

prestes a ser criado. Com o coração trasbordante de amor a Elohim e aos semelhantes, caber-lhe-ia ser

um modelo de perfeição: seria Lúcifer, o portador da luz.

O príncipe dos anjos; agradecido por tudo, prostrou-se ante o amoroso Rei, prometendo-lhe

eterna fidelidade.

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Yahweh continuou Sua obra de criação, trazendo à existência inumeráveis hostes de anjos: os

ministros do reino da luz. A Cidade Santa ficou povoada por essas criaturas radiantes que, felizes e

gratas, uniam as vozes em belíssimos cânticos em louvor ao Criador.

Elohim traria agora à existência o Universo que, repleto de vida, giraria em torno de Seu trono

firmado em Sião. Acompanhado por Seus ministros, Ele partiu para a grandiosa realização.

Depois de contemplar o vazio imenso, Yahweh ergueu as poderosas mãos, ordenando a

materialização das multiformes maravilhas que haveriam de compor o cosmo. Sua ordem, qual

trovão, ecoou por todas as partes, fazendo surgir, como que por encanto, galáxias sem conta, repletas

de mundos e sóis - paraísos de vida e alegria -, tudo girando harmoniosamente em torno do monte

Sião.

Ao presenciarem tão grande feito do supremo Rei, as hostes angelicais prostraram-se, fazendo

ecoar pelo espaço iluminado um cântico de triunfo, em saudação à vida. Todo o Universo uniu-se

nesse cântico de gratidão, em promessa de eterna fidelidade ao Criador.

Guiados por Yahweh, os anjos passaram a conhecer as riquezas do Universo. Nessa excursão

sideral, ficaram admirados ante a vastidão do reino da luz. Por todas as partes encontravam mundos

habitados por criaturas felizes que os recebiam em festa. Os anjos saudavam-nos com cânticos que

falavam das boas novas daquele reino de paz.

Tão preciosa como a vida, a liberdade de escolha, através da qual as criaturas poderiam

demonstrar seu amor ao Criador, exigia um teste de fidelidade. Com o propósito de revela-lo, o

Eterno conduziu as hostes por entre o espaço iluminado, até se aproximarem de um abismo de trevas

que contrastava com o imenso brilho das galáxias. Ao longe, esse abismo revelara-se insignificante

aos olhos dos anjos, como um pontinho sem luz; mas à medida de sua aproximação, mostrou-se em

sua enormidade. O Criador, que a cada passo revelava aos anjos os mistérios de Seu reino, ficou

silencioso, como que guardando para Si um segredo. As trevas daquele abismo consistiam no teste da

fidelidade. Voltando-Se para as hostes, Yahweh afirmou:

-“Todos os tesouros da luz estão abertos ao vosso conhecimento, menos os segredos ocultos

pelas trevas. Sois livres para me servirem ou não. Amando a luz estareis ligados à Fonte da Vida”.

Com estas palavras, fez Elohim separação entre a luz e as trevas, o bem e o mal. O Universo era

livre para escolher seu destino.

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O tão acalentado sonho do Criador se concretizara. Agora, como Pai carinhoso, conduzia as

criaturas através de uma eternidade de harmonia e paz. Em virtude do cumprimento das leis divinas,

o Universo expandia-se em felicidade e Kevod(glória). Havia um forte elo de amor, que a todos unia

fortemente. Os seres racionais, dotados da capacidade de um desenvolvimento infinito, encontravam

indizível prazer em receber os inesgotáveis tesouros da Sabedoria divina, transmitindo-os aos

semelhantes. Eram como canais por meio dos quais a Fonte da Eterna Vida nutria a todos de amor e

luz.

Em Jerusalém, os ministros do reino reuniam-se ante o soberano Rei, sempre prontos a cumprir

os Seus propósitos. Era através de Lúcifer que Yahweh tornava manifesto os Seus desígnios. Depois

de receber uma nova revelação, ele prontamente a transmitia às hostes angelicais. Estas, por sua vez,

a compartilhavam com a criação. Em célere vôo os anjos rumavam para os planetas distantes onde,

em grandes assembléias, reuniam-se os representantes dos mundos vizinhos.

Em muitas dessas assembléias, o querubim fazia-se presente, enchendo os participantes de

alegria e admiração. Perfeito em todas as virtudes, ele os cativava com sua simpatia. Nenhum outro

anjo conseguia revelar como ele os mistérios do amor do Criador.

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O Universo, alimentando-se da Fonte da Vida, expandia-se numa eternidade de perfeita paz. A

obediência às leis divinas era o fundamento de todo progresso e felicidade. Ainda que conscientes do

livre-arbítrio, jamais subira ao coração de qualquer criatura o desejo de afastar-se do Criador. Assim

foi por muito tempo, até que tal problema irrompeu na vida daquele que era o querubim protetor das

leis.

Lúcifer, que dedicara sua vida ao conhecimento dos mistérios da luz, sentiu-se aos poucos

atraído pelas trevas. O Rei do Universo, aos olhos de quem nada pode ser encoberto, acompanhou

com tristeza os seus passos no caminho descendente que leva à morte. A princípio, uma pequena

curiosidade levou-o a aproximar-se daquele abismo profundo. Contemplando-o, começou a indagar o

porquê de não poder compreender o seu enigma.

Retornando a seu lugar de honra, junto ao trono, prostrou-se ante o Eterno Rei, suplicando-lhe:

- Pai, dá-me a conhecer os segredos das trevas, assim como me revelas a luz.

Ante o pedido do formoso anjo, Yahweh, com voz expressiva de tristeza, disse-lhe:

- Meu filho, você foi criado para a luz, que é vida.

Convencendo-se de que o Criador não lhe revelaria os tesouros das trevas, o querubim decidiu

compreender por si o enigma; Julgava-se capacitado para tanto. Com esta triste decisão, o príncipe

dos anjos permitiu que surgisse em seu coração uma mancha de pecado que poderia trazer uma

catástrofe para o Universo.

Só Elohim sabia o que se passava no coração de Lúcifer. O anjo, que fora criado para ser o

portador da luz, estava divorciando-se em pensamentos do bondoso Criador que, num esforço de

impedir o desastre, rogava-lhe permanecer ao Seu lado.

Uma tremenda luta passou a travar-se em seu íntimo. O desejo de conhecer o sentido das trevas

era imenso, contudo, os rogos daquele amoroso Pai, a quem não queria também perder, o torturavam.

Vendo o sofrimento que sua atitude causava ao Criador, às vezes demonstrava arrependimento, mas

voltava a cair.

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Antes de criar o Universo, Elohim já previra a possibilidade de uma rebelião. O risco de conceder

liberdade às criaturas era imenso, mas, sem este dom, a vida não teria sentido. Yahweh não queria

reinar sobre seres constrangidos a fazerem somente a Sua vontade. Ele queria que a obediência fosse

fruto de reconhecimento e amor, por isso decidiu correr o grande risco.

Ainda que prosseguisse na busca do sentido das trevas, Lúcifer não pretendia abandonar a luz.

Esforçava-se para chegar a uma combinação entre essas partes que, no reino de Elohim coexistiam

separadas. Finalmente, com um sentimento de exaltação, concebeu uma teoria enganosa, que

pretendia apresentar ao Universo como um novo sistema de governo, superior ao governar do

Criador. Sua teoria viria a ser conhecida como “a ciência do bem e do mal”.

Estruturada na lógica, a ciência do bem e do mal revelou-se atraente aos olhos do querubim,

parecendo descerrar um sentido de vida superior àquele oferecido por Elohim, cujo reino possibilitava

unicamente o conhecimento experimental do bem. No novo sistema, haveria equilíbrio entre o bem e

o mal, entre o amor e o egoísmo, entre a luz e as trevas.

Ao longo do tempo em que amadurecera em sua mente a ciência do bem e do mal, Lúcifer

soube guardar segredo diante do Universo. Continuava em seu posto de honra, cumprindo a função

de Portador da Luz. Contudo, por mais que procurasse fingir, seu semblante já não revelava alegria

em servir a Yahweh.

O Eterno Rei, que sofria em silêncio, procurava, por meio de Suas revelações de amor, preparar

as criaturas racionais para a grande prova que se aproximava. Sabia que muitos dariam ouvido à

tentação, voltando-lhe as costas. A noite da provação faria sobressair, contudo, os verdadeiros fiéis -

aqueles que serviam-no não por interesse, mas por amor.

Ao ver que a hora da prova chegara, e que Lúcifer estava pronto para traí-lo diante do

Universo, Yahweh, que jamais cessara de revelar os tesouros de Sua sabedoria, tornou-se silencioso e

contemplativo. Seu silêncio fez reviver no coração das hostes a lembrança daquela primeira excursão

sideral, quando, depois de lhes mostrar as riquezas do reino da luz, tornou-se silencioso ante aquele

abismo. Lembraram-se de Suas palavras: “Todos os tesouros da luz estão abertos ao vosso

conhecimento, menos os segredos ocultos pelas trevas. Sois livres para me servirem ou não. Amando

a luz estareis ligados à Fonte da Vida”.

Lúcifer que passara a cobiçar o trono de Elohim, indagou-lhe o motivo de Seu silêncio. O

Criador, contemplando-o com infinita tristeza, disse-lhe: “É chegada a hora das trevas. Você é livre

para realizar os seus propósitos”.

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Vendo que o momento propício para a propagação de sua teoria havia chegado, Lúcifer

convocou os anjos para uma reunião especial. As hostes, desejosas de conhecer o significado do

silêncio do Pai, tomaram seus lugares aos pés do magnífico querubim, que sempre revelara-lhes os

tesouros do reino da luz.

Lúcifer começou seu discurso exaltando, como de costume, o governo do Criador. Num amplo

retrospecto, lembrou-lhes as grandiosas revelações que os enriquecera em toda aquela eternidade.

O silêncio Eterno, apresentou-o como sendo a indicação de que o Universo alcançara a

plenitude do conhecimento oriundo da luz. Silenciando, Yahweh abria-lhes caminho para o

entendimento de mistérios ainda não sondados, mantidos até então além dos limites de Seu governo.

Surpresas, as hostes tomaram conhecimento da experiência de Lúcifer sobre as trevas. Com

eloqüência, ele falou-lhes da ciência do bem e do mal, indicando-a como o caminho das maiores

realizações.

O efeito de suas palavras logo se fez sentir em todo o Universo. A questão era decisiva e

explosiva, gerando pela primeira vez discórdia. Os seres racionais, em sua prova, tinham de optar por

permanecer somente com o conhecimento da luz, o qual Lúcifer afirmava haver chegado ao seu

limite, ou se aventurarem no conhecimento da ciência do bem e do mal. No começo, somente os

anjos debateram-se diante da questão, sendo logo depois todo o Universo posto à prova. Dir-se-ia que

a ciência do bem e do mal haveria de arrebanhar a maior parte das criaturas, mas, aos poucos, muitos

que a princípio se empolgaram com a teoria, despertaram para a ilusão da mesma, reafirmando sua

fidelidade ao reino da luz. Ao fim desse conflito, que se arrastou por longo tempo, revelou-se um

terço das estrelas do céu ao lado de Lúcifer, e as restantes, ainda que abaladas pela prova, ao lado de

Yahweh.

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A ciência do bem e do mal fora apregoada por Lúcifer como um novo sistema de governo. Mas

como exercê-lo, se Yahweh continuava reinando em Sião? Precisavam encontrar um meio de afastálo

dali. O conselho, formado pelos anjos rebeldes, passou a tratar dessa questão. Decidiram,

finalmente, solicitar-lhe o trono por um tempo determinado, no qual poderiam demonstrar a

excelência do novo sistema de governo. Caso fosse aprovado pelo Universo, o novo sistema se

estabeleceria para sempre; caso contrário, o domínio retornaria ao Criador.

Foi assim que Lúcifer, acompanhado por suas hostes, aproximou-se arrogante daquele Pai

sofredor, fazendo-lhe tal pedido.

Yahweh não era ambicioso, apenas queria bem às Suas criaturas. Se a ciência do bem e do mal

consistisse realmente num bem maior, não Se oporia à sua implementação, cedendo o trono a seus

defensores. Mas Ele sabia que aquele caminho conduziria à infelicidade e à morte.

Movido pelo amor protetor, o Criador desatendeu o pedido das hostes rebeldes, que afastaramse

enfurecidas.

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Ao lhes ser negado o trono, Lúcifer e suas hostes passaram a acusar o Eterno Rei, proclamando

ser o seu governo uma tirania. Afirmavam que sua permanência no trono, era a mais patente

demonstração de Sua arbitrariedade. Não lhes concedera liberdade de escolha?! For que neutralizá-la

agora, impedindo-os de pôr em prática um sistema de governo superior?!

As acusações das hostes rebeldes repercutiram por todo o Universo, fazendo parecer que o

governo de Yahweh era de fato injusto. Isto trouxe profunda angústia para aqueles que permaneciam

fiéis ao reino da luz. Não sabendo como refutar tais acusações, essas criaturas, emudecidas pela dor

moral, ansiavam pelo momento em que novas revelações procedentes do Criador pudessem aclarar-lhes

os mistérios desse grande conflito.

As acusações e blasfêmias das hostes rebeldes alcançavam o ponto culminante quando

Yahweh, num gesto surpreendente, ergueu-se de Seu trono, como que pronto a deixá-lo. Os infiéis,

na expectativa de uma conquista, aquietaram-se, enquanto um sentimento de temor penetrava no

coração dos súditos da luz. Entregaria Ele o domínio de toda a criação, para livrar-se das vis

acusações? De acordo com a lógica a partir da qual o querubim fundamentava seus ensinamentos,

não restava outra alternativa ao Criador. Nesta tremenda expectativa, o Universo acompanhava os

passos de Elohim.

Num gesto de humildade, o Criador despojou-Se de Sua coroa e de Seu manto real, depondo-os

sobre o alvo trono. Em Seu semblante não havia expressão de ressentimento ou ira, mas de infinito

amor e tristeza.

Com solenidade, Yahwéh proclamou que o momento decisivo chegara, quando cada criatura

deveria selar sua decisão ao lado da luz ou das trevas. Numa ampla revelação, alertou para as

conseqüências de um rompimento com a Fonte da Vida.

Com olhar de ternura o Criador contemplou seus filhos. Era um olhar de humildade, que cheio

de amor, suplicava para que permanecessem ao Seu lado. Incontáveis criaturas, emocionadas,

corresponderam ao Seu olhar de bondade, enquanto uma multidão se manteve cabisbaixa.

Lúcifer e seus seguidores estavam conscientes da seriedade daquele momento. Ainda era

possível voltar atrás em seus planos, entregando-se arrependidos ao Eterno Pai que sempre os amara.

Enquanto cabisbaixos consideravam sobre a decisão final, Lúcifer e seus adeptos ouviam o cântico

daqueles que, em reconhecimento e gratidão, colocavam-se ao lado de Yahwéh. A última luta

travava-se no coração dos infiéis que, estremecidos, chegaram a pensar em recuar.

Finalmente, a lembrança do recente gesto Eterno, despojando-Se da coroa, deu-lhes a certeza de

que o governo lhes seria entregue. Vendo que o Trono permanecia vazio, Lúcifer e suas hostes,

dominados pela cobiça, romperam definitivamente com o Criador.

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Ao ver um terço dos súditos transpor as divisas da eterna separação, Elohim deixou extravasar a

dor angustiante que por tanto tempo martirizava Seu coração, curvando-Se em inconsolável pranto.

Contemplando Seus filhos rebeldes, ergueu a voz numa lamentação dolorosa: "Meus filhos, meus

filhos! Já nã